(Ou, a pura falta do que dizer quando se quer dizer e não se diz)
How had ever thought of mastering her? With a hand of chrome and an immense Gauloise cigarette she suggested that I give up and worship her, which I did for ten years. Thus began the obscene silence of my career as a lady's man.
Leonard Cohen, Death of a lady’s man.
Leonard Cohen, Death of a lady’s man.
If I told you things I did before Told you how I used to be Would you go along with someone like me If you knew my story word for word Had all of my history Would you go along with someone like me I did before and had my share It didn't lead nowhere I would go along with someone like you It doesn't matter what you did who you were hanging with We could stick around and see this night through And we don't care about the young folks Talkin' 'bout the young style And we don't care about the old folks Talkin' 'bout the old style too And we don't care about their own faults Talkin' 'bout our own style All we care 'bout is talking Talking only me and you Usually when things has gone this far People tend to disappear No one will surprise unless you do.
P.B.&J., Young folks.
Nada de tudo isso que se mete dentro da vida é mais difícil de explicar que aquilo que não aconteceu. Não sei ao certo como você está; se magoada, ferida, ou, em suposição mais otimista, apenas se protegendo dessa dificuldade toda de atar duas linhas para as quais não se pode dar o nó da compleição.
Era pra ter sido “o que não foi” e o que foi pra “não ter sido” e é exatamente esse paradoxal vice-versa que incomoda e compele à reconfiguração confusa. Não há culpas; tampouco cerimônias de perdão. Restamos os dois frente ao horizonte da falência nos atos consumados. De resto, só mesmo este fim em que estamos e pro qual já esboçamos os dois juntos esse recíproco abandono.
Reconfigurando as cenas nessa exatidão às avessas: eu gostaria de ter sido mais morno, e assim não ter causado tanta alteração nas temperaturas que se imiscuíram uma na outra. Mais morno, talvez, algo quase neutro, pois não sei se fui febril ou frio... e você se perguntando, possivelmente na clave desse mesmo termômetro, onde vim a errar: se demasiado carinhosa, excesso cometido a ponto de incrustar-me em mim mesma tão temerosa da abertura; ou indiferente, temendo não expressar o fervor de maneira mais despojada a ponto de ser desacreditada?
E digo por você o que sequer você disse por mim...
(ReTiCêNcIaS se igualam, neste caso, aos cigarros acendidos; igualmente aos que não acendemos.)
Hábitos cotidianos, de outro modo não seriam hábitos, e parecem impedir a dilatação dos traços em que sobrescrevemos invisivelmente as notícias não dadas, os acontecimentos não compartilhados, e tudo isso protege da rotina que levaria ao pó das ruínas e todavia impede de erigir o monumento construído de modo a dizer que tudo, durante os últimos dez anos, porque quando se está mais de saída que pra entrada em torno da casa na vizinhança dos vinte só os dez últimos anos é que importam e assim desmerecemos toda a suposta metade negando saudosismos que fechariam a janela pela qual esperamos pular em direção dos outros dez anos futuros que certamente virão, será, e estamos no meio da vida, como nesses livros do Cortázar que tomam dos jogos infantis a forma narrativa e bem explicam a incapacidade de situar uma vida num ponto específico, pois quando estamos numa casa é como se estivessemos de um só tempo noutra e já noutra e por isso não mais naquela e pois não mais naquela em que acreditávamos estar e assim vivemos através de saltos e saltos até cairmos em algum ponto pra de repente percebermos que não estamos mais ali e que devemos ir adiante, sem parar numa casinha desse jogo, e sabemos disso porque nunca se deve parar porque tudo é incerto e assim ocorre de vivermos com toda a sagacidade de nunca precisar estar parado num ponto pra refletir o que está acontecendo, e dizer que durante os últimos dez anos na inflexão dos quais redobro minha imaginação eu cheguei a pensar a estupidez de como poderia ter vivido todo esse tempo longe de você e não disse tentando fazer que a confissão escapasse às ruínas e pra isso não construí monumento algum com esses sentimentos animados pela minha suposta carência.
(E neste momento você já ri de mim, pois sou eu que acabo rindo de você se escorrendo toda nessa impaciência fingida em escutar o que te digo ... através dessa sua gargalhada meia-boca e mais um cigarrinho dos seus).
Falar da sua inconstância, agora, é enunciar algo sub-repticiamente também minha insensatez e te levar por aí te segurando pela mão e sem saber a caminho do que caralhos estamos indo porque tudo o que importa é segurar a sua mão e talvez andar pela cidade e ver os prédios rasgando um pedaço vertiginoso no céu sob o qual estamos e nem mais se lembrar de comprar um sorvete, porque isso é ridículo e bonito ao mesmo tempo, ou acender um cigarrinho e talvez iremos até ao mirante sem ter porém planejado e lá de cima veremos a cidade toda pequenininha e os prédios que a punhaladas nos revelara o céu também bastante pequenos; esquecer de tudo não por irresponsabilidade, pois já temos de cuidar da vida algo certinho uma vez que não somos mais o que recusamos negando os dez anos que ignoramos da metade da vida ou só do número nessa casa em que achamos estar, e sim porque desejamos sentir juntos aquela fração do tempo em que tudo parece bem porque já deixamos tudo bem e agora estamos ali vendo tudo isso passar despreocupadamente e apenas seguramos as mãos e queremos um ao outro.
Insensatez, pois nem sei se você se dá a esses luxos do sentimentalismo enfeitado e tampouco eu, mas pensava nisso quando estávamos ali e agora já não penso mais e acredito que essas manifestações abruptadas de carinho eram tolas e sem propósito e por isso não soube aproveitar o despojamento disso e sentir que tudo parece mesmo bem a ponto de não precisar projetar nada e até esquecer que a vida abre uma janela pela qual gostaríamos, ou através da qual, deixo que você venha me corrigir, de ver o futuro e pular na direção daquilo que queremos; achar que está tudo bem sem dizer enfim.
A inconstância diz bem mais. Podemos ficar ali e comprar sorvetes e ou acender cigarros também e você me pede pra dizer alguma coisa que eu não quero falar e te olho com meus olhos apertados querendo te ver melhor e imaginar através da tela dos seus olhos o que passa pela sua cabeça quando você se cala e toma minha mão pra logo beijá-la e fazer um pequeno afago talvez tentando retribuir um carinho que te dei noutro dia do qual eu mal me lembro só por querer repetir esse mesmo carinho todavia já outro que é pra você não se esquecer e voltar a beijar minha mão que novamente te apanhará afetuosamente noutra situação até que não haja mais retribuição e seja tudo desfrutado sem interrupções.
O diabo é ter de dizer tudo isso não querendo dizer mais nada, mas a boca não cala e é como se eu te lambesse com essas palavras deixando pelo seu rosto minha saliva que é a tinta mais certa que eu uso pra escrever minha carta pelo seu rosto já que não sou bom de falar as coisas que deveria e sempre me atrapalho com as palavras na boca de maneira que prefiro escrevê-las em você, rabiscando com minha língua a nuca que a todo tempo eu tive vontade de morder e na superfície dela assistir a esse caminhozinho que se eriça e desce muito discretamente pelo seu pescoço e parece desenhar linhas pelo seu corpo por cima das quais eu devo escrever isto que te digo ou como se me orientasse na descoberta de suas espaldas, é melhor dizer a descoberta das suas costas, pois espaldas é muito piegas e tudo o que eu quero é te morder inteira sem medo exagerar na força e assim desfazer todo o afeto que introduz a vontade imensa que me sobra de estar dentro de você e me sentir envolvido pelas suas carnes quentes até esquecer tudo isso de ser morno por não saber se errei sendo picante ou insosso na pitada desses temperos com que eu antecedo a prova dos seus sabores secretos que tomo pra mim.
Quanta ingenuidade a minha querer te dizer essas coisas a respeito da metade da vida já que ela deve ser plena e nunca repartida e a plenitude disso está em esquecer tudo e não comparar nada com nada e viver sem parâmetros até que apreciemos um ao outro não qual a primeira vez (pois primeira vez já seria parâmetro, pode dizer) e sim algo espontaneamente como deve ser à maneira que acontece de a vida vir assim como uma surpresa dessas mais bestas que não tem valor maior que o próprio ato de surpreender-se e já é bastante, quase um tanto, pois o que mais importa não é o presente, mas, todo o contrário, o laço na fita que desafrouxamos e então sentimos que a alegria está toda ela em ver as duas pontas dessa fita de laço desfeito e saber que ali nesse desatamento é que está o que procuramos.
Não te direi sobre a metade da minha vida que neguei pensando todo aquele tempo em que você não estava e tampouco sobre a metade evocada com você e seus breves momentos a meu lado e do lado de quem você esteve também (de mim) e por isso é tão difícil explicar o que não acontece mais.
Desatado o laço, sobra a fita e mais ainda a surpresa: você indo embora no meu olhar que te olha nesses olhos junto dos quais eu via também e, agora, a mim, somente me revelam a imagem do quão distante já estou de você.
D.