sexta-feira, 8 de maio de 2009

A página mais perigosa do seu corpo


El alacrán clavándose el aguijón, harto de ser un alacrán pero necesitado de alacranidad para acabar con el alacrán.
Rayuela. Julio Cortázar

You were right about the stars. Each one is a setting sun.
Jesus, etc. Wilco

Que você não me desculpe por ficar parado e te olhando sorrateiramente. E que assim - confesso em minha franca fraqueza - eu sinta alguma censura nesse pequeno furto através do qual eu retenho em mim mais um pouco de você. Hoje à tarde tomei por minha a imagem que devinha do seu corpo e joguei carinhosamente com ambos, corpo e imagem. Mas nunca os montando dicotomicamente entre os pólos de realidade e ilusão; o que busco bem antes é o simulacro em que deliro com a espessidade densa desse processo de afirmação da similitude suplantando a semelhança decaída desde muito.

Sob a luz fraca - tão cansados estivemos desde a noite anterior, quiçá, ou bem mais apenas paire uma preguiça em desejar algo mais visceral - brinquei com suas costas qual a página constelar do livro cósmico que é seu corpo inteiro.

De cada uma de suas pintinhas fiz dessas estrelas que, fim de tarde, começam a brilhar muito timidamente desde um fundo em tom pastel (pois, ali, eis a coloração da sua pele) qual um entardecer mediterrâneo, região em que o sol parece se pôr estilhaçando-se em mil e muitas partes até que toda essa poeira da deiscência solar pulule o céu com infinitos pontinhos reluzentes que, até muito pouco atrás, eram todos juntos o astro regente dos movimentos de nossa galáxia em que toda órbita é incerta, irregular.

Uno um a um e em todos eles encontro desenhos magníficos nessa página em que pára todo meu desejo uma vez temendo ler você inteira e sofrer com o final escrito abruptamente no fim do seu corpo, digo, livro cósmico cuja leitura foi dada a mim não sei por que diabos.
Estou lendo agora isso que mais tarde descreverei pra você, saiba. E muito calmamente me debruço sobre cada um desses pontinhos e não posso esgotá-los em minha leitura, ainda que faminta de todos esses sinais que descrevem você pra mim. Tudo isso que leio em você, eis o meu grande drama, é interminável. Os pontos em nada são infinitos – agora já percebo. Estão todos ali, alguns mais recônditos; outros um tanto mais à vista.

A permutabilidade, todavia, é o que convida à infinitude.

Encontro uma Ursa Maior. Crio devaneios na casa de Sagitário. Alimento receios com a geometria da constelação de Capricórnio e recrio os meus tolos desejos na união das pintinhas do seu corpo as quais me deixam desenhar a constelação de Escorpião.
Com esta última imagem que eu sobrescrevo é que corro e percorro todo o risco de seguir, assim, em posição de espreita, observando essa página algo traiçoeira que, apesar de ser uma das poucas a que posso contemplar sem ser visto, é bem mais propriamente onde está o ferrão da metassoma dorsal do livro que leio.

Que eu não seja digno de perdão. Quero a hipnose ou a transcendência através de um buraco negro nesse texto em que paro e me perco. Quero, ao fim, o ferrão do seu estranho carinho e a picada final. Evoco, parado, a paralexia escorpiânica de tudo isso e quero morrer ao fim.
Deixo-me presa de tudo isso e que venha de seu veneno amoroso o remédio do meu pathos. Peço essa morte eleita no seu carinho especioso, entenda, por precisar renascer, agora, de tudo isso que me mata de pouco a pouco.

Escolho e prefiro, por fim, o arrebatamento, o pulo precipitado do precipício, à morosidade segura de um caminho que falsamente permite burlá-los ao fim do drama trágico de uma tarde em que li, nesse livro tão feminino, a página mais perigosa do seu corpo.