assim me habituei a morrer sem ti com uma esferográfica cravada no coração Al Berto. Uma existência de papel
Arrisco-me, e busco pelo teu rosto que a mão deseja sobrescrever. Traços atrapalhados assim descortinam uma tensão dada lá mais abaixo entre a filigrana no papel e as marcas contraídas da escrita. Recurvo a minha memória com a força do punho que te deseja retirar a partir dos dedos, bem onde se concentra a intensa violência corpórea desse duplo ato que - de uma só vez - é te tocar e é te escrever. A letra é, pois, a expansão de tudo isso que vem justo agora quando - através dela - te procuro com a devoção de quem pela fé desfia infinitamente as contas num rosário.
Escamoteados são então os salmos nesse nosso livro de reza, cuja sintaxe - uma e tantas vezes entoada por nós, apesar de pouco cônscios de tal atamento – vai nem tanto ao céu, nem tampouco ao inferno, alocando-se, pois, nesse limiar da linguagem qual uma oração purgatória de que devem padecer todas as almas insatisfeitas. Nossa punição, nosso açoite: essa pequena ablação traiçoeira na palavra “escrever”. Haja já vista escreveríamos a nós dois na mobilidade perigráfica do papel a inversa semelhança que se crê ver e versa lá onde aflora a escrita talhada e plena de todos os suspiros do repouso mesmo em alinhavos bastante provisórios, pois nunca (mesmo ascendendo a círculos celestes) desejaríamos a posse, pois nunca (mesmo tragados às profundidades de Hades) quereríamos a apropriação, pois que a tudo isso preferimos antes o hiato dantesco das fendas purificadoras.
Erráticos entre as vias do grotesco e do sublime – visto nossas letras irem nem tanto ao céu, nem tampouco ao inferno… Mais propriamente vagamos meio a nossa profanação. Nem a luz, nem a escuridão. O refúgio dos que penam é bem mais propriamente a penumbra: origem de todas as incertezas, mas também pauta de todos os recomeços, estância de nenhuma aderência ao que é cíclico ou de órbita constante e que por isso mesmo não suporta a reprise incólume.
Escrevo não eventualmente a partir deste ponto de lume. Tal tarefa é bem mais a condição encontrada a fim de te arrancar já da profundidade de tudo isso que – vindo de ti – paira muito seguramente sobre mim: a incerteza tátil desse ato obliterado que, todavia, nos atravessa e costura fundamente a fibra do corpo e regula o espaço de equilíbrio na enunciação.
Viver com a pena, assim, assinada a próprio punho e contorcê-la a partir da pressão com que te procuro a cada letra justaposta, mesmo sob ininterruptas ameaças de ablação na palavra que – escorrendo pelos meus dedos - a mim escapa.
Meu risco é tua periferia, isto que ao mesmo instante não está fora e tampouco dentro de mim. A partir dessa zona intermediária eu monto minha vigília, faço por te observar. E justo ali se situa a delicadeza desses arredores de todos os ardores mediante os quais vais nem aquém e tanto menos além de mim e te insinuas e tramas a tua receptibilidade por meu leito.
Comunicamos os desvios, e eles se alinhavam na inteface de nós dois. Sou essa mão que – buscando pelo teu rosto – arrisca-me sobrescrevendo aquela franja da página e faz despertar antes profundamente adormecida uma grande tensão: entrecortes e tessituras, a escritura escamoteio na produção da escrita.
Escrever para te tocar – é sobre esse lume algo bruxuleante que corro o risco nesta folha escolhida.
Escrever apenas para te tocar.
Escrever para te tocar.
Escrever.
E escrever sobretudo a mão – para te tocar e te retirar de mim.
Escamoteados são então os salmos nesse nosso livro de reza, cuja sintaxe - uma e tantas vezes entoada por nós, apesar de pouco cônscios de tal atamento – vai nem tanto ao céu, nem tampouco ao inferno, alocando-se, pois, nesse limiar da linguagem qual uma oração purgatória de que devem padecer todas as almas insatisfeitas. Nossa punição, nosso açoite: essa pequena ablação traiçoeira na palavra “escrever”. Haja já vista escreveríamos a nós dois na mobilidade perigráfica do papel a inversa semelhança que se crê ver e versa lá onde aflora a escrita talhada e plena de todos os suspiros do repouso mesmo em alinhavos bastante provisórios, pois nunca (mesmo ascendendo a círculos celestes) desejaríamos a posse, pois nunca (mesmo tragados às profundidades de Hades) quereríamos a apropriação, pois que a tudo isso preferimos antes o hiato dantesco das fendas purificadoras.
Erráticos entre as vias do grotesco e do sublime – visto nossas letras irem nem tanto ao céu, nem tampouco ao inferno… Mais propriamente vagamos meio a nossa profanação. Nem a luz, nem a escuridão. O refúgio dos que penam é bem mais propriamente a penumbra: origem de todas as incertezas, mas também pauta de todos os recomeços, estância de nenhuma aderência ao que é cíclico ou de órbita constante e que por isso mesmo não suporta a reprise incólume.
Escrevo não eventualmente a partir deste ponto de lume. Tal tarefa é bem mais a condição encontrada a fim de te arrancar já da profundidade de tudo isso que – vindo de ti – paira muito seguramente sobre mim: a incerteza tátil desse ato obliterado que, todavia, nos atravessa e costura fundamente a fibra do corpo e regula o espaço de equilíbrio na enunciação.
Viver com a pena, assim, assinada a próprio punho e contorcê-la a partir da pressão com que te procuro a cada letra justaposta, mesmo sob ininterruptas ameaças de ablação na palavra que – escorrendo pelos meus dedos - a mim escapa.
Meu risco é tua periferia, isto que ao mesmo instante não está fora e tampouco dentro de mim. A partir dessa zona intermediária eu monto minha vigília, faço por te observar. E justo ali se situa a delicadeza desses arredores de todos os ardores mediante os quais vais nem aquém e tanto menos além de mim e te insinuas e tramas a tua receptibilidade por meu leito.
Comunicamos os desvios, e eles se alinhavam na inteface de nós dois. Sou essa mão que – buscando pelo teu rosto – arrisca-me sobrescrevendo aquela franja da página e faz despertar antes profundamente adormecida uma grande tensão: entrecortes e tessituras, a escritura escamoteio na produção da escrita.
Escrever para te tocar – é sobre esse lume algo bruxuleante que corro o risco nesta folha escolhida.
Escrever apenas para te tocar.
Escrever para te tocar.
Escrever.
E escrever sobretudo a mão – para te tocar e te retirar de mim.
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