quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O equilibrista e a lágrima.


Lá estará o fio esticado entre dois pontos de um especioso espaço. E, nele, algo então se abre. Aumenta-se passo após passo. De mais a mais, todavia, o equilibrista suspende-se onde não há sustentação ou quase nenhuma. Pisa esse risco das alturas. É como um desfile - há muito, porém, decaído de moda. Não há lona estendida que o cubra de intempéries, pois seu Circo é a própria vida. Tampouco existe platéia que com certas palmas acolha-o durante a queda iminente. Assim ele apenas caminha finamente. E vai pisando o risco nesse fio desenhado entre um espaço que, ao dilatar-se, com várias sutilezas, parece desmanchar boa extensão do desenho que o equilibrista tomou por guia. Traça com essa trama de seus pés aquela Arte nobre de um vil destino a ser costurado até o último ponteio; até fim. Pois que as mãos, estas se ocupam de levíssimo bastão e seguram-no de maneira branda uma vez que tal gesto contido e quase carinhoso a conduzir caprichosamente o bastão cuidará possivelmente de mantê-lo em seu trajeto, um decurso.
Desde sempre esteve ali. Talvez até mesmo antes do nascimento. Quem dá para o equilibrismo, dizem por aí, de esquinas em esquinas, veio ao mundo através de abismos. E decerto há mesmo de ser o próprio ato do nascimento aquele no qual revelara o primeiro de todos os vãos a serem vencidos na vida, ultrapassados. Equilibrar-se, será dito também, é viver esses vãos de toda uma só vida.
Como lona não há nesse circo, chega até seu rosto vasta sorte de ventos: alguns refrescam e animam; outros, todo o contrário, só fazem gelar e imobilizam. Caem-lhe também gotas de muitas chuvas para que delas o equilibrista embriague a sua sede. E, como são gotas verdadeiramente torrenciais, nelas o equilibrista disfarça às vezes o seu choro: tanto exagerando quanto minimizando lágrimas. Não tem faltado quem lhe acuse e reprove a dissimulação. É desconcertante, mas, no equilibrista, o humor dos sentimentos é igualmente praticante da Arte nobre de um vil destino. E nisso se igualam, EQUILIBRAM-SE, e são um só e o mesmo. Cada lágrima vertida, despejada de sua clara íris, serve de exemplo e lhe ensina tanto mais sobre a queda. De tal modo o equilibrista é também para o olho da vida que o observa às alturas apenas uma lágrima derramada de um choro todo ele torrencial.
Juntos, equilibrista e lágrima, algo todavia uno, pisam esse risco mais elevado, suspenso. Desfilam ali em cima, ambos decaidamente. E vão, passo após passo, vão. Num especioso espaço - onde o circo sem lona chama-se de uma única vez “vida e perda dessa vida” - estará o fio entrelaçando frouxamente dois pontos soltos, cuja junção final jamais abrevia. O equilibrista suspende-se e de mais a mais nada vai sustê-lo. Sabe que chegou a boa hora em que as chuvas mais não virão. E num profundo mergulho ele descerá ao encontro da última lágrima enquanto a vida assiste à dilatação final do especioso espaço em cuja imensurável circunferência o equilibrista encenou por tantos anos essa tão nobre Arte. E lá não estará mais fio algum. Lágrima e equilibrista voam nesse vão, até o fim da nobre Arte.
Voam decaídos em pleníssima queda, e vivem
ali
nesse
vão.


D.