There’s two kind of romance since time began:
There’s the real true love, and that good old jive;
One tries to kill you, one helps to keep you alive.
I don’t know – what kind of blues I’ve got.
There’s no rest for weary; I’m going to see Snake Mary;
‘Cause I don’t know what kind of blues I’ve got.
(I don’t know what kind of blues I’ve got. Duke Elligton)
Il y a seulement deux choses: c’est l’amour, de toutes les façons, avec des jolies filles, et la musique de la Nouvelle-Orléans ou de Duke Ellington. Le reste devrait disparaître, car le reste est laid, et les quelques pages de démonstration qui suivent tirent toute leur force du fait que l’histoire est entièrement vraie, puisque je l'ai imaginée d'un bout à l'autre.
Antes, deveria dizer que jamais conhecera aquela sorte de nome. Ou melhor, já que o caso é bem dizê-lo, até poderia recuperar uma e outra recordação submersa recorrendo a minha memória profunda. Mas escavá-lo, uma vez bem dito, seria esforçar-me numa vã arqueologia. A mágica desse nome, dessa palavra-escondida, escandida sub-repticiamente através de uma sintaxe bastante espessa, submete ao esvaecimento todas as demais lembranças possíveis de serem retiradas desse poço de água turva ao qual chamamos “memória”.
Eu sonhara durante muito tempo o sentimento evocado naquela palavra, naquele nome. Não por inteiro, mas sim em partes. De princípio, sequer a palavra’parecia, tampouco um nome se formava. Tudo vinha até mim bem mais com um mistério cuja solução não acharia. Depois, com o passar dos dias, comecei a apreendê-lo não mais misteriosamente, e sim como mistificação. Enfim, algo que não compreendia, mas do qual poderia, quiçá, possuir a chave. E assim confiei na possibilidade de descobrir em algum instante do meu sonho o segredo que me permitisse lê-lo, aproximar-me do deciframento que desvelasse o ato de criação.
Perto desses dias, quando o sonho despertou em mim, eu lia um pequeno romance de Boris Vian. Algo daquelas páginas de Vian ressoou em mim e, daí por diante, me acompanharia traiçoeiramente feito um cão à espreita da mordida: “Ocupo meu tempo escurecendo meus pensamentos, porque a claridade me incomoda”.
Tal leitura, como é bem certo supor, sucedera à manifestação da imagem onírica. Colhi, dali, algumas sementes e sobretudo semeei em meu peito aquela através da qual floresceria o nenúfar cujas pétalas abrir-se-iam dentro de mim trazendo de uma vez por todas, palavra por palavra, o excerto a pouco citado. De mais, fiz situá-la com tal precisão até por fim transformá-la na epígrafe dos meus dias passados diante da mistificação gramatológica através da qual descobria gradualmente a palavra-escondida não inteiramente naquela mulher, mas, deposta da essência, tornando-a ato apenas a partir de mim. E quando buscava ler os movimentos daquele corpo, despontava dali uma recôndita sintaxe dos afetos.
Os sonhos - como nós nos acostumamos a rogar durante muitas manhãs - bem poderiam ser difratados uma vez entrechocando-se com realidades experimentadas e, nesse toque de ambas as dimensões, cristalizar-se-ia a geometria prismática da vida. A propósito do traçado que diz o contorno dos meus ângulos, é bem mais sensato considerá-lo a partir da peculiar faculdade de dupla decomposição que há no prisma e da qual resulta um processo de inversão neste pedido insistente.
A minha vida, digamos, prismou-se em sonhos bem quando, desperto de qualquer delírio matinal, descobri a mulher cujo nome escondia a mistificação do meu desejo sonhado.
Ela antes havia cruzado meu caminho repetidas vezes. Algo que por certo antecedera a configuração noturna do traço desenhando sonhos nas páginas do meu anseio. Ou melhor, eu talvez irrompesse bem no meio do caminho andado por ela.
Não é questão de avaliar os destinos, e sim a contingência implicada nos percursos. E isso por vezes faz do extenso enredo da vida uma pequena troça. A questão primordial, neste caso, resulta em debater-se contra tudo, inverter os maus ventos e fazer a tempestade soprar às avessas e, assim, obrigá-la a tragar para dentro de si o desconcerto disseminado contra nós.
Ato.

Com os olhos bem fixos na escada, eu vi a mulher passar. O dia dava uma tarde calma, porém de céu revolto, como nessas ocasiões em que as nuvens se agitam com tempestuosidade. Expressava-se tão incerto que os passos dela tivessem apenas o propósito de levá-la de um lugar para o outro, como bem calha dizer sobre qualquer caminhar. Pareciam de tal modo emitir, antes, alguma melodia, algo que a orquestrasse meticulosamente através dos movimentos. Era o que, naquele instante, eu tentava desvendar, ouvir. Por isso, imaginei nos seus sapatos (de cor afogueada) os dedos que tocavam a cada um dos degraus na escadaria tal fossem as teclas de um piano cocktail, sonorizando algo bem próximo (pensei) da regência dada por Duke Ellington em “I don't know what kind of Blues I’ve got”.
E com cada um de meus suspiros eu tentava desvirar a trajetória indesejável dos ventos daquela tarde. Encontrava-me sentado, reconvalescendo-me do uso exagerado de meus pulmões; algo que me retirara quase todo o ar a ponto de levar até à vertigem. Mas quando ela iniciou a descida, orquestrando em cada um de seus passos o movimento corporal com que se fazia presente, eu já estava sóbrio apesar da fixura que meu olhar lançava àquela presença feminina despontando pouco e pouco mediante a elipse da escadaria espiralada a partir da qual eu contemplava tal composição.
Seu nome, a palavra-escondida que eu tanto sonhara naquela mulher. E por isso eu suspirava, enquanto ela descia de passo em passo e eu ia descobrindo mais uma vez a presença dela em meus olhos através da certeza mais tempestiva daqueles dias.
Eis que dessa maneira eu vim a saber que aquela escada, acaso escandida em cada ponto sinuoso da imensa elipse, não esconderia mais palavra alguma, bem mais escandiria o nome daquela mulher e esse nome já coincidia exatamente com o nome retirado dos meus lábios pela minha voz a pronunciá-lo suspirosamente em cumprimentos mistos de carinho e contentamento. Assim, eu soprava e soprava para longe todo o desarranjo, todos os empecilhos e a desventura. Foi com calmaria na alma que de tal modo vi Mariana virando um lance dessa escada escandida, com a sinuosidade sintática que envolve seu corpo e também seu nome, arrancando do meu peito suspiros que configuram sonoridades delicadas na voz com que buscava recebê-la nesse encontro. E descobri com toda minha alma calma que amaria na vida, ah, Mariana, que, sim, amaria na medida em que ela passava pelos meus olhos, deslizando pela liquidez da minha íris, e desfilando por todo o tablado negro do meu olhar ao qual ela já podia tomar por espectador compenetrado.
Suspirei meus desejos e quis amar aquela mulher cujo nome trazia para a vida não mais um sonho, e sim uma sintaxe dos afetos à qual, após algum tempo ladeando-a, eu confiava de maneira precipitada a palavra-escondida que eu escandira a partir do nome, mas também a partir do olhar, da boca, do movimento nos cabelos (manto de artista que preserva da exposição não merecida a criação) revelando parcialmente uma nuca tão bem esculpida, do brilho reluzente na pele que torna baça todas as demais, do timbre na fala, da musculatura nas costas e de cada pinta escondendo-se de mim, dos giros no corpo, do encanto secreto e por isso mesmo segredo acessível a tão poucos, da voz entrando pelos meus ouvidos e dizendo coisas tão agradáveis de ouvir.
Desse modo eu descobri seu nome, devassando meu desejo. Desvelei a palavra-escondida, escandindo-a para ela e também para mim.
Por tudo isso, disse jamais ter conhecido aquela sorte de nome. Buscá-lo, agora, uma vez bem dito, é apenas chamar pelo nome dessa mulher.
Desato.
Acontece que, nestes dias, o sinistro é vizinho do meu desejo e, feito borracha empunhada em mãos desventurosas, insiste em apagar alguns traços desta página já escrita e pressagia os maus agouros. Daí ela me responder desde o “limiar do sem-palavras”, do indizível que a desarmaria, enunciando-se com “o silêncio que não é mudez”.
Rogo pragas diárias a essa mão torta, adversa e insistente em desfazer a atração buscada através do meu traço reto, porque equânime frente ao infortúnio e suas adversidades.
Sei que minha sorte é apenas um suspiro bem diáfano, que procura pela luminosidade nada transparente.
E descubro uma vez mais na “Espuma dos dias” a epígrafe incerta da minha espera renhida (porque desesperada) que é a mais certa procura.
Deponho, por fim, o termo dessa sintaxe de a'fe'tos e, disso, restará a disposição anagramática na comissura labial equacionando a palavra-escondida nisso que canto com meus atos de fé.