quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Amores_úmidos


“Things vaporise and rise to the Sky”. Jesus and Mary Chain

Antes de girar a chave na fechadura e entrar no apartamento eu pressentira o estado em que encontraria as coisas: algo estaria arrancado de cada um de todos os pequenos lugares que eu bem conhecia. O que fora um lar até bem pouco tempo atrás passaria a ser de então o catre da minha reintegração.
A chuva que me acompanhara desde a saída vinha a mesma e bem fina e constante, como a indecisão de minha tomada de partido nisso que desatava pulsante durante os dias aquosos e mais recentes que alagavam a semana inteira.

Nela, a dor era certamente pontiaguda e por isso mesmo cortante. O fio dessa lâmina, não diferente, também entrava em mim apesar da distinção com que se amolava vigorosamente na pedra dos afetos.

Ela chegara um pouco mais tarde do que de costume, quando havia algo ao qual se acostumar. Pedira com voz bastante delicada – e por isso mesmo exigindo não ser retrucada – que eu a deixasse sozinha, acompanhada apenas de algum tempo hábil pra que arrumasse tudo o que precisava levar consigo e retirar-se de vez por todas da minha vida, retirando-me da vida dela.

Não havia mais o que discutir; tampouco algum acordo sobre coisas das quais abrirmos mão uma vez mais projetando a possibilidade de seguirmos juntos e amantes.

Quando um filete de água rompe as margens de um rio, por mais fino que seja o desvio, é certo que todo fluxo logo se perderá. E ainda que insistamos em represá-lo toda a vazante será a cada dia um filete a mais transbordando até que a torrente fraqueje frente ao delta de um assoreamento final sem poder desaguar no mar, pois não há mar.

Fiz como me pedira. Deixei-a acompanhada do tempo que precisava e segui até um bar dentro de cujas instalações eu pudesse tomar um trago de algo que aquecesse minhas vias respiratórias e pusesse algum calor dentro do meu peito. Músicas agradáveis podiam ser ouvidas também ali, e isso me fez sentir mais acompanhando, menos sozinho junto da bebida.

Pensei nela com muito carinho. E com muita raiva também. Sabia que ela pensava em mim com muita raiva, porque ainda retinha muito carinho nesse pensamento de mim.

Enquanto dava voltas bem lentas no copo e rebatia o cigarro na borda do cinzeiro, de modo a minimizar a brasa, coloquei-me a pensar a respeito do momento a partir do qual concluímos não haver mais o que se represar de nossas águas.Era um exercício todo ele em vão. Não se pode saber pontualmente uma coisa dessas. Vem um dia em que algo estoura e pronto – você já não consegue estancar o jorro.

A moça veio me servir a segunda dose. Eu aproveitei pra pedir que tocasse algo específico da minha vontade, pois, como era terça e já bem tarde, pouquíssimas pessoas estavam no lugar e um número ainda menor se importava com a música já naquela altura da noite... Era certo ser bem atendido nesse pedido, não só por ter sido simpático na maneira de pedir, mas também por ter cumprido a discotecagem desse mesmo bar por diversas noites durante o ano passado.
Com toda presteza atendeu ao meu pedido e logo mais trouxe a terceira dose, vendo meu copo se esvaziar repentinamente da segunda numa ineterrupta talagada. Tive vontade de parar todo meu pensamento sobre represas e barragens e convidá-la para tomar algo comigo após o fim do expediente, que logo chegaria. Gostaria tanto de voltar pra casa acompanhado dela, que era muito bonita e de lábios salientes e se penteava de um jeito que me atraia desde as vísceras. Seria bom levá-la pra casa e não perceber os vazios que percebo agora; lamber os lábios dela e logo secá-la contra meu corpo enquanto suaríamos convulsivamente até o gozo da nossa trepada.

Talvez lograsse sucesso em convidá-la. Lembro que desde as primeiras noites de discotecagem no lugar ela lançava diversos tipos de olhar, todos eles encorajadores segundo minha avaliação. Mas não consegui parar meu pensamento e imaginar essas coisas que tomam razão só neste momento.

Tudo que fiz foi pedir pela quarta e derradeira das minhas doses. E em seguida sai caminhando pela solidão das ruas - iluminadas pelas luzes de guaritas de condomínios, anúncios luminosos - e cantando sob a chuva fina aquele diabo de canção dos irmãos Reid, chamada “Happy When it Rains” e que bem pouco tempo atrás eu pedira pra que tocasse pra mim.

Ao retornar, sabia que não a encontraria mais em casa. Que também lá não estariam mais as suas coisas. E que tudo capaz de lembrar que um dia ela estivera ali - vários dias, meu Deus! - consistia no vazio das coisas, na ausência dela em cada canto da casa, em cada gaveta do armário, na falta da escova de dente no banheiro, na toalha abandonada e secando na área de serviços, no gato que não viria mais se acomodar sobre minhas costas às cinco da manhã, na minha tarefa (a não ser mais executada) de organizar os discos deixados fora da minha ordem, na disputa pelo lugar na prateleira dos livros... tudo isso.




Deixo meu corpo cair sobre a poltrona da sala, lugar tão confortável e no qual , abraçados, passamosvárias noites. Vestimos ali o aliás de tantas vezes de uma pele tão encorpada daquele mais voluptuoso carinho e nele tecemos horas a fio a justaposta costura a partir de conversas insones e assim capazes de capturar madrugadas inteiras através do novelo intricado a propósito do enredo de nossas ideias.

Logo irei à cozinha, e já vejo mais vazios pela casa. Prepararei um chá quente e dele esperarei o mesmo que buscava nas doses desta noite. Retorno à poltrona. Tomo um cigarro e, também, pequenos goles do chá. O líquido sutilmente amargo e ainda fumegante desce pelo meu corpo; vai tão profundamente peito adentro que parece escavar um novo curso para as coisas que virão a me inundar durante os próximos dias, talvez meses.

Tudo, por fim, deve se liquidar.

Do contrário, o jorro aberto através dessa finíssima brecha nas paredes do peito porá tudo por terra sem que vejamos. E já não haverá mais o que se reconstituir. Espero, todavia, que o próximo leito seja mais largo, algo mais profundo e pois capaz de acomodar águas ainda mais torrenciais, mesmo que tudo se liquide e deságue na superfície porosa da pele eriçada pelos sentimentos de desventura afetiva e volte a escoar sem limites.

Não há, todavia, represa factível para essas águas em cuja extensão e profundidade eu estou prontamente a submergir neste instante em que, através dos meus olhos, jorram as lágrimas provenientes do fluxo de sua fuga, que eu jamais poderia conter...

Tudo deve se liquidar.
E não há represa factível para essas àguas, minha Querida.
Nossos amores, úmidos.





segunda-feira, 26 de outubro de 2009

notícias: pro fim dos dias





pra Flávia, que me disse, de modo bem generoso, ler os posts deste blog.



Dum Longe e Perdido – assim posso dizer que sem nenhum grande propósito a saber venho trazido pelo levar de vento vivificado aos intentos da imaginação. Vento esse que, movido a ventanejos dum sopro O de enlear-se, se perdeu por todas possíveis idas: sobretudo as que se espelham contrárias, no haver da direção. Aos que me pedem Nome, dou de aviso que acharão em mim aquele a renegá-lo, pois, à vista de minha crença a pessoal, afirmo não encontrar maior relevância no emprego deste por que me cobram a recusa. Afinal, afora o sentenciar, que mais cabe de um nome? Uma função pragmática através da qual, sendo, O não-ser se impõe ao objeto desejoso de encerrá-lo na restrição caótica da mais absurda finalidade ocultada no solipsismo das determinações. Mas havendo todavia aqueles que ainda assim clamarem por um, apresento-me portanto de Rapsodo; um errante tal e qual ocasos que somente por intermédios do insistir conseguem algum luzir à sombra dos finais. Um sub-ser cuja baixeza vem da falta de autonomia sobre os próprios movimentos, aprisionado em fios frágeis que tanto manipulam quanto subtraem a ação. Interesso-me pela dúvida que os homens, na qualidade de seres os visitantes de si mesmos, persistem em negligenciar. Não que intente ajudá-los não, pois mesmo que contrário fosse já expus toda abjeção que cerceia o arbítrio respeitante a meus próprios atos – e que perdoem a contradição ao valer-me do possessivo a fim de denominá-los!Como quisesse ferir de embora essas limitações sobre as quais discorro em meu falar de discutição, menciono fato de ter-me dado aos afazeres de um andarilho, e foi sob tal insígnia que estive em meio a muitos tipos de homem. Por não me saber, devido à absoluta alienação em que me encontro, suscetível ao que eles estiveram e decerto ainda o estão, desfruto vantagem de poder observá-los numa análise da qual me excluo ou, a modo do que é um contra-senso, sou excluído. E nessa condição presenciei diversos fatos sim; de uns outros apenas ouvi relatos na voz dos que habitavam os por-ondes em que estive a passar na feitura de minhas andanças – assemelhando-se num idem de parecenças este a que me principio no de contar haverá de ser ao lhes daqueles os quais me dão a mim os pupilares ouvidos. Confesso num entretanto que não é, dentre os vários, o que mais me rouba a admiração. Contar-lhes-ia um outro se assim tivesse direito à escolha; sendo o que sou, vai nisto um nada de significação...Foi por então a certa vez em que, quando um homem sem nome, pois poderia ter nome que se dá a outro qualquer, constatou num vozear algo de modo a solicitarem-lhe presença à porta da entrada de sua morada sendo esta a dele. Embora estivesse em cadeira de balanço, não esperou por um novamente; foi logo ver ao que lhe chamavam naquele instante o de descanso. Abrindo a tal porta, deparou-se com o carteiro que lhe viera entregar a correspondência. Tomou em mãos dois envelopes, os quais lhe pertenciam na averiguação de posse sim. Estranhado a situação, disse ao jovem carteiro:_Por quê não os enfiaste na caixa das cartas como todos os outros fazem-no pelo corrente hábito?O carteiro mirou-o no fundo dos olhos, e deu-lhe de resposta assim:_ Ora, apenas por já não mais haver espaço! Não recolhes tua correspondência não é de hoje, e isso chega a ser de estranhar-se, pois alguns envelopes estão a achar-se em confusão pelo chão. Em situação do tipo, somos instruídos a ver o que se passa; muitas pessoas morrem sem que tomemos conhecimento do passamento factível! Por isso bati à tua porta, somente por isso e isso sim.O homem reproduziu o gesto com que o carteiro havia fitado-o anteriormente e exclamou:_ Isso é a sério?!_ A sério sim Senhor, deferiu o carteiro. Vê o senhor que ainda mês passado um companheiro de profissão encontrou uma senhora morta de três dias!_ Mas comigo está tudo normal, disse o sem-nome. Agora que já cumpriste com o teu afazer da obrigação, tenhas um dia agradável. Não me atento a mortes de senhoras ou seja de quem for. Todos morrem; todos morremos um tanto a cada dia. Não será conosco que se dará a exceção, cuja inexistência não desfia valia alguma na tira de regra!Fechou a porta sem cordialidades de maneira a evitar que mais algum informe de coisas havidas lhe falasse o eloqüente carteiro. Voltou-se em direção à cadeira na qual estivera antes de se ir até a porta; pegou o cachimbo que tinha no bolso da camisa e ateou fogo ao fumo no qual pitou forte. Entre fumaças que pairavam no ar da escura sala, tentou ler o remetente dos envelopes que recebera. Não foi possível, pois o lugar estava de muito no haver dum escurecimento sim, e ainda seria necessário o uso dos óculos. Palmilhou seus pés, então sem muito apressamento, à direção do quarto onde encontraria sobre a cômoda aqueles envelopes a pouco recebidos.Quando enfim pode dar início à leitura dos remetentes, percebeu o insólito do fato: era ele o próprio remetente de ambos os envelopes que trazia em intrépidas mãos. Sem querer acreditar, analisou-os com mais cuidado, mas nem assim o espanto desfeitou-se no haver da coisa ­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­­– remetente e destinatário eram a mesma pessoa sim: ele, o homem sem-nome. E diante disso, permaneceu condescendente sob o efeito da perplexidade vinda do acontecido, dando continuidade sem que o percebesse ao fumo do cachimbo.Passado algum após à essa circunstância em que estivera nela, resolveu abrir os inesperados envelopes e constatar o que lhe havia escrito a si mesmo para o dele. Não diferente, percebeu-se em novo pasmem e aquém de um amém – havendo sido aberto o primeiro, deparou-se com três folhas cuja escrita era impossível à leitura. Não que estivesse num código desconhecido ao homem, pois este detinha conhecimentos lingüisticos até mesmo sobre línguas arcaicas sim, em vias de variações babélicas a partir das quais os idiomas modernos estruturaram-se tal como os sabemos em nossos dias de presente. Aquela escrita mais parecia rabiscos confusos dos quais nenhuma informação poder-se-ia abstrair de modo a ser encaixada num entendimento de constatação. Ficou por algum tempo tentando identificar sentido nas páginas de que se constituía a carta. Não logrou sucesso do empenho; até mesmo para ele – o remetente – era impossível deduzir ponto sequer daquela a angustiante missiva.Vez do segundo – mantendo-o ainda fechado, colocou-se a adivinhar o que encontraria desta feita. Não fazia idéia do quê lhe viria mesmo reconhecendo sua grafia a dele na letra do remetente e destinatário. Ao rasgar uma beirada, retirou novamente três folhas de dentro. Agora não se espantou com o incompreensível da escrita, e sim com a brancura das páginas: não havia pois um traço sobre elas, mínimo que fosse. Estavam novas e imaculadas como saídas de uma papelaria. Virou-as contra a luz – o pensar dele assim queria desvelar coisa que somente de um modo o misterioso dar-se-ia à percepção. Falhada tal tática, perguntou-se de surpreendido se seria possível algo como aquilo.Sem poder se responder, pareceu-lhe ser perdido do tudo que tinha em mente – não tão-somente do que pensara naquele ínterim, bem como, também, do que um indivíduo pode guardar durante toda sua vivência, seja esta a mais insignificante a se pensar. Do cachimbo, fumaça já não mais subia. E ali ficava ele, o sem-nome, perdido em seu próprio quarto de dormir, feito não soubesse onde e também em que tempo encontrava-se não. Era tal se lhe tivessem apagado as luzes mediante as quais a visão possível ocorre.Ao momento em que ainda segurava as mãos numa das cartas por cuja existência já nem mais se dava, resolveu esticar-se, por algum instante, sobre a cama. Sentiu bastante o incomodo na posição de deitado; sim, era-lhe estranho ficar na horizontal, pareceu ser a primeira vez, em toda a lembrança, aquela em que se encontrava deitado nela. Foi trabalhoso pôr-se de pé – assim houvesse desaprendido o corriqueiro movimento que executava não apenas uma vez no cotidiano fluxo do dia-a-dia.Já na vertical iniciou um caminhar tonto, desses pitorescamente identificável em ébrios que vagam pelas noites de boêmia rumo ao onde não se sabe. Indo repentinamente ao exterior do quarto, percebera-se em labirinto dos mais confusos pensados. Olhou logo para um quadro dependurado na parede do corredor; não entendeu a figura de cuja apreciável maviosidade fizera-se outrora cativo, não mesmo. Frente a um antigo relógio de pêndulo, parou no quase mais estático posicionar-se. Ficou a acompanhá-lo de lado a outro a outro lado, tentado extrair sentido ao movimento continuado em repetições. Disso, o que obteve foi acentuação de sua sensação de ebriedade, que daí misturar-se-ia com a náusea – e foi a partir de então que teve de tatear paredes a fim de permanecer em sonso passear por aquele lugar confuso onde se descobria no natural de um axiomaticamente por ocasião de cada novo instante.Fato considerável passou-se ao descobrir um outro quadro, dessa vez em dimensões de mural decorativo de paredes, no qual havia uma agradável embora distorcida representação de paisagem. Não é possível dizer ao certo se achou belo ou feio o que visara; no entanto não é errado concluir que considerou bem mais convidativo em relação ao onde se sabia situado àquele momento. Lembrou-se de ainda a pouco, a bem pouco sim, do instante em que abandonava o quarto. Pensou ser possível entrar naquele mural do mesmo modo como se soube o liberto do cômodo em que abrira os envelopes. Tudo o que precisava era seguir o rumo de direção daquela nova paisagem que surgia à frente dele; uma repetição do que, cruzando a porta, o levara ao corredor em que agora se perdia. A incompreensão o fizera escravizado sim, e foi afogado em toda sua profundeza que interpretou a referida tela como passagem a um novo mundo; quis, assim, por duas inábeis tentativas, irromper no outro lado o de lá, o qual lhe aparecera metaforizando uma solução. A dimensão desejada, contudo, não lhe foi possível ao seu acesso; não por aquela via tão pouco comum ao nosso limitado entendimento. Mas isso não o impedira de ficar a assisti-la pelo tempo que melhor lhe conveio. Seguido a esse episódio, avistou a verdadeira saída, embora talvez não a única, que o tiraria daquele corredor repleto de coisas esquivas a sua atual compreensão – era a porta que ligaria o corredor em que se perdera nele à sala principal da casa sim.De braços quase que os abertos, sob o marco que o emoldurava naquela porta então descoberta, formava algo similar ao crucificado. Um olhar tímido, porém cheio de notória curiosidade, foi lançado ao novo-espaço ao qual se apresentava tentado criar ânimo a fim de explorá-lo. As pernas já lhe pareciam treinadas ao caminhar; e por sua vez a ebriedade diminuíra notavelmente. Isso fizera constatar que não mais era necessário usar das paredes a improvisada qualidade de muletas; o chão agora lhe bastava de sustento. Entrementes os abrandamentos, a incompreensão permanecera algo intacta. Como aguardasse convite formal, pôs-se a esperar por qualquer manifestação que o incentivasse cruzar definitivamente aquele acesso em cujo limite sobrepunha-se imóvel. Não era a mesma sala em que estivera quando, mais cedo, o carteiro veio chamá-lo à entrada não. Tudo era novo: senão, ele era assim. Nem imaginava que casa poderia ser aquela que, se antes familiar, agora aparecia tão estranha. Sequer sabia de si mesmo. Um oco era o que agora ocupava o todo de sua mente, e recordações que ali havia eram as da recente peripécia pelo corredor, que ainda nem abandonara por completo se assim interpretado à vista dos definitivamentes. O que importunava ali naquele limiar não era em muito o novo do lugar, de onde já não mais via o como de um escape, mas sim o que perdera ao cruzar o corredor. Sentia uma angústia ao mentalizar as coisas para as quais o entendimento servia de nada em tudo isso. Tal como abandonar algo de que nunca soubera, porém, de algum modo, o mais curioso sim, desde sempre aterrado nele. Em resposta à tentativa de pôr ao esquecimento tal idéia, a qual evocava o indescritível, sentiu o crescer do medo até então percebê-lo controlável em si. De um só susto, atormentado pela própria indecisão, regressou ao passo que deixara para trás; novamente por inteiro dentro do corredor, agarrou as duas mãos à maçaneta e virou-se de modo a fechar a porta livrando-se definitivamente do local que trouxera estranhos sentimentos.Muitos são os que afirmam não ter sido um medo aquilo que sentiu o sem-nome, e sim (se é possível em tal distinção) acesso de covardia, pois fechou a porta do lugar que aparecera tão cheio dos a-saberes sem nem mesmo captar destes um ao menos do motivo a que vieram. Já os de outra opinião, dizem do sem-nome um corajoso nascido à moda dos inveterados. Precisou ele, afinal, retornar ao corredor que tanto pavor causara-lhe antes de fechar deste a entrada pela qual saíra. Ainda nessa prosaica e paradoxal discrepância um homem dentre uma pequena multidão, à qual a história que lhes conto também foi apresenta, disse ser todavia sem valor a discussão, sendo que desse modo dava ele início – ou, que seja, reinicio - àquilo a que tentava dar cabo. Ao questionarem-lhe a razão de tão refutatória posição, afirmou que o sem-nome não teve consciência de que a fechara, pois fora um ato involuntário como os de reflexo; um impulso provocado pela indecisão em seu estado mais cabal e genuíno. E dessa observação, os que com ele ouviam esta história, entraram já em outra discussão de debates embora conservassem o mesmo tônica da anterior. Se não vou mais a fundo no fato apresentado conclusões do discursório é porque os homens não obtiveram nenhuma só.

2.

No que diz respeito à seqüência dos sucedidos ao sem-nome, agora estava dentro da sala sem ainda se entreter do novo situado a que ele se levara por ânimo próprio, pois mantinha as mãos bem presas à maçaneta a qual, era o que tudo indicava, não largaria por nada. Não achava razão no haver da coisa, mas muito agradava-lhe saber daquela porta confiavelmente fechada por suas mãos. A satisfação agora era tão dele como a perplexidade das coisas que vira naquele corredor de estranhos objetos. Havia sim livrado-se do medo, não obstante este fosse medo si mesmo, da incapacidade de interpretar o que lhe era apresentado de muitas maneiras, sendo incapaz de tomar por sua uma sequer das quais.Finalmente acreditou que já não mais necessitava vigiar à entrada do corredor. Tinha vistas, portanto, ao que o esperava no reverso; e foi num meio giro que se percebeu o dentro do que estivera por admirar ao limite da entrada. Uma sala cheia de objetos os mais variados então o recebia. Pareceu desconfiar de tudo, pois recuou a ponto de ter o corpo colado a uma das paredes. Atitude muito normal num ato de reconhecimento, até o mais estúpido animal o faria nesse gesto.Tudo lá – sua cadeira de repouso; a grande mesa bem ao meio do ambiente; a estante em cujas prateleiras havia diversos exemplares de feiras de artesanato e muito mais quinquilharias as quais não caberiam em minha mais detalhada descrição. Ao sem-nome de outrora seria então fácil identificar cada ponto daquela região, mas, ao dado da ocasião, tudo era indiferente, nada era com ele sabia crer; verdadeiramente não reconhecia coisa alguma, como se desembarcasse no mais completo desconhecido admirável mundo novo fora de nossas épocas vindas.Assim como tudo tende a se revelar no quando decerto é mesmo dado feito o perdido, e também ao que é o objetivamente incompreensível carece apenas a mais ínfima tentativa de entendimento sim, posto que senão restará ao sujeito somente a imanente cela sabida na falta de inteligibilidade, deu-se o modo do desmodo a partir do qual o sem-nome se decidiu por explorar o desconhecido em que se encontrava não por gosto, e sim pelo trágico, ora, da necessidade.Nessas condições do estranho haver da coisa, chegava-se pelos arredores da cadeira de balanço. Teve de interromper o transitar. Algo notável havia sido apresentado ao seu novo olhar – um porta-retratos sobreposto a grande mesa convidava-o à descoberta. Quando o teve em análise, a fotografia pareceu simples, porém cheia do indecifrável que em tudo via. Depois que se cansou de olhar para aquilo que nem mesmo cogitou ser sua representação, foi averiguar tantas peças havia na estante ao canto. Artigos muito simpáticos feitos por artistas populares; sim, eram os mesmo aos quais me referi instantes atrás na impossibilidade de descrevê-los sim; objetos rústicos de composição naïfe, mas que a ele nada diziam. Também pudera, a lembrança estava tal morta fosse ou agonizando por isso, pelo menos temporariamente sim. Mais que se esforçasse até a exaustão, não chegaria portanto a um sentido: e de maneira semelhante como - ainda que contraditoriamente - à falta da ausência do haver de um. A alguns representa o descabido do mais absurdo, é que passado o comenos de que o sem-nome precisou para intrometer-se do que se achava na sala da casa, sentia-se num lugar o bem familiarizado – isso mesmo apesar não ter recobrado o saber, em registros de sua lembrança, dos idos tempos passados ali. Tudo sendo a tal ponto que se pôs sentado num calmo balançar naquela velha cadeira que não propriamente tomara por sua. Pensar-se-ia que voltava ele à normalidade, havia se feito o íntimo de quase todo, visitou a passos medidos cada metro por mais insignificante que fosse. Não obstante essa nova situação, ou quiçá, sim, tão-somente em função desta a incerteza se imponha, aconteceu-lhe de ser incomodado por saber-se como estava, sobretudo sentado naquela maluca cadeira que ia e voltava em idas-e-vindas para além do fim de toda medição.Então de pé, voltou a caminhar pelo que já não era o tão assombroso não; remexeu coisas que fuçara anteriormente. Voltou aos objetos da estante e, a registrar-se um pormenor, até divertiu-se com alguns; mas o que o despertava ao será-o-quê-isso-é? era o porta-retrato posto sobre a grande mesa. Colocando-o sob nova análise, ficou a contemplá-lo como antes o fizera sim, embora dessa vez se ausentasse à bestialidade da primeira empreita. Descobria ser imagem de gente apesar de não saber qual. Ademais, revelou-se não ser apenas uma pessoa, talvez duas, quem sabe até mais que esse tanto como é tão comum numa fotografia de família posta sobre mesa de sala. Isso o irritou profundamente porque não aceitava descobrir o que era sem saber também quem era. Pensou que somente a partir desse deslindamento dar-se-ia a resposta de suas indagações; uma legítima busca por sentido mesmo que entrementes a possível existência de um fosse-lhe continuando a desconhecida.Em conseqüência dessas sensações, acentuava-se em inquietação; estava como que sufocado dentro daquela sala de dimensões as tão enormes. Por hora em que se largou daquele porta-retratos, escolheu canto mais próximo e deixou-se escorregar pelo ângulo que unia duas das paredes, as quais o cercavam em muda observação. Caiu como que entorpecido sim. Teve num abraço as pernas bastante ajuntadinhas, sobre as quais descansava a cabeça que lhe pesava a densidade do mundo.Compreender por que no momento de tão acentuada inquietação é que insemina a mais absoluta serenidade pode ser tarefa inoperável. Embora esse aparente agnosticismo - cujo haver de resposta implica aqui -, figuro o frêmito se fazendo absurdamente intensificado que qualquer nova agitação não mais seja possível, deixando aos movimentos conseguintes a inatividade em estância – sendo isso, aos saberes de um paradoxo, o imobilizar-se em função dos ápices da inquietação. Muito possivelmente, ao que se contradiga algum princípio físico, exista sim uma frágil barreira sim, somente formada por coisas desprezáveis, escudando o completamente dado ao perceptível, através do haver da qual o vício das complicações não permite transposição ao entendimento do efetivo relacionamento entre ação e inércia, ou seja, movimento e ausência deste legitimamente esclarecido através de um desproporcional e parmenidesiano melhoramento da coisa.Somente acompanhado pelo silêncio, o sem-nome comprazia-se o quieto no canto que escolhera para repouso, ou sabe lá tenha sido escolhido. Ouvia a falta de som que ajudava construir dentro da casa por se fazer imóvel. Barulho, sim, ouvia algum que vinha lá do de fora, muito longe de fazer-se compreensível aos ouvidos. O que o retirou do estado em que estivera foi todavia um bastante diferente, numa freqüência e timbre dos engraçados. Era o telefone que chamava através de uma intermitência sonora. Que diabos queriam agora? Fazia-se esse tipo de pergunta; e permanecia não sabendo bem das coisas, mas lembrava gradualmente a utilidade de quase tudo quase naquela sala, incluso a função do telefone sim.Lá pelo tilintar do oitavo toque, depois de ter se levantado calmamente daquele canto em que estivera, foi à procura do que tinia e ver ao que chamava. Numa mesinha especial, onde havia também papel e lápis para anotação de recados, estava o aparelho que ainda tocava vigorosamente. Atendeu sim, mas não soube o que falar não. Do outro lado, percebendo que havia sido atendido, perguntou-se a quem se falava. Ah!, quem dera o sem-nome saber resposta; então, por sua vez, interrogou a fim de descobrir a quem se desejava falar, ao que lhe foi respondido nome qualquer. Ficou confuso, disse não saber ninguém ali com o tal nome. Dessa forma, da parte do que chamara, confirmou-se o número daquela linha telefônica tal esperasse assim constatar possível um engano. O sem-nome disse não saber também; afinal, o que ligava é quem precisava saber daquilo. E justamente pela insistência em se descobrir a quem se falava foi que o sem-nome desligou sim; voltou ao canto de antes.O som do aparelho ressurgia num repetido novamente. A essa altura de ocasião, ele não quis atendê-lo e, portanto, não podia ficar ali na presença do insuportável barulho que lhe feria a ele nos tímpanos. Enfiou - ou talvez apenas confirmasse - alguma coisa no bolso da calça que vestia e seguiu em direção à porta que se havia feito visível desde quando entrara no lugar. Era a que levava ao alpendre à frente da casa, a qual daria por conseguinte na rua. Contava e descobria ser desta vez a quarta porta em cujos aléns das ditas tentava irromper – e isso é certo porque contava aquela tão estranha, a qual não lhe dera passagem não. Era um fugitivo inconsciente, um que trancava portas atrás de si sem pensar muito a respeito do lugar a que chegaria – não legando, assim, importância à possibilidade de atingir certo limite ao qual não mais seria permitido ultrapassar, tendo então de reabrir todas as que foram fechadas atrás de si por não outro senão o ele mesmo.Sim, havia luz de sol naquela sacada à qual seguira sim. O barulho de dentro já não mais o incomodava depois de ter feito, do lado de fora, o giro com o qual se livrou do interior da casa desconhecida. Umas quantas crianças brincavam na rua, e ele agora estava debruçado no parapeito da entrada de onde as via. Pondo reparo, percebeu o quão elas eram as felizes. Aí foi que verificou o chão cheio de cartas espalhadas em grande confusão; não entendeu o que era aquilo e, diferente das outras vezes em que estivera no íntimo da dúvida, tampouco quis investigar o que poderia vir a significar.Era uma vontade de sair do lugar onde estava; vontade de abandonar de todo o espaço abrangido pelos limites da casa; vontades estas que vinham a possuí-lo ali. Passou o portão de ferro chegando, pois, ao passeio da rua em que as crianças brincavam com felicidade tão peculiar dos pequenos. Em princípio sentiu vontade de saudá-las sim, porém percebeu ser só perda de tempo, pois nem o notaram devido à graça em que se encontravam no momento da diversão. Seguiu quieto, então, pelo lado do esquerdo da calçada.Do distante vinha um som com um quanto de estranho, parecia ser festa em algum lugar sim. Ainda estava no mesmo caminho, embora já longe, muito longe das crianças. Em tudo havia muito do desabitado, não cruzou nenhuma outra gente além daquelas pequeninas não. Virou-se ao detrás e percebeu que as árvores – as mesmas quais enfeitavam o percurso que o sem-nome fazia – confundiam-se, com ajuda da inclinação geográfica local, num fechar-se compassadamente labiríntico que tornava, pois, impossível visitar com olhos a origem da qual ele partira.

3.
Caminhou mais uns bons passos, passos estes que agora se iam firmados por definitivamente; virou umas duas outras encruzilhadas sem ver gente alguma nelas. De repente, o som antes perdido, fez-se bem perto dele até encontrá-lo bem dentro do peito, e, ao entortar nova esquina, foi engolido por uma enlouquecida multidão. Uma festa sim, como as do carnaval que concentram em si mais do que a população de uma só cidade. Ficou sem se poder movimentar dentro daquele aglomerado, estava preso por corpos que se colavam no corpo dele. Havia exemplares de espécimes ao mais diverso e raro modo: gente de rostos pintados a tinturas quentes, portanto vivas; outras que agitavam bandeiras; umas em vestes militar, as mesmas quais usavam um nariz de palhaço no lugar dos galões de patentes hierárquicas; e tantas outras várias desenhe-se com o lápis do imaginar.À direção em que corria essa desorientada multidão ele ia sendo levado sim; não era permitido a ele influir porém sobre aquele rumo, ao qual seguiam os todos em frenética marcha; estava como que preso ao desejo coletivo daquela festa doida. Algum tempo transcorrido, e o pandemônio foi desfeito. Pareceu-lhe que as pessoas tão confundidas, ao fito de ver algo da mais grandiosa importância, colocavam-se em organização a mais ordinária concebida por aquele momento. Dividiam-se de lado a outro, deixando um vasto espaço entre as duas partes polarizadas.Se desejasse de então, o sem-nome, podia sim abandonar aquela reunião. Na preferência, entretanto, não o quis; apesar de todo o tormento que lhe custava estar entre aquela gente, resolveu demorar-se e esperar pelo que aconteceria de tão estranho; tudo isso a ponto de causar arrancamento daquele porte aos que tão ainda se esborniavam em verdadeira orgia.Num dos extremos, algo se principiava em movimento. Era um desfile de crianças o que viria passar por entre as duas bem divididas fileiras. Os pequeninos vestiam roupas de alegorias com partituras pregadas na parte traseira das vestimentas; cada qual servindo, pois, ao que vinha detrás. Tocavam uma marchinha bastante simples, contudo muito bem ensaiada. O mais estranho para o nosso sem-nome à ocasião em que passaram à sua frente, foi notar que os jovens músicos traziam vendas nos olhos, o que não lhes causava nenhum tipo de transtorno no caminhar. Não fez razão alguma o uso daquelas partituras uma vez que não havia vê-las. Pensou que ali estavam apenas na qualidade de precaução; sabendo dessa existência, teriam maior confiança na execução dos instrumentos, proporcionando, por conseguinte, um desempenho mais livre no tocante ao clima da musicalidade.Decorrida essa atração – bateram palmas sim quando as crianças deixaram o lugar livre à próxima. Conquanto não gostaram muito do que viram não – parecido se esperassem por algo mais atrativo, o qual somente viria ao final de todas as outras apresentações. Veio então uma ala inteira de palhaços, os quais traziam ataduras em tudo o que era parte do corpo. Faziam-se parecer os seriamente feridos por coisa qualquer. Eram palhaços tristes; uns que causavam piedade quando, a que vinham estes, devia ser para o riso das gargalhadas.Sendo bem assim, quando ainda os palhaços serviam de atração, um deles, dos que desfilavam sim, tirou do bolso um apito e o soprou engraçado que só vendo tamanha fora a zomba desse engraçamento. Todos os outros pararam a marcha em que estavam – o que apitara começou a caminhar por entre seus iguais, foi de um extremo a outro, depois parou bem ao entreato deles. O sem-nome observava atento, como também todos os outros faziam. Daí, aquele que se encontrava parado ao meio-dia dos seus, pegou um saco que estava como que a esperar no chão e abriu-lhe a boca. Lá de dentro, saiu na qualidade de língua uma faixa erguida por um pequeno zepelim instantaneamente inflado, o qual tomou altura considerável até não mais poder subir devido a um peso que o mantinha preso ao solo. Ficou à vista de todos, e desse modo lia-se na faixa: “Dia da Independência!”.Ora, ora, mas é claro que não tardou não. Bem ao lado do sem-nome, um homem bradou o “Viva à Liberdade” dos mais ensurdecedores, e todos o seguiram em resposta num escandaloso coro de “Viva” “Viva” “Viva”.No após à ocasião em que esse fato se ia ao pretérito, os palhaços abandonaram repentinamente o lugar do desfile. Veio então uma banda das de fanfarra – esta formada por adultos – tocando aquilo que acertam sim os que pensam ser o hino daquela gente; gente cuja independência festejava-se. E os que assistiam cantavam aos berros os versos que lhes eram os mais íntimos. O sem-nome não, mesmo que o quisesse não seria possível – desconhecia aquele canto que ressoava em uníssono.Quando a charanga parou - no que foram prontamente bem atendidos - pediram bis. Como ainda não fosse o suficiente, pediram um bis do bis, e começou novamente – todos cantavam com o mesmo furor da primeira interação e ainda mais vivamente do que a segunda. Ao que desconhecia os versos, algumas das passagens começavam a familiarizar-se em efeito de repetições em tão curto espaçamento.De um átimo, o rufador da banda mudou complemente o andamento em que tocavam. Todos seus companheiros interromperam o que faziam; deixaram-no só entre as pessoas e rumaram à direção em que as outras atrações iam depois do fim de cada apresentação. O homem, cheio das euforias, percorria o espaço que agora era de todo seu; no trepidar do trenodiano toque do instrumento, anunciava a iminência de algo pelo qual esperavam todos sim.Ao som daquele seco prelúdio, fizeram-se os mais aturdidos seres sabidos desde então – pupilas dilatavam-se aos pares; o ofegar da respiração era ritmado por uma ânsia coletivizada; criava-se expectativa dignada do espetacular. Pareceu perceber o clima certo para pronunciamento, o rufador pensou ser sim, e se pôs a falar num todo de dizeres. Convocados ‘senhoras’ e ‘senhores’, o discurso fluía, prenunciava a respeito do magnífico que não mais se podia adiar. Era então o que a multidão esperava ver desde o princípio da comemoração; aquilo daria sentido sim a ânsia dos que, em compenetração, a tudo presenciavam.Finalmente o homem ordenou para que entrassem com o esperado; tudo fraseado em voz à intensidade dos berros. Os palhaços que saíram por um lado, agora voltavam pelo contrário; com um pesar notável, empurravam um enorme vagão, desses não raramente identificados em circos viajantes – era lá de dentro que surgiria o derradeiro da festança sim. Pararam-no bem à vista, lá bem de onde todos pudessem enxergá-lo sem empecilho que fosse. Foram de volta ao onde estavam, depois de estacionar o vagão no combinado do lugar. Então o homem que parecia gerir a comemoração, aquele mesmo que rufava tambor, aproximou-se do ainda velado e retirou o pino que travava as laterais do continente. Teve de sair bastante acelerado na seqüência disso, teve sim. Do contrário, esmagá-lo-iam as laterais quando vieram ao chão revelando pois o que escondiam em seu interior. Precisou, entretanto, aproximar-se novamente, algo com muito de imenso ainda ficara coberto sob capa branca que parecia luzir aos olhos do povo. Ele levou mão a uma das extremidades e, antes de puxá-la, gritou como até o momento não havia feito não apesar de ter usado as pregas vocais já em intensas fricções. As palavras sonorizadas espalharam-se em ressonância pelo todo do lugar como se excedessem àquele que as produzira; não houve sequer um dos presentes então incapaz de ouvi-las não. À multidão foi apresentado o óbvio; através deste chamar-se denominado foi aquilo por que todos esperavam sim.Uma enorme borboleta inflável, em cores tão várias quanto guardavam de indetermináveis – e isso era o óbvio –, de asas gigantescas em cuja circunscrição lia-se o óbvio com todas as letras. A borboleta prestava-se muito bem nisso uma vez que a forma de suas asas arquitetavam, ainda que de maneira levemente distorcida em proporção, o número oito; e o ‘Óbvio’ também cria-se como o fosse no traçar de um oito, haja vista que, deste o por último, ambas as grafias se iniciam e findam num ‘O’. Não importa se algarismo ou vocábulo, sim, dará sempre no mesmo e no mesmo sempre de novo.Diferindo do pequeno zepelim não apenas no tamanho, a borboleta não se inflou instantaneamente não; fora trazida já cheia de gás, como se não houvesse possível em insuflar algo daquele porte em tão curto período. O ‘Óbvio’ era demasiado grande para tanto, havia precisado muito tempo para enchê-lo sim; e isso ao esforço de uns muitos, revezando-se em dias e noites até mesmo. Não se sabe precisar bem, só é possível dizer que o tamanho daquilo assustava. E assim ficaram todos, não sabiam o que aquilo poderia lhes dizer, se é que podia. Era o ‘Óbvio’ o que viam sim, mas era este o mesmo que não percebiam não. Como é que se descobre o ‘Óbvio’? E eles não sabiam! Entreolhavam-se todos, sendo parecido se esperançassem, cada qual no outro, resposta àquilo que os atordoava os sentidos.Passeava pelo entremeio do cá e lá, ziguezagueava e ziguezagueava numa altura que se mantinha sempre a mesma e outra e a mesma sempre. Cores, as difusivas e apareciam num mosaico do mais bem misturado. Era o ‘Óbvio’ sim, e isso, muito embora o vissem pelos próprios olhares de consternação, era tudo o que não conseguiam perceber; aquilo nada lhes contava não. Um enigma cuja função não era cobrar resposta, pois esta, numa inversão de lugares, tomara o da própria pergunta; era uma resposta que carecia tão-somente ser perguntada. De modo que então, como, ou talvez fosse por quê, perguntar o já respondido? Ninguém sabia, ninguém sabia a qual pergunta o enigma esclarecia: nem mesmo se esclarecia sabiam.Consumidos pelo êxtase a que serviam de infinita alimentação, tinham no entanto esperança de que o ‘Óbvio’ se solucionasse por sua própria aparição. Admiravam-no em hipnose a mais profunda, e a isto se limitavam as ações; apenas o acompanhavam no suave do movimento através do qual se movia. Já o sem-nome não via no haver da coisa a graça que os encantava; ficara para assistir em função da curiosidade sim, não diferente de nenhum dos espectadores do ‘Óbvio’; mas estes tinham um compromisso: estavam ali ao desígnio único de ver aquilo que era o ‘Óbvio’. Não podia ele portanto integrar o grupo de cativos admiradores; bem mais preferia ver naquela gente tão estranhamente atônita o perder de olhares na confusa borboleta a também dedicar-se àquilo em que os olhares perdiam-se todos. Isso posto em relato, passou a desprezar aquela gente sim; uma gente estúpida que não o percebia não – mantinham os olhos excessivamente ocupados nos segredados pelo incomunicável a que lhes impusera o ‘Óbvio’ –, de modo que assim podia se sentir o invisível meio aos quais compunham a mesma. Veio-lhe a vontade de gritar toda sua indignação, veio sim, mas arrefeceu em tal desejo, pois sabia que também não dariam ouvidos; nada os tiraria do estado em que se encontravam afogados. Não, o sem-nome não mais quis ficar ali não, principalmente depois que a borboleta parou num ponto o fixo e a multidão voltou-se àquele espaço escolhido para sobrevôo; todos o fizeram dessa forma, estando incluso até mesmo aquele por cuja apresentação do ‘Óbvio’ foi responsável – o rufador descompassado. Agora definidamente encontravam-se no mais depurado absurdo do estático, não se mexiam por tudo nem nada. Assim pareciam como que mortos apesar de haver vida no dentro daqueles seres, os petrificados em verdadeira adoração. Havia sim, muita. Mesmo que sem ser vivida, havia.Abandonou todos ali entretidos com a esfinge dos avessos. Teve de abrir caminho a braçadas, pois eram imobilizados que se encontravam sim. Empurrou alguns dos quais estavam nas adjacências. Isso sem fúria, posto que apesar de achá-los bestiais por se encontrarem tal como fosse em hipnose não agia por cólera, e sim pela carência de abrir espaço e livrar-se daquele obsessivo cenário. À direção das costas foi que o sem-nome escolheu para seguir. Estava novamente a caminhar pelo deserto das ruas; tal como antes, virou várias esquinas sem descobrir vivalma – somente havia casas trancadas, e eram muitas. Certamente estavam todos, sem exceção que fosse ele, reunidos naquela festa que o engolira ao acaso das contingências: embora não desconsiderando de todo naquilo algo que se diria um quê de proposital dos necessários. Por estarem todos em contemplação que já bem sabemos, não mais se ouvia o som dos festejos não – a adoração requeria silêncio sim. E essa falta de som o seguia pelos lugares que ele atravessava.Pode ser que não, como também ser que sim sim; subtraindo reparo às possibilidades da coisa ou não, veio levemente um tremor sob as audazes passadas do sem-nome; ele pensou ser um que se limitava tão-somente a seu corpo, mas talvez tenha sido algo em intensidade maior. Tanto assim que se fez sentir pela gente que admirava o ‘Óbvio’. E não propriamente em função disso, a enigmática borboleta estourou sobre os que dedicavam a ela os mais ávidos olhares, fazendo chover neles uma garoa de pó em tom sombrio que se depositou sobre os corpos dos mesmos; decerto o pó impregnar-se-ia pois à pele dos espectadores. Foi tudo como num castigo sim, tal se o tempo dado para que descobrissem o ‘Óbvio’ não houvesse sido atendido. Então aquele enigma que pedia pergunta - e não resposta - vomitou para cima deles a cronologia de sua ampulheta interna ao explodir em deiscência, fazendo com que todos ficassem contaminados pelo tempo que não lhes fora o suficiente não. E pouco após isso, num bem pouco sim, danaram-se a rir na mais patética e gritante entonação das comicidades.Ao sem-nome - que já se ia visivelmente distanciado de todos - ainda fora possível ouvir daquelas loucas gargalhadas um quase; não quis saber entretanto o que seria aquilo de agora. Que se matassem de tanto rir, nada daquilo lhe dizia respeito e já havia ficado em demasia entre aqueles que eram tão estranhos como tudo. Por ser assim foi que acelerou sua marcha como quisesse distanciar-se, numa vez que fosse a por todas, até mesmo do resquício de som que o atingira não obstante estivesse a andejar os longes do afastamento.

4.

Deixou enfim as ruas a partir das quais casas e mais casas brotavam – seguiria por uma estrada que bem provavelmente era a única que possibilitava ir às cercanias da cidadezinha. Caminhou com efeito alguns bastantes pelo acostamento da mesma, caminhou sim. Depois cansou-se; quis mudar o percurso. Parecera ser estupidez andar sobre aquele chão de asfalto todo demarcado por faixas de instrução e em cujas laterais havia as mais variadas qualidades de placas sinalizadoras – dessas que indicam iminência de curva; ou limite de velocidade; ou risco de ultrapassagem; por fim, um todo a bem mais do que se imagine de modo a conseguir um desfecho seguro, ou assegurado seja lá como o queiram despido dos disfarces do verbo.Que graça há no sublime de correr sendas as já delimitadas? Aonde se vai assim quando o derradeiro do destino é dado antecipadamente por pronto e instituído? E, se é que se vai, chega-se então? Como se se fizesse esse tipo de questionamento foi que virou uma vez mais à esquerda, de modo que agora num claro preferir: resultando assim em tangencial o abandono da estrada pela qual viera. Oeste, este foi o exato novo-rumo ao qual para lá seguiu. Estava quase que tranqüilo por não mais pisar chão, o chão de asfalto sim. Caminhava sobre uma gramínea viçosa, e isso o felicitava, pois ali não havia sorte alguma de placas e faixas de instrução – senão, a intermitente vegetação arbustiva ocupava-se dos enfeites do novo espaço. Tudo aparecera como que a estar em seu posto o mais adequado, estava sim; e, para além do mais, nada servia de alerta ou coisa que o valha em semelhança não. Talvez o sem-nome tenha portanto congeminado em seu pensar que o Aviso somente se serve daquilo o que está (porém não o é) forâneo ao haver de lugar cuja devida ocupação cabe primordialmente às coisas que lhe dizem no respeito de as contemporizadas em posse.Constando que já se fazia o entardecer, o sol brilhava-lhe à frente. Os raios, apesar de enfraquecidos, pareciam querer ultrapassar, nele, o delgado corpo dado a intensidade com que o arrebol surgira da atenuação entre firmamento e horizonte. Desse acontecido, veio a conseqüência de ter a visão ofuscada pela intensa claridade que fazia em face dele. Mesmo assim sendo não parou seu andar; não parou não. Quis seguir na direção daquele calor entretanto não visse bem o onde a que se estava indo, apenas o quisera assim.E para esse lá ia indo ele a caminho de um sol que se mostrava o sem se deixar ser visto., Ainda que não pudesse ver bem, e realmente não o podia, sentiu o chão conquanto se inclinando sob seus pés nos dele. Um sopé de montanha, era sim, certamente era isso o que fazia com que o chão subisse cada vez mais, cada vez mais um pouco, e cada vez mais um pouco ainda à sensibilidade de suas desbravadoras soladas a caminho daquele fúlvido do ocaso. A esse modo, impelido pelas ordenanças de um desejável, subia ele por aquele piso que era o sustentante na progressiva inclinação em que se apercebera nela; e muito embora o desgaste esteja sempre em quase todas as subidas de ascendência, não retardara o passo não – ao contrário, colocou-se em pisadas as mais velozes, como se quisesse a cada nova, mutatis mutandis, vencer a antecessora, a antepassada passada.A ser crido possível que em efeito disso - provavelmente em forma de espólio - deixava muito do que era para trás si, sim; às coisas que deixara passadas devido ao anseio das urgentes passadas, talvez sim. Sentia-se a ultrapassar a si mesmo, quase como se não pudesse acompanhar o próprio ritmo em que ele – o sem-nome – ia. A configurar-se no ainda mais intricado de tudo, somente se deu pelo havido no instante em que sua sombra pareceu abandoná-lo: sim, foi o que se historiou. Seguia em direção ao sol, o qual o atingia bem pelo frontal. E justamente isso fizera com que os raios que chegavam a ele projetassem a fugidia sombra, pouco-a-pouco, contínua e progressivamente, como num registro estroboscópico, ao onde-a-vista-custa-enxergar-mesmo-sendo-ao-preço-dum-esforça-se. Pode ser que ela, sombra, tenha querido ir por outra direção que não aquela em que o sem-nome indo se ia; pode também ser que o sem-nome a tenha abandonado como parecera abandonar-se a si em resulta daquela insensata ligeireza de pressa com que seguia ao topo da montanha, destarte imaginando possível alcançar-o-sol-que-lá-do-alto-quedava-num-rebrilhamento. Não obstante a ambigüidade habitável no haver da coisa, certo é que agora além de sem-nome era também o sem-sombra, isso independentemente da condição de ativo ou passivo ante à separação que se processara.Pois traspassado por essa ínscia contenda foi que, finalmente, o sem-nome chegou ao ponto a partir do qual a subida não mais lhe era possível. O sol, este havia desaparecido sem mágica de mistérios, pois, na verdade, já passara da hora em que devia dar lugar à noite em cujo cenário celestial brilham outros e outros astros. Sabe-se que a bem dos deveras fora sim a luz que viera do sol o que atraíra o sem-nome até ali. E essa também o guiara, mesmo que inviabilizando a visão, durante todo o percurso que fizera. No entanto, quando, depois de vencidas todas as dificuldades do caminho, conseguiu estar onde imaginara ter com a ofuscada claridade, viu-se em decepção. Havia chegado ao topo, talvez ao topo-do-mundo no entendimento de sua imaginação, e apesar disso nada do que o levara a esse lugar estava mais não: como se o fim-das-coisas traduzisse o princípio-dessas-mesmas-coisas não em outro que numa simples e rememorativa espiral de extremidades anacronicamente interligadas a cuja rotação assomava-se extinto o dissídio entre saída e entrada, pois as colocava o movimento tais como unas no haver funcional da coisa a que ambas elas se vinham prestar.Triste, mas era como chegava ao que parecera ser um objetivo – perdido de tudo o que sequer nem mesmo tivera, ainda mais agora sem a sombra; e, ao que tudo indicava, por cuja falta ele tampouco se dera à importância disso não. Mãos presas aos cabelos que por assim apareciam com muito de atrapalhados, sentou-se de cansado sobre uma das pontas de rocha nascidas daquele topo, topo-do-mundo sim. Saber o que pensava é difícil, pois, quando se tem a cabeça entre as mãos, pode-se tudo pensar, como não. Provavelmente apenas refizesse, mentalmente, o percurso dos fatos que o levaram a se achar onde estava. Desse modo, lembrava-se das coisas que habitaram o dia, talvez desde quando saíra da casa ou mesmo um pouco do havido anteriormente a isto. O tempo que ali permanecera é ainda mais incerto, mas passado algum, abandonou a posição em que estivera por muito nela. De pé então, pôs-se a olhar tudo em volta – era somente ele e a vastidão dos vastos do vasto do mundo. Viu-se num alto dos mais altos mesmo, e lá de cima encontrava-se dentro da pequenez do quando se está ante do diante de tudo. Entretanto não, não se gastou nisso; fosse como sentisse diminuído sim, mas o mesmo fizera dele o engrandecido, pois, de alguma forma, certamente a impensável, a sua desprezível pequenez era o que fazia tudo ser tão infinito-e-mais-um-além-do-após-disso...Nos encantamentos da escuridão noturna havia ali alguma luz sim – a lua era a brilhante, sobretudo naquele descampado em que estava; longe das iluminações artificias das grandes cidades, tudo parecia brilhar mais belo, como se assim o fosse ao brilho da realidade. Embora isso, estava muito pouco ou nada feliz com aquela luz não; muito provavelmente nem mesmo apercebera-se dela. Subira até ali a querer de encontrar-se não com luz qualquer, e sim com aquela que lhe havia chegado à vista de forma a despertar o mais profundo dos interesses. Percorria lado a outro a outro lado apesar de dispor para tanto de pouco do espaço. Não pensava abandonar o onde estava, pois havia se decidido por esperar aquilo-que-o-atraíra-até-ali. Como se repetidamente cansado por pisotear caminhos – dessa vez um que se anulava num vaivém de idas e vindas mal sucedidas –, sentou-se no mesmo recanto em que já estivera sentado. Percebeu algo a avolumar-se num dos bolsos sim; levou uma das mãos ao encontro do mesmo e tirou-o fora. Era um envelope, um dos quais lhe causaram estranhezas mais cedo; havia-o depositado ali quando ainda dentro da casa, no momento em que parecera fugir ao telefone que o servira de incômodos na insistência com que o dito tocava.Desde que saíra da casa, manteve-se tal modo o entretido de tudo aquilo que cruzava a ponto de nem se lembrar de ter uma daquelas confusas cartas guardada num dos bolsos de sua calça na dele. Para gosto dos saberes, ali estava por uma eventualidade sim; é que a trouxera consigo inconscientemente ao abandonar o quarto, em seguida passando pelo corredor através do qual chegara à sala. Enfim, o sem-nome tinha novamente em suas mãos uma daquelas com as quais não soubera o quê fazer. E tanto quanto não viessem os ‘porquês’ da circunstância, pôs-se a lê-la no que continha. Conquanto não o soubesse, conseguiu ler o que havia no escrito, ainda que no haver da coisa houvesse o nada não, pois essa carta era aquela cujas folhas traziam a ausência no branco de que se construíam. Faltou de todos os modos algum complemento depois de chegar ao final. Entendera, por essa ocasião, bastante bem o que lera sim, ou fosse mesmo o que não lera não, só que um finalmente de conclusões parecera ser negado, o qual agora talvez então fosse possível de ser extraído a outra carta dadas as já sabidas circunstâncias.Desfeitamento veio quando voltou ao envelope, à maneira bem insidiosa, um olhar cuja única característica vir dos aléns da inspeção. Descobriu então o nome esquecido, esquecido de si e igualmente por ele: que era o próprio, e, descobrindo-o, descobria também não mais necessitá-lo pois. Fez-se no apoio das solas dos pés, olhando mais uma vez à vastidão (sim, a mesma vastidão qual dos vastos que há no vasto do mundo sim), gritou em voz uma berrada, como se assim escarrasse naqueles espaços em que se achava a perder algo procedente de seu íntimo. Era o nome dele, sim, que ia sendo levado nas ondas daquele grito; ondas que seguiam ao distante, o qual morava ali por perto de modo que, tal o fosse num imediatamente, o eco as trouxera de volta, ainda que isto a ser demasiadamente enfraquecido em intensidade caso seja esta relacionada àquela da ida que voltara por vias reverberadas. Portanto, aquele que de um nome já não mais estava O a carecê-lo não, soube-se o vencedor do acontecido. E foi a partir do elo dessas conjunturas, separando-se do que sabia por seu como o dele em tempo anteriormente havido, que finalmente compreendeu a inconciliação evidenciada através da concatenação de relacionamento entre o ter e o possuir. Não, não há como explicá-la pelo devir de uma revisita desta que o havia por fugidiço – a compreensão–, ou mesmo que dogmatizada por cismar de indução ilógica. Pois aconteceu de conceber, o que por efeito condenava o haver das funções à imiscibilidade, o possuir somente possível quando, lançando mão de um peremptoriamente, se abandona o ter. Outrossim, o ter comporta um sortimento de coisas o mais vário a se pensar; e, fazendo a contrapartida das vezes, o possuir, a custa de dessabores os mais amargos ao gosto do entendimento – e por isto, a saber, quase sempre vilipendiado –, impõe aos teres a restrição de seleção dos necessários ao imprescindível. Mas se então assim excedida a dicotomia da questão ao campo do Ser-acontecendo-reS e reaplicada sobre o indivíduo praticante do ato reflexivo bem no meio da clareira de uma floresta, viverá este mesmo indivíduo em eterno desarranjo com o outono de seu espírito, posto que querendo lembrar o que é, antes do demais, deverá encontrar-se a si; e encontrando-se fará de outra maneira aquilo que o levou à causa em função da qual saiu a buscar a si mesmo, removendo, no interior dessa clareira, as folhas decaídas no ciclo de estações da vida breve – colocar-se-á, com a impetuosidade dos delírios, ao olvidar dos esquecimentos. Essa findora discordância, nascida do proposto a que se deu, é que não obstante transformará em possível o haver de seu possuir-se. Sim, isso mesmo que apareçam pintados a cor do inevitável os entraves intrínsecos a esse desarranjar-se que ameaça seguir em vias de perpetuação.Sobreveio consequentemente, àquele que dum nome já não mais estava O a carecê-lo não, uma sorte de nostalgia metafísica, de modo que o dito se soube exilado em suas próprias contingências. Tão estúrdio parecia quanto fosse necessário lançar-se à frente de maneira a caminhar o para trás. Na decoração componente do em torno, a noite ainda era absoluta, sendo permitido utilizar de tal termo. Não tardaria muito para romper conquanto um novo dia, trazido pelo eternamente repetido sol. Aquele que de um nome não mais estava O a carecê-lo não resolveu partir; refaria o itinerário mediante o qual viera a estar naquele ponto, pois a supracitada nostalgia implicara uma sensação que implicitamente levá-lo-ia a retornar difratadamente pelo ser, embora nada esclarecesse o destino último a que devia chegar, que, a bem dizer, poderia ser a casa em cujo imo de interiores encontraria a outra carta, par da que tinha em consigo. As antigas passadas iam sendo portanto as repassadas em novas outras passadas neste agora de vez. Sem grades aflições, punha-se a reconstituir em maneira antagônica a subida da montanha, isto é dizendo: a descida da montanha sim. Ainda não muito havia afastado o topo quando o sol irrompia na linha do horizonte sobreavisado por precedência de uma nova aurora. Estranhou aquilo sim, pois como podia tal – era deixando de perseguir um qualificado de desejável que teria com o mesmo? De toda forma, aquilo era apenas uma inquietação a mais; uma que não o faria mais confuso do que antes estivera não. Permanecia a ser o sem-sombra afinal; o sol por tal turno já não mais o sabia. Para todo o sempre, seria aquele cuja sombra se havia ido em contrário.A estrada das faixas de instrução e placas sinalizadoras se fez tão logo esteve a endireitar-se pelo sopé da montanha, tangencialmente. A contrapelo da ida, viu que novas placas tentavam anular em contradizeres aquelas possíveis à vista quando na mão pela qual havia chegado, na ocasião em que as coisas se orientavam sob outra perspectiva sim – curva cujas sinalizações anunciavam acentuação à esquerda passava a ser acentuada à direita, como se a discrepância fosse uma equânime tentativa de transformar uma trajetória curvilínea em também retilínea, sabe se lá em efeito de quais intenções de causa.Para mais de toda coisa dita até aqui, foi previsivelmente percorrendo a estrada já antes andada por seus passos. Mais a frente, entortou-se em viés de maneira a atingir as ruas a partir das quais casas e mais casas brotavam anteriormente, ao instante em que saíra à esquerda com a finalidade de iniciar a pretérita ida pelo acostamento da estrada das faixas de instrução e placas sinalizadoras. No entanto, as ruas nas quais casas e mais casas brotavam anteriormente não mais podiam ser as mencionadas de forma tal; algo de devastador as tinha acossado. Só se viam arruinadas ruínas no tétrico em redor sim, mas não como se vê em telas de filmes bélicos ou documentários do gênero, pois estavam como que vencidas pelo tempo num similar de desfalecimento gradual das estruturas de sustentação. Falto de referências, aquele que de um nome não mais estava O a carecê-lo não desenvolvia um andar perscrutador entre os escombros do que fora, pouco antes, coisa de um sol atrás numa idiossincrásica aritmética de medição temporal, a cidadezinha em que vivera nela, sempre. É certo que podia ter tentado informar-se a respeito do que ali sucedera com algum dos que trabalhavam a encher com entulhos caçambas de caminhões e outros mais que pareciam mesmo apenas coordenar as tarefas. Havia uma tropa inteira desses ditos; pareciam e eram gente do Governo. Entretanto não o fez; preferiu seguir até a casa sem saber notícia do que levara a cidadezinha ao estado em que estava nele. Foi pisoteando entulhos, passando desapercebido como ninguém o faria melhor por entre a gente do Governo, até defrontar-se com a casa, ou mais acertado dizer, com aquilo que teve por tal, pois era bem mais um amontoado de escombros. Os olhos ficaram os devotos da casa por um tempo curto apesar de incalculável em medidas, e para o além desse haver de coisa tocaram-no o ombro, como gentilmente se desperta alguém de sono suave. Era a supervisora de coordenação das tarefas que viera interrogar o porquê de ele estar ali, uma vez que não era permitida a permanência de pessoas estranhas. Disse-lhe ser aquilo que pairava à frente dele a casa que ainda ontem habitara como morada de vivência. O impossível veio de resposta, pois a cidadezinha estava desabitada havia alguns anos já – uma misteriosa espécie de arruinamento progressivo colocara todas as edificações por terra, tanto as velhas quanto as novas. Uma vez mais levou as mãos aos cabelos e não teve como compreender o que ouvira e tampouco o que ia vendo por todos os cantos a partir dos quais a vista configurava imagens. Pediu permissão para remover os entulhos aos quais se referia como a casa, e obteve-a sim. Agia com muito de compassividade a supervisora de coordenação das tarefas embora o houvesse advertido – imperativamente, há que ser dito - de que não teria muito tempo para tanto e que também não se encontraria nada de proveitoso dada a enumeração dos anos desde o quando em que aquilo se fizera antonomasticamente alcunhado, digamos, as ruínas.

5.

Coloria-se a alcova, sim, com o tom das paredes dos lugares onde as pessoas trazidas não desejam repetir em muito os dias da estada. Era ali que a maior parte de seus dias se passava desde aquela ida vez em que estivera O a conversar com a supervisora de coordenação das tarefas. Não havia nenhum aparato especial destinado a protegê-lo contra O sigo mesmo do dele não, como acolchoamento das vedações internas ou similares a valê-lo em gênero. Dispunha apenas de uma cama na qual se podia acomodar deitado, uma escrivaninha com cadeira e muitos livros e papéis que lhe entregavam sempre que fossem os requisitados sim; obviamente, canetas e lápis constituíam o limitado grupo de objetos que o fazia companhia quando não mais havia ninguém a dar as já habituais examinações. Uma das primeiras inquietações, por que fora visitado, dizia respeito ao tempo. Não via o como de explicar aquele fato de se ter passado tanta coisa num tão curto tempo de período no momento em que estivera ele a subir e descer a montanha. Tentou as complexas teorias de dilatação do tempo, mas estas apenas esclareciam a parte física das atormentações; depois buscou explicações para o que assim chamou de as existências no havido do haver da coisa, inteiramente. Isso somente abriu portas para as novas indagações, as quais o colocariam inserido dentro do encaracolado circulo vicioso das inquirições. A seguir, apartou-se de tais averiguações; a questão do tempo havia portanto perdido as honrarias com que vinha sendo tratada sim. Certa feita de ocasião veio-lhe até ele a comissão das análises. Boas notas foram dadas ao comportamento do interno apesar de não aceitarem como atitude saudável a insistência em recusar a dizer-lhes o nome; e a cada dessas análises feitas pela comissão, tinha ele maiores regalias muito embora permanecesse sem lhes dizer o nome – eram permitidos os pedidos. Conseguiu, através do primeiro deles, papel e caneta; dos outros demais obteve a escrivaninha e os livros. Noutras ocorrências, trouxeram os envelopes e também o catálogo de endereços residenciais e um outro moderno no qual se podiam consultar os endereços eletrônicos das pessoas que acessavam a rede virtual de informações interconectadas. Nomeou e endereçou várias cartas que há muito vinha escrevendo, mais precisamente desde quando chegaram as folhas de papel a ser escrito; tinha-as todas na gaveta da dita escrivaninha à espera de permissão para despachá-las aos respectivos destinatários. A comissão das análises achou curiosa a prática de escrever cartas, contudo pensou ser algo de que se poderiam retirar causas com as quais se elucidariam os efeitos de recusa da autodenominação. Desse modo, autorizou-se a ele o envio das correspondências que já se vinham avolumando, pois só fazia escrevê-las. O intuito da comissão das análises foi traído tão logo se recolheu a primeira remessa a ser postada e enviada ao serviço de distribuição das comunicações externas do local. Nos envelopes não se lia o nome do remetente, pois se repetia o mesmo do destinatário, o qual passava por um processo de escolha quase que em totalidade aleatório não fosse o critério de respeito à ordem alfabética das pessoas a cujos nomes se escrevia. Tal ordem contudo trazia em si algo de desordenada, uma vez escolhidos os nomes a partir da última e indo para a primeira letra do alfabeto.A comissão das análises investigava com estranhamento o que ia sendo processado; não era que desconhecessem o nome pelo qual tanto se fazia por conhecer, posto que o sabiam desde sempre, mas tal procedimento constava como o indispensável nos laudos de avaliação da comissão, de modo que o interno obtivera eminentes notas em quesitos anteriormente analisados, e agora soment faltava passar pela parte da autodenominação. Mas isso não parecia acontecer, e, na verdade, nunca aconteceria, apesar de ser tida como a mais simples atividade a se verificar nos internos embora a mesma fosse indispensável no tratamento do que tinham por neuroses da vida contemporânea, sendo lá o que queriam dizer com a peculiar terminologia algo tão imprecisa.Deram-lhe então um portátil computador através do qual seria possível o envio de mensagens eletrônicas, como era a tão corrente moda de comunicação das ondas. Mas não quis usá-lo para tal função, pois dizia que daquela forma não teria a certeza de que aquilo que vinha escrevendo chegaria aos destinatários como tinha quando o envio se dava por cartas despachadas pelo sistema convencional de correio. E assim permanecia a escrever as cartas, que eram as recolhidas e enviadas semanalmente, até que um dia o funcionário responsável pelo recolhimento foi surpreendido por não mais haver cartas a se recolher. Este funcionário pensou o estranho da coisa e comunicou-o à comissão das análises, imediatamente. A comissão foi vê-lo sim, mas não naquele mesmo instante como se pensaria. Esperou-se pela data em que seria hábito vê-lo, o que não demorou muito, pois o viam com o intervalo de dia-sim-dia-não. Quando vieram a dar as examinações, uma jovem integrante da comissão das análises perguntou um por quê não mais escreve tuas cartas? Veio a ela o já escrevi a todos os nomes do catálogo que me trouxeram a mim! A mocinha que apesar da pouca idade parecia ser superior aos seus companheiros da comissão das análises disse-lhe seguidamente um não sabes que muito mais nomes há no mundo do que os compreendidos num simples catálogo? E retrucou o sim, mas não me interessam os nomes propriamente ditos, mais me dizem as pessoas que a eles respondem por seus! Riscou a alguns escritos na prancheta que trazia consigo em função desse havido, depois quis saber dele o sendo da forma como me dizes, o que te fez usar os nome do catálogo então? Abriu-se num suave sorriso proferiu um não usava os nomes, usei as pessoas que respondem por eles, pois os nomes não são as pessoas, e da mesmíssima forma as pessoas não são os nomes! Anotou-se mais algo na prancheta dela e, antes de riscar a quadrícula destina aos intratáveis segundo o método usado pela comissão das análises, ela interrogou o podes então nos dizer que são as pessoas? Teve de resposta o as pessoas são aquilo que se perde, aquilo que se esquece lembrando, aquilo que se lembra esquecendo e, sobretudo, aquilo que se deixa de ter quando se possui!Acredito que com essas enigmáticas explicações quis ele dizer que escrevia aos nomes através dos quais atingiria as pessoas sim, que escrevia a todos os nomes do catálogo porque não carecia mais do que tivera, de modo que assim tinha todo e qualquer nome. Enviava cartas na tentativa de alguma se extraviar nos anais de organização do tempo, tal como o que se passou com ele no momento de que já sabem os que me tiveram ouvidos até o aqui desses meus dizeres. Esperava, mediante esse maravilhoso extravio nas dilatações do tempo, comunicar-se com o que fora ele anteriormente ao que era, pois o ele que era O de-agora se lembrava bem de quem fora O ele de-antes, mas aquele que fora O ele de-antes não tinha a mínima minimiosa idéia de quem era O ele de-agora. Por isso, as cartas faziam-se as necessárias à comunicação entre o que fora/estivera e o que era/estava, pois um sabia o que havia sido do outro, mas o outro nada sabia do que havia sido do um, nem sequer se o um havia sido sabia. E por meio desses contos de confusa conclusão vai se encerrado o que merece ser dito a respeito do havido na história do sem-nome, sem-sombra, sem-agora, aquele que de um nome já não mais estava O a carecê-lo não, dado que a estética vigente impede para todo o sempre que qualquer narratva, desprovida de experiência e desde muinto, seja findada, mesmo as fantasticamente contados por títeres de manipulação, com o E todos viveram Os felizes para sempre... Mas haverá ainda o que se contar se um dia alguém encontrar aquela carta atrás da qual aquele que dum nome não mais estava O a carecê-lo não foi e descobriu seu o lar feito, com dissemos, em As ruínas? Talvez haja mais o que se dizer sim quando houver possível em descobrir o que havia nos dizeres da missiva perdida entre os detritos daquela cidadezinha, para a qual se dedicaria um projeto de reocupação. Hum?!

D. *

* Houve um tempo em que tudo - a propósito específico deste conto - era revisão, precedido de um tempo em que tudo foi fluxo contínuo de uma narratividade bastante dilatada; talvez uma frágil tentativa de mimetizar, com as palavras, o movimento oral do pensamento através da escrita. Tarefa tão vã como toda a arte de delírios. Depois disso, tudo foi considerado retrógado e besta, após a constatação de um estúpido pedantismo e reinscrições em lugares já habitados da escrita. Daí a revisão incompleta e verdadeiramente impossível, porque improvável. E, assim, o ritmo agônico tanto da escrita quanto da revisão resolveu ser encerrado pela própria construção ambivalente do texto. Enfim, um conto super hermético e chato; duvido tanto que alguém consiga ler esse colosso pros moldes atuais de escrita e chegar ao ponto em que se lê essa nota descomedida. Foi meu primeiro gesto escrito considerado a sério, por isso sempre falido e sempre revisado; tudo isso se estendeu de 2002 pra cá: 2009.