sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Fotografia desmanchando.

I left a woman waiting/I met her sometime later/ She said, I see your eyes are dead/ What happened to you, lover?/ What happened to you, my lover?/ What happened to you, lover?/ What happened to you?/ And since she spoke the truth to me/ I tried to answer truthfully/ Whatever happened to my eyes/ Happened to your beauty/ Happened to your beauty/ What happened to your beauty/ Happened to me
I Left a Woman Waiting, Leonard Cohen
Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uam foto é sempre invisível: não é el a que vemos .
Barthes
Depois de certo tempo, tão pouco te importa que as coisas aconteçam. Tampouco que aconteciam. Importa, por outro lado, lembrar que acontecem. E que aconteceram. Se antes não sabia, por agora, bem e mal, posso então saber. Algo já se apagava: como um foco perdido aos pouquinhos, sem mesmo que você percebesse por tão gradativo que era.
Ela admirava aquelas casinhas de alpendre exposto à vista de quem passa. Casinhas uma a uma e ao lado da outra, onde certamente vivia a avó de alguém na nossa idade. Eu observava as árvores, que, aos sábados, são mais verdes e bailam uma a uma em par do vento dançarino que as tira da espera. Uma a uma e por vez.
Trazíamos as sacolas que eram feitas em um papel tão branco e em alça de tiras vermelhas; e ela. Achava bonito aquilo em nossas mãos, e o sábado ensolarado. Quando chegamos ao Memorial da América Latina, eu senti uma sensação bastante gostosa. O vento, que brincava com meus cabelos e afagava o rosto dela, trazia mais movimento aos nossos passos passeantes. Por trás dos óculos-escuros eu escondia do sol forte os meus olhos ainda dilatados. Mais que as obras de arte, eu quis ver o acervo da biblioteca e as revistas e todos os livros e catálogos que enchiam as sacolas em nossas mãos. Ela me dizia não ser muito simpática aos modelos arquitetônicos do Niemeyer, coisa muito modernista segundo seu gosto. Eu gostava e gostava de ter feito chegar ali cruzando a ponte suspensa, e passando pela sombra do semi-arco e feliz. Depois tentava dizer que era assim mesmo, muito modernista e que era mais uma concepção arquitetônica de obra de arte que projeto de arquitetura; coisa que cansava e não rendia reflexão.Foi quando, depois, saltamos do metrô pertinho da parte mais baixa em Pinheiros, com as sacolas e ela admirando os alpendres e os azulejos muito coloridos e que formavam imagens que somente pelo olhar dela eram focalizadas. Andaríamos um pouco Pinheiros à cima, mas não importava, pois, juntos, íamos fazendo nosso traçado a caminho de nós dois. Toda a sujeira do início, que se misturava à confusão das ruas que, passo a passo, iam perdendo a tranqüilidade do princípio; quando as árvores ainda dançarinas e belas. Todo o caminho. Subida e calmamente. Paramos numa lanchonete, quando tudo começava a ficar mais limpo apetitoso do estômago. Quase Alto Pinheiros, então. Ela comeu com mais vontade que eu, que senti maior vontade em lavar o rosto na pia do banheiro e retirar de mim o suor cansado.Ela gostava muito, mesmo antes de chegarmos. Admirava as vitrines, que, de lado a lado, emolduravam a nós dois durante a subida pela rua com belas lojas de móveis; para todos os gostos e lembrava da mãe, que também gostaria de admirá-los ali estivesse. Eu um pouco apressado, pensando que mais à frente já teríamos o que admirar com mais gosto; manuseando. Antes de enfim na Benedito Calixto, paramos. Ela pegava das coisas à mostra na calçada umas caixinhas, porta-jóias. Eu, perguntava pelo valor de um toca-discos portátil; bastante desejável e, a meu gosto, porém, muito caro. Eu pensava comigo, nada de aura contemplativa; tudo ao alcance e poder da mão. Você pode manusear e sentir por um instante seu. Eu disse que devíamos subir, e vir descendo, pois é o melhor sentido de trânsito na feira. Não por uma orientação melhor em se desviar das pessoas, mas sim por um interesse admirativo das coisas expostas. E desviei nossa rota nos fazendo então subir. Ela pareceu aprovar. Divertiu-se com os móveis antigos e impregnados pelo tempo. E pediu que eu tivesse calma, pois sua contemplação pedira o mesmo dela. Eu sabia disso; a pressa toda era por estar ali. Ela se encantou com a banca das câmeras e filmadoras. Perguntou o valor de uma Super-8 enquanto eu calculava o brilho no olhar dela. Simpaticamente pediu ao senhor presente que pudesse levar a mão naquela pequena jóia. Sabendo do mesmo brilho naquele olhar que eu já sabia, o senhor consentiu. Trocou as lentes e apontava na direção de alguns cantos; e trocava as lentes como quem procurasse por um foco bastante especial, filmando uma cena melhor. Depois passou a mim. Fiz o mesmo. E era admirável. Aquelas lentes envelhecidas, trocadas uma a uma. Trazia a imagem de um outro tempo, já de muito passado, aprisionado ali na Super-8 e no jogo de lentes de caduca nitidez. Vimos juntos um tempo desprendido de nós, que o apreendíamos à parte de todos ali. E depois deixamos a câmara sob os velhos cuidados do senhor da banca, pois não havia de ser nossa, como o tempo que as lentes nos proporcionava.
Um outro senhor da banca ao lado nos conquistou. Sacou uma Polaroid assim que deixamos a banquinha anterior. Nas mãos ele a entregou a nós para em seguida tomá-la dizendo que estava funcionando e ainda com filmes. Tirou uma fotografia instantânea naquela cartela de papel meio amarelado que tinha junto da câmera e nos deu de imediato. O papelzinho amarelecido desenhando a nos dois. Primeiro, espantosas silhuetas fantasmáticas, como borrões. Depois uma par de perna é desenhado e coloca-nos de pé ali bem diante dos próprios olhos. A seguir, um rosto, uma boca e dentes sorrindo. Os cabelos arredios e nossa cara de felicidade compartilhada. Por fim, o abraço que unia e assim desenhava por completo a fotografia instantânea, cuja composição dada pelo instantâneo faz colocar a uma altura a mais nublada tamanha poesia daqueles tempos em o instantâneo nada tinha que ver com imediato; imediatamente e desprovido de qualquer revelação de mágica maravilhosa que deve haver. Depois seguimos. E paro na seção dos discos enquanto ela via coisas mais interessantes. Fiquei feliz por achar um vinil com a trilha do Blow-up, composta pelo Herbie Hancock e todo seu vigor tão conhecido. Dentre muitos outros acabo encontrando um vinil da Elza Soares, que estava divinamente bela na capa. Lembrei de quando ela me dera a boa orientação de modo a acertar em minha opção de escolha por um presente futuro. Que se fosse disco, dissera-me, fosse um da Elza e não outro.Ela ia vendo uma banca de brinquedos. Admirada por encontrar uma boneca Moranguinho - coisa que toda mulher à idade dela tivera em sua tenra infância de menina - levou imediatamente ao nariz procurando pelo cheiro já despedido da empoeirada boneca. Não era nada ridículo, pois o cheiro está na memória que tinha da infância que teve no tempo da boneca Moranguinho aromatizada.
Descemos de pouco a pouco, e, assim, dedicamos ali toda nossa tarde de sábado entre as coisas da feira; também aos diversos tempos da feira. Por que em feiras desse tipo da Benedito as coisas podem coexistir, coexistindo diversos tempos, diversas revelações instantâneas. Eis a sorte das férias... lugar bem diferenciado e em meio a cidades, onde, via de regra, cada esquina virada leva a algo diferente; onde tudo pode acontecer à cada esquina escolhida; raspagem hipertextual de possibilidades escolhidas na contingência traçada pelos passos que caminham por cima da transparência pisada. Como um foco perdido, à maneira como escolhíamos a lente na Super-8, as coisas se perdem; esfumaçam. E depois de certo tempo, tão pouco te importa que as coisas acontecem; tampouco que aconteceram. Importa, por outro lado, lembrar que aconteceram; que aconteciam. Ela brincou de ir embora. Eu, ser livre. E nós de sofrer. Disse que queria um amor escrito, uma escrita de amor. Eu escrevia com ela entretecida em mim; em várias e variadas vezes com ela entretecida nas vozes escreventes. Buscava nesta qualidade a perda da carta não enviada. Escrevia para o futuro reescrever o passado; mas ela não conseguira ler a escrita que escrevia no amor entretecido as vozes reescrevendo-se uma na outra; misturando esses tempos. Por mais puro egoísmo, sei que essa escrita ela não acha em mais ninguém.
Ela foi embora, e eu fiquei com a Polaroid amarelecida, que hoje perde a cor que nos desenhava em outra época e numa época já passada; agora ainda mais passada. Ao contrário daquela revelação, estamos nos desrevelando. Primeiro o abraço que unia ela e eu em nós. Daí o sorriso que compartilhado em felicidade entrelaçante. Mais um pouco e a boca se desmancha. Instantaneamente, aqueles traços, que na fotografia desenhavam nossas pernas, em cima das quais nos sustentávamos de pé, desaparecem, e, então, despencamos. Sobra uma silhueta fastasmática, irreconhecível no papel que vai perdendo cada traço de nosso desenho.
Dizem que fotografias param o tempo; esquecem de dizer, todavia, a que preço o tempo se deixa parar nessas fotografias ingênuas no trato com sua implacável insaciabilidade.

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