Deslizam agora pelos meus lábios esses sabores que da sua pele há muito pouco eu absorvia todos eles em mim. Eram doces e suaves vários que então podiam vir até mim quando não tomados do ponto em que se vertiam agres e densos. É bem certo que você não compreende o travar dessa língua que vai de encontro aos dentes e acha força de impulsão necessária a fim de trazer dos céus da boca o barulho estalado tão característico de quem melhor prova delícias furtadas.
Quisera pintá-las em cores as mais intensas e assim matizá-las numa tela de onde despontariam tantos tons quantos mais são esses seus sabores com que você vem me dar o que então recebo apaixonadamente.
Erraria procurando pelas tais cores despejadas prontamente de tubos abertos. Mesmo não os abrindo ao acaso, erraria. Precisaria de uma pouca oferta de cores; uma economia de tubos em tons já sabidos por muitos. Procurar-se-ia bem mais por uma mistura pessoal. Achar nessa pouca oferta o tom mais adequado ao seu específico sabor. Misturar poucas tintas através da economia de tubos e fazer nascer dali a tonalidade específica desse gosto que de você eu roubei com minha língua. E assim poder pintar mais precisamente como gostaria de dizer com a palavra vermelha aquele rubro espectro de cujo calor para mim se fizera o vestido pelo qual instantes antes era seu corpo todo ele revestido em boas medidas de prazer. Erraria, todavia. Na palavra vermelha mal se emprega pois o gosto roubado; apenas faz borrar o tom que procuro e não posso achar. Dizê-lo é algo inapreensível, pois, bem assim como pintá-lo, seria parar a variação com que o sabor desliza dentro de mim, seria, portanto, interromper apenas em vermelho a cor tão instável dessa chama que arde indefinidamente rematizando-se em tons os quais ainda que perseguidos até o fim jamais se deixam interromper.
Como a tarefa da palavra vermelha que procuro e não acharei por não querer dela o vermelho tão escasso e incapaz de dizer o gosto nada bruxuleante dessa febre em que você ardia sem se adoecer, recorreria não à tinta prontamente despejada daqueles tubos, e sim, todo o contrário, a mais insana mistura, mistura desvairada, mergulhada loucamente no desespero que busca um matiz nunca pintado por pincel algum, tinta mágica que não se seca mesmo exposta a vento mais violento que por aí um de nós visse assoprar.
E antes de enlouquecer, e antes de deixar enganar-me pela tinta mágica que não há, e antes de errar na palavra o gosto do qual desdobram tantos sabores, seria hora de saber: tão grande seu gosto, mais ínfimo o esboço que faço dele querendo experimentá-lo fora da minha língua provando você.
Antes desses giros todos eles conduzindo ao rodopio final que antecede a queda, eu saberia: fica o esboço mesmo pequeno e se apequenando tão ardente a imagem da chama queimara na aura da sua pele vestida a rigor de uma dança à palo-seco e a partir da qual emergia somente a melodia suspensa dos nossos gemidos.
E assim quebraria o pincel - em gesto equivalente partiria ainda a pena incapaz da letra vermelha.
Le Grand Finale?
Jamais. Suas cores, toda minha pena!
Quisera pintá-las em cores as mais intensas e assim matizá-las numa tela de onde despontariam tantos tons quantos mais são esses seus sabores com que você vem me dar o que então recebo apaixonadamente.
Erraria procurando pelas tais cores despejadas prontamente de tubos abertos. Mesmo não os abrindo ao acaso, erraria. Precisaria de uma pouca oferta de cores; uma economia de tubos em tons já sabidos por muitos. Procurar-se-ia bem mais por uma mistura pessoal. Achar nessa pouca oferta o tom mais adequado ao seu específico sabor. Misturar poucas tintas através da economia de tubos e fazer nascer dali a tonalidade específica desse gosto que de você eu roubei com minha língua. E assim poder pintar mais precisamente como gostaria de dizer com a palavra vermelha aquele rubro espectro de cujo calor para mim se fizera o vestido pelo qual instantes antes era seu corpo todo ele revestido em boas medidas de prazer. Erraria, todavia. Na palavra vermelha mal se emprega pois o gosto roubado; apenas faz borrar o tom que procuro e não posso achar. Dizê-lo é algo inapreensível, pois, bem assim como pintá-lo, seria parar a variação com que o sabor desliza dentro de mim, seria, portanto, interromper apenas em vermelho a cor tão instável dessa chama que arde indefinidamente rematizando-se em tons os quais ainda que perseguidos até o fim jamais se deixam interromper.
Como a tarefa da palavra vermelha que procuro e não acharei por não querer dela o vermelho tão escasso e incapaz de dizer o gosto nada bruxuleante dessa febre em que você ardia sem se adoecer, recorreria não à tinta prontamente despejada daqueles tubos, e sim, todo o contrário, a mais insana mistura, mistura desvairada, mergulhada loucamente no desespero que busca um matiz nunca pintado por pincel algum, tinta mágica que não se seca mesmo exposta a vento mais violento que por aí um de nós visse assoprar.
E antes de enlouquecer, e antes de deixar enganar-me pela tinta mágica que não há, e antes de errar na palavra o gosto do qual desdobram tantos sabores, seria hora de saber: tão grande seu gosto, mais ínfimo o esboço que faço dele querendo experimentá-lo fora da minha língua provando você.
Antes desses giros todos eles conduzindo ao rodopio final que antecede a queda, eu saberia: fica o esboço mesmo pequeno e se apequenando tão ardente a imagem da chama queimara na aura da sua pele vestida a rigor de uma dança à palo-seco e a partir da qual emergia somente a melodia suspensa dos nossos gemidos.
E assim quebraria o pincel - em gesto equivalente partiria ainda a pena incapaz da letra vermelha.
Le Grand Finale?
Jamais. Suas cores, toda minha pena!
Retorno aos sabores de há pouco, recolhidos da sua pele desprotegida.
E, abandonando minha letra insuscetível a tal tonalidade que de você se veste tão inteiramente, abandono também minha pintura. Levo minha boca outra vez mais até esses lábios onde o sorriso múltiplo, ao contrário de todos os demais que você me oferece, é apenas seu.
(Sinto sua mão então deslizar suavemente sobre meus cabelos naquela parte à que sequer eu mesmo posso assistir. E eis que esse sorriso estremecendo seu corpo inteiro para então fazê-lo vibrar contra mim já é só seu).
D.
E, abandonando minha letra insuscetível a tal tonalidade que de você se veste tão inteiramente, abandono também minha pintura. Levo minha boca outra vez mais até esses lábios onde o sorriso múltiplo, ao contrário de todos os demais que você me oferece, é apenas seu.
(Sinto sua mão então deslizar suavemente sobre meus cabelos naquela parte à que sequer eu mesmo posso assistir. E eis que esse sorriso estremecendo seu corpo inteiro para então fazê-lo vibrar contra mim já é só seu).
D.