sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Os trapezistas


E fiz pedir por tomar dos seus lábios um pouco mais desse líquido que na qualidade de seiva irriga o jardim de onde eu colho e recolho a sua língua.

Cada uma das suas palavras esteve para mim como pequenas flores, quase orquídeas ou petalazinhas delicadas do tipo. Uma por uma eu as beijava através de intensos movimentos executados com esse órgão muscular a partir do qual sentimos todos os paladares e ao qual sempre recorremos a fim de alimentar o corpo e sobretudo descrever os desejos, as vontades, sejam elas escandalosas ou murmuradas, por que não os sonhos e os pedidos confessos?, esperando que realizem nossos caprichos... Eu bebi desse ramalhete pleno de cheiros e sensações maravilhosas todas elas liquefeitas nessa boca, e bebendo dali me nutri mais forte. A sorvos tomei dos seus lábios o sumo de todos os prazeres feito fosse a abelha que colhe de uma corola rubra o suprimento para um longo inverno de reclusão e justo por isso precisava ser insaciável uma vez querendo não subjugar a certeira inanição proveniente da ausência de substância tão vital à existência. Tive medo de não suportar esse tempo de hibernagem e ao fim cair diante dos rigores invernosos e por tudo isso suguei profundamente cada uma de suas pétalas durante nossos beijos. Tal foi o medo de fraquejar que ainda desci por todo o caule sobre o qual está sustentada a sua Coroa Imperial e me lambuzei com o pólen de todo o seu pescoço para logo subir outra vez e deixar novamente minha língua inteira deslizar por você e me afogar num suicídio ressurgente através de só mergulho porém de várias emergências.



Tive vontade de ir mais profundo. Beijar mais e mais. Articular lambidas trapeziformes lançando a minha língua contra a sua língua contra a minha repetida e novamente até construirmos um pequeno espetáculo nesse úmido picadeiro feito a partir das nossas bocas e também da sua nuca e em cujo palco ou bem mais acima deste o número apresentado coincide exatamente com o beijo em processo. Tive vontade de ir mais profundo, estou dizendo isso para você e o explico pela tentativa de engolir um pouco da sua voz, trazê-la para dentro de mim desde o último domingo em que estivemos juntos, esse dia apócrifo no enredo da semana e a partir do qual nada se encerra, tampouco se principia. E quando já não houvesse mais espaço cênico, baixadas a lonas labiais, conseguir ouvi-la ressoando dentro do meu peito, provocando uma sorte de reverberação que de algum modo - desconhecido e improvável - me levasse para mais perto de você mesmo quando longe e não importando quão longe isso fosse.


Há de pronto uma intensa evocação de jardinagem.

Tanto mais belas as flores, mais e mais as delicadas pétalas conclamam para si o cuidado...
Eu gostaria tanto de apreender alguns truques de poda de modo a favorecer o florescimento das palavras que me aprovassem a atividade de beijar seus lábios e recebê-los molhados, respingando nos meus um orvalho sempre novo. Regar-nos-íamos, assim, mais amantes e toda palavra que aqui escreve jardim e faz brotar de tudo isso a espiral semântica que floreia esse limiar ardente do seu corpo que quero com o meu.

Há igualmente de pronto uma intensa evocação circense.

Tanto mais vigorosos os giros do trapézio, mais e mais ensaiados se reivindicam os trapezistas dessa insólita arte de beijar em suspenso...

Horrorizam-me os caprichos do Inverno, também a imagem de uma tenda circense amarfanhando-se pelo chão.
E temo o esmaecimento das flores, a opacidade do jardim sem o brilho de vários crisântemos, a queda dos trapezistas e o silêncio de tudo isso que deveria bem antes emitir um som muito alto.

.