quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Amores_úmidos


“Things vaporise and rise to the Sky”. Jesus and Mary Chain

Antes de girar a chave na fechadura e entrar no apartamento eu pressentira o estado em que encontraria as coisas: algo estaria arrancado de cada um de todos os pequenos lugares que eu bem conhecia. O que fora um lar até bem pouco tempo atrás passaria a ser de então o catre da minha reintegração.
A chuva que me acompanhara desde a saída vinha a mesma e bem fina e constante, como a indecisão de minha tomada de partido nisso que desatava pulsante durante os dias aquosos e mais recentes que alagavam a semana inteira.

Nela, a dor era certamente pontiaguda e por isso mesmo cortante. O fio dessa lâmina, não diferente, também entrava em mim apesar da distinção com que se amolava vigorosamente na pedra dos afetos.

Ela chegara um pouco mais tarde do que de costume, quando havia algo ao qual se acostumar. Pedira com voz bastante delicada – e por isso mesmo exigindo não ser retrucada – que eu a deixasse sozinha, acompanhada apenas de algum tempo hábil pra que arrumasse tudo o que precisava levar consigo e retirar-se de vez por todas da minha vida, retirando-me da vida dela.

Não havia mais o que discutir; tampouco algum acordo sobre coisas das quais abrirmos mão uma vez mais projetando a possibilidade de seguirmos juntos e amantes.

Quando um filete de água rompe as margens de um rio, por mais fino que seja o desvio, é certo que todo fluxo logo se perderá. E ainda que insistamos em represá-lo toda a vazante será a cada dia um filete a mais transbordando até que a torrente fraqueje frente ao delta de um assoreamento final sem poder desaguar no mar, pois não há mar.

Fiz como me pedira. Deixei-a acompanhada do tempo que precisava e segui até um bar dentro de cujas instalações eu pudesse tomar um trago de algo que aquecesse minhas vias respiratórias e pusesse algum calor dentro do meu peito. Músicas agradáveis podiam ser ouvidas também ali, e isso me fez sentir mais acompanhando, menos sozinho junto da bebida.

Pensei nela com muito carinho. E com muita raiva também. Sabia que ela pensava em mim com muita raiva, porque ainda retinha muito carinho nesse pensamento de mim.

Enquanto dava voltas bem lentas no copo e rebatia o cigarro na borda do cinzeiro, de modo a minimizar a brasa, coloquei-me a pensar a respeito do momento a partir do qual concluímos não haver mais o que se represar de nossas águas.Era um exercício todo ele em vão. Não se pode saber pontualmente uma coisa dessas. Vem um dia em que algo estoura e pronto – você já não consegue estancar o jorro.

A moça veio me servir a segunda dose. Eu aproveitei pra pedir que tocasse algo específico da minha vontade, pois, como era terça e já bem tarde, pouquíssimas pessoas estavam no lugar e um número ainda menor se importava com a música já naquela altura da noite... Era certo ser bem atendido nesse pedido, não só por ter sido simpático na maneira de pedir, mas também por ter cumprido a discotecagem desse mesmo bar por diversas noites durante o ano passado.
Com toda presteza atendeu ao meu pedido e logo mais trouxe a terceira dose, vendo meu copo se esvaziar repentinamente da segunda numa ineterrupta talagada. Tive vontade de parar todo meu pensamento sobre represas e barragens e convidá-la para tomar algo comigo após o fim do expediente, que logo chegaria. Gostaria tanto de voltar pra casa acompanhado dela, que era muito bonita e de lábios salientes e se penteava de um jeito que me atraia desde as vísceras. Seria bom levá-la pra casa e não perceber os vazios que percebo agora; lamber os lábios dela e logo secá-la contra meu corpo enquanto suaríamos convulsivamente até o gozo da nossa trepada.

Talvez lograsse sucesso em convidá-la. Lembro que desde as primeiras noites de discotecagem no lugar ela lançava diversos tipos de olhar, todos eles encorajadores segundo minha avaliação. Mas não consegui parar meu pensamento e imaginar essas coisas que tomam razão só neste momento.

Tudo que fiz foi pedir pela quarta e derradeira das minhas doses. E em seguida sai caminhando pela solidão das ruas - iluminadas pelas luzes de guaritas de condomínios, anúncios luminosos - e cantando sob a chuva fina aquele diabo de canção dos irmãos Reid, chamada “Happy When it Rains” e que bem pouco tempo atrás eu pedira pra que tocasse pra mim.

Ao retornar, sabia que não a encontraria mais em casa. Que também lá não estariam mais as suas coisas. E que tudo capaz de lembrar que um dia ela estivera ali - vários dias, meu Deus! - consistia no vazio das coisas, na ausência dela em cada canto da casa, em cada gaveta do armário, na falta da escova de dente no banheiro, na toalha abandonada e secando na área de serviços, no gato que não viria mais se acomodar sobre minhas costas às cinco da manhã, na minha tarefa (a não ser mais executada) de organizar os discos deixados fora da minha ordem, na disputa pelo lugar na prateleira dos livros... tudo isso.




Deixo meu corpo cair sobre a poltrona da sala, lugar tão confortável e no qual , abraçados, passamosvárias noites. Vestimos ali o aliás de tantas vezes de uma pele tão encorpada daquele mais voluptuoso carinho e nele tecemos horas a fio a justaposta costura a partir de conversas insones e assim capazes de capturar madrugadas inteiras através do novelo intricado a propósito do enredo de nossas ideias.

Logo irei à cozinha, e já vejo mais vazios pela casa. Prepararei um chá quente e dele esperarei o mesmo que buscava nas doses desta noite. Retorno à poltrona. Tomo um cigarro e, também, pequenos goles do chá. O líquido sutilmente amargo e ainda fumegante desce pelo meu corpo; vai tão profundamente peito adentro que parece escavar um novo curso para as coisas que virão a me inundar durante os próximos dias, talvez meses.

Tudo, por fim, deve se liquidar.

Do contrário, o jorro aberto através dessa finíssima brecha nas paredes do peito porá tudo por terra sem que vejamos. E já não haverá mais o que se reconstituir. Espero, todavia, que o próximo leito seja mais largo, algo mais profundo e pois capaz de acomodar águas ainda mais torrenciais, mesmo que tudo se liquide e deságue na superfície porosa da pele eriçada pelos sentimentos de desventura afetiva e volte a escoar sem limites.

Não há, todavia, represa factível para essas águas em cuja extensão e profundidade eu estou prontamente a submergir neste instante em que, através dos meus olhos, jorram as lágrimas provenientes do fluxo de sua fuga, que eu jamais poderia conter...

Tudo deve se liquidar.
E não há represa factível para essas àguas, minha Querida.
Nossos amores, úmidos.





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