quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O equilibrista e a lágrima.


Lá estará o fio esticado entre dois pontos de um especioso espaço. E, nele, algo então se abre. Aumenta-se passo após passo. De mais a mais, todavia, o equilibrista suspende-se onde não há sustentação ou quase nenhuma. Pisa esse risco das alturas. É como um desfile - há muito, porém, decaído de moda. Não há lona estendida que o cubra de intempéries, pois seu Circo é a própria vida. Tampouco existe platéia que com certas palmas acolha-o durante a queda iminente. Assim ele apenas caminha finamente. E vai pisando o risco nesse fio desenhado entre um espaço que, ao dilatar-se, com várias sutilezas, parece desmanchar boa extensão do desenho que o equilibrista tomou por guia. Traça com essa trama de seus pés aquela Arte nobre de um vil destino a ser costurado até o último ponteio; até fim. Pois que as mãos, estas se ocupam de levíssimo bastão e seguram-no de maneira branda uma vez que tal gesto contido e quase carinhoso a conduzir caprichosamente o bastão cuidará possivelmente de mantê-lo em seu trajeto, um decurso.
Desde sempre esteve ali. Talvez até mesmo antes do nascimento. Quem dá para o equilibrismo, dizem por aí, de esquinas em esquinas, veio ao mundo através de abismos. E decerto há mesmo de ser o próprio ato do nascimento aquele no qual revelara o primeiro de todos os vãos a serem vencidos na vida, ultrapassados. Equilibrar-se, será dito também, é viver esses vãos de toda uma só vida.
Como lona não há nesse circo, chega até seu rosto vasta sorte de ventos: alguns refrescam e animam; outros, todo o contrário, só fazem gelar e imobilizam. Caem-lhe também gotas de muitas chuvas para que delas o equilibrista embriague a sua sede. E, como são gotas verdadeiramente torrenciais, nelas o equilibrista disfarça às vezes o seu choro: tanto exagerando quanto minimizando lágrimas. Não tem faltado quem lhe acuse e reprove a dissimulação. É desconcertante, mas, no equilibrista, o humor dos sentimentos é igualmente praticante da Arte nobre de um vil destino. E nisso se igualam, EQUILIBRAM-SE, e são um só e o mesmo. Cada lágrima vertida, despejada de sua clara íris, serve de exemplo e lhe ensina tanto mais sobre a queda. De tal modo o equilibrista é também para o olho da vida que o observa às alturas apenas uma lágrima derramada de um choro todo ele torrencial.
Juntos, equilibrista e lágrima, algo todavia uno, pisam esse risco mais elevado, suspenso. Desfilam ali em cima, ambos decaidamente. E vão, passo após passo, vão. Num especioso espaço - onde o circo sem lona chama-se de uma única vez “vida e perda dessa vida” - estará o fio entrelaçando frouxamente dois pontos soltos, cuja junção final jamais abrevia. O equilibrista suspende-se e de mais a mais nada vai sustê-lo. Sabe que chegou a boa hora em que as chuvas mais não virão. E num profundo mergulho ele descerá ao encontro da última lágrima enquanto a vida assiste à dilatação final do especioso espaço em cuja imensurável circunferência o equilibrista encenou por tantos anos essa tão nobre Arte. E lá não estará mais fio algum. Lágrima e equilibrista voam nesse vão, até o fim da nobre Arte.
Voam decaídos em pleníssima queda, e vivem
ali
nesse
vão.


D.

domingo, 26 de outubro de 2008

How come I barely meet you?

(Or, She's Hit)
Quando você saia a pouco pela porta mal poderá me ouvir. O que eu não te fizera no meu pedido articular-se-á qual uma voz na minha fala? Pedia bem mais era com meu olhar. E a luz que nele brilhará desejou tão timidamente que você não partisse. Os olhares têm falas próprias. Por isso não precisam emitir voz alguma. Sei disso, pois contigo aprenderei o que (já te digo) aprendi. Gostaria tanto que ficasse, ainda que fosse por apenas um pouquinho a mais que toda essa incerteza. Agora que você não mais estará (e já sabia bem disso porque então) eu sei.
E nada disso ainda aconteceu, pois você ainda não saiu pela porta. Ela está apenas aberta, esperando você vir e entrar. Sei disso porque o poema que escolhi traduzir (e nele me dar) eu ainda o tenho aqui sem palavras mais nossas. Gostaria de traduzi-lo. Mas não posso, ainda. É muito cedo. Mais tarde você o traduzirá para mim. Contigo apreenderei o que está dito naqueles versos, que guardei e agora vou te oferecer roubando-os para mim. Trairei suavemente esses versos, até que te digam mais de perto o que eu gostaria de dizer ao pezinho do seu ouvido.
E você sequer entrou pela porta. Eu mal te convidei. Acontece assim, de outro modo. Você (que não sou eu, saiba, e, quando você ler, será só você) ainda mal foi convidada. Sequer você entrou pela porta. Você me dirá – “há portas cujo convite não se faz; apenas se revela” – ou talvez serei eu a dizer isso para você.

Juntos, tememos o convite. Procuramos assim a hora certa de abrir a porta. É que ficamos preocupados em deixá-la fechar antes que a abríssemos. São esses riscos que a vida nos ensinou burlar? Quando é melhor estar sozinho, bem à beira do encontro? Ou, de outros modos, quando é melhor estar à beira do encontro, mas ainda sozinho? Eis a fechadura dessa porta cujo outro nome é também encontro, é também desejo. É como um código que precisamos decifrar. Mais que decifrá-lo, é preciso rompê-lo. Você sabe disso, pois vai aprender comigo o que na sua fuga eu procuro.

Cortaremos os dois juntos num desenho desigual pela Cidade. Tudo isso bem antes de passarmos pela porta. Seguiremos por este trajeto; faremos nele um risco a partir do qual nossas pernas vão desenhando nas ruas escuras a recordação de uma noite no meio de semana. Escolheremos assim um bar e ali sentaremos para beber um no outro. Eu saberei o sabor desses lábios onde bebo da saliva tão amável. E você beijará na minha boca a boca que te beija. Guardarei em minhas mãos esses carinhos que roubo do seu rosto para mim. Guardarei. E você, de algum modo, virá a se lembrar do meu rosto áspero deslizando pela nuca, que beijo e mordisco delicadamente. Tomarei mais vezes em minhas mãos essa parte do seu corpo onde te seguro de modo a nos deixar mais próximos, mais juntos um do outro.

Nada disso acontece, pois já acontecia. A simultaneidade de tudo isso é exatamente romper com o código que não precisamos decifrar.

Estou atento a tudo isso. E você me interrompe pedindo algo de maneira a não me deixar enganar. E até aceito bem. Apenas me permito desviar um pouco disso. Do contrário, não haveria porta a ser pensada. Talvez por isso eu te chame meio atrapalhadamente ao telefone no dia seguinte. Tanto que quero não é propriamente ouvir sua voz. Desejo bem mais escavá-la subterraneamente. Algo mais a contrapelo. E de tal maneira poder sentir sua respiração para então me recordar do arrepio derramando-se em linhas desiguais por toda sua pele fina. Para isso todavia preciso ouvi-la, mas nessas horas – que você saiba - minha busca é por sua enunciação sub-reptícia.

E depois de tudo você vai embora. Antes mesmo de entrarmos em algum lugar, eu deixo no bolso do seu casaco o poema escolhido e de cuja tradução eu sou incapaz. Deixo-o no lugar de rosas, que desfloreceriam em poucos dias.
Você realmente o traduzirá.

No me dejes solo frente a ti,
no me libres a la desnuda noche,
a la luna filosa de las encrucijadas,
a no ser más que estos lábios que te beben.
Quiero ir a ti desde ti misma
con ese movimiento que fustiga tu cuerpo, lo tiende bajo el viento como un velamen negro.
Quiero llegar a ti desde ti misma,
mirándote desde tus ojos,
besándote con esa boca que me besa.
no puede ser que seamos dos, no puede ser
que seamos
dos.

Que disso você saiba.

Não me devolve com teu olhar a minha própria imagem quando eu visitar a luz que brilha em teus olhos
nem me liberta para a despida noite,
à lua rasgante das encruzilhadas
não mais que estes lábios
Quero atingir-te indo a ti mesma
com essa desenvoltura que acossa teu corpo, afagada pelo sopro cálido qual um vestido náutico agitadando-se pelos movimentos da brisa dançarina deste palco de águas profundas.
Quero alcançar-te indo a ti mesma,
admirando-te na visita que faço a teus olhos,
beijando-te com essa boca que me beija.
que sejamos dois é tanto, e parece não poder ser
que sejamos
dois.


Vai embora; quer ir embora. Quero que vá embora, pois você o quer. E desejo que volte. Mas não sei se assim desejo à razão de você querer voltar. É o modo que eu encontro a fim de romper o código. Nada vai decifrá-lo. Esperemos, antes, revelação?

E uma canção muito nova e desconhecida, feita por um amigo que você já conheceu sem mesmo entrar pela porta, começa a tocar - Can I Need a Little Use?
E enquanto eu leio a tradução do poema que você por sua vez deixou no bolso do meu casaco, antes de sair pela porta, essa canção, emprestada de amigo meu, já deveria te dizer:

How come I barely meet you?
My eyes go blind, breath in a glimpse or two
So far my mind... such a heavy load
Be low, outgo... hangover sways

I would believe in, I could believe it; but would you believe me?



E nada disso ainda aconteceu, pois você ainda não saiu pela porta. Ela está apenas aberta, esperando você vir e entrar. Enquanto isso eu pego um dos meus cigarros e alcanço o isqueiro à mesa. Antes da chama acender e dar um tom mais quente às paredes, eu descubro algo e é quese um presente. Que o perfume do seu corpo ainda dorme nestes lençóis. Eu percebo que por vezes esse perfume ensaia um despertar, e, ainda que fugidio, consigo tomá-lo para mim. Assim rememoro uma sequência fotogrâmica dessas cenas em que estamos em nosso próprio filme e nos vejo: eu estou tocando o arrepio que desenha traços apaixonados em seu corpo e faz da sua pele fina um papel em que se esboçam vários desenhos exprimindo a forte afetividade que nos liga. Se já há de ter em tudo isso um “quas'amar”, é o que eu mal posso saber de frente para esses dias que chegam assim como vão.
Agora que você está de saída (e nessas dobras feitas no tempo sequer encontramos, encontrávamos, ou encontraremos entendimentos que encontraríamos - e como se vai mesmo saber ? ) não há mais o que ouvir nessa minha voz que cala o que deveria dizer.


Notas:
. O poema, sem nome, é de Julio Cortázar.
. A canção de Andre Mello, amigo de cujas letras eu gosto muito.
. O resto do texto é a tentativa da “rosa-impossível” com que se deveria presentear.

domingo, 28 de setembro de 2008

Suas cores, toda minha pena.

Deslizam agora pelos meus lábios esses sabores que da sua pele há muito pouco eu absorvia todos eles em mim. Eram doces e suaves vários que então podiam vir até mim quando não tomados do ponto em que se vertiam agres e densos. É bem certo que você não compreende o travar dessa língua que vai de encontro aos dentes e acha força de impulsão necessária a fim de trazer dos céus da boca o barulho estalado tão característico de quem melhor prova delícias furtadas.
Quisera pintá-las em cores as mais intensas e assim matizá-las numa tela de onde despontariam tantos tons quantos mais são esses seus sabores com que você vem me dar o que então recebo apaixonadamente.
Erraria procurando pelas tais cores despejadas prontamente de tubos abertos. Mesmo não os abrindo ao acaso, erraria. Precisaria de uma pouca oferta de cores; uma economia de tubos em tons já sabidos por muitos. Procurar-se-ia bem mais por uma mistura pessoal. Achar nessa pouca oferta o tom mais adequado ao seu específico sabor. Misturar poucas tintas através da economia de tubos e fazer nascer dali a tonalidade específica desse gosto que de você eu roubei com minha língua. E assim poder pintar mais precisamente como gostaria de dizer com a palavra vermelha aquele rubro espectro de cujo calor para mim se fizera o vestido pelo qual instantes antes era seu corpo todo ele revestido em boas medidas de prazer. Erraria, todavia. Na palavra vermelha mal se emprega pois o gosto roubado; apenas faz borrar o tom que procuro e não posso achar. Dizê-lo é algo inapreensível, pois, bem assim como pintá-lo, seria parar a variação com que o sabor desliza dentro de mim, seria, portanto, interromper apenas em vermelho a cor tão instável dessa chama que arde indefinidamente rematizando-se em tons os quais ainda que perseguidos até o fim jamais se deixam interromper.
Como a tarefa da palavra vermelha que procuro e não acharei por não querer dela o vermelho tão escasso e incapaz de dizer o gosto nada bruxuleante dessa febre em que você ardia sem se adoecer, recorreria não à tinta prontamente despejada daqueles tubos, e sim, todo o contrário, a mais insana mistura, mistura desvairada, mergulhada loucamente no desespero que busca um matiz nunca pintado por pincel algum, tinta mágica que não se seca mesmo exposta a vento mais violento que por aí um de nós visse assoprar.
E antes de enlouquecer, e antes de deixar enganar-me pela tinta mágica que não há, e antes de errar na palavra o gosto do qual desdobram tantos sabores, seria hora de saber: tão grande seu gosto, mais ínfimo o esboço que faço dele querendo experimentá-lo fora da minha língua provando você.
Antes desses giros todos eles conduzindo ao rodopio final que antecede a queda, eu saberia: fica o esboço mesmo pequeno e se apequenando tão ardente a imagem da chama queimara na aura da sua pele vestida a rigor de uma dança à palo-seco e a partir da qual emergia somente a melodia suspensa dos nossos gemidos.
E assim quebraria o pincel - em gesto equivalente partiria ainda a pena incapaz da letra vermelha.
Le Grand Finale?
Jamais. Suas cores, toda minha pena!
Retorno aos sabores de há pouco, recolhidos da sua pele desprotegida.
E, abandonando minha letra insuscetível a tal tonalidade que de você se veste tão inteiramente, abandono também minha pintura. Levo minha boca outra vez mais até esses lábios onde o sorriso múltiplo, ao contrário de todos os demais que você me oferece, é apenas seu.
(Sinto sua mão então deslizar suavemente sobre meus cabelos naquela parte à que sequer eu mesmo posso assistir. E eis que esse sorriso estremecendo seu corpo inteiro para então fazê-lo vibrar contra mim já é só seu).




D.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Tua mais profunda pele.



Cada memória apaixonada retém suas madeleines e a minha – compreende agora onde quer que estejas – é o perfume do pardo tabaco que me reporta à tua florescente noite, ao afago de tua mais profunda pele.
Não o tabaco que se aspira, o rapé que obstrui gargantas, e sim bem mais essa vacilante e equívoca fragrância com que cachimbos e cigarros vêm a colorir os dedos e que em algum momento, como um gesto inadvertido, ascende com seu estalo de delícia para então desencadear a recordação que retenho de ti, a sombra de tuas costas contra a transparência dos fios de linho tão branco nos lençóis.
Não contemples tal ausência com essa gravidade algo infantil que fizera do teu rosto uma máscara jovial qual um faraó da dinastia núbia.
Sei bem que estivemos entendidos em somente desfrutar o prazer que um ao outro oferecíamos e as festas alcoolicamente refinadas e as ruas vazias à luz penumbrosa das madrugadas.
De ti retenho mais que isso - a recordação, porém, a mim te traz desnuda e esparramadamente repousada, nossa cama foi mais precisamente esse planeta por onde viajávamos e descobríamos imperiosa e lentamente toda uma geografia nascendo, a cada amável desembarque ou resistindo a embaixadas com cestos de frutas ou delírios de paixão, e cada poço, cada rio, cada colina e cada planície, a tudo isso encontramos em noites extenuantes, entre obscuros parlamentos quer fossem eles aliados ou inimigos.
Ah!, viajante de ti mesma, máquina de esquecimento! E então passo a mão pelo meu próprio rosto num gesto distraído e o perfume do tabaco guardado entre os dedos te traz outra vez mais para arrancar-me a este presente acomodamento, te projeta muito graciosamente nesses lençóis ao aconchego dos quais vivemos os dois intermináveis rotas de um efêmero encontro.
Eu aprendia contigo linguagens paralelas: a dessa geometria de teu corpo que me inundava a boca e transbordava das minhas mãos como trêmulos teoremas; a de tua fala diferenciada, tua língua insular que tantas vezes me confundia.
Com o perfume do tabaco retorna agora uma precisa lembrança que abarca a tudo isso num instante feito um vórtice, e sei que dissestes, “Sinto pena”, e eu não compreendi porque acreditava que coisa alguma poderia te apiedar nesse emaranhado de carícias que nos entrelaçava num novelo branco e preto, dança deslizante em que um passava por cima do outro para logo deixar-se invadir pela leve pressão de umas pernas, de uns braços, girando brandamente e separando-se até outro entrelaçamento e repetir o mergulho desde a superfície até o fundo, cavaleiro ou potro arqueiro ou gazela, hipógrifos confrontados, delfins a meio salto.
Então compreendi que a palavra pena em tua boca era outro nome para o pudor e para a vergonha, e que não te decidias perante minha nova sede que já tanto tinhas saciado, que recusavas a mim suplicando com essa maneira de esconder os olhos, de apoiar o queixo contra o pescoço deixando a minha boca não mais que o ninho feito dos fios pretos do teu cabelo.
Dissestes: “Sinto pena, sabe”, e virada de costas me observa com olhos e seios, com lábios de cujo traço brotava uma flor de pétalas demasiado finas.
Tive de dobrar teus braços, murmurar um último segredo com o deslizar das mãos pelas mais doces colinas, sentindo como pouco a pouco concedias ao meu desejo ficando de lado até oferecer o dorso tão sedoso de tuas costas onde uma delicadíssima omoplata tinha muito da asa de um anjo corado.
Sentias pena, e dessa pena ia nascendo o perfume que à tua vergonha agora me devolve antes que outro acorde, o último, nos despertasse numa mesma estremecida réplica.
Sei que fechei os olhos, que lambi o sal da tua pele, que à contrapelo te apertei em meu corpo até sentir teus rins ali mesmo onde levamos as mãos numa jarra de modo a verter desta o líquido no qual matamos a sede; por algum momento cheguei a me perder na passagem furtada que de tão distante viera a dar-se no gozo dos meus lábios e que dali de teu país de cima e longínquo murmurava tua pena final protegidamente abandonada.
Com o perfume do tabaco pardo nos dedos ascende novamente o murmurinho, o tremor desse obscuro encontro, sei que uma boca buscou a oculta boca estremecida, o lábio tão distinto invadindo teu medo, o ardente contorno rosa e bronze que te encaminhava a minha viajem mais longínqua.
E, como sempre ocorre, não senti nesse delírio tão-somente um vacante aroma de tabaco através do qual a lembrança faz visita, e sim bem mais essa tão espessa fragrância, essa especiaria algo fantasmática e traçando seu caminho secreto a partir do esquecimento instantâneo e em justa medida, inefável jogo da carne oculta à consciência daquilo de que se alimentam as mais densas, implacáveis máquinas de fogo.
Nem gosto e tampouco aroma, teu país mais recôndito despontava como imagem e contato, e apenas hoje uns dedos casualmente manchados de tabaco me devolvem o instante em que me endireitei sobre ti a fim de reivindicar as chaves de acesso, friccionar o doce pedaço-inteiro no qual a tua pena tecia as derradeiras defesas agora que mesmo com a boca afundada na almofada te escapavam soluços revelando então uma súplica cuja obscuridade não obstante aquiescia apaixonado desgrenhamento.
Mais tarde compreendeste e não houve pena, concedeste a mim a cidade de tua mais profunda pele através de vários horizontes, após fabulosas máquinas e parlamentos e batalhas.
Nesta vaga essência de baunilha retida do tabaco que hoje me mancha os dedos despertar-se a noite em que tiveste a primeira, a última pena.
Fecho os olhos e aspiro nesse perfume do passado a tua carne mais íntima, quisera já não abri-los a esta hora em que leio e fumo e todavia creio estar vivendo.

D. , traduzido (com a mais clara vontade de roubo) de :


TU MÁS PROFUNDA PIEL

Cada memoria enamorada guarda sus magdalenas y la mía -sábelo, allí donde estés- es el perfume del tabaco rubio que me devuelve a tu espigada noche, a la ráfaga de tu más profunda piel.
No el tabaco que se aspira, el humo que tapiza las gargantas, sino esa vaga equívoca fragancia que deja la pipa, en los dedos y que en algún momento, en algún gesto inadvertido, asciende con su látigo de delicia para encabritar tu recuerdo, la sombra de tu espalda contra el blanco velamen de las sábanas.No me mires desde la ausencia con esa gravedad un poco infantil que hacia de tu rostro una máscara de joven faraón nubio.
Creo que siempre estuvo entendido que sólo nos daríamos el placer y las fiestas livianas del alcohol y las calles vacías de la medianoche.
De ti tengo más que eso, pero en el recuerdo me vuelves desnuda y volcada, nuestro planeta más preciso fue esa cama donde lentas, imperiosas geografías iban naciendo de nuestros viajes, de tanto desembarco amable o resistido de embajadas con cestos de frutas o agazapados flecheros, y cada pozo, cada río, cada colina y cada llano los hallamos en noches extenuantes, entre oscuros parlamentos de aliados o enemigos.
¡Oh viajera de ti misma, máquina de olvido! Y entonces me paso la mano por la cara con un gesto distraído y el perfume del tabaco en mis dedos te trae otra vez para arrancarme a este presente acostumbrado, te proyecta antílope en la pantalla de ese lecho donde vivimos las interminables rutas de un efímero encuentro.
Yo aprendía contigo lenguajes paralelos: el de esa geometría de tu cuerpo que me llenaba la boca y las manos de teoremas temblorosos, el de tu hablar diferente, tu lengua insular que tantas veces me confundía.
Con el perfume del tabaco vuelve ahora un recuerdo preciso que lo abarca todo en un instante que es como un vórtice, sé que dijiste "Me da pena”, y yo no comprendí porque nada creía que pudiera apenarte en esa maraña de caricias que nos volvía ovillo blanco y negro, lenta danza en que el uno pesaba sobre el otro para luego dejarse invadir por la presión liviana de unos muslos, de unos brazos, rotando blandamente y desligándose hasta otra vez ovillarse y repetir las caída desde lo alto o lo hondo, jinete o potro arquero o gacela, hipogrifos afrontados, delfines en mitad del salto.
Entonces aprendí que la pena en tu boca era otro nombre del pudor y la vergüenza, y que no te decidías a mi nueva sed que ya tanto habías saciado, que me rechazabas suplicando con esa manera de esconder los ojos, de apoyar el mentón en la garganta para no dejarme en la boca más que el negro nido de tu pelo.Dijiste "Me da pena, sabes", y volcada de espaldas me miraste con ojos y senos, con labios que trazaban una flor de lentos pétalos. Tuve que doblarte los brazos, murmurar un último deseo con el correr de las manos por las más dulces colinas, sintiendo como poco a poco cedías y te echabas de lado hasta rendir el sedoso muro de tu espalda donde un menudo omóplato tenía algo de ala de ángel mancillado.
Te daba pena, y de esa pena iba a nacer el perfume que ahora me devuelve a tu vergüenza antes de que otro acorde, el último, nos alzara en una misma estremecida velamen.
Sé que cerré los ojos, que lamí la sal de tu piel, que descendí volcándote hasta sentir tus riñones como el estrechamiento de la jarra donde se apoyan las manos con el ritmo de la ofrenda; en algún momento llegué a perderme en el pasaje hurtado y prieto que se llegaba al goce de mis labios mientras desde tan allá, desde tu país de arriba y lejos, murmuraba tu pena una última defensa abandonada.Con el perfume del tabaco rubio en los dedos asciende otra vez el balbuceo, el temblor de ese oscuro encuentro, sé que una boca buscó la oculta boca estremecida, el labio único ciñéndose a su miedo, el ardiente contorno rosa y bronce que te velamen a mi más extremo viaje.
Y como ocurre siempre, no sentí en ese delirio lo que ahora me trae el recuerdo desde un vago aroma de tabaco, pero esa musgosa fragancia, esa canela de sombra hizo su camino secreto a partir del olvido necesario e instantáneo, indecible juego de la carne oculta a la conciencia lo que mueve las más densas, implacables máquinas del fuego.
No eras sabor ni olor, tu más escondido país se daba como imagen y contacto, y sólo hoy unos dedos casualmente manchados de tabaco me devuelven el instante en que me enderecé sobre ti para lentamente reclamar las llaves de pasaje, forzar el dulce trecho donde tu pena tejía las últimas defensas ahora que con la boca hundida en la almohada sollozabas una súplica de oscura aquiescencia, de derramado pelo.
Más tarde comprendiste y no hubo pena, me cediste la ciudad de tu más profunda piel desde tanto horizonte diferente, después de fabulosas máquinas de sitio y parlamentos y batallas. En esta vaga vainilla de tabaco que hoy me mancha los dedos se despierta la noche en que tuviste tu primera, tu última pena.
Cierro los ojos y aspiro en el pasado ese perfume de tu carne más secreta, quisiera no abrirlos a este ahora donde leo y fumo y todavía creo estar viviendo.

Julio CORTÁZAR. In: Ultimo Round. México: Siglo Veintiuno, 1969, pp. 93-96.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

De duas entradas.


You walk into the room/ With your pencil in your hand/ You see somebody naked/ And you say, "Who is that man?" / You try so hard / But you don't understand / Just what you'll say /When you get home /Because something is happening here /But you don't know what it is /Do you..?
Robert Zimmerman, Ballad of a Thin Man


para K.

Um escrito no frontispício da porta de entrada. Dizê-lo, de zelo: resta a ti mesmo. Inexistia na dita porta, porém, maçaneta ou mesmo qualquer sinal de ser ali lugar para alguma. Não compreendeu a que sorte, pois, tal porta vinha. Absoluta imanência de toda e qualquer porta é somente existir a fim de ser aberta e ultrapassada. Restando pensou ele a si mesmo todo falto de sentido. E de uma lógica do sentido tanto quanto: caracterizara assim O oculto, ou o culto, que era o que restara mediante imposição do simulacro. E sem nós nesta lógica do sentido, e sem o tido, o resta a ti mesmo parecia obscurecer, todavia, e muito paradoxalmente, também desvelar-se à sua (que era mais a dele) compreensão de saber.
Mais além de uma realidade, muito embora aquém do insólito, contudo, a porta, em cujo ulterior havia o que se está por dizer, ainda que nunca dito, abriu-se a ele apesar da ausência de maçaneta. E mesmo uma?
Como de esperado; e, pois, não desesperado. Já no instante em que passar ao lado oferecido pelo resta a ti mesmo foi-lhe consagrado, já não com o sagrado, eterno e retornavelmente todavia possível, a porta cerrou-se misteriosamente tanto quanto se abrira. Lá do outro lado e nada afora quatro paredes brancas cuja reunião fazia um cômodo bastante pequeno, apertado – e obviamente a porta através a qual ali irrompera. Quando deste lado então mencionado muito descuriosamente a porta possuía sim maçaneta e também novo excrito; e de agora era o sobra a ti mesmo o que te restara à porta. (Re-)pensou ser mais um convite a se ultrapassar na porta. E com seus emboras sabia que não seria executável. Ao menos neste etiquetamento, pois que agira com ética e tanto no momento, desejou e quis. E quis e desejou ficar para todo tempo (um tempo do sempre e igualmente do breve aprisionado e) aprisionando(-o) naquele cômodo. Indefinidamente, e nos fins da mente, seria o cativo de sua autoria. Desautorizada. Assinada, contudo. Termo sem próprio termo. Ou reportar-se à porta. Atingir o inatingível; e assim ifatigavelmente. Não era. Sequer à distância. Era o caso. Mas preferia.
D.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Fotografia desmanchando.

I left a woman waiting/I met her sometime later/ She said, I see your eyes are dead/ What happened to you, lover?/ What happened to you, my lover?/ What happened to you, lover?/ What happened to you?/ And since she spoke the truth to me/ I tried to answer truthfully/ Whatever happened to my eyes/ Happened to your beauty/ Happened to your beauty/ What happened to your beauty/ Happened to me
I Left a Woman Waiting, Leonard Cohen
Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uam foto é sempre invisível: não é el a que vemos .
Barthes
Depois de certo tempo, tão pouco te importa que as coisas aconteçam. Tampouco que aconteciam. Importa, por outro lado, lembrar que acontecem. E que aconteceram. Se antes não sabia, por agora, bem e mal, posso então saber. Algo já se apagava: como um foco perdido aos pouquinhos, sem mesmo que você percebesse por tão gradativo que era.
Ela admirava aquelas casinhas de alpendre exposto à vista de quem passa. Casinhas uma a uma e ao lado da outra, onde certamente vivia a avó de alguém na nossa idade. Eu observava as árvores, que, aos sábados, são mais verdes e bailam uma a uma em par do vento dançarino que as tira da espera. Uma a uma e por vez.
Trazíamos as sacolas que eram feitas em um papel tão branco e em alça de tiras vermelhas; e ela. Achava bonito aquilo em nossas mãos, e o sábado ensolarado. Quando chegamos ao Memorial da América Latina, eu senti uma sensação bastante gostosa. O vento, que brincava com meus cabelos e afagava o rosto dela, trazia mais movimento aos nossos passos passeantes. Por trás dos óculos-escuros eu escondia do sol forte os meus olhos ainda dilatados. Mais que as obras de arte, eu quis ver o acervo da biblioteca e as revistas e todos os livros e catálogos que enchiam as sacolas em nossas mãos. Ela me dizia não ser muito simpática aos modelos arquitetônicos do Niemeyer, coisa muito modernista segundo seu gosto. Eu gostava e gostava de ter feito chegar ali cruzando a ponte suspensa, e passando pela sombra do semi-arco e feliz. Depois tentava dizer que era assim mesmo, muito modernista e que era mais uma concepção arquitetônica de obra de arte que projeto de arquitetura; coisa que cansava e não rendia reflexão.Foi quando, depois, saltamos do metrô pertinho da parte mais baixa em Pinheiros, com as sacolas e ela admirando os alpendres e os azulejos muito coloridos e que formavam imagens que somente pelo olhar dela eram focalizadas. Andaríamos um pouco Pinheiros à cima, mas não importava, pois, juntos, íamos fazendo nosso traçado a caminho de nós dois. Toda a sujeira do início, que se misturava à confusão das ruas que, passo a passo, iam perdendo a tranqüilidade do princípio; quando as árvores ainda dançarinas e belas. Todo o caminho. Subida e calmamente. Paramos numa lanchonete, quando tudo começava a ficar mais limpo apetitoso do estômago. Quase Alto Pinheiros, então. Ela comeu com mais vontade que eu, que senti maior vontade em lavar o rosto na pia do banheiro e retirar de mim o suor cansado.Ela gostava muito, mesmo antes de chegarmos. Admirava as vitrines, que, de lado a lado, emolduravam a nós dois durante a subida pela rua com belas lojas de móveis; para todos os gostos e lembrava da mãe, que também gostaria de admirá-los ali estivesse. Eu um pouco apressado, pensando que mais à frente já teríamos o que admirar com mais gosto; manuseando. Antes de enfim na Benedito Calixto, paramos. Ela pegava das coisas à mostra na calçada umas caixinhas, porta-jóias. Eu, perguntava pelo valor de um toca-discos portátil; bastante desejável e, a meu gosto, porém, muito caro. Eu pensava comigo, nada de aura contemplativa; tudo ao alcance e poder da mão. Você pode manusear e sentir por um instante seu. Eu disse que devíamos subir, e vir descendo, pois é o melhor sentido de trânsito na feira. Não por uma orientação melhor em se desviar das pessoas, mas sim por um interesse admirativo das coisas expostas. E desviei nossa rota nos fazendo então subir. Ela pareceu aprovar. Divertiu-se com os móveis antigos e impregnados pelo tempo. E pediu que eu tivesse calma, pois sua contemplação pedira o mesmo dela. Eu sabia disso; a pressa toda era por estar ali. Ela se encantou com a banca das câmeras e filmadoras. Perguntou o valor de uma Super-8 enquanto eu calculava o brilho no olhar dela. Simpaticamente pediu ao senhor presente que pudesse levar a mão naquela pequena jóia. Sabendo do mesmo brilho naquele olhar que eu já sabia, o senhor consentiu. Trocou as lentes e apontava na direção de alguns cantos; e trocava as lentes como quem procurasse por um foco bastante especial, filmando uma cena melhor. Depois passou a mim. Fiz o mesmo. E era admirável. Aquelas lentes envelhecidas, trocadas uma a uma. Trazia a imagem de um outro tempo, já de muito passado, aprisionado ali na Super-8 e no jogo de lentes de caduca nitidez. Vimos juntos um tempo desprendido de nós, que o apreendíamos à parte de todos ali. E depois deixamos a câmara sob os velhos cuidados do senhor da banca, pois não havia de ser nossa, como o tempo que as lentes nos proporcionava.
Um outro senhor da banca ao lado nos conquistou. Sacou uma Polaroid assim que deixamos a banquinha anterior. Nas mãos ele a entregou a nós para em seguida tomá-la dizendo que estava funcionando e ainda com filmes. Tirou uma fotografia instantânea naquela cartela de papel meio amarelado que tinha junto da câmera e nos deu de imediato. O papelzinho amarelecido desenhando a nos dois. Primeiro, espantosas silhuetas fantasmáticas, como borrões. Depois uma par de perna é desenhado e coloca-nos de pé ali bem diante dos próprios olhos. A seguir, um rosto, uma boca e dentes sorrindo. Os cabelos arredios e nossa cara de felicidade compartilhada. Por fim, o abraço que unia e assim desenhava por completo a fotografia instantânea, cuja composição dada pelo instantâneo faz colocar a uma altura a mais nublada tamanha poesia daqueles tempos em o instantâneo nada tinha que ver com imediato; imediatamente e desprovido de qualquer revelação de mágica maravilhosa que deve haver. Depois seguimos. E paro na seção dos discos enquanto ela via coisas mais interessantes. Fiquei feliz por achar um vinil com a trilha do Blow-up, composta pelo Herbie Hancock e todo seu vigor tão conhecido. Dentre muitos outros acabo encontrando um vinil da Elza Soares, que estava divinamente bela na capa. Lembrei de quando ela me dera a boa orientação de modo a acertar em minha opção de escolha por um presente futuro. Que se fosse disco, dissera-me, fosse um da Elza e não outro.Ela ia vendo uma banca de brinquedos. Admirada por encontrar uma boneca Moranguinho - coisa que toda mulher à idade dela tivera em sua tenra infância de menina - levou imediatamente ao nariz procurando pelo cheiro já despedido da empoeirada boneca. Não era nada ridículo, pois o cheiro está na memória que tinha da infância que teve no tempo da boneca Moranguinho aromatizada.
Descemos de pouco a pouco, e, assim, dedicamos ali toda nossa tarde de sábado entre as coisas da feira; também aos diversos tempos da feira. Por que em feiras desse tipo da Benedito as coisas podem coexistir, coexistindo diversos tempos, diversas revelações instantâneas. Eis a sorte das férias... lugar bem diferenciado e em meio a cidades, onde, via de regra, cada esquina virada leva a algo diferente; onde tudo pode acontecer à cada esquina escolhida; raspagem hipertextual de possibilidades escolhidas na contingência traçada pelos passos que caminham por cima da transparência pisada. Como um foco perdido, à maneira como escolhíamos a lente na Super-8, as coisas se perdem; esfumaçam. E depois de certo tempo, tão pouco te importa que as coisas acontecem; tampouco que aconteceram. Importa, por outro lado, lembrar que aconteceram; que aconteciam. Ela brincou de ir embora. Eu, ser livre. E nós de sofrer. Disse que queria um amor escrito, uma escrita de amor. Eu escrevia com ela entretecida em mim; em várias e variadas vezes com ela entretecida nas vozes escreventes. Buscava nesta qualidade a perda da carta não enviada. Escrevia para o futuro reescrever o passado; mas ela não conseguira ler a escrita que escrevia no amor entretecido as vozes reescrevendo-se uma na outra; misturando esses tempos. Por mais puro egoísmo, sei que essa escrita ela não acha em mais ninguém.
Ela foi embora, e eu fiquei com a Polaroid amarelecida, que hoje perde a cor que nos desenhava em outra época e numa época já passada; agora ainda mais passada. Ao contrário daquela revelação, estamos nos desrevelando. Primeiro o abraço que unia ela e eu em nós. Daí o sorriso que compartilhado em felicidade entrelaçante. Mais um pouco e a boca se desmancha. Instantaneamente, aqueles traços, que na fotografia desenhavam nossas pernas, em cima das quais nos sustentávamos de pé, desaparecem, e, então, despencamos. Sobra uma silhueta fastasmática, irreconhecível no papel que vai perdendo cada traço de nosso desenho.
Dizem que fotografias param o tempo; esquecem de dizer, todavia, a que preço o tempo se deixa parar nessas fotografias ingênuas no trato com sua implacável insaciabilidade.

domingo, 3 de agosto de 2008

Às voltas com as ( velhas) escolhas.

Para Holden Caufield, o jovem narrador e meu mais sincero canalha na literatura .
...que nunca me preocupei com as correções, pois seria ,eu mesmo, um ato incorrigível; preferia, então, muito mais, o próprio erro de ser quem eu fui errando em mim mesmo.
Paulo Leminski, Ou a mentira que acabo de citar sem num. de página e ou nome de livro.

Durante muito tempo eu realmente imaginei encontrar algum significado nas coisas que escolhi. Durante muito tempo, mas não o tempo todo. Assim passei a perceber a inevitabilidade nas escolhas e considerá-la muito respeitosamente. Num primeiro tempo, isso me fez agir sempre partindo da estúpida tarefa de organizar cada gesto da minha vida, de tomá-la por uma ordem sensata de maneira a justificar o que escolhia. À sorte de qualquer casualidade, eu sempre acreditava ser capaz de avaliar, um a um, os eventos sucessivos que me ocorriam e colocá-los todos numa seqüência tão diacrônica que cada um deles tinha seu próprio início, e também fim, encerrados num tal sincronismo que, de pleno que era, eliminava-se de todo acaso para receber seu sucessor na estável seqüência da cadeia com que eu os articulava para mim. Tudo estava sob minha ordem e nada escapava a essa tarefa elegida em minha vida. Era tão jovem nessas coisas todas que eu mal podia compreender o que fazia, e agia como um velho por não entender toda a jovialidade que então permite brincar nesse jogo que é o rito da vida.
Depois fui deixando de lado essa estúpida tarefa e me interessando por outras coisas mais dignas de alguém na minha idade. Entre um e o outro desses momentos, o tempo era tão breve e pouco espaçado que sequer poderia dividi-los em fases. Como se um dia, pela manhã já muito avançada, eu acordasse e deixasse longe, talvez junto com meu implacável sono da noite anterior, toda a medida para armar aquelas coisas a despeito da sensatez com que eu costumava perceber o que me ocorria mediante a tarefa antes eleita.
A primeira das várias outras tarefas (muito mais apropriado seria tomá-las por tarefinhas, menores que eram) em que fiz explodir a unívoca tarefa fazendo procurar outro problema para minha vida. Sei que isso é algo tanto enigmático. Mas logo faço cristalino o que digo com isto.
Mudar todo uma gosto estético, filmes preferidos, bandas favoritas, o melhor trompetista de jazz do qual tinha numa das paredes de casa um expressivo quadro, ou escolher uma nova aparência e assim novo estilo para me vestir, tudo isso seria tão desnecessário que sequer foi cogitado por um lampejo que se possa considerar. Sempre fui fiel à minha educação estética para as coisas, e de longe meus filmes preferidos eram insubstituíveis quando postos em lista. Foram anos a fio comprando discos importados até ver lojas da qualidade da Urban Cave fechar as portas e entrar definitivamente para a nova religião que começou no site Napster, até os tempos não tão distantes, porém não tão recentes, dedicados a selecionar a melhor cepa de vinis por sebos de todo o país, cidades por onde passava sazonalmente, quando os daqui não foram mais que suficientes nas ofertas; mudar a lista de bandas tão diletas, impossível. E afinal minhas roupas, desde que posso lembrar de quando já tinha uns quatorze anos, sempre foram legais e custaram nada mais que tirasse de minha carteira alta cifra por conta de grifes totale in, pois essas cifras altas, que vários amigos de colégio usavam para exibir um atualíssimo guarda-roupa muito na moda, eu as economizava para entregá-las no caixa da Urban Cave e lojas com esses encantos de época, que órfão desta loja fui depois encontrá-los nas pequeníssimas prateleiras da Motor music e na ótima bancada do CD Club da galeria.
Sobre as roupas, o que tive de fazer foi apenas repassar na cabeça o tempo em que eu exagerara, pois sempre se exagera em alguma situação, por mais manero que você se considere e tenha sido vida toda. O segredo está no aprendizado de não parecer ridículo, e também precisar se olhar no espelho por conta de qualquer dúvida a que o bem-estar de sentir-se dentro do que você veste não possa resolvê-la. Com isso, eu mantive todos os anos com que fui elaborando inconscientemente algo que vestisse meu corpo corroborando a minha personalidade estética.
Daí eu pensei nas amizades. Era a questão mais difícil. Jamais tive muitos amigos, e não me lembro de ter chegado a algum lugar onde conhecesse mais que três pessoas numa mesma noite. Era quase impossível. E meus bons amigos estavam todos espalhados por aí; lembro que um par deles ainda vivia na mesma cidade que eu, mas nos encontrávamos uma vez por semestre ou, quando muito, mais que uma vez.
Bem, era uma das conseqüências de ter vivido em outros lugares. Quando você se lembra dos amigos, eles sempre estão nesses outros lugares onde você viveu. A coisa chata é que, por conta dos amigos, você acaba sentido saudade de lugares nos quais odiou estar e renegou a vida. Talvez por que foram o cenário de algumas amizades. Talvez por que o lugar era legal, mas na época você não se interessava. E quando é isso o que acontece tudo é mais chato, pois o sentimento não se decide nunca. E você se perde.

Mais eu não tinha domínio algum sob essa parte relativa a amizades. Não me era permitido selecionar tanto assim neste quesito. Essa coisa de fazer amigos é o maior mistério da vida. Alguns dos meus melhores amigos, eu os considerei tão imbecis que jamais imaginaria saindo com eles, que depois pudéssemos nos tornar verdadeiros comparsas. No caso das amigas, algo ainda mais incompreensível. Que me chamem de filho da puta, caso queiram. Eu sempre fiz amizades com mulheres pelas quais eu definitivamente pudesse me apaixonar, mesmo que por um delírio. Às vezes a paixão poderia simplesmente vir à tona por que de imediato eu tomava conhecimento de que tínhamos em comum um diretor preferido. E assim foi quando descobri minha amiga que comigo dividia a devoção pelo super cool sr. Hal Hartley. Em outra situação foram as canções do Bowie, e a amizade logo teria um princípio de paixão possível. Mas também não desconsiderei uma beleza desprovida de qualquer apuração estética afim com a minha. Logo que descobria uma provável amiga capaz de me despertar apenas a libido, eu tratava de remediar sua insuficiência e a encaminhava pelos melhores caminhos pelos quais eu já havia passado. E assim tinha uma nova amiga que aos poucos ia instruindo até se tornar tão experimentada nas coisas que me interessavam quanto bela em seus encantamentos de fêmea fatal que de inicio era.
Prolongando um pouco, confesso que consegui me apaixonar por todas minhas amigas e ser correspondido no mais das vezes em todas as tentativas de consumar a paixão libidinal, tenha sido ela despertada à sorte das situações já consideradas. E minha pouca falta de sucesso relativo aos raríssimos casos que somam alguma exceção foi por ter sido desfavorecido pelo tempo que vivi nos lugares pelos quais o trabalho dos meus pais foram me levando, e depois minha formação escolar e meus estudos superiores atuais. Mas com os amigos, era sempre o contrário. Nunca despertaram qualquer desejo libidinal, e o diabo é que eu sempre estive aberto a isso, e até experimentei muitas vezes uma busca que deveria haver em mim. Porém jamais consegui sucesso nesses casos. Amigos servem mesmo é para conversar e falar alguma merda sem coerência alguma. Acho que por isso nunca poderia ter me apaixonado, pois no caso das amigas eu sempre fui plenamente coerente com minhas afinidades eletivas. E por isso eu as educava, quando percebi necessidade. Aos amigos, por outro lado, eu nunca me prestei muito com coerência. E por isso os fiz nas circunstâncias de imaginá-los inicialmente seres os mais imbecis ao lado dos quais a vida me colocara. E logo tomava na cara quando uma linha de conversa ia se partindo e repartindo em diversas afinidades eletivas: filmes sabidos de cor, bandas que fizeram trilhas de fases da vida, atrizes deliciosas pelas quais vertemos jorros de porra por toda a casa, escritores preferidos e o trompetista de jazz que nunca ouvimos tocar mas do qual tínhamos lidos quase todas as páginas e o belíssimo conto sobre um saxofonista chamado Johnny Carter. Tudo isso e também algo mais.
Refiz a lista dos amigos, e cortei mentalmente todos os que precisei educar. Amigo de verdade – seja homem ou mulher - não se educa, pois que vem pronto. Feito amizades à primeira vista, e não se procura nada que melhorar; aceitam-se as falhas como virtudes e elegem-se nelas as verdadeiras afinidades, pois as melhores amizades servem a isso que tira você do caminho certo e erra junto com você e juntos topam qualquer nova possibilidade de erro que aparentemente permita reabilitar.
O problema era ter restado desta lista, nos amigos que restavam não cortados, uma seqüência de pessoas distantes, que ficaram naqueles lugares da minha vida. Eu não podia chamá-los para sair, para vermos um filme em minha casa, nem mesmo tomar um trago na esquina e falar sobre qualquer coisa que fosse. Meu mundo de amizades estava perdido de vez. De vez, talvez meu mundo inteiro, e não só o de amizades, estava se perdendo.
Avaliação precipitada e incoerente, mas muito necessária ao instante. Como o bêbado ao copo, eu não levei nada a serio essa má fortuna das amizades deslocadas e logo estava rodeado por alguns novos amigos e amigas pelos quais ia tomando muito gosto; e feito a garrafa cheia varias vezes vertida ao copo vazio, enchemo-nos de pouco a pouco de maneira a completar o volume até aquela risca a partir da qual você pode considerar um bom trago de afinidades eletivas e sentir-se leal a escolha.
Para minha felicidade eu tinha feito bem a escolha e conhecia outras coisas conhecendo as amizades e provando muito do que me ofereciam. Minha prateleira ganhava novos volumes literários com muita velocidade por conta da influência que dos céus cai sobre mim e eu procurava me dedicar com muito prazer naquilo em que convertia minhas economias ou, certas vezes, transformava em minha extravagância. Minha mesa de leitura nunca foi antes tão ocupada; podia ler dois, três ou quem sabe até mesmo quatro livros de uma mesma vez e não me atordoar, embora em algumas situações as histórias pudessem se misturar e eu inventar algo dessa proximidade com que as lia invariavelmente. Tal probabilidade, longe de me atormentar e causar certa temerosidade, seduzia-me com o risco que parecia correr.
Já por esses tempos eu sabia que também tomava gosto por uma outra concepção de tempo, pois minhas escolhas eram nada impregnadas pelo sentido que anteriormente eu procurei atribuir à leitura que fazia de mim mesmo. Se tomássemos a coisa numa acepção literária, digamos que eu passei de um texto linear, cuja leitura implicasse a descrição de um narrador onipresente que apresenta a psicologia da personagem de tal forma esmiuçada a ponto de a leitura perder já qualquer reflexão narrativa, à uma verdadeira collage surrealista e talvez culminasse numa amalgama tão dadaísta capaz de suprimir qualquer orientação de sentidos. Aceitava tudo que me parecia de mal, pois era assim que eu considerava as coisas de bem, e cada vez mais meu cacoete de narrativa caduca das minhas escolhas ia esmorecendo em mim.
Lembro, apesar de ser algo tão de agora, mas lembro por assim considerar ser necessário para cair para dentro do texto que escreve o texto que vou arrumando para colocar o texto que agora escrevo, que continuei minhas paixões descobertas nas afinidades eletivas, que agora aumentavam muito nos últimos tempos e cada vez mais me despertavam os delírios para os quais eu não crio impedimento algum.
Tenho passado, já que passeio, passeante, e passei, passante por passará, muito tempo à-toa e tido também muito tempo de celebrar as amizades. Claro, faltam amigos tão putos como eu ainda tenho por aí em alguma cidade onde já vivi e viverei mais à frente, viajando de férias ou fugindo de alguma dívida de vida, tão putos como fomos eu e esses canalhas que tão putos foram para outros lugares, como eu canalhamente fui para longe deles; putos que bebem e não importam se você tem grana que pague a conta, ou que te chamam para um trago sem sequer ter dinheiro na carteira, pois sabem que você vai pagar por eles o trago que os reúne. Gente desse tipo que esquece livro com você, que depois grava umas músicas que você ainda não teve tempo de conhecer e acerta em cheio no que fez. Mas tenho que deixar esses tempos e fazer outro acontecer. Espero que todos esses canalhas estejam bem. Espero que tenham tido a mesma sorte que eu e que tenham conseguido comer algumas amigas lindas que conheceram nos últimos tempos. Eu tenho conhecido muitas mulheres, e feito muitas amigas. Algumas saem comigo e tomamos bons porres. Algumas me olham e eu as olho de volta a partir da forma como me olham. Faz uns seis meses que fez um ano que eu voltei e me despedi do último puto que estava perto de mim, antes que todos nós ganhássemos novos endereços residenciais por aí. E nesses últimos seis meses eu não namorei mais ninguém. Não amo nesses últimos seis meses ninguém fixamente, por mais que quisesse. Antes eu amava fixamente mas não pôde ir tanto à frente. Ando por aí; disse, tenho passado muito tempo à toa. Descubro belas mulheres nas minhas grandes amigas e grandes amigas em algumas belas mulheres que vejo nas ruas. Penso no enigma da tatuagem que vejo na pele da mulher para a qual paixão e delírio acabaram de me tomar de mim antes mesmo de nos tornarmos amigos. Ela apenas passa pela rua. Decifro tudo para mim e sei que já faço parte do que o enigma ajuda esconder no mistério a que os indignos não podem roçar. Eu apenas observo o olhar que ela lança até mim e o recebo feito convite. Espero sempre o delírio, pois sem ele não entro em nenhuma paixão, em nenhuma amizade nenhuma. E no olhar dela eu vi tanto delírio vindo dela até mim, e me encontrei rapidamente dentro daqueles olhos que me tomavam de todo, num só instante feito aquele momento em que ambos nos trocávamos nas íris, e de todo se dava a mim, pois eu me dava a ela, e com muita força procurávamos desviar instantaneamente o demorado através do qual nos possuíamos ali no brilho que nos enchia os olhos nos quais podíamos nos ver e também ver que nos víamos.

Bem, minha educação estética eu a consegui manter a salvo de um longo desvio; recebi o complemento dos novos tempos mais mantive a boa linhagem com que os anos ajudam a forjar um caráter convincentemente sedutor mesmo por poucas palavras, pois você não precisa sair por aí falando de tudo o que gosta na primeira oportunidade, de comentar tudo tão esmiuçadamente que, ao invés de uma boa impressão, causa aquela espécie de repugnância irremediável nos chatos de lapidação lustrosa; assim são os bons romances e os melhores contos, que te invadem cautelosamente de muito pouco até jamais deixarem você por estarem de todo. À duvida que fosse, em nada pus meu gosto musical e sigo retomando sempre minhas bandas preferidas e sempre me surpreendo por começar uma amizade pautada nestes termos apesar de ter sido sempre assim. Ainda me apaixono pelas amigas que gostam dos mesmos diretores que eu, que leram com todo delírio os meus escritores preferidos e que ocupam grande parte da casa onde moram com livros cujo título de capa oferece o prazer táctil assemelhado pela canção do Caetano àquele que colocamos aos maços de cigarro. E em todo esse tempo, jamais fui infiel a minha marca de cigarros tão eleita entre tantas outras, colocando-me na diversidade apenas em ocasiões nas quais a impossibilidade de cumprir com minha fidelidade colocasse em risco outra fidelidade: não pela marca, mas pelo cigarro enquanto substantivo da minha prosa que vai.
Deixei de fazer escolhas, deixei de respeitá-las, e, mais que isso, deixei de fazer escolhas respeitosas. Detive todo ímpeto de encadear minha vida pela dignidade das escolhas e tomei para mim a escolha de vida de ser escolhido pela vida. Assim reneguei todo sentido organizador que tive como tarefa. Desconsiderei conceitos, como diacronia e sincronia ou evento e estrutura, a fim de entender o tempo, a temporalidade. Isso influenciou na minha escrita, também na maneira com que expresso meu pensamento e, em grau menor, até em minha dicção das palavras que saem da minha boca e corporificam nelas algo de mim. Perdi o uso de algumas gírias que mais me identificavam com lugares em que ia vivendo e reabsorvi na minha fala coisas daqui onde estou agora, pois essa coisa de mudar de lugar modifica pra cacete o jeito como você fala das coisas de que fala. Tenho conhecido outras gentes, tenho dito. Às vezes ainda me pego lembrando de alguns amigos putos, malditos de sempre, mas nada é mais freqüente como noutros tempos. Essas coisas de passado, já que passeio, passeante, e passei, passante por passará, ficam um tanto frouxa no tempo; se desorganizam e ficam soltas por aí, sem limite algum de obsessão e pronto. E no final de tudo a escolha de vida é ser escolhido pela vida e poder romper com toda organização, tomar as coisas mais frouxas da memória e rir alguns bocados desse confuso curta-metragem que é projetado pela lembrança da sua vida nos seus pensamentos, e, depois de tudo isso, esperar por mais uma daquela troca de olhar em que você descobre paixão porque há delírio, e imagina que você já é parte do enigma de outro corpo onde vai se entregar e recebê-la também entregue feito a tatuagem, com várias maneiras de pensar tudo isso a seu próprio gosto e desfazer quando tudo parecer chato e aborrecido, ou manter para sempre se for o caso, ou remodelar, feito nos melhores romances do Julio ou filmes do Lynch, qual fosse a primeira vez, pois sempre deve haver alguma tarefa, que é a paixão, que é também fazer haver todo o delírio, e escolher nessa escolha de vida ser escolhido pela vida, mas sempre com delírio, pois precisa ter.




D.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Em volta do amor.

Deslizo corpo a dentro do teu e me enlaço a todo desejo:
Que te desejo corpo pleno e neste laço em que me adentro ( pois que me há dentro)
Sou a busca por teu encontro e o encontro da busca pela qual fui inteiro
Assim minhas mãos te apanham e te recolhem também em mim
Repito o gesto com que de pronto te recolho apanhada por mim em minhas mãos que te tocando pegam
E já te dou nas mãos meu corpo, que te deseja com amor o amor que te toma
Pois te apanhando posso me recolher amorosamente em ti
Provamos enlaçados então os dois:
(abraçados)
Que ora está em mim - um no outro - que ora está em ti
Eis que, qual palavra na qual nos confessamos, rompemos nossa deriva - e sultimente deslizamos com os corpos quentes para dentro deste intenso e comum desejo.
Provamos enlaçados então os dois que ficamos: ora em mim, ora em ti.
E agora que sabes
Não foge de mim
Agora sabes: minha busca é somente por ti
Não foge mais
Pois estou aqui.

domingo, 20 de julho de 2008

Digressões de revés




Aí dentro do porta-luvas, você encontra em alguma parte pelos cantos: acho que tirei de dentro da bolsa antes de sairmos de casa; já não consigo me lembrar bem. Pior lugar onde guardar, disse isso mais de mil vezes. Primeiro lugar onde olham, parando pra batida. Ninguém vai parar a gente; aperta. Ninguém mesmo parará, a não ser os velhos putos da farda démodé. Deixa sua alucinação pra depois do fumo; aperta logo: gosto de dirigir chapada e a cidade, além do mais, está muito calma à essa hora. Você sempre diz essa besteira de “alucinar depois do fumo”; coisa muito sua mesmo. Não, coisa muito sua: não minha. Esse papel é uma merda, não tenho outro. Vai assim mesmo, depois encontramos algum melhor: já que não tem outro por agora. Vê essa publicidade - dela te falava ontem sobre as cores que eu via quando ia pro trabalho: é ridícula na mistura das cores e letras, apaga tudo: mas funciona exatamente como precisa – não sei se pensaram nisso, mas deu certo à beça.
Antes de ir pra minha casa, a gente passa naquela casa de bebidas. O lugar não fecha nunca e poderemos comprar uma garrafa de vinho. Também não quero ficar mais; hoje não quero como das outras vezes. Vou me despedir deles então, e vamos logo. Meu cabelo está tão desgrenhado. Não está. O meu olho está caído. Parece sono, mas é pelo frio que fica assim. Não é sono nem frio, já disse, é sua maquiagem, o contorno que você faz com o lápis, faz parecer caído – gosto assim, pois te embriaga antes da primeira dose. É frio, você não entende de maquiagem. Esse elevador não tem câmera, não tem. Com um puta espelho desses aí, não precisa câmera: a gente mesmo se faz vigiar. Bate logo a porta antes que a sirene escandale o alarme. Podia ter um jornal de qualidade nesta portaria, levaria pra mim na alta, mas só assinam essa merda de notícias baratas pra não incomodar o café da manhã – por isso acumulam os jornais aqui em baixo, sequer lembram de pegar na portaria e subir: serve mesmo pra juntar a merda dos gatos e cachorros e não ter problema com o síndico, que deve fiscalizar o lixo sentindo todo o cheiro da merda bem envolvida em jornal barato e muito bem embalado em sacolas plásticas de supermercado da vizinhança.
Esse carro precisa ser lavado, e você bem podia fazer isso pra mim amanhã. Não precisa, por dentro está tão limpo que não faz diferença alguma toda a imundice de fora dele. Disse mais de mil vezes, mas não adianta: ela não entende o risco de deixar o fumo no porta-luvas do carro; não sei por que precisa tirar da bolsa e enfiar aqui... Aperta unzinho pra gente aí, antes que todo o percurso até a casa de bebidas seja vencido e você ainda esteja se ocupando de me convencer que o carro não precisa de uma água pra parecer mais belo e digno de minha pertença. Mas numa coisa você permanece senhor de toda razão – o Cohen é o melhor som da madrugada numa cidade de luzes amarelecidas e chão cinza fatiado de branco, dentro de um carro imundo por fora, o qual quer, por dentro, bem abriga de todo o frio que gela a noite. Vou ouvindo Closing Time enquanto ela fala, enquanto ela me desautoriza em assertivas que por digressões de revés me autorizam em outras. Vejo bem a droga de outdoor, a despeito de toda a falação que me acordava de um sono vespertino do último domingo. Ela tem razão no que fala sobre as cores nas letras, as letras nas cores e o comum já comunicado na publicidade: evito especular se realmente funciona exatamente como precisa, e deixo isso pra ela. Não precisa temer, ninguém vai nos parar. Ninguém mesmo, precisamente. Ele vai apertando o fumo, talvez pesando em mim: pensando no que digo e enrolando: mais uma dobra no papel: entre os lábios prende a última dobra do papel de má qualidade: prende bem preso entre os lábios que passam a saliva pra não soltar: sabe que o papel é de má qualidade e precisa estar bem preso, um pouco de saliva que umedece e ajuda grudar, pra não soltar enquanto já estivermos fumando.
Preciso ir ao banheiro primeiro. Tudo bem, eu agüento. Droga de saca-rolha, uma merda muito barata e que me machuca a mão. Que você tá dizendo aí? – eu não consigo escutá-lo... Não é pra escutar, estou reclamando do saca-rolha. Aperto com cuidado, o papel que encontro é horrível - vai rasgar na última dobra, preciso enrolar com muito cuidado e o carro faz muitas curvas até a casa de bebidas; passo a língua presa entre os lábios e os lábios entre a língua muito atentamente, pra não errar a quantidade certa de saliva que apenas ajuda grudar e não mela muito essa merda de papel, lambrecando e fazendo partir logo na última dobra já a ponto de fogo; seco o excesso com a chama do isqueiro antes de queimar; boto fogo e trago; passo logo pra ela em seguida e a mão está um pouco trêmula, que quase deixamos cair tudo ou então descuidamos da direção pelo ápice da vertigem que ainda se mistura a outros sentimentos ainda no carro; ela parece não se importar com nada, parece que estamos a salvo de tudo em pleno trânsito apenas por ser madrugada e a cidade, aparentemente mais tranqüila.
Ela sai, deixando a luz do banheiro ainda iluminando. Acho que ele vai gostar das velas, mas pode deixar meu olho ainda mais caído. O olho não está mais caído, o desenho do lápis foi minimizado, acho que deve ter ficado desenhado na toalha, o que agora em casa seria excesso, o viés do seu olhar: fica mais lânguido assim, perde o peso do que o social da pintura de noite pede e ganha num charme mais oculto, que a chama da vela te realça. Sei que ele não gosta desse vinho, prefere seco mas aceita bem suavemente por conhecer meu gosto: ainda senhor da razão, pois é suave a verdade de que o seco cai melhor com o gosto do fumo. O papel de casa agrada a ambos, pois esquecia-lhes levar junto do fumo de qualidade papel à altura: em casa tinham um bom papel.Cuidado, não pega assim tão abruptamente – você faz a brasa pular em meu casaco, primeira vez que uso e foi muito caro pra já ter um rombo tão flagrante em seu debut. Fica de olho, os cops de farda-brega aparecem de esquina em esquina hora dessas – não descuida da direção. Não vai aparecer puto nenhum a essa hora da madrugada, alucina com o fumo e deixa as ruas comigo, sei por onde ando e aonde estou nos levando.Eu não estou mais afim de ficar aqui – traz seu ouvido perto dos meus lábios que quero te dizer uma coisa, coisa bem minha: eu não estou mais afim de ficar aqui, quero logo ir, transar e exceder meu tesão em nosso gozo, misturar nossos corpos e fumar em casa ouvindo música só nos dois; coisa bem nossa. Eu também não estou mais pra isso aqui não. Despedimos e deixamos com nossa ausência uma desculpa qualquer, a qual quer diz uma das suas coisas aí e ficamos mais tempo da próxima ocasião. Vamos. Eu gosto muito dessa casa de bebidas, não reclamo nem dos preços, pois tudo se paga bem pela boa carta de vinhos que têm aqui, pela disposição e pelo estacionamento também. Só pecam por ainda não vender seda. Você prefere suave, né? Sim, mas pode escolher. Suave agrada, mas seco seria o ideal: não penso muito no ideal, penso apenas na contingência que nessas horas faz perder todo o necessário do meu querer no dela que mais quer, os quais querem. Ele sabe o que prefiro, mas ainda assim pergunta: tentativa de argumentar superioridade de conhecimento, e explicitá-lo tão logo o assunto falte, quando a alucinação aumenta e parece nos colocar em vultos de pensamentos, mas ele desata a falar – sua tentativa de me constranger aparentando não estar tão chapado quanto eu.
Seu corpo é quente. O corpo dela é quente e úmido, e sempre me dizendo ter tesão mais e mais quanto mais chapada. Não me desaprova, mas ele diz coisas que não aprovam tanto quanto deveriam. Canso mais rápido, pois minha posição de ataque elimina maior fôlego em mim que nela: ritmos diferentes, porém, entrecruzam-se, se entretecem e se precisam nisso de encontrá-los compassados: a dispersão apenas faz juntar o que visto de um ângulo obtuso, demasiado fechado, não revelaria a comunhão dos ritmos entrecruzados, entretecidos e harmonizados: acorde aberto em contraponto de outro fechado, os quais melodicamente querem, os quais, se querem, e eis o que entretece, enquanto se já entrecruzados harmoniza toda a convulsionabilidade nos ritmos de ambos, os quais querem, atados.
Aquela mulher, vê, aquele cara; eles não sabem o que escolher; como escolher. Há muita coisa na cesta deles, parecem que vão fazer um almoço de domingo, chamar a família inteira pra um banquete. Pará de ficar olhando o que fazem os outros e decide logo o que vamos levar. Não, espera, olha. Eles são tão indecisos, coisa de quem está constrangido de chegar logo em casa – aposto como agora os dois estão pensando como será quando estiverem sozinhos na casa ou seja lá aonde diabos irão daqui; devem, por certo, pesar como ficarão a sós, por isso escolhem tanta coisa, passam o tempo e fazem um compra na casa de bebidas como estivessem num grande supermercado fazendo a compra do mês; tudo isso por não saber como devem fazer pra trepar numa noite, precisam criar um romance comprado, comprando coisas caras e de país distante, tudo pra elevar o prosaico da toda igual madruga que os reúne e não ser constrangedor o dia que os acordará; precisam de um ar monumental; precisam de um quê de cinema europeu mau-caráter, quando tudo o que precisavam é de um cinema transcendental, qualquer, trilhos urbanos e cigarro traduzindo um no outro pelo gozo experimentado, horas depois de todo o vinho e queijo caros, comprados pra romantizar o mau-caratismo europeizado em filmes de quita sem leveza de corpo gozado pelos amantes. Pará de ficar olhando o que fazem os outros, daqui a pouco terminam por pensar o mesmo da gente justamente como sua língua condena-lhes, e decide logo o que vamos levar por já decidido.Ouço um resmungo quando já estou dentro do banheiro: mas não escuto claramente o que o resmugador acusa em infortúnio passado. Ela pega as velas, e assim sabe fazer me agradar pelo paladar cedido na escolha do suave pelo seco que melhor cabia ao fumo que acendemos. Quente é meu corpo e um pouco úmido na maneira como me sente. Corpo quente e seco o meu acolhendo o que há de úmido no calor dela quando entrelaçada em mim a pele eriçante, no seu corpo, no seu íntimo, no seu calor suave e delicado com meu calor seco e um pouco áspero que acolhe. O fôlego acaba mais rapidamente nele, que me abraça sem reprimir o fim que brevemente desfinda de si reiniciando asperamente em toda suavidade: a dispersão apenas faz juntar o que de ângulo obtuso, visto demasiado fechado, perderia a comunhão entrelaçando os ritmos entrecruzados, já entretecidos e harmonizados na substancialidade melódica dos paladares distintos e convulsionados – acorde fechado em contraponto fincado por outro aberto, eis o que entrecruza, o qual quer, enquanto entretecidos, harmoniza os ritmos em ambos e de pronto convulsiona um só e bem ritmado.




D.

sábado, 21 de junho de 2008

Bazar do conto da Atemporal.

Primeira tese: um conto sempre conta duas história.
Segunda tese
: a história secreta é a chave da forma do conto e de suas variantes.
O conto é construído para revelar artificialmente algo que estava oculto.
(RP,
Teses sobre o conto
)
Un escritor argentino, muy amigo del boxeo, me decía que en ese combate que se entabla entre texto apasionante y su lector, la novela gana siempre por puntos, mientras que el cuento debe ganar por knockout.
(JC,
Algunos aspectos del cuento
)
Tampoco yo te adivinaba. Lo imposible que tú eres. Lo imposible de la Respuesta a la muerte, que yo tengo. El todo-amor que tú eres; el todo-conocer que yo traíra.
(MF,
Presentación para la Eterna
)
O bazar deve estar para o conto assim como o Museu para o romance.
(D,
Prólogo ao Bazar do conto da Atemporal)

Dedico às pernas, minhas e não, e também às mãos que escrevem comigo.


Meus hábitos são confusos e minha sorte de rotina, indisciplinável. Colocando o acento sobre o que digo é que traço o exemplo: falo bem mal a leitura do que escrevo, pois a fala eu a escrevo melhor traçando o pensamento que depois não conseguirei recuperar lendo. Jamais li dignamente algo então escrito por minhas mãos; tudo isso por ter, antes, corrido esse risco jorrado de entre-dedos. Meu raciocínio, um hábito todo confuso, já disse, recusa-se a repeti-lo. Mas eu o sigo, e depois de corrido tanto maior é a eficacia com que me perco em seu fluxo impenetrável.
Tal como o hábito confuso de não poder seguir a mim mesmo no pensamento escrito, sou hábil na fuga da minha desenvoltura corpórea.E é assim que minhas pernas, calçadas em meus tênis pretos, me levam a passear por aí, sem que eu verdadeiramente saiba por onde esteja indo ou sequer aonde irei chegar.
Esplendido mau costume, tanto melhor em lugares de muita escada. Pouco tempo atrás, algo imprescindível ocorreu. Deixo como “pouco tempo atrás”, pois seria desnecessário e estúpido enumerá-lo em horas, dias, meses ou anos. Quero tudo assim, na iminência do indeterminável. Desnecessário e estúpido, aliás, porque eu jamais alcançaria qualquer precisão nessa datação da temporalidade. Algo ocorreu, e já está.
Minhas pernas andavam por mim. E elas fazem isso tão esplendidamente, ah fazem. Acharam um lugar de muita escada e acharam bem. Subiram-me. Subiram-nos. Lá estávamos, decididos pelo andar entre os lances da escada.
Ah!, que mulher.
E que rosto.
E que olhar não tinha!
Aquele ar de quem não te vê, e sim sente uma presença.
De hábitos tão confusos, rotina indisciplinável, falo bem a leitura da mulher e logo acho bem traçadas minhas idéias. Então é que penso, depois de algum tempo: essas pernas sabem mesmo me valer; sabem encontrar aquela mulher, aquele rosto, aquele olhar, aquele que não vira “tempos atrás”, mas que agora já pode ver.
Essas pernas, contrariamente a todo mau hábito do risco que corro, são minha mais sóbria desenvoltura corporal. Encontraram pra mim a mulher que embrulha toda sua genialidade, toda inteligência, naquele rosto de papel-seda, naquele olhar, um laço de fita, que não vira, e sim apenas sentira uma presença.
Sábias pernas, e por isso eu devo calçá-las tão descentemente em meus tênis cano-longo, que as vestem à altura dos passos que dão.
Em breve, assim mesmo, iminência eminente, não correrei mais riscos, tampouco correrei assim por aí com minhas pernas, pois quero segurar entre meus dedos os dedos das mãos que orientaram minhas pernas.
Aí, eu paro. E minhas pernas me levarão apenas pra ela.


D.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Vida aberta (ou André Mello).

Suspendendo-se à forma dos rodopios entrelaçantes, a fumaça absorvia em sua circunferência elíptica o brilho tomando-lhe desde logo da escuridão, que por tão pouco não completamente inundava o quarto, ao menos a totalidade dele. Por cada vez que tragado esse sopro em solta liberdade opaca unia-se em seqüências esfumaçantes retiradas do cigarro aspirado, quando trazido junto dos lábios. Circunferências em plenitude de formas, que deslizavam naquele ar do quarto sutilmente escurecido pela raríssima luz rebrilhada em cada elipse, a desprender-se sequenciadamente neste desenho das imagens circulantes. Ponteadas todas em pequeníssimas (porém extensas) proporções já cruzavam o céu imaginado-lhe rabiscado por meu sopro naquela constelação que eu percebia subindo de mim até desmancharem-se na plenitude escura do teto: onde a vista não mais podia vê-las e assim parecerem não mais dançar em clamor girante.

Cada movimento de chave me fazia pensar em todas as voltas de onde se abre a vida revelada. Eu pensava os dias anteriores todos neste momento cristalizado, e, nele, a minha mais impura completude esvaziada. Uma ocasião sem igual, todavia igualando um ponto no qual todos os demais se permitiram. Qualquer reflexão maior em desistência estaria desprovida de força, pois os pontos em um só se entreteciam sem conflito que fosse por destecê-lo da cristalização instantânea. O silêncio feito rasgado pelo sonido da chave girada nos círculos, medidamente de modo a permitir entrada: eu enfim estava em casa, depois de alguma volta da vida.

Quando os olhos compreenderam a leitura da escuridão, já não precisei lutar contra o que não podia mais que ver. Apenas havia que fazê-los meu mais sincero guia, pois que se entenderam com o corpo disperso pelo caminho tanto antes já percorrido. Em casa os olhos sabem ler cada página em escuro da vida habitada. Confiante que fui a meu guia, permitiu-me ao corpo despencar-se sobre o colchão: e foi aí que eu contemplei o céu de esfumato.

Como todas as voltas que se completam, o tempo se desdobra e pára em seu íntimo interior. Mais que eu quisesse, meu tempo havia parado ali numa volta dobradamente sobre si mesmo. Engolia-me nele de poucos pedaços, arrancados mediante mordidas vorazes de um puro prazer, este mastigado por dentes famintos da própria carne de si.

A luz, raríssima e por vezes rebrilhando forte em cada giro suspenso da forma despendida, renascia queimando na brasa que fazia as vezes de maestro para a sinfonia dançosa. Meus olhos ardiam pela proximidade do calor braseiro, e apertavam-se tensamente contra as pálpebras que a ambos emoldurava diante da nuvem cinzamente e etérea a circular.

Quanta insuficiência diante da minha constelação de formas opacas, que o meu tempo de mim até mesmo me engolira aos pedaços de saborosa fruição. Em giros e voltas a vida ia se abrindo por completa e dando-se a mim por inteira que era, quando eu, simples e plenamente, me vertia pelo refluxo a me despejar de mim na vida aberta.

Suspendi-me então às formas dos rodopios entrelaçantes, que absorvi em minha corpórea circunferência elíptica da vida aberta: na qual eu busquei perder toda a opacidade com que eu escurecia toda cor do rebrilhamento desta vida aberta, lançada com todo seu peso para cima de mim. Circunferências em plenitude de formas, que deslizavam naquele ar do quarto sutilmente escurecido pela raríssima luz rebrilhante em cada elipse a percorrer minha existência, sequenciadamente desprendida neste desenho entretecido figurando nas imagens circulantes de mim. Ponteadas todas em pequeníssimas (porém extensas) proporções já cruzavam o céu imaginado-lhe rabiscado por meu corpo naquela constelação dentro da qual me percebia subindo de mim até desmanchar-me na plenitude escura do teto: onde a vista não mais podia vê-las e assim não mais dançantes em clamor girante da melodiosa voz do meu verbo tão voluto, que meio à constelação da vida aberta era não mais que lampejo face ao estrondo daquela abertura da vida prostrada perante meu apagamento.

Estrondo que era o trovão da vida aberta, lampejo apenas me restei nele a compor o silêncio da cristalização opacizante de mim.

D.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

BSB.

Para André Caparelli.


Everybody knows that our cities were built to be destroyed
You get annoyed, you buy a flat, you hide behind the mat
But I know she was born to do everything wrong with all of that
She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God
Before the flood, after the blood, before you can see
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea.

(Caetano)

Não sou daqui. Talvez isso me cause o sentido. Mas por vez e vezes desacredito. E me acerto ouvido de consenso vocês que nasceram no lugar. Brasília é uma cidade estranha. A sigla que usam é igualmente estranha - BSB. Pra mim parece exatamente trair a linearidade do Lucio Costa. A letra S causa isso. Não os B’s, que de ponta a ponta despontam de modo a firmar a linearidade concreto-modernista. A coisa fica desarmada é pelo S, que entorta. Brasília não tem esquinas. Foi o que me avisaram antes de aceitar o convite de férias. Quer ir? Os coroas vão viajar e a casa é nossa. A gente pode ir ao flat dela. Ficar ali e ver o que ela anda pintando. E certamente ela vai gostar de rever você e te ver por lá. Vai gostar. Só não tem esquina. Mas isso não atrapalha as pessoas de se encontrarem. Eu não gosto mesmo de esquina. Tem coisa melhor. E quero ir.

Os coroas vão mesmo viajar? Sim, e te digo - a casa será nossa...


Falta alguma coisa. Vou dizer. É como um vazio. O Lucio Costa não devia acreditar muito que isso sairia do papel. Por isso esqueceu. Diz aí. Acho que chama plano piloto, porque plano. Não se sobe nunca a não ser por escadas, não é mesmo? Não ocupou bem os vazios. Mas hoje os vazios são completos. Vazios funcionais e que escondem a cidade, dizem por aí. Cidadescondida. Não parece morar tanta gente assim. Estamos em que quadra? Asa sul ou norte mesmo? Esse céu não pára de ficar azul? Precisa ver de noite. Aqui é o coração do pássaro. E se você quiser mesmo podemos ouvir e até ver ele batendo as asas! Vou calar a boca, fumei demais e fico dizendo muita merda. Pode dizer, pois a mim me ajuda a entender isso aqui. Cidadescondidamente, você diz. Ela diz mais – entre minhas pernas andantes mais as dele e outro alguém que pernandantemente seguia junto de nós três e agora não sei mais quem era no nome – é pra conseguir te vigiar. Punir. Tudo tem perspectiva linear de infinito. A cidade é um jogo, e em situação tipificada de sociedade de controle esperava-se poder vigília plena, panopticamente. Não é só isso, eu li em algum lugar: as cidades cristalizam um velho sonho humano com o labirinto. Entende, cidadescondidamente, os vazios do Lucio? Acho que posso. Posso mesmo. É como eu entendo. Mas é bem mais divertido que Alphaville, sem o egotismo do computador godardiano. Certeza, pois não há egotismo. Cidadania de controle, apenas. Burocracia traçada nas lussóbridas linhas do plano piloto, sem egotismo. É, o Lucio Costa sabia.

Sabia porra nehuma! Isso não atrapalha muito, desde que você tenha amigos. Que saco vocês dois. Ficam falando disso o tempo todo. Saco é você que não consegue conversar com a gente. Nossa, você é bem mais chato que eu imaginava. Minha filha, a culpa é sua por ser incapaz. Vai se fuder, cretino! Deixa minha incapacidade comigo. E tome beijo na testa. Entre eles, as coisas se resolvem assim mesmo.
Alguma coisa mais? Não. Já temos o bastante. Pega algo doce agora. Mais tarde vem outra fome, larica mesmo. Duas barras de chocolate, então. Um meio-amargo. Não era doce? Meio-amargo. Pipoca de micro-ondas e coca-cola. Vou pegar mais uma lazanha. Não precisa, pois sobrou uma caixa no congelador desde ontem. O cigarro é meu. Pega uma carteira de Marlboro pra mim; não gosto do seu cigarro. Vou passar no cartão, e vocês deixam a grana comigo. Estou sem um puto, meu Querido. Não tem problema. Sua parte eu cubro e não tem erro. Amanhã a gente vai sair na nite, né? Prefiro o festival de cinema na academia de tênis...

Pode ser, mas Gates depois, né fia!

Uhrg, estou cansada da vida aqui mas vamos sim. Só não tenho grana e, assim, terão de fazer intera pra eu poder ir junto. Sem problema. Quê que a gente vai ver primeiro? Pega o Twin Peaks! Minha filha, eu quero ver os Spiders from Mars! Cala a boca e aperta um aí antes de assar a lazanha. Antes é melhor ouvir música. Verdade. Eu escolho já que vocês não se entendem de sim a respeito do que vamos ver. Brigado, depois eu fumo, é que ainda estou bem chapado. Hum! Tomorrow never knows, do caralêo man! Melhor musica do Revolver. Nem é filho, I’m only sleeping é demais. Aquela guitarra em reverso, zumbido distorção de mosquito, é coisa muito genial. Concordo, mas passa o fumo pra mim e vai lá ver a lazanha que já deve ter ficado no ponto. Tomorrow never knows é do caralêo demais man! Onde a Normal está, ein? Deixa a gata quieta, ela não gosta mais de você. É de você que ela não gosta. Cansou da sua cara de todo dia. Por isso ela não se aproxima mais de mim. Sabe que eu vou embora e você vai ficar. Caralêo, vocês são muito chatos. Ficam brigando. Vou tirar o disco, pois eu nem posso ouvir o que está tocando. É isso aí! Esses dois parecem duas velhas. Cala a boca e vem aqui pegar os pratos que não vou ficar pajeando ninguém. Posso dar uma bola? Claro, querido! Você é tão gentil. Devia ensinar um pouco disso a seu amigo, sabia... Bem, eu vou embora. Não vai comer? Não, só passei pra ver como andavam as coisas. Amanhã venho com mais tempo. Dia de folga, sabe né. Desce com ele pra mim, pois a portaria está com problema. Claro. Te amo, sabia? Eu também. Por isso vim de longe. Você pode descer pra abir pra mim. Ela chegou. Oba! Ãn, já ia pensando que ela te deixaria sozinho aqui. É. Que bom! Quer lazanha? Sim, morrendo de fome. Vem em hora certa, não é? Coloca outra coisa que não agüento mais comer ouvindo isso. Muito chato. Tem razão. Chato mesmo. O quê? Escolhe do seu gosto. Tá bem. Ui! Mandou forte. Adoro essa música! Também. Escolhi por sua causa. Ocean é vocal do John Cale, né? Não sua besta, do Elvis...
A louça é sua. Porra nenhuma que é minha. Você não fez nada! E você? Já veio tudo pronto, só ficou olhando pelo vidro do forno. Muita folga sua. À merda, vai! Deixa que eu lavo esse lance. Não, você pagou quase tudo sozinho. Ele lava. Eu não. Ela lava. Não pagou e chegou na hora de tudo pronto e comeu feito uma morta de fome! Cretino! Mas é verdade. Eu lavo. Deixa essa merda toda aí então.

Twin Peaks ou o Bowie? Não, você não escolhe nada. Cretino! Ele escolhe. É mais sensato que nós. Ah, não quero ver o Bowie. Twin Peaks é mais clima, não? Concordo muito! Sabia da sua sensatez. Sensatez porra nenhuma. Tudo querendo te agradar. Vai se ferrar, raputango! Sério mesmo, eu também queria Twin Peaks, mas antes queria alguma confusão pra ficar mais clima. Acende a ponta aí perto de você. E deixa a Normal ficar onde ela quiser, seu chato!
Eu nunca entendo esse anão. É o braço dele, seu incapaz! Incapaz é você, minha filha! É o braço dele? E sempre cortina vermelha né... Posso pegar um cigarrinho dos seus? Pega um pra mim também. Alguém quer coca? Eu quero, traz aí pra mim também. Não, brigado! Lembra daquela parte da rosa azul? Não entendi porra nenhuma. Eu também não. Não é pra entender. Também acho. Mas vocês já estão entendendo assim. Vai começar com isso de novo? Achei que já tava de bom tamanho na rua. Falando sobre a linearidade do Lucio. Isso aí não é nada linear. Eu acho muito linear. Você sempre acha tudo pelo contrário. Acho mesmo. E você é incapaz demais. Muito limitada. Limitado é você que nem consegue me comer direito, seu puto! É verdade, meu pau não quer subir mais. Eu acho que é o ócio dessa cidade do Lucio. Não sou mais daqui de BSB. Meu pau não sobe mais daqui. Meu pau não é mais linear. Pára de falar merda! Você fala muita merda mesmo...não imaginei que fosse tanto quando havia me alertado sobre ele. Eu te disse, ele é anormalizado por essência. Sua buça é linear, meu pau não. Olha, bora pro quarto e vamos deixar eles aqui, já que a gente não consegue gozar mais junto. Eles conseguem. Eu ouvi vocês aqui no sofá noite passada. Achei lindo o som do amor de vocês! É verdade. Mas você tenta me comer com sua pica alinear? Nossa, você é tão escrota. Muito baixa. E você moralista de pica mole. Quer pegar no meu sovaco? Não, brigado! Olha, vamos logo que eles são dois lindos e a gente não tem mais o que ficar fazendo por aqui. Sempre brigam assim? Não sei, poucas foram as vezes que estive junto dos dois. Mas se amam, se amam assim. É, penso o mesmo. Eles também. Adoro sua boca. Sua língua me enlouquece, sabia? E essa música... Ai! Machucou? Não. Eu gosto. Mas é que preciso gritar. Maluquinha! Te adoro. Quando mesmo você vai embora? Ainda não sei. Fico até sobrar a grana pra poder voltar. Não volta. Fica aqui. Tudo bem, vamos sair pra gastar o que ainda resta! É verdade que ontem vocês roubaram o brechó? Anhan. E como foi? Nada de mais. Queria pagar. Mas não tinha ninguém lá. Melhor, tinha. Mas os malucos enconstaram a porta e trepavam dentro da cabine. Aí eu e ela entramos e levamos a sacola com as coisas que havíamos reservados pela manhã, quando passávamos por lá, porém, sem a grana. Queria ter estado junto. Não foi nada de mais. Na locadora foi bem mais legal. Os filmes e o vídeo com a apresentação do Dizzy mais a Ella. As atendentes estavam na cantina. A gente ficou com medo. Até pensei em devolver quando estávamos no carro. Mas não quis. Ficou pesando por um muito eu ter ferrado o cara. Ter causado demissão dele e tal. Ele trepava, feliz. Mas não mastiguei muito isso e paramos no Barzão pra tomar cerveja e jogar sinuca depois de levar ela pra montagem da exposição.

Rimos muito e depois fomos ver o jogo. Depois passamos no CONIC pra pegar ela na Dulcína e ver uns discos enquanto acertava e terminava tudo pra exposição da noite. Bebemos pra caralêo. Acho que foi por isso que ela tava chamando ele de pica mole moralista. Nem a língua devia conseguir movimentar pra fora da boca. Eles se amam assim. Nós, não.

Não sou daqui. Talvez isso me cause o sentido. Mas por vezes desacredito. E me reacerto ouvido de consenso vocês daqui. Brasília é cidadestranhamente uma Cidadestranha. A sigla que usam é igualmente estranha - BSB. Pra mim parece exatamente trair a linearidade do Lucio Costa. A letra S causa isso. Não os B’s, que, de ponta a ponta, despontam justamente firmarmando a linearidade de concreto modernista. A coisa fica desarmada pelo S, que entorta. Brasília não tem esquinas. Não sou daqui. Talvez isso me cause o sentido. Mas por vez e vezes desacredito. Que já subtraído de B e S ou B dispenso e credito. Que sem s no de_acredito me faço naquele o de acreditar. E talvez isso me cause o sentido. Bem que sou, se sim e se não daqui, cidadestranho de mim.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

Corpalmificante – ou da escritura no olho.


para I'll be your mirror, uma canção do velvet underground


Uma dor que dói corpo e alma, inteiramente. Não sei o que me aconteceu. Sei apenas o que narro: inteiros, doem corpo e alma. Começa de trás e logo vem pra frente. Da frente parece juntar na parte de trás. E dói inteira e plenamente. Sou meu corpo na alma, inteiros em mim. Com alma no corpo, não me separo. E sigo e narro, corpalmificando. Se parar, já não sou inteirocorpalmificante. Tenho um revolver na gaveta, que pego em minhas mãos. Tiro dele todas as balas, pois não quero me matar. De mim, cada seis tiros. Dou pra mim também mais seis vidas, que somo a única que vivo. Nunca quis me matar. Que me matar seria o ato consumado. Viver, a única potência total. Tirar alma do corpo, assim, seria descorpalmificar. Prefiro contar no carrossel seis tiros tirados que não atirei, seis vezes tirando. Isso é meu jogo, esqueço a dor inteirocorporificada da frente e de trás. Ela ainda dói, pois de doer carece meu jogo. Acordo no dia seguinte, um pouco depois das dez. Pego outra pasta de dente. A antiga ainda está cheia. Pego outra na gaveta do armário porque o dia pede outro sabor. Um outro gosto. Que não me lembre mais do anterior. De certo eu pegarei outra pasta amanhã. Outro dia. Outro gosto ao saber do sabor. Mas sou sempre eu mesmo no olho do espelho - da frente pareço juntar na parte de trás a parte que sou, e, de trás, já na frente, o que exatamente atrás pareço juntar pela frente que olha o olho à parte do todo. Então erro. O espelho é que sempre é o mesmo no olho que vê o espelho. Comprar um outro espelho, então, já novo de mim. Quero ver minha outra imagem no olho em que sou repetidamente outro através do meu olho que está no espelho. Outro, e então espelho: outro, já no espelho: outro, e não mais espelho. Mas serei ainda eu mesmo.

Mesmo não sendo nesse olho do espelho... eu mesmo e não o outro no olho espelholhado. Outro, apenas espelho. Mais tarde compro o novo espelho. Meus tênis estão gastos mas me levam bem pelas ruas. São macios e por isso me confortam os pés. Ando muito pelas ruas e preciso desse conforto de tênis envelhecido. Por isso insisto nesses tão gastos. Meio a tanta gente que passa, não gostaria de sentir a dor voltando. Subindo pelos pés. E desde logo sendo aquela que junta a frente na parte de trás: eu todo. É melhor senti-la cintilar em casa. Em casa eu sei como domar a cintilação da febre que ela me causa. Às vezes, a música ajudar: escolhê-las em uma seqüência pessoal, solitariamente, ajuda esquecer. Daí descer mais uma do meu set-list no Media Player e começar a tocar uma velha canção companheira:

[ rorrim ruoy eb ll'l_I'll be your mirror

wonk u esac ni, r'u tahw tcelfeR_Reflect what u'r, in case u don't know
tesnus eht dna niar eht, dnid eht eb I'll_I'll be the wind, the rain and the sunset
emoh taht ot rood ruoy no lhgil ehT_The light on your door to show that u'r home
dnim ruoy nees sah thgin eht kniht u nehW_When u think the night has seen your mind
dniknu dna detsiwt r'u edisni tahT_That inside u'r twisted and unkind
dnilb r'u taht wohs ot dnats em teL_Let me stand to show that u'r blind
sdnah ruoy nwod utp esaelP_Please put down your hands
u ees I esuaC'_'Cause I see u

wonk t'nod u eveileb ot drah ti dnif I_I find it hard to believe u don't know
r'u taht ytuaeb ehT_The beauty that u'r
seye rouy eb em tel t'nod u fi tuB_But if u don't let me be your eyes
diarfa eb t'now u os, ssenkrad ruoy ni dnah A_A hand in your darkness, so u won't be afraid

dnim ruoy nees sah thgin eht kniht u nehW_When u think the night has seen your mind
dniknu dna detsiwt r'u edisni tahT_That inside u'r twisted and unkind
dnilb r'u taht wohs ot dnats em teL_Let me stand to show that u'r blind
sdnah ruoy nwod tup esaelP_Please put down your hands
u ees I esuaC'_'Cause I see u

rorrim ruoy eb I'll_I'll be your mirror ]

Lembro as coisas que preciso fazer na rua. Antes, o que levar do meu quarto comigo. Nunca é nada demais. E ainda assim preciso repassar tudo por minha cabeça. Narrar pra mim o roteiro do dia. Saber como preciso executar minhas ações. Onde preciso entrar. Talvez até o que não possa deixar de falar. Tenho boa memória. Mas dificuldade de realizá-la em atos cotidianos. Por isso, tenho de narrar pra mim o roteiro todo. Comprar cigarros antes de entrar no ônibus. Não vedem mais cigarros nas Universidades. O cerco vai se fechando um pouco mais a cada novo dia. Um pouco da política de saúde pública. Eu entendo. Um pouco da sujeira política de lóbis no Senado. Nem mesmo os cafés parisienses conseguiram esquivar-se. Não há nada a fazer. Hoje em dia, reivindicar é algo pouco usual. Em outros tempos, reivindicava-se por muito pouco. Revoluções, um conceito tão fora de uso, banido do léxico reivindicativo, aconteciam por excesso de liberdade e não por sobrevivência. Assim são as coisas, eu não entendo, mas narro, e Maio é apenas o próximo mês na ordem do calendário e ninguém acenderá um cigarro em comemoração. Acender esse cigarro soaria reivindicativo, diriam. “Daqui a pouco, meu amigo, você não compra mais cigarrinho em nenhum lugar”. Eu nunca esqueço. Os amigos deveriam agradecer. Agradecer pelo meu dom da narrativa prévia ao pedir cada cigarro com a desculpa de esquecimento. Não importa. Compro mais uma carteira de cigarros e nem percebo que subiram novamente os malditos preços. (Percebesse, perceberia também que o tempo já vai passando.) Recusar a gentileza de levarem minha mochila. O Campus chega logo e não gosto de ficar tirando a mochila. Dá trabalho retirar das costas e pegar meu player do bolso, de modo a passar as alças. “Brigado, não precisa”. Entregar os livros é coisa importante, pois perdi o prazo pra renovação on-line por me ocupar tanto com a dor do corpo inteiro. Apertar a mão de um amigo e beijar uma amiga. Importante demonstrar carinho por quem você gosta tão sinceramente. Narro tanta coisa que não me esqueço de comprar espelho. Deveria vender na cantina. É, seria mais fácil. Assistir às aulas, lembrar do que li e que discordar é mais poético que aprovar com um gesto da cabeça. Atualmente, porém, eu ando cansado e não procura mais esse tipo de poesia na vida. Lembrar de ir ao banheiro e de ver meu outro no espelho que olho. De pegar os textos do próximo seminário no xérox. Imprimir a notinha com a listagem dos textos e aguardar meu número de senha. De saber que eu estou vivo seis vezes mais que todos os demais e que tenho a mesma e única vida que eles. Lembrar que acho a vida cada dia melhor e não me culpar de otimismo. Só não quero estar morto, já disse. Quero outro espelho. Outra pasta de dente. Outro sabor de dia. Outros dentes escovados no espelho. Não quero os seis tiros, que tiro sem atirar seis vezes tirando. Quero outro no espelho. Meu outro, no outro em que sou espelhado. E sentir corpo e alma entrelaçados. E eu, de vez corpalmificando e corpalmificado. Lembrar de narrar pra mim toda essa história que eu invento pra não me esquecer. Da importância de ter tênis confortáveis pra dor não me atacar subindo pelos pés. E me achar dorincorpado, vindo da frente juntar na de trás. Saber da importância de aceitar o convite pra cerveja e conversa depois das aulas. Sair durante alguns dias da semana e não lembrar das horas. Debater algum processo criativo. De conhecer cada dia melhor as pessoas. Se “conhecer” soa muito pesado, ficar contente de poder sacar mais precisamente o barato que pega pra cada uma delas. Deve ser assim. E não importar por sermos diferentes. Desde que não me encham o saco e tenham paciência com minha boca de perversa ironia e, vezes por essa justa medida, boca de sincera amizade. Perversidade e ironia são temperos de grandes amigos, sempre soube. E meus dentes são grandes por conta disso. Expressam o tamanho de cada amizade mordida por eles nessa vida com a qual entrelaço a minha narrativa cotidiana, da qual não me deixo esquecer. Não importa se somos diferentes. Lembrar de pegar a próxima cerveja se eu não estou falando muito. De como me irrita o copo vazio. De acender um cigarro e fumá-lo. De saber que assim estou corpalmificado. E de que, mesmo lembrando, narrando, não comprei o novo espelho. De que vivo seis vezes mais que cada um deles que estão presentes à mesa. De que terei de abrir outra pasta de dente pela manhã do dia seguinte. Narrar uma nova compra de outro novo espelho. Meu outro, no outro que sou no espelho. De que antes a dor vem me doer, corpinteiradamente. Que disso, disse, depende meu jogo. De que é possível achar gosto novo nos dias. De tirar novamente os seis tiros que tiro pra não atirar contra a vida. Pra lembrar que vivo seis vezes mais que cada um à minha volta. Mas que vivo a mesma e única vida viva de cada um deles. Do prazer nos meus tênis surrados pelos dias e passos com que ultrapasso por esses dias. De comprar novo espelho, por querer minha outra imagem. De voltar pra casa e saber que há gosto novo no dia. De pensar nela indo embora e preocupar se vai chegar bem em casa depois de ter me deixado aqui com minha dor de corpo inteiro. E não precisar narrar que gosto tanto dela quando juntos estamos. Dou pra mim mais seis vidas, que somo a única que experimento vivintensificado no gosto da pasta de dente pela manhã. E lembrar de narrar que retirar alma do corpo seria descorpalmificar. E de que amanhã eu vou mesmo comprar o novo espelho. Mesmo sem poder ver minha outra imagem no olho que vê. Eu mesmo e não outro no olho espelholhado. Outro, apenas espelho. Estarei de sempre corpalmificado nos dias e já nos gostos que colocam aos diferentes sabores de pasta de dente. Vivo e sei viver seis vezes mais que cada um à minha volta. Mas que vivo a mesma e única vida viva de cada um deles – de sempre, do corpo alma fica. E eu, corpalmifíco seis vezes mais nessa mesma e tão única vida viva que narro pra mim. Meu outro, no outro que sou no espelho da escritura que narro corpalmificando. Começa de trás e logo vem pra frente. Da frente parece juntar na parte de trás – e narro meu outro exatamente no outro que sou e me espelho narrado já de seis vezes mais espelholhado pela escritura do olho que vem me ver, de mim, inteirocorpalmificado.

D.