domingo, 5 de setembro de 2010

Literaturas apropriadas: escrituras a furto




pro Vilmar Henrique


Autops(eudo)icografia

O autor é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é sua a biblioteca que deveras sente.

Álvaro de Campos:

Sou vil, sou reles, como toda a gente. Não tenho ideais, mas não os tem ninguém. Quem diz que os tem é como eu, mas mente. Quem diz que busca é porque não os tem. É com a imaginação que eu amo o bem. Meu baixo ser porém não mo consente. Passo, fantasma do meu ser presente, Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.Talvez possa morrer por esse ideal.Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são... Modificar-me? Para meu igual?...
— Acaba já com isso, ó coração!



Bibliotecas e livrarias roubadas

No dia 11 de novembro (é precisamente 1975) Juan García Madero, membro recém ingresso ao realismo visceral, descreve sua ida a um dos prédios da calle Anáhuac, próximo a Insurgentes. É sua primeira visita ao quarto onde mora Ulises Lima, poeta e mebro do referido grupo. O habitáculo é claustrofóbico, e livros se acumulam por todo o lugar. García Madero, jovem então aos dezessete anos, se deixa envolver pelas conversas sobre poesia que vão boca pra fora dos real visceralistas.

Les pregunté dónde podía comprar los libros que ellos llevaban la otra noche. La respuesta no me sorprendió: los roban en la Librería Francesa de la Zona Rosa y en la Librería Baudelaire, de la calle General Martínez, cerca de la calle Horacio, en la Polanco. También quise saber algo acerca de los autores y entre todos (lo que lee un real visceralista es leído acto seguido por los demás) me instruyeron sobre la vida y la obra de los eléctricos, de Raymond Queneau, de Sophie Podolski, de Alain Jouffroy.

Alguns trinta anos depois (não quero precisar o ano, apenas lembro algo já ocorrido e escrevo agora neste ano que já é 2010) vim a fazer aquela que foi a minha primeira visita a um dos quartos do alojamento estudantil do campus em que me graduei a inícios dos anos zerozero. No que já dirá respeito à clausura dos ambientes, pouco ou nada muito distinto é possível ressaltar uma vez cotejando tais lugares. Também vejo muitos livros e pessoas eloquentes. Pondero, entretanto, sobre ponto e outro. Com as próximas visitas descubro que aqueles livros são roubados. A mim isso também não me surpreende. Dadas certas variantes no que diz respeito à assiduidade, volto a esse dito quarto durante quase todo o meu quaternário de graduação, de modo que a coisa tem prosseguimento até o penúltimo semestre antes da formatura. Ali moram dois estudante e que são também meus veteranos de curso e dos quais sou verdadeiramente amigo de um, sendo que do outro tudo (já que não quero banalizar o que se digo com a palavra amizade) o que sei fazer é aproveitar muito prontamente as ofertas, pois ele é meu fornecedor de erva e, em eventuais ocasiões, cocaína. Diz que sua família é carente (de modo geral assim são todos os estudantes que necessitam viver na moradia univesitária) e que precisa de fazer o tal dinheiro a fim de se manter ali. Há ainda um terceiro estudante, este de engenharia ambiental, que não trafica e nem lê e nem tampouco aparenta inclinação literária alguma. Boca pra fora deles nada pode sair sobre poetas elétricos. E me contento em ouvi-los sem fazer muita questão pelo que dizem, estando parcialmente aliviado pelo fumo bom que tem. Fico próximo do que trafica, pois, como disse, ele me serve sempre que procuro. Sigo displicentemente ouvindo os delírios (nada perturbantes) daquele que não tem afetuosidade pelas letras. E me amigo (com o passar do período de vida estudantil) bastante daquele que rouba os livros e diz possuí-los. Questão de afinidades eletivas, pra falar obviamente com Goethe nos dentes. Não raras vezes o rapaz de quem fui me amigando me diz as coisas as mais vagas ao longo do tempo em que deixei a cidade para viver dois pares de ano no interior de uma cidade universitária. Duas entre a vasta sorte de coisas vagas, no entanto, se sobressaem na minha memória. Diz primeiramente algo inebriado a respeito das teses de Walter Benjamin sobre a história; autor a quem eu então não tinha lido e passaria a ter por meu após o primeiro e arrebatador contato mediante leitura. A isso ele emenda abruptamente algo sobre o conceito benjaminiano de aura, e confessa estar pensando algo a propósito da expansão do colecionismo de vinil e o mercado de discos no Brasil àquele momento. Segundo, faz que pra mim esteja esclarecida a razão dos roubos citando um excerto da canção do Science: “Banditismo por uma questão de classe, man!”



Comecei por Bolaño ("Los detectives selvajes") não à toa. “Pensar”, dizia Paul de Man, “é encontrar a citação certa”. Ulises Lima e, sobretudo, Arturo Belano são exímios roubadores de livros. Não sendo, em última instância, uma ontologia literária de Lima e Belano, o roubo de livros é, mais verdadeiramente, a condição histórica da literatura que está corpo pra dentro deles. Sabem o que roubar e roubam porque o sabem necessário. Não se enaltecem tanto a propósito do que lêem, e sim mais propriamente exaltam aquilo que justamente roubam pra ler.

Eis ali o ponto crucial que não se deve perder de vista ao jogar com o anagrama possível entre as letras que, mutatis mutandis, funde os nomes de Roberto Bolaño (personagem) e Arturo Belano (autor). A crítica tem supervalorizado essa grande besteira dos alteregos, do doppelgänger na criação bolaniana. Por isso pondero, e às vezes me envergonho ao falar a respeito disso. Tudo bem, por ora. O roubo de livros não só é uma modalidade de delito frequente na literatura do Bolaño, assim como, também, é presente na vida do escritor que é. Temáticas sobre roubos a livrarias (pra não falar da já famosa série assassinatos que alegorizam os femicídios de Ciudad Juárez) são recorrentes e altamente disseminadas em quase todas as entrevistas do chileno (ou será mexicano? ou será catalão? – pra mim, que sou latino americano e também brasileiro, pouco importa, pois vejo esse gênero de literaturas nacionais a partir da interpolação dada entre os bons escritores, que estão começando a ficar ruins, e os maus, que, não resistirei ao oxímoro, começam a ficar excelentes). Como são muitas, pontuo a que entre todas me pareceu a mais inventiva. A coisa acontecer a partir de uma aposta feita entre Bolaño e um amigo, cujo nome é educadamente omitido. Consiste no peculiar roubo (a que chamarei polifásico) de todos os volumes do “Em busca do tempo perdido”. A condição é que ambos percorram (num só dia e ao mesmo tempo) distintas livrarias da Cidade do México, roubando de cada uma delas um exemplar e que para tanto estivesse respeitada a ordem crescente referente aos tomos do romance de Proust. Ao ser inquerido pelo entrevistador se conseguem executar tal feito, Bolaño responde que seu amigo consegue quatro dos livros, e ele, por sua vez, completa toda a série que vai de “No caminho de Swann” a “O tempo redescoberto”.

Neste ano, aliás, veio de Portugal a notícia de que lá o próprio “2666”, massivamente divulgado com a chamada de “o livro do ano” a propósito da tradução portuguesa publicada em 2009, com direito a um site que marcava a contagem decrescente dos dias até o lançamento, é, também, "o livro mais roubado do ano". Isso sugere uma nova categoria para a classificação de livros, tal como pontuou Marcos Natalli, crítico que de longe tem dito as coisas mais interessantes sobre a obra bolaniana e sua recepção no Brasil. Acresceria um ponto mais. Não sendo apenas uma nova categoria classificatória, tal fato consiste na desnormatização de uma norma. É o delito como estimulo das forças produtivas, que falarei com Marx mais adiante. O roubo, aparentemente contraproducente dentro da lógica de mercado consumidor, torna-se, com efeito, uma estratégia apropriada para a potencialização de uma nova tendência de consumo.

Dizia que não à toa começava por Bolaño. Pois bem. Ler é encontrar o roubo certo. Belano bem poderia ter dito algo assim. Não disse. Silvio Austier, sim. Não sei se bem componho a minha própria arqueologia de criminosos literários. Ou se, sim, a minha família literária conforme a feliz designação já formulada por Piglia. A bem da verdade, deponho, aqui, que eu gostaria, preferencialmente, de poder apostar algo com Bolaño. E assim roubararíamos alguma livraria em Tel Aviv, junto de Ulises Lima e Arturo Belano. Tenho comigo já o título da literatura que de pronto assaltaríamos: “El juguete rabioso”, de Roberto Arlt. Uma tradução hebraica? Talvez. Preferiria que fossemos eu, Lima e Belano à Berlim. Tenho cá pra mim que muito bem se amoldaria o iídiche com o alemão, assim como os lunfardismos se fundiram no castiço idioma riopratense de Austier, frente a quem nos faríamos precursores. Ler é encontrar o roubo certo. Ponho tal frase, portanto, na boca daquele de quem eu me faço agora, roubando junto de Lima e Belano, um respeitoso precursor. Para além de toda a traição, sempre me intrigou mais profundamente a invasão e o roubo à biblioteca, cena que fecha o primeiro capitulo, “Los ladrones”, do “Juguete”.

Sacando los volúmenes los hojeábamos, y Enrique que era algo sabedor de precios decía: "No vale nada", o "vale".

—Las montañas del oro.
—Es un libro agotado. Diez pesos te lo dan en cualquier parte.
—Evolución de la materia, de Lebón. Tiene fotografías.
—Me la reservo para mí —dijo Enrique.
—Rouquete, Química orgánica e inorgánica.
—Ponelo acá con los otros.
—Cálculo infinitesimal.
—Eso es matemáticá superior. Debe ser caro.
— ¿Y esto?
— ¿Cómo se llama?
—Charles Baudelaire. Su vida.
—A ver, alcanzá.
—Parece una bibliografía. No vale nada.
Al azar entreabría el volumen.
—Son versos.
— ¿Qué dicen?
Leí en voz alta:
Yo te adoro al igual de la bóveda nocturna
¡oh!, vaso de tristezas, ¡oh!, blanca taciturna.

"Eleonora —pensé—. Eleonora."

Y vamos a los asaltos, vamos, como frente a un cadáver, un coro de gitanos:
—Ché, ¿sabés que esto es hermosísimo? Me lo llevo para casa.
—Bueno, mirá, en tanto que yo empaqueto libros, vos arreglate las bombas.
— ¿Y la luz?
—Traétela aquí.

Seguí la indicación de Enrique. Trajinábamos silenciosos, y nuestras sombras agigantadas movíanse en el cielo raso y sobre el piso de la habitación, desmesuradas por la penumbra que ensombrecía los ángulos. Familiarizado con la situación de peligro, ninguna inquietud entorpecía mi destreza.

Dizia - e reitero, ler é encontrar o roubo certo. Já amar deve ser encontrar a Elena (de Obieta, preferencialmente) certa. No caso de Austier, Eleonora. Mas (infelizmente, Maga) não estou falando sobre livros e Eros...

Fangora (personagem da Milla Jovovich em “Dummy”, filme apenas singelo) rouba um livro e o lê parcialmente enquanto espera por Steven (um desses vinte personagens genais que o Adrien Brody faz). Quando Steven vem, Fangora presenteia o amigo com o livro roubado. Não lembro mais o que Fangora roubara. A cena incial de “The ninth gate” mostra Dean Corso (personagem de Johnny Depp) roubando de modo pouco criminoso (Corso é um livreiro e detetive que faz renda a partir de engodos do tipo) um “Quijote” de 1780, a famosa edição da casa madrilenha de Don Joaquín Ibarra; encadernação de Antonio Carnicero; as gravuras de Fernando Selma e memoráveis ilustações e retrato assinados por José del Castillo Sáez de Tejada, pintor espanhol e membro do grupo de pintores do Absolutismo Ilustrado. Fangora e Corso, pois bem. Celebro a primeira; guardo-a comigo de modo todo ele carinhoso. Rouba, pois quer ler e, mais que isso, que o amigo leia aquilo de que precisa e não tem. Isso é muito apropriado. Por assim ser é que ela pode se dar ao descaso e ao abandono (abandona pois já possui) da leitura e já presentear Steven com o livro que lia sem muito interesse. Reprovo, em contrapartida, a atitude de Dean Corso. Rouba, apenas. E não se apropria. Enquanto Fangora é o horizonte de expectativa, a recepção, Corso é a essencialização do valor artístico, a retirada da série literária que determinada obra integra. A apropriação, como a quero aqui mediante uma sintaxe que joga uma partida anagramática com as palavras, faz com que sejam devidamente distintos entre si os atos criminosos.


Posses furtivas

A posse é um embate, que nunca forma síntese, embate dado continuamente entre desapego versus apego. Ou ainda, como bem formulou Bioy Casares - "El recuerdo que deja un libro a veces es más importante que el libro en sí".



Ano e meio atrás entrevistava Alberto Laiseca, escritor rosarino e autor, entre outras coisas, de “Los Soria”, romance de escritura das mais vigorosas já vistas. Passagens e hospedagem custeadas pelo CNPq, através do vigente projeto de pesquisa da minha então (ainda que eterna) orientadora de mestrado, Graciela Ravetti; também ela uma argentina e rosarina. Laiseca vive hoje num desses típicos bairros portenhos, nos quais é muito comum a existência de parques com muita área verde onde pululam jovens tomando mate e gente pelas ruas com livro nas mãos e ótimos lugares onde comer e beber fartamente. A casa do homem, como várias outras de Buenos Aires, está divida em plantas alta e baixa. Vive com alguns cães no piso baixo. E a parte superior ele divide com dois gatos e inúmeros livros e garrafas de cerveja e muitos cigarros. Poderia desdobrar essas páginas discutindo não só a visita e, também, o tema da entrevista. Vou focalizar mais detidamente, haja vista meu motivo aqui, na biblioteca sui generis do Conde Laisek. Durante toda a hora e meia que estivemos ali algo não cessou de me assombrar. Todos os livros do Conde estão devidamente forrados por folhas de cartolina branca, matizadas de amarelo, assim como o bigode de Laiseca. A coisa me resultou incrível, apesar de estar devidamente avisado sobre tal extravagância. A propósito disso fiz minha última pergunta, que já nada teria a ver com o que conversamos desde mais cedo. E o homem diz: “Es para evitar identificaciones y afanos, chico”. E prossegue. “Tengo una guía, de lo contrario yo sería uno de esos viejos chinos que cuando se morían era una tragedia. No tengo una biblioteca inconsultable. Sino tendría todo en grandes piletones, como en las bibliotecas imperiales. Ahí tenían viejos chinos que sabían todo porque, claro, ¿qué índice ibas a hacer, si son ideogramas? Es imposible. Entonces cuando se morían los viejitos era un desastre, porque se acordaban todo de memoria y encontraban cualquier cosa.”



Compartilhamos o mesmo riso. A risada dele, porém, recobre a minha feito o uivo de um lobo sobrepoosto ao ladrar todo espantando de um pequeno cão a que de pronto o lobo vai devorar caso haja ataque. Ainda há tempo pra que mostre algo antes da partida, conforme nos prometera apresentar. É uma série de fichas que retira de uma pasta-fichário guardada no fundo de uma das gavetas da mesa detrás da qual fala comigo. Compõem uma espécie de linha histórico-genética de todos os largos anos dedicados à escrita de “Los Soria”. (Aquela mesa é uma desses móveis mágicos da literatura, penso eu, e deve ter coisas fabulosas como o bau do Fernado Pessoa, a gaveta “sem fundo” do Cortázar de onde volta e meia Aurora Bernárdez retira algo como a recente publicação das “Cartas a los Jonquieres”, e o armário de Bolaño a que Carolina López vai publicando desde a indesejável - embora esperada - visita de Thánatos em 2003) E Laiseca permite que eu fotografe, a pedido da Graciela. E enquanto isso ocupa-se da abertura de outra long neck de cerveja Heineken. Pela primeira vez o surpreendo disperso, dando carinho aos gatos. É tempo suficiente pra que eu tire fotos do material apresentando e, também, coloque dentro da minha bolsa um dos muitos livros forrados que estão numa das prateleiras mais próximas de mim. Faço minha deferência ao Conde e me preparo pra deixar casa. Laisek nos ciceroneia até o piso baixo; deseja sorte durante as despedidas.




Não sei por que exatamente roubei o livro. Ou melhor, sei: encontrava o roubo certo. Mais que o livro, eu pensava roubar Laiseca. A grande penúria desta entrevista foi não ter podido ver a biblioteca do homem, pensei. Aliás, voltei refletindo sobre a frase dita por ele - “No tengo una biblioteca inconsultable”. A entrevisão de toda biblioteca, de todo o enciclopedismo, resulta verdadeiramente inconsultável. Temi que ele descobrisse meu gesto afanador, pois o livro roubado me pareceu ser muito visitado pelo homem. Aliás, tive medo de que o Conde Laisek descobrisse minha afronta à sua biblioteca e viesse a me procurar com sangue nos olhos antes mesmo que eu pudesse deixar a cidade. A figura do homem impõe por si só um forte medo. E o objeto do meu furto, para mais, veio a contribuir profundamente para que repensasse o meu crime, mensurando o meu castigo. "Los libros”, é Bolaño quem diz, “son como fantasmas". E quando desforrei a cartolina, descobri que o exemplar afanado por mim era “On Murder considered as one of the Fine Arts”, do Thomas de Quincey. Isso me arrepiou ainda mais o corpo, dado o pavor ao descobrir qual era o título. E como também já tinha lido, resolvi devolvê-lo ao Homem. Preferi fazer tal reparo, e assim salvando minha própria vida da desgraça, usando o serviço de correios. E de tal maneira foi que postei a devolução numa agência localizada ainda em Palermo, perto do castelo assombrado do Conde. Sobre a cartolina que forrava o volume referido, devidamente preservada, acresci um pequeno bilhete com meu ironico pedido de desculpas e a seguinte citação, que certamente nos recociliaria. “Vocês já ouviram falar de pessoas que adoeceram com a perda de seus livros, de outras que neste ofício”, diz Benjamin a propósito dos colecionadores, “se tornaram criminosas”. Até hoje não voltei a falar com o Conde, sequer por emails. Acredito, entretanto, que o episódio fez com que eu me tornasse alguém mais próximo do homem. Mesmo ao fim e ao cabo sem conseguir roubar-lhe!

Todo contrário a essa prática da forragem está Leminski. O homem não tinha nenhum apego pela posse dos livros. Alice Ruiz disse incansavelmente que o Polako logo terminava um livro e já o deixava jogado pela casa, à espera de alguém que o acolhesse. E também vivia dando seus livros a quem quer que fosse. “De todas as formas de obter livros, escrevê-los é considerada a mais louvável”. Benjamin também diz isso falando sobre o colecinismo enquanto desembala a sua biblioteca. Borges, se bem me lembro, inverteu um pouco tal sentença sem conhecê-la, suponho, e dizia que a mais louvável das formas de obter livros é fazer possuí-los mediante a leitura. Isso é quase performático em ambos. Um buscando à todo custo a escritura de sua obra maior sobre as passagens parisienses, cujos manuscritos foram salvaguardados da invasão nazi uma vez escondidos por Bataille na Biblioteca Nacional de Paris assim devidamente ocultados como uma folha num bosque. O outro redefinindo o que é tradição literária e enfatizando seu orgulho maior pelas obras lidas em detrimento daquilo que escrevera; pobre Borges a quem a noite dos olhos surrupiou toda leitura dos últimos anos. Nem um e nem tampouco o outro, todavia, precisaram roubar livros. E, apesar disso, pese o que pesar, são dois dos maiores criminosos do ensaísmo crítico e da ficção.

A única forma de obter livros, nem melhor, nem mais louvável, apenas única, é roubá-los. Ouço isso boca pra fora de Bolaño, de Silvio Austier, de Fangora, da ideia de baditismo por uma questão de classe, conforme o supracitado excerto evocado pelo amigo vil e relés que eu tive certa vez.


Escrituras a furto

Apontei a minha família literária sobrescrevendo os nomes de Ulisses Lima, de Belano, de Austier e Fangora. Também eles exímios praticantes da dita tarefa do baditismo literário. Acho que deveríamos ser legião. E é por isso que prossigo. Quero aqui mais nomes. Mesmo aqueles os que nunca roubaram livros, e sim literaturas inteiras. O lampião de nosso bando tem lampejo e nome obscuros, Macedonio Fernández. A chama já queima há exatamente um século com a “Necesidad de una teoria que establezca cómo no es el segundo inventor sino el primero quien comete el plagio”. O velho sabia melhor do que qualquer um de nós que “la antiguidad de las ideas nuevas es regla”. E isso iluminou mais tarde a ideia borgiana dos precursores, tenho isso certo pra mim. “El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro. En esta correlación nada importa la identidad o la pluralidad de los hombres”. E não é outro o fogo que queima posteriormente com os contos de “La otra orilla” de Cortázar, quando este sobrescreve ali o epíteto de “Plágios y traducciones”.

Se ler é encontrar o roubo certo, não estará demais dizer um silogismo. Escrever é encontrar as literaturas de que queremos ou não nos apropriar. Uma das definições de “plagio”, cf. Houaiss, refere-se àquilo que é oblíquo, algo que não esta em linha reta, ou de lado, um desvio. Literaturas apropriadas são obliquidades. Elas estão na dimensão do que está a furto. Tudo isso torna muito apropriado o que diz Macedonio e repetimos outros muitos.

Quando surge a noção de autoria meio a alba da época moderna, ela surge como um valor de menos. É a partir do século 16, como bem viu Foucault, que desponta a função de autor como uma sorte canhestra respondendo ao chamado da censura. As primeiras listas de autores, no sentido moderno (ou “clássico”, segundo a periodização foucaultiana) que a palavra passa a ter cada vez mais após o Renascimento, aparece a propósito das perseguições e punições em torno de um texto considerado transgressor. É essa “apropriação penal dos discursos”, de que fala o francês, que determinará a primeira função do autor a partir da prática do Índex. Nossa literatura deve ser, também, uma apropriação penal dos discursos, porém no sentido do banditismo de que falo aqui. Apropriação penal como habilidade de postular formações discursivas sobre qualquer coisa, a partir de qualquer lugar. Não jogamos mais com as noções de fonte, de influência. Escrevemos descobrindo as literaturas de que queremos nos apropriar. Saqueamos a tradição até que ela se esvazie por inteiro e perca toda a rigidez holística de uma concepção de tradição tal qual a elliotiana procurou cristalizar na crítica literária.

A furto e já somos precursores de toda e qualquer literatura. Suplementamos o cânone com plágios e mais plágios e assim o apropriamos infinitamente, por certo. Nosso banditismo é muito honesto diante da desonestidade com que tantos vezes vieram a nos negar o centro. Agora, somos nós o nosso próprio descentramamento. Não nos encontramos em nenhuma parte, e por isso entramos em todas as literaturas e retiramos dali o que é genuinamente nosso. Roubamos bibliotecas, livrarias, e amigos. E fugimos; uma fuga constante. Eis o nosso jogo. Nunca mais encontrarão um periféria de modo a estabelecer o centro. É isso que nossas literaturas, apropriadas, querem. Tudo está mesmo mudando de lugar e de nomes. O centro recebeu diversos nomes ao longo da historia do ocidente. A noção do orientalismo em Said diz isso com toda a propriadade possível. É preciso estar muito atento a essas mudanças, aos nomes que elas recriam. A perversidade da palavra, entendo aquele facismo da letra de que diz Barthes. Quanto mais expostas estão as pervesões já feitas, mais elas estão dissimuladas.


Torres García, Universalismo Constructivo, 1941.

Estou me aparentando aqui desses escritores a furto. Sobrescrevo minha apropriação penal. O banditismo das escrituras a furto configura a cepa de escritores e escritoras que se faz com a sorte dos delit(erári)os. Literaturas apropriadas, escrituras a furto.

Deliterários

Escrever é cometer o delito certo: o crime literário. Nenhuma apropriação penal cerceará mais os discursos literários seja aqui na América Latina ou onde for. Roubamos livrarias, bibliotecas, colecionadores, enfim, literaturas e até teorias. A originalidade não importa. O suplemento, sim. Preenchemos ausências desde a origem. Nossa letra inscreve indecidíveis e variabilidades temporais e, com isso, desconstruímos a ideia de continuum por trás da história literária e de nossa condição cultural.

Por fim, roubo ainda algumas das ideias bem formuladas por Josefina Ludmer, que por sua vez rouba de Marx, mais pontualmente daquele instante em que este dizia o que se segue:

Um filósofo produz ideias, um poeta poemas, um clérigo sermões, um professor tratados, e assim por diante. Um criminoso produz crimes. Se observarmos mais de perto a conexão entre este último ramo da produção e a sociedade como um todo, nos livraremos de muitos preconceitos. O criminoso não só produz crimes, mas também leis penais, e com isso o professor que dá aulas e conferências sobre essas leis, e também produz o inevitável manual onde esse mesmo professor lança suas conferências no mercado como “mercadorias”. Isso traz consigo um aumento da riqueza nacional, fora o gozo que o manuscrito do manual causa em seu próprio autor.
O criminoso produz, além disso, o conjunto da polícia e a justiça criminal, fiscais, juízes, jurados, carcereiros etc.; e essas diferentes linhas de negócios, que formam igualmente muitas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diferentes capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e novos modos de satisfazê-las. (...) O criminoso produz também uma impressão em parte moral e em parte trágica, segundo o caso, e desse modo presta “serviços”, ao suscitar os sentimentos morais e estéticos do público. Não só produz Manuais de Direito Penal, não só Códigos Penais e com eles legisladores neste campo, mas também arte, literatura, romances e até tragédias, como mostram não só Os ladrões, de Shiller, mas também Édipo Rei e Ricardo Terceiro. O criminoso rompe a monotonia e a segurança cotidiana da vida burguesa. Desse modo, ele a salva da estagnação e lhe empresta essa tensão incômoda e essa agilidade sem as quais o aguilhão da competência se embotaria. Assim, estimula as forças produtivas. Enquanto o crime subtrai uma parte da população supérflua do mercado de trabalho e assim reduz a concorrência entre os trabalhadores – impedindo até certo ponto que os salários caiam abaixo do mínimo -, a luta contra o crime absorve outra parte dessa população. Portanto, o criminoso aparece como uma desses “contrapesos” naturais que produzem um balanço correto e abrem uma perspectiva total de ocupações “úteis”.



O crime é producente, diz Marx nesse longo trecho retirado da “História crítica da teoria da mais-valia”. E Ludmer o toma como instrumento crítico. O crime separa a cultura da não-cultura. Funda culturas distintas ao distinguir linhas no interior de uma cultura maior, isto é, normatizante. Estipula limites, diferencia e impõe exclusões. E assim se constrõem com o delito conciências culpadas (é a pervessa lógica de fonte e influências por trás da noção de história literária) e fábulas de fundação e de identidade cultural.

Os deliterários lançam pedras exatamente contra tal telhado de vidro. É uma luta contra a prática da definição pela exclusão. Não existe exclusão na descentralidade, já disse.

Escrever é cometer o delito certo. E os delitos certos se cometem com as apropriações literárias indevidas. É preciso roubar de tudo, como Austier e Enrique na biblioteca da escola no "Juguete". As apropriações literárias são devidamente efetivadas com a experiência dos deliterários. E essa experiência, uma experiência deliterária, só vem das más escolhas, dos crimes. Literaturas apropriadas teorizam sobre o delito e também fazem dele uma teorização capaz de ficicionalizar sobre o uso da força e do poder na relação articulada entre “crime e castigo”.

De todas as formas de obter literaturas apropriadas, escrevê-las de maneira deliterária, a furto, é considerada a mais louvável. Meu delito decorre desse filão de nomes de que me aproprio aqui. Banditismo por uma questão de classe se faz com a sorte dos deliterários. Essa é nossa vazão, o crime perante o crime da palavra, dos conceitos. A periféria (mesmo que seja o abrandamento eufêmico da subalternidade) é o que até aqui capacitou a produção do escopo discursivo do centro (mesmo que seja a hegemonia), a postura de tutela com que estiveram nos persuadindo.


Plano de fuga

Leopoldo Alas Clarín, escritor espanhol que escrevia século 19, justificava-se dos seus plágios literários assim:

Recuerdo haber escrito en alguna parte algo por el estilo: en materia de plagios literários cabrá sostener si son legítimos o no; pero el escritor de conciencia hará en este punto lo que ciertos comunistas, que además son personas decentes: Predican tal vez la abolición de la propiedad, pero no roban. Soy muy escrupuloso en este particular, y seguro de no haber tomado en la vida um renglón ni una idea a nadie, me molesta que haya quien diga, siquiera sea un Aramis, que he plagiado a tal o cual autor, aunque éste sea Cervantes.

Já não estamos mais para tal engodo os deliterários de então. Não só predicamos a abolição da propriedade, como também queremos roubar, afanar todas as literaturas conforme os desejos de cada um. Não somos nada escrupulosos, decentes por aqui, señor Clarín. Escrevemos a furto, e nossas literaturas seguem muito bem apropriadas.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

(sketches para o próximo post)


Literaturas apropriadas, escrituras a furto


Tô escrevendo um conto ( algo "ensaiado") sobre literatura e roubo de livros.
Em breve o post já estará aqui.


Por ora, dois pares de epígrafes já dirão algo:

- "El recuerdo que deja un libro a veces es más importante que el libro en sí". Adolfo Bioy Casares

- "Los libros son como fantasmas". Roberto Bolaño

- "Livros e putas – cada um deles tem sua espécie de homens que vivem deles e os atormentam. Os livros, os críticos". W. Benjamin

"Un livre ni comemence ni ne finit; tout au plus fait-il semblant". Mallarmé

E minhas sketches:


1. Bibliotecas e livrarias roubadas: Silvio Austier (Arlt); Belano/Bolaño; Fangora (Milla Jovovich) em “Dummy”; Dean Corso (Johnny Depp) em “The Ninth Gate”;

2. Escritas apropriadas: apropriado; a) que se apropropriou, que foi objeto de apropriação; b) adequado, oportuno para uma certa situação, uso ou propósito; “Necesidad de una teoría...” em Macedonio; “Precursores” em Borges; “Plagios y traduciones” em Cortázar; > Uma das definições de “plagio” cf. Houaiss refere-se à oblíquo, algo que esta em linha reta, ou de lado, um desvio. Discutir como a ideia de autoria, algo eminentemente moderno, surge como um valor de menos, i.e., aquilo que a partir do séc. 16 Foucault estabeleceu como “apropriação penal dos discursos” a propósito de perseguições e punições em torno de um texto considerado transgressor, p. 34. Alguma alusão possível a “Bouvard et Pécuchet”? Os copistas excêntricos no tomo homônimo e inacabado de Flaubert...

3. Desapego versus Apego Posses furtivas: o deslembrativo em Leminski frente a seus livros; a biblioteca revestida por Laiseca

4. Que nos roubem mais literaturas: imagens de raptos e sequestros literários – “o sequestro do barroco” de H. de Campos – como resgate de tradições. A crítica como o ato exímio de roubo, porém não de todo o mais producente.

5. Deliterários: a leitura como o mais profícuo deste gênero de crime; apropriar-se da teorização de Josefina Ludmer de maneira a interpretar o “roubo literário” como um ramo da produção capitalista; literatura e mercado: entrecruzamento de elementos: delinqüente, vítima, estado, sociedade: tais elementos descriminan culturas e, pois, formam culturas distintas dentro de uma formação cultural maior.


Se alguém souber de algo interessante sobre tal tema (e que não figure aqui) faça a gentilezar de me indicar

domingo, 22 de agosto de 2010

Michel Foucault: a memória de Borges


Todo es de todos, la palabra es colectiva y es anónima. Macedonio Fernández concebia de esa manera la literatura y varios de sus mejores textos se han publicado con el nombre de Borges, de Marechal, de Julio Cortázar. La identidad de una cultura se construye en la tensión utópica entre lo que no es de nadie y es anónimo y ese uso privado del lenguaje al que hemos convenido en llamar literatura. Ricardo Piglia.


Este post nasceu de uma das mais estúpidas buscas em volta da escrita: originalidade. E se deparou com uma página - que o surpreendera com a perversa antecipação de cem, duzentos ou mil anos – sobre a qual já estavam expostas todas as poucas duas ou três ideias que o assinante cria descobrir ele primeiro. A antiguidade de ideias novas, Macedonio Fernández dizia, é regra. E assim ele me antecipa, e despossuído de incomodo mais especial ele obtêm uma localização anterior à minha, sem sequer me pressentir, quando deveria até mesmo me citar a propósito disso que procuro aqui. Necessidade de uma teoria que estabeleça como não é o segundo inventor, e sim o primeiro quem comente o plagio.

Por lo menos hay dos dias malos en la existencia de un intelectual: aquél en que descubre un sistema de la felicidad y reconoce la fatigosa necesidad de cambiar todo en su genero de vida para provechar cuanto antes los benefícios del precioso hallazgo; y aquél en que topa con un libro escrito con perversa anticipación de doscientos o mil años, en que halla expuestas todas las pocas dos o tres ideias que nuestro hombre creía haber descubierto el primero. Macedonio, 1910.


As palavras e as coisas


Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento — do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia —, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro. O que transgride toda imaginação, todo pensamento possível, é simplesmente a série alfabética (a, b, c, d) que liga a todas as outras cada uma dessas categorias. Tampouco se trata da extravagância de encontros insólitos. Sabe-se o que há de desconcertante na proximidade dos extremos ou, muito simplesmente, na vizinhança súbita das coisas sem relação. A monstruosidade que Borges faz circular na sua enumeração consiste, ao contrário, em que o próprio espaço comum dos encontros se acha arruinado. O impossível não é a vizinhança das coisas, é o lugar mesmo onde elas poderiam avizinhar-se.

As heterotopias inquietam, sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, porque arruínam de antemão a “sintaxe”, e não somente aquela que constrói as frases — aquela, menos manifesta, que autoriza “manter juntos" (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. Michel Foucault, 1966.


A memória de Foucault


En el vocabulário crítico, la palabra precursor es indispensable, pero habría que tratar de purificarla de toda connotación de polémica o de rivalidad. El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro. En esta correlación nada importa la identidad o la pluralidad de los hombres. Borges, 1952.



Existem devotos de Nietzsche, das Vanguardas históricas e de mais um dos filmes do Bergman e um do Peter Greenaway. Michel Foucault foi meu destino. Ainda é, mas de uma maneira que ninguém poderia ter pressentido, exceto um só homem, Macedonio Fernández, quem não tem mais que dez ou onze (talvez doze, nunca vou saber) leitores no Brasil. De certo há outro, cujo rosto jamais verei.

Quem adquire uma enciclopédia não adquire cada uma de suas linhas, cada uma de seus parágrafos, cada uma de suas páginas e cada um de suas gravuras; adquire a mera possibilidade de conhecer alguma dessas coisas. Se assim acontece com um ente concreto e relativamente prosaico, dada a ordem alfabética das partes, o que não acontecerá com um ente abstrato e instável, ondoyant et divers, como a mágica memória de um vivo?

—Aceitas a memória vindoura de Foucault? Sei que é muito grave o que te ofereço. Pondere à vontade.

Uma voz incrédula replicou:

— Enfrentarei esse risco. Aceito a memória de Foucault.

P.S. 2010 — Já sou um homem entre os homens. Na vigília de meus livros sou um estudante de literatura comparada, Davis, esse nome de linhagem menardiana que maneja um fichário e que redata trivialidades eruditas, apesar de saber algumas vezes que aquilo que sonha é do outro. Quando cai a tarde pequenas e fugazes memórias me surpreendem, casualmente autênticas.

Tradição e avacalhação individual



"Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba."
Sganzerla. O bandido da luz vermelha

(a.va.ca.lhar)

1 Bras. Pop. Tornar(-se) ridículo, desmoralizar(-se), aviltar(-se)
2 Dizer mal de; arrasar com
3 Fazer algo sem capricho, sem atenção, com descaso
4 Pop. Promover desordem, confusão em; pôr a perder ou agir de modo a tornar (algo) um fiasco, um vexame etc.
5 Voltar atrás no que disse; DESDIZER-SE [int.]
5.1 F.: Do lat. vacuum; que nada contém ou apresenta; vazio; em que figuram indíces espaciais e temporais desocupados

(a.va.ca.lha.do) Bras. Pop.

1 Que sofreu avacalhação, que foi desacreditado, desmoralizado; RIDICULARIZADO
2 Cuja aparência foi descuidada; DESLEIXADO; DESMAZELADO
3 Que se fez ou realizou sem apuro, sem cuidado, de qualquer maneira; em que tudo deu errado; MAL-ACABADO; MALFEITO
4 Que se bagunçou, tumultuou: Foi uma reunião avacalhada, onde ninguém se entendia


(es.cu.lham.bar) Bras. Vulg. Pop.

1 Criticar severamente, sem respeito, com rudeza; DESMORALIZAR; ESCARNECER; ESCULACHAR. [ Antôn.: aprovar, elogiar, louvar.]
2 Bagunçar: O novo secretário esculhambou um arquivo.
3 Danificar, estragar: Os baderneiros esculhambaram o jardim

[F.: De or. incerta; posv. de colhão.]

"la técnica del anacronismo deliberado y de las atribuciones erróneas"

Suplemento escritas. E reponho afrontas à essencialização de uma ideia de passado cujos padrões devem julgar o presente, assim mesmo a contrapelo daquela letra de T.S.Eliot, quem sobrescrevia que “o passado deve ser modificado pelo presente tanto quanto o presente esteja orientado pelo passado”.


Quando a ficção vive na ficção

Hoje traduzo o que gostaria de dizer, e não posso. Meu teclado está gasto. E não sei exatamente a quais letras devo buscar com meus dedos. Prefiro ler coisas já escritas. (Aí sim meus dedos funcionam, pois lendo é que revolvo cada um dos símbolos ortográficos) E invento que são minhas as coisas que escolho reler nos outros todos de mim.


Devo minha primeira noção do problema do infinito a uma grande lata de biscoitos que deu mistério e vertigem à minha infância. Na parte de trás desse objeto anormal havia um quadro japones; não recordo as crianças ou guerreiros que o formavam, e sim que num ângulo dessa imagem a mesma lata de biscoitos reaparecia com a mesma figura e nela a mesma figura, já assim (ao menos em pontência) infinitamente… Quatorze ou quinze anos depois, por volta de 1921, descobria em uma das obras de Russel uma invenção analóga de Josiah Royce. Este supõe uma mapa da Inglaterra: esse mapa – que por força de pontualidade – deve conter uma mapa do mapa, que deve conter um mapa do mapa do mapa, e assim ao infinito… Antes, no Museu do Prado, vi o conhecido quadro velazquiano Las meninas: ao fundo aparece o próprio Velázquez, executando os retratos unidos de Felipe VI e de sua mulher, que apesar de estarem fora da tela aparecem reproduzidos por um espelho. Ilustra o peito do pintor a cruz de Santiago; é sabido que o rei a pntou para fazê-lo cavaleiro dessa ordem… Recordo que as autoridades do Prado havia instalado um espelho em frente, para contiar essas magias.


Ao procedimento pictórico de inserir um quadro em outro quadro, corresponde nas letras o de interpolar uma ficção na ficção. Cervantes incluiu no Quixote uma novela. Lúcio Apuleio intercalou famosamente em O asno de ouro a fábula de Amor e de Pisiquê: tais parenteses, em justa razão de sua natureza inequívoca, são tão banais como a circunstância de que uma pessoal, na realidade, leia em voz alta ou cante. Os dois planos – o verdadeiro e o ideal – não se misturam. Por outro lado, o Livro das mil e uma noites duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central en contos incidentais, mas não trata de graduar essas realidades, e o efeito (que deveria ser profundo) é superficial, como um tapete persa. É conhecida a historia limiar da série: o desolado juramento do rei que a cada noite se desposa com uma virgem a quem faz decapitar na alvorada, e a resolução de Shahrazad que o distrai com maralilhosas histórias até que em torno de ambos se passaram mil e uma noites e ela lhe mostra seu filho. A necessidade de completrar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a interpolações de todas as classes. Nenhuma é tão perturbadora quanto à da noite DCII, mágica entre as noites. Nessa noite extranha, ele ouve da boca da rainha sua própria história. Ouve o princípio da história que abarca todas as demais e também – de modo monstruoso – ela mesma. Intue claramente o leitor a vasta possibilidade dessa interpolação, o curioso perigo? Que a rainha persevera, e o imóvel rei ouvirá para sempre a truncada história das mil e uma noites, agora infinita e circular… Em As mil e uma noites Shahrazad refere-se a muitas histórias; uma dessas histórias quase é a história de As mil e uma noites.

Shakespeare, no terceiro ato de Hamlet, erige uma encenação na encenação; o feito de que a peça representanda – o envenenamento de um rei – espelha de algum modo a principal é suficiente para sugerir a possibilidade de infinitas involuções. ( Em um artigo, de 1840, De Quincey observa que o firme estilo avultado dessa peça menor faz com que o drama geral ali incluído apareça, por contraste, mais verdadeiro. Eu acrescentaria que seu propósito essencial é o oposto: fazer com que a realidade nos pareça irreal.)

Hamlet data de 1602. A fins de 1635 o jovem escritor Pierro Corneille compõe a comedia de magia L’illusion comique. Pridamant, pai de Clindor, percorre as nações da Europa em busca de seu filho. Com mais curiosidade do que fé, visita a gruta do “mágico prodigioso”Alcandre. Este, de maneira fantasmagórica, mostra-lhe a azarada vida do filho. Vemos este apunhalando um rival, fugir da justice, morrer assassinado em um jardim e logo a conversar com uns amigos. Alandre nos aclara o mistério. Clindor, após ter matado o rival, se fez comediante e a cena do ensangrentado jardim não pretence à realidade (à “realidade” da ficção de Corneille), e sim à tragedia. Estávamos, sem saber, num teatro. Um elogio um tanto imprevisto dessa instituição dá fim à obra:

Même notre Roi, ce founder de la guerre,
Dont le nom se fait craindre auz deux bouts de la terre,
Le front ceint de lauriers, daigne bien quelquefois
Prêter l’oeil el l’oreille au Théâtre-Français


É triste comprovar que Corneille põe na boca do mago esses versos não muito mágicos.
O romance Der Golem, de Gustav Meyrinc (1915), é a história de um sonho: nesse sonho há sonhos; nesses sonhos (creio) outros sonhos.

Enumeirei muitos labirintos verbais; nenhum tão complexo quanto à novíssima obra de Flann O’brien: At Swin-Two-Birds. Um estudante de Dublin escreve um romance sobre uma taberneiro de Dublin que escreve um romance sobre os paroquianos de sua taberna (entre os quais está o estudante), que por sua vez escrevem romances em que figuram o taberneiro e o estudante, e outros escritores de romances sobre romancistas. O livro é formado pelos diversos manuscritos dessas pessoas reais ou imaginárias, copiosamente anotados pelo estudante. At Swin-Two-Birds não é somente um labirinto: é uma discussão sobre as muitas maneiras de conceber o romance irlandês e um repertório de exercícios em vero e prosa, que ilustram ou padoriam todos os estilos da Irlanda. A influência magistral de Joyce (arquiteto de labiritnos, também; Proteu literário, também) é inegável, mas não opressiva nesse livro multiplo.

Arthur Schopenhauer escreveu que os sonhos e a vigília eram folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem era viver, e folheá-las, sonhar. Quadros dentro de quadros, livros que se desdobram em outros livros, ajudam a intuir essa identidade.

J.L.Borges. 2 de junho de 1932.



Tudo é de todos, a palavra é coletiva e anômina. Por isso devemos saber que a antiguidade das ideias novas é uma regra. A exeção: uma futuridade para as ideias velhas.

"O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco. Admitem que os inventores da escritura imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, apesar de sustentarem que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam. Tal ditame, já vemos, não é completamente falaz".

Minha memória é uma atualidade do tardio, isso a que muitos chamam pacientemente de contemporaneidade. E é isso que sobrescrevo aqui: a memória dos outros tantos de mim.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

a úlcera das mãos.





Ele não conhece sua própria sentença?
Não - repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais detalhada da sua pergunta; depois disse:
Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne.


Os dedos e cada uma de suas nervuras estão deferidos à úlcera da mão. Não está nada mais para a escritura; ela não quer mais qualquer ferida. Qual quereria já se difere. Ferida das feridas, a pústula cursiva de todo o ferimento. Profunda, superficial e agonicamente gravada a pus aquela letra que inflama o tecido subcutâneo do texto que sou. Padeço por agora (e até não sei quais dias mais) de um processo inflamatório que se torna meu e tanto também da monotipia tatilmaquínica deste objeto a que meu doou em pedaços pleiteando a possibilidade de distanciamento (quando não precisamente ausência) do corpo humano que não se quer assinar.


assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração


Arde por agora toda essa textualidade enferma entre os dedos, dos quais gostaria de retirar (e não posso) a lepra letrosa, restando, por fim, apenas a letra leprosa meio à essa doença que me consome o paleio quando, antes, deveria contrair unicidade junto destes caracteres de encontro aos quais vou tateando esse escuro cursivo (a cada toque mais escuro e nada cursivo, porque é todo ele convulsivo o tremor da mão) até me perder irrecuperalvemnte de mim. Ao produzir a inscrição humana na retirância dos corpos a máquina inspira ao mesmo tempo a doença dos fantasmas inomináveis, porque inamovíveis e sem rostos e então apenas um vulto, e a cura que se põe com esperança de eternidade à tessitura desse gesto que guardamos sob a pele.

a mão: a cabeça entre as mãos:
a voz entre fôlego e escrita



Durante muito tempo fiz crer em mim que escrever era mais propriamente padecer de uma enfermidade como esta que me aflige os dedos, as mãos e até mesmo todo esse resto, a que chamo corpo. Hoje pondero, e vejo que não é necessariamente essa semelhança entre a lepra e a letra, e sim a similitude entre a dormência da mão leprosa e o despertar sensível da grafia nascente de um texto não em porvir, mas provido de tudo aquilo que nos concedeu as tensões gráficas da página prismática vinda de “Un coup de dês”, reordenando muito prontamente as figurações escriturais acumuladas desde Gutenberg e, até então, carente de ter sido devida e tecnologicamente introjetadas na feitura letra.


Está mão é muitas mãos
E se chama minha mão


Deferida a úlcera da mão. Assisto sem muita assistência e muito menos insignificante resistência às possibilidades de tal reordenação figurativa na escritura icônica. E deferida já está a úlcera das mãos.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

tessitura de perdas




os livros que tenho ao alcance das mãos estão para as minhas ideias assim como está o Minotauro pro percurso de um labirinto cretense; todavia sou cretino, e a citação é o fio oferecido por Ariadne, um dos mil nomes à que também responde a escrita, essa tessitura de perdas

quinta-feira, 8 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Escrever a mão.

("reação": desenho de paulo vieira)

assim me habituei a morrer sem ti com uma esferográfica cravada no coração Al Berto. Uma existência de papel

Arrisco-me, e busco pelo teu rosto que a mão deseja sobrescrever. Traços atrapalhados assim descortinam uma tensão dada lá mais abaixo entre a filigrana no papel e as marcas contraídas da escrita. Recurvo a minha memória com a força do punho que te deseja retirar a partir dos dedos, bem onde se concentra a intensa violência corpórea desse duplo ato que - de uma só vez - é te tocar e é te escrever. A letra é, pois, a expansão de tudo isso que vem justo agora quando - através dela - te procuro com a devoção de quem pela fé desfia infinitamente as contas num rosário.

Escamoteados são então os salmos nesse nosso livro de reza, cuja sintaxe - uma e tantas vezes entoada por nós, apesar de pouco cônscios de tal atamento – vai nem tanto ao céu, nem tampouco ao inferno, alocando-se, pois, nesse limiar da linguagem qual uma oração purgatória de que devem padecer todas as almas insatisfeitas. Nossa punição, nosso açoite: essa pequena ablação traiçoeira na palavra “escrever”. Haja já vista escreveríamos a nós dois na mobilidade perigráfica do papel a inversa semelhança que se crê ver e versa lá onde aflora a escrita talhada e plena de todos os suspiros do repouso mesmo em alinhavos bastante provisórios, pois nunca (mesmo ascendendo a círculos celestes) desejaríamos a posse, pois nunca (mesmo tragados às profundidades de Hades) quereríamos a apropriação, pois que a tudo isso preferimos antes o hiato dantesco das fendas purificadoras.

Erráticos entre as vias do grotesco e do sublime – visto nossas letras irem nem tanto ao céu, nem tampouco ao inferno… Mais propriamente vagamos meio a nossa profanação. Nem a luz, nem a escuridão. O refúgio dos que penam é bem mais propriamente a penumbra: origem de todas as incertezas, mas também pauta de todos os recomeços, estância de nenhuma aderência ao que é cíclico ou de órbita constante e que por isso mesmo não suporta a reprise incólume.

Escrevo não eventualmente a partir deste ponto de lume. Tal tarefa é bem mais a condição encontrada a fim de te arrancar já da profundidade de tudo isso que – vindo de ti – paira muito seguramente sobre mim: a incerteza tátil desse ato obliterado que, todavia, nos atravessa e costura fundamente a fibra do corpo e regula o espaço de equilíbrio na enunciação.

Viver com a pena, assim, assinada a próprio punho e contorcê-la a partir da pressão com que te procuro a cada letra justaposta, mesmo sob ininterruptas ameaças de ablação na palavra que – escorrendo pelos meus dedos - a mim escapa.

Meu risco é tua periferia, isto que ao mesmo instante não está fora e tampouco dentro de mim. A partir dessa zona intermediária eu monto minha vigília, faço por te observar. E justo ali se situa a delicadeza desses arredores de todos os ardores mediante os quais vais nem aquém e tanto menos além de mim e te insinuas e tramas a tua receptibilidade por meu leito.

Comunicamos os desvios, e eles se alinhavam na inteface de nós dois. Sou essa mão que – buscando pelo teu rosto – arrisca-me sobrescrevendo aquela franja da página e faz despertar antes profundamente adormecida uma grande tensão: entrecortes e tessituras, a escritura escamoteio na produção da escrita.

Escrever para te tocar – é sobre esse lume algo bruxuleante que corro o risco nesta folha escolhida.
Escrever apenas para te tocar.
Escrever para te tocar.
Escrever.
E escrever sobretudo a mão – para te tocar e te retirar de mim.

terça-feira, 30 de março de 2010

Pathos e direção.


Então eu corro demais, Sofro demais, Corro demais, Só pra te ver, Meu bem!...
(Roberto Carlos)


A moça traz o expresso. O vapor enfumaçado e de aroma bem realçado (virtude de grãos certamente sadios e torrados a pouco na máquina) invade minhas narinas e conduz a direção digressiva do meu pensamento neste ínterim da parada. Tenho entre as mãos uma edição um pouco gasta de "Ser e tempo” a ser lida pausadamente entre os sorvos cuidadosamente confiados à xícara algo fumegante. Entre o sabores do cigarro e dessa bebida basilar para a modernidade (Julio Ramos - ensaísta porto-riquenho cujas ideias foram partilhadas comigo num breve diálogo durante a sua passagem pela na Faculdade de Letras, a propósito do lançamento do livro “Desencontros da modernidade na América Latina” - me disse que sem o café e o tabaco, iguarias latino-americanas, a concepção de vivência do tempo na alta modernidade estaria fatalmente fadada ao fracasso, ao pronto esmorecimento), entre os saberes dos parágrafos do livro que sigo relendo nesses dias, eu me disperso e ressinto das curvas de ainda a pouco com uma forte latência em meu peito.

Vinha pela estrada a cento e trinta por hora e sequer sabia aonde estava indo. Não falo de destinos numa cartografia rodoviária, pois destes, por maior que seja a errância, sabemos somente poder seguir até onde vai dar estrada. Refiro-me bem mais à indecidibilidade tão pungente em nossas vidas, às incertezas de todo o percurso, seja premeditado ou não. A contingência, no final de tudo, é único norte. Quando nos damos conta disso já bem pouco importam os destinos. Desafiei a sinuosidade do percurso enquanto o barulho do motor desaparecia por baixo de um ruído mais forte: a dupla combinação sinfônica entre a aderência dos pneus e o asfalto, por um lado, e, por outro, o vento digladiando contra a aerodinâmica do carro. Tanto melhor assim. Nunca alimentei uma paixão propriamente dita pelos automóveis, pelos motores. Tampouco pelo que parecem oferecer de mais cativante: a velocidade. A minha paixão, o risco que se paga por encontrá-la toda ela plena. Eis, exatamente aí, a raiz mais profunda desse pathos que se finca em meu peito. Aprendi a dirigir cedo. Aos onze anos. Ter um carro sob o comando, conduzi-lo, é coisa bem diferente. Somente mais tarde tomei as minhas lições. E corri alguns riscos, pois é um tipo de autodidatismo muito sincero, digo, não se apreende com alguém, e sim se arranca de dentro tal como um demônio enfim domado. Jamais desejei um carro, pelo menos não consigo me lembrar, a fim de me mostrar entre os amigos, entre as meninas da cidade, e sim mais propriamente pela possibilidade do pathos que disse meu. O exemplo disso, como quem tenta abonar a própria insustentabilidade da ideia, dou da seguinte maneira: prefiro mil vezes, quando ao volante, “Airbag”, do Radiohead, a “Get off the Road”, do Cramps. São duas músicas geniais. A primeira, contudo, condiz bem mais com meus propósitos. Neil Young e também Roberto Carlos, a tal propósito, para falar numa espessura ainda mais completa, é de longe a melhor pedida para uma auto-estrada. Acho que a música, aliada à questão por trás da velocidade, talvez outro pathos ou apenas um desmebramento deste que escrevo aqui, esclarece de modo argumentativo o meu desapego pelo som dos motores, pela máquina propriamente dita. Gosto, reitero, do que elas me deixam sentir, dentro de mim, e não vindo de outro lugar. A coisa está ali, sempre comigo. Mas preciso despertá-la. A velocidade, nesses termos, é como uma mãe que, cuidadosamente, acorda o filho do sono temerosa de que ele jamais retorne desse limite. Durante algum tempo eu estive procurando uma filiação nacional para o impulso doentio. Não considerei os ingleses, pois a aristocracia bretã só se importa com o luxo, a elegância da coisa. Daí ter passado a pontuar minha decisão entre italianos e alemães; exímios apaixonados da máquina automobilística. Repudiei os primeiros, pois, apesar do pathos pela máquina, sobrevalorizam o design que envolve a máquina. Disfarçam hipocritamente aquilo que, sem pudor algum, evidencia a aristocracia dos ingleses. Pelos alemães, de início, criei alguma afinidade. O princípio de velocidade ilimitada de uma Autoban parecia me realizar. Logo percebi, todavia, que não havia maior graça em ir a toda por uma estrada perfeita, em cujo trajeto a velocidade só pode levar ao tédio de um percurso sem os riscos. Acabou que, por fim, descobri em meu próprio país a mais louvável filiação automobilística que eu poderia requerer.

Quando Ayrton Senna morreu, eu tinha quartoze anos e ele trinta e quatro. A curva Tamborello, em Imola, consistiu no fim da contingência para o Senna, mas também no ápice do pathos dele. Não só o nosso país, mas o mundo inteiro chorou quando a televisão dava as imagens do choque contra o muro, do capacete verde-amarelo envolvendo a cabeça completamente prostrada no cockpit. Um estilo incomparável, entre todos os grandes. Por muitos, condenável. Senna, cujo nome batiza a curva mais traiçoeira em Interlagos, é o mais louvável de todos os pilotos. Venceu várias corridas durante sua gloriosa carreira sem se preocupar com a vida, parecendo mesmo antecipar a morte de curva em curva. Em certa ocasião, liderou até a bandeirada final dispondo de apenas duas marchas em função de quebra na caixa de câmbio. Revendo o meu passado, mais propriamente algumas manhãs de domingo, tempo em que eu ainda podia acordar cedo após um sábado, apreendi que meu pathos tinha simpatia imediata nele. Gostava de todos os riscos. Adorava quando chovia. Não respeitava a vida; parecia. Ou melhor, enfrentava-a desafiadoramente sempre que podia. E isso desagradava aos competidores, quando não os deixava completamente amedrontados. Ninguém parece conseguir disputar com alguém assim, verdade? Também ele gostava (me fiz acreditar querendo minha filiação) não propriamente dos carros, da máquina, da velocidade meramente desfrutada. Era algo mais. E por isso pilotava, também, helicópteros e aviões. Sabia como afagar o pathos independentemente da máquina. Dizem que corria muito pelas próprias ruas de São Paulo quando a temporada da F1 ainda estava por começar. E eu acredito. Busquei nele, a despeito de italianos e alemães, com todas as suas falsidades ao volante, o ethos da minha paixão. Quando aprendi, enfim, a domar meu carro, era em Senna que pensava. Senna e eu, estranho elo, dosávamo-nos o pathos do peito com o mesmo phármakon.

Eu não avanço os sinais de trânsito, ao não ser pelas madrugadas. Nada a ver com politicamente correto. Acontece que guiar dentro das cidades não proporcionada mais que raiva - como o pacato personagem do Walt Disney, Sr. Walker, que, ao entrar em seu carro e seguir o fluxo caótico do trânsito, se transforma na figura algo demoníaca do Sr. Wheeler. Prefiro a auto-estrada. Não uma Autoban. Menciono mais verdadeiramente essas pistas que encontramos por aqui, irregulares, sinuosas, desassistidas. (Elas parece acolher mais sinceramente os nossos carros). É bem mais espirituoso acelerar entrando por uma paisagem completamente diversa, cheia de notícias novas a cada curva. Isso faz a gente se sentir vivo, segurando o volante na mão e bem atento a tudo aquilo vem pela frente. A sinuosidade é o contra acalanto da minha paixão que ali se desperta. Não tomo muito reparo pela música que vem do motor, e sim pela batida do meu coração. Aliás, vou tão veloz que às vezes tudo parece estar parado, desligado, calmo, e somente percebo o movimento e o desempenho do máquina durante as alternações entre as marchas.
Sigo o meu único norte. Guio a uma velocidade exagerada e não sei bem a que lugar estou indo. Paro num desses lugares à beira de estrada. E peço um café expresso. Imagino como será chegar ao lugar para o qual me dirijo. Não penso muito no lugar. Penso mais propriamente numa mulher: Fernanda, a quem eu encontrarei lá. Penso na minha volta. Apesar de ela retornar comigo desse final de senama, não ficará. Ao menos não mais que uma tarde, antes de retornar para a própria vida. E penso também em me apaixonar por ela nesses dias. Mas não será possível. O desenho na superfície do café deixa antever que não. Mesmo não acreditando em nenhuma dessas porcarias surpersticiosas, ou, como digo, de modo a chatear a Fernanda, “sem nehuma gramaticalidade normativa”, eu confio no café. E no tabaco também. Acho que isso foi influência do Julio Ramos. Oras, não se pode desacreditar dessas coisas que representam a pedra fundante de algo tão grave quanto a modernidade. Seja lá como for eu preciso acreditar no café que bebo e nos cigarros que fumo, verdade? Assim somos os homens e as mulheres; sabemos agora e já faz muito tempo. Precisamos de algum fundamento. Lutamos a toda hora contra a nossa subjetividade meio a mundo da vida, essa forma cotidiana de existência. Precisamos de algo que nos traga autolegibilidade dentro disso que nasceu bem antes da gente. E esse "algo" nós o arrancamos dentro da gente mesmo. Exatamente nisso consiste a nossa falta de salvação: somos, lá do alto da torre de nossos sentidos, a sentinela de uma época reativa e mais conservadora a propósito da autoconsciência histórica.

Eu não direi nada disso a Fernanda. Apesar de ser ela a pessoa próxima a mim mais habilitada a me ouvir a respeito de tudo isso e com uma atenção devota. Não direi que vim a cento e trinta por boa parte do percurso. Ela não confia no modo como eu guio. Quando com ela, eu nunca dirijo tentando encontrar meu pathos. Respeito o norte dela, que sempre se opõe ao meu. E acredito ser por isso que ela não confia muito – ou nada - na minha direção. Queria me apaixonar por ela. Mas ela não está apaixonada por mim. Ela diz que me ama, mas que não está apaixonada. Ao passo que eu, que gostaria de amá-la plenamente, só sei verdadeiramente desejar, querer estar apaixonado dela a cada instante em que a busco com os pensamentos, digo o nome dentro de mim, e toco o cabelo, e sinto o gosto do seu amor muito vivamente.

Tomo o destino da nossa relação na superfície do meu expresso. E leio. Heidegger diz umas coisas tão incompreensíveis com “Sein zum Tode” (“Ser para a morte) e “Vorlaufen zum Tode” (“antecipação da morte”) quanto à consistência turva do meu café. Acho que meu pathos cria o potencial de tornar a morte presente no meu norte e, se essa mancha no expresso estiver correta, isso pode contribuir para me libertar dos múltiplos medos. Consigo construir, através da velocidade, uma tentativa inconsciente de evitar a visão avassaladora da exposição da minha mente, do meu corpo (isto é, da tensão entre ambos, pois é isso o que somos conforme aquele paralelismo spinoziano que abona essa questão) à ameaça da própria destruição. Termino meu café. E essa será a minha última parada, penso retornando ao carro. Acelero até aquele ponto no velocímetro. E tento ir o mais rápido possível até a cidade em que ela está. Tenho pressa por estar lá. E não direi nada disso a Nanda. Enquanto isso piso fundo até conseguir algo em torno dos cento e trinta por hora. E tenho muita pressa. Quero vê-la o quanto antes possível. Não direi nada disso a ela. Estou perdidamente apaixonado. E ela me ama de um modo todo ele comovente. Ambos sentimos isso. E sabemos ser o mais sincero entre nós. Essa será a minha última parada, pois estou muito perto e quero vê-la quase que imediatamente. Acelero. Já estou a mais de cento e trinta. Não sei bem aonde estou indo. Mas estarei com ela daqui a pouco; muito pouco. Acelero ainda um pouco mais. Estaremos juntos; antevejo o abraço que é iminente. Acelero até o motor não poder fazer mais. Estarei com ela daqui a pouco. E não direi nada disso. Cento e sessenta. Consigo o máximo do motor, parece. Logo nos veremos; e já sinto, no meu corpo, o abraço dela.

E, então, eu corro. E corro. Quase lá.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Intimidades (com a espuma da ausência).




Prostrado o meu corpo sobre o leito dos uivos de fruição, a partir dessa comovedora acomodação foi que observei através da esguelha que a porta semicerrada me permitira.

Ia me retirando do corpo durante o banho. Lavava-se inteiramente de mim sob a queda daquelas águas vindas do banho de despedida. E tanto mais distante eu me sabia quanto mais e mais eram os movimentos da esponja manipulada pela mão da mulher. Girava-a compassadamente em torno dos seios, cujos bicos ainda retinham inchação; comprimia-a contrariamente ao fio dos pelos da pele e fazia criar intensidades variadas, indo do suave ao agressivo. Com os zelos de uma faxina limpava todo e qualquer rastro deixado por minha saliva densa sobre a pele duplamente umedecida. Ao arranhar-se na esponja, recobria e disfarçava a violência trazida pela minha barba, também pelos meus dentes; boca; voraz mordida.


E as águas, ininterruptas, desciam ferozmente e nada veio a paralisar a queda. Transcorriam todos os curso por onde estivera eu, meus lábios e língua. Caíam entre as nádegas de relevos voluptuosos. E transbordavam o leito feito da união entre essas margens (por onde meu pau teso, demasiado teso, mergulhou e submergiu várias vezes com a devoção mais própria daqueles que se purificam no Sagrado Ganges).

O cabelo – todo ele encharcado – entretecia-se de milhares de fios e tomava a forma tão singular de uma tempestade bastante forte, que a tudo demovia.

Então despossuída da insistência dos meus líquidos febris e viscosos, também do meu hálito, dentes, e mordida, recompunha-se maravilhosamente de toda sorte de marcas revigorando a justa naturalidade dos cheiros, dos sabores, das suas delícias afáveis de fêmea que se doa aos prazeres e os recobra com a mais equânime das intensidades.

Repousou-se, por fim, sobre o ninho da cama e me disse com o timbre da petulância,
Não te preocupes; já não te quero mais”.

Meu pau, feito algo rijo até ali apesar da prosternação que se apossava do meu inteiro restante, se esvaia de todo sangue faltoso aos demais arejos do corpo mal esfolegado. Restava o cigarro, facultando a reflexão do gozo mediante o desamparo, e a vista da janela do quarto, assaltando o meu desespero adiado através do fluxo daquelas águas que, despejadas sobre a mulher, lavaram cada uma das minhas marcas com a espuma da ausência.


segunda-feira, 1 de março de 2010

Alma errática. (Tradução)



Não posso dormir; minha alma abandona meu corpo e vai à rua semi-escura e úmida onde as luminárias parecem gaiolas tediosas, que aprisionam canários moribundos incandescentes.


Minha alma vai se debatendo contra as paredes de trecho em trecho ou caindo em seu vôo incerto sobre as veredas, como a sombra de um pássaro cego.


Minha alma avança, avança apesar de suas quedas e um pacote de intenções ocultas debaixo do braço, ou como se fosse uma criada algo mercenária levando um recém-nascido a fim de deixá-lo clandestinamente em uma porta.


Minha alma avança, avança apesar de suas quedas e tremulejos, como uma mancha que está dentro dos olhos seguindo a uma direção resultante, sua rota através das penumbras fantásticas que obstruem a via pública.


Minha alma viaja a favor da noite e do silêncio, cúmplice de ambos, como se tivesse uma venda em torno dos olhos e, pois, se agarrando qual sombra aos objetos, alargando sua forma entre as brechas e saltando tangencialmente nas bordas.


Procura por um bairro, por uma casa, fareja as aberturas das portas, se levanta, investiga através do buraco da fechadura, foge como se a soprasse o vento, sobe pelas barras das janelas, desaparece e a sua forma se espalha sobre o tapete de uma sala onde ela caiu atravessando o vidro entre duas varetas da persiana.


Um movimento mais e está como a projeção de um corpo, a uma imensa distância, sem que se veja o caminho percorrido. E então tremendo como um tule carbonizado posto ao extremo de um fio fino, volta a debater-se contra as paredes da casa assediada, descrevendo ângulos, subindo acima das bordas e elevando-se sobre os muros para justapor o seu luto no horizonte através do vazio e revir esgotada do salto, procurando pacientemente por entrada.


Como um núcleo flutuante de fumaça negra, minha alma espreita de cima das sacadas, desce aos pátios, gira em torno das plantas e, de repente, se lança aos quartos mediante persianas entreabertas.


Um ruído muito leve a estremece; é um suspiro que ultrapassa as cortinas do leito onde dorme uma mulher. Minha alma se irradia através daquele corpo adorado, visita as formas, se arrasta sobre esta pintura concebida ao abrigo de finos tecidos, segue as curvas dos seios, contorna o óvalo do rosto, vislumbra os lábios...a respiração a repele...um perfume a penetra...se aproxima novamente...uma aspiração a absorve e a instala dentro do ser mais desejado.


Dali não se moverá nunca; ali estará envolvida pelo sangue da mulher amada, recorrendo os nervos e viajando do coração até a cabeça.


Ali viverá para sempre, alimentando sua própria paixão, já eu, sem alma, levantarei amanhã e passarei meus olhos mortos sobre as indiferenças da vida, vivendo de concessão e ministrando meu bocadinho de pão a meu corpo vazio, sem outra aspiração na terra que não seja amá-la e que me ame.

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Alma callejera.


No puedo dormir; mi alma se sale de mi cuerpo y se va a la calle semioscura y húmeda donde los faroles de gas parecen jaulas aburridas, que encierran canarios moribundos ardiendo.


Mi alma va topando las paredes de trecho en trecho o cayendo en su vuelo incierto, sobre las veredas, como la sombra de un pájaro ciego.

Mi alma avanza, avanza, a pesar de sus caídas y un paquete de intenciones ocultas debajo del brazo, o como si fuese una criada mercenaria que llevara un niño recién nacido a dejarlo clandestinamente en una puerta.


Mi alma avanza, avanza, a pesar de sus caídas y revoloteos, como una mancha que está dentro de los ojos siguiendo en una dirección resultante, su ruta a través de las penumbras fantásticas que obstruyen la vía pública.


Mi alma viaja a favor de la noche y del silencio, su cómplice, como un capullo oscuro que va delante de los ojos y se pega cual sombra a los objetos, alargando su forma entre los huecos y saltando tangente en las aristas.


Busca un barrio, una casa, husmea las hendiduras de las puertas, se levanta, se asoma al ojo de la llave, huye como soplada por el viento, trepa por los barrotes de las ventanas, desaparece y su forma se esparce sobre la alfombra de una sala donde ha caído atravesando los vidrios entre dos varillas de persiana.


Un movimiento más y está como la proyección de un cuerpo, a inmensa distancia, sin que se vea el camino recorrido. Y luego temblando como un tul carbonizado puesto al extremo de un alambre fino, vuelve a golpearse en las paredes de la casa asediada, enfilando los ángulos, subiendo a las cornisas y elevándose sobre los muros para estampar su luto en el horizonte a través del vacío y volver fatigada del salto, a buscar pacientemente su entrada.


Como un núcleo flotante de humo negro, mi alma merodea sobre las azoteas, desciende a los patios, gira alrededor de las plantas y de repente se lanza a las habitaciones por los postigos entreabiertos.


Un ruido leve la estremece; es un suspiro que se escapa de entre las cortinas del lecho donde duerme una mujer. Mi alma se difunde sobre aquel cuerpo adorado, visita sus formas, se arrastra sobre ellas diseñadas bajo las finas telas, sigue las curvas de su busto, rodea el óvalo de su cara, enfila sus labios… la respiración la rechaza… un perfume la penetra… se aproxima de nuevo… una aspiración la absorbe y la instala dentro del ser más querido.


De allí no se moverá nunca; allí estará mezclada con la sangre de la mujer amada, recorriendo sus nervios y viajando de su corazón a su cabeza.


Allí vivirá siempre, alimentando su propia pasión, y yo, sin alma, me levantaré mañana para pasear mis ojos muertos sobre las indiferencias de la vida, viviendo de prestado y gestionando mi bocado de pan con mi cuerpo vacío, sin otra aspiración en la tierra que amarla y que me ame.


Eduardo Wilde. "Alma callejerra". In: ___.Prometeo & Cia. Buenos Aires: Jacobo Peuser, 1899.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Em cada um dos teus cantos.


Debruçadas descidas e deslizo pelo teu corpo a contrapelo. Traquejos ginecômanos e te toco as pernas abrindo diante de mim as tuas intimidades com a precisa envergadura. Sou teu homem, teu amante e sou teu gozo, do mesmo modo como és meu gozo a caminho, também minha amante e minha mulher. Tríade de iminente dialética; carinhos de múltiplas contrações. E te vejo entreaberta exatamente onde quero estar mais contigo. Te dou a minha língua nessa porção mais profunda da pele. Todos os teus sabores se recolhem realçados em mim. Fervilham inteiramente o meu paladar. E minha boca em festa voluptuosa se embriaga cada vez mais absorvida pela tua ânfora tão úmida de prazeres. Festiva toda essa movimentação e ressoamos rigorosamente a canção que compomos entre lençóis remexidos.

Vibras e te vens irremediavelmente mediante espasmos qual um instrumento durante o clímax do solo. E retilintando de repente se relaxa deposta em minhas mãos. Te entregas com a disposição e a confiança de uma menina e reténs a mim com avidez intempestiva e capaz de recriar muito prontamente uma nova tensão e ainda mais forte a ponto ensurdecer aqueles que executam essa peça de regência lasciva. Existe uma nota quase secreta nesse último fraseado da canção que emana de ti. Põe-se meticulosamente abrigada sobre a escala do teu corpo. E se sou capaz de tocá-la com os devidos caprichos já ouço e sinto toda reentrância em meus ouvidos. Inunda plenamente o meu interior e transborda externamente através de cada um dos pelos do meu corpo assim como esses arrepios que agora jorram da minha pele.


Reside um deleite precioso em cada um dos teus cantos ...