
El alacrán clavándose el aguijón, harto de ser un alacrán pero necesitado de alacranidad para acabar con el alacrán.
Rayuela. Julio Cortázar
You were right about the stars. Each one is a setting sun.
Jesus, etc. Wilco
Rayuela. Julio Cortázar
You were right about the stars. Each one is a setting sun.
Jesus, etc. Wilco
Que você não me desculpe por ficar parado e te olhando sorrateiramente. E que assim - confesso em minha franca fraqueza - eu sinta alguma censura nesse pequeno furto através do qual eu retenho em mim mais um pouco de você. Hoje à tarde tomei por minha a imagem que devinha do seu corpo e joguei carinhosamente com ambos, corpo e imagem. Mas nunca os montando dicotomicamente entre os pólos de realidade e ilusão; o que busco bem antes é o simulacro em que deliro com a espessidade densa desse processo de afirmação da similitude suplantando a semelhança decaída desde muito.
Sob a luz fraca - tão cansados estivemos desde a noite anterior, quiçá, ou bem mais apenas paire uma preguiça em desejar algo mais visceral - brinquei com suas costas qual a página constelar do livro cósmico que é seu corpo inteiro.
De cada uma de suas pintinhas fiz dessas estrelas que, fim de tarde, começam a brilhar muito timidamente desde um fundo em tom pastel (pois, ali, eis a coloração da sua pele) qual um entardecer mediterrâneo, região em que o sol parece se pôr estilhaçando-se em mil e muitas partes até que toda essa poeira da deiscência solar pulule o céu com infinitos pontinhos reluzentes que, até muito pouco atrás, eram todos juntos o astro regente dos movimentos de nossa galáxia em que toda órbita é incerta, irregular.
Uno um a um e em todos eles encontro desenhos magníficos nessa página em que pára todo meu desejo uma vez temendo ler você inteira e sofrer com o final escrito abruptamente no fim do seu corpo, digo, livro cósmico cuja leitura foi dada a mim não sei por que diabos.
Estou lendo agora isso que mais tarde descreverei pra você, saiba. E muito calmamente me debruço sobre cada um desses pontinhos e não posso esgotá-los em minha leitura, ainda que faminta de todos esses sinais que descrevem você pra mim. Tudo isso que leio em você, eis o meu grande drama, é interminável. Os pontos em nada são infinitos – agora já percebo. Estão todos ali, alguns mais recônditos; outros um tanto mais à vista.
A permutabilidade, todavia, é o que convida à infinitude.
Encontro uma Ursa Maior. Crio devaneios na casa de Sagitário. Alimento receios com a geometria da constelação de Capricórnio e recrio os meus tolos desejos na união das pintinhas do seu corpo as quais me deixam desenhar a constelação de Escorpião.
Com esta última imagem que eu sobrescrevo é que corro e percorro todo o risco de seguir, assim, em posição de espreita, observando essa página algo traiçoeira que, apesar de ser uma das poucas a que posso contemplar sem ser visto, é bem mais propriamente onde está o ferrão da metassoma dorsal do livro que leio.
Que eu não seja digno de perdão. Quero a hipnose ou a transcendência através de um buraco negro nesse texto em que paro e me perco. Quero, ao fim, o ferrão do seu estranho carinho e a picada final. Evoco, parado, a paralexia escorpiânica de tudo isso e quero morrer ao fim.
Deixo-me presa de tudo isso e que venha de seu veneno amoroso o remédio do meu pathos. Peço essa morte eleita no seu carinho especioso, entenda, por precisar renascer, agora, de tudo isso que me mata de pouco a pouco.
Escolho e prefiro, por fim, o arrebatamento, o pulo precipitado do precipício, à morosidade segura de um caminho que falsamente permite burlá-los ao fim do drama trágico de uma tarde em que li, nesse livro tão feminino, a página mais perigosa do seu corpo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário