sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Fotografia desmanchando.

I left a woman waiting/I met her sometime later/ She said, I see your eyes are dead/ What happened to you, lover?/ What happened to you, my lover?/ What happened to you, lover?/ What happened to you?/ And since she spoke the truth to me/ I tried to answer truthfully/ Whatever happened to my eyes/ Happened to your beauty/ Happened to your beauty/ What happened to your beauty/ Happened to me
I Left a Woman Waiting, Leonard Cohen
Seja o que for que ela dê a ver e qualquer que seja a maneira, uam foto é sempre invisível: não é el a que vemos .
Barthes
Depois de certo tempo, tão pouco te importa que as coisas aconteçam. Tampouco que aconteciam. Importa, por outro lado, lembrar que acontecem. E que aconteceram. Se antes não sabia, por agora, bem e mal, posso então saber. Algo já se apagava: como um foco perdido aos pouquinhos, sem mesmo que você percebesse por tão gradativo que era.
Ela admirava aquelas casinhas de alpendre exposto à vista de quem passa. Casinhas uma a uma e ao lado da outra, onde certamente vivia a avó de alguém na nossa idade. Eu observava as árvores, que, aos sábados, são mais verdes e bailam uma a uma em par do vento dançarino que as tira da espera. Uma a uma e por vez.
Trazíamos as sacolas que eram feitas em um papel tão branco e em alça de tiras vermelhas; e ela. Achava bonito aquilo em nossas mãos, e o sábado ensolarado. Quando chegamos ao Memorial da América Latina, eu senti uma sensação bastante gostosa. O vento, que brincava com meus cabelos e afagava o rosto dela, trazia mais movimento aos nossos passos passeantes. Por trás dos óculos-escuros eu escondia do sol forte os meus olhos ainda dilatados. Mais que as obras de arte, eu quis ver o acervo da biblioteca e as revistas e todos os livros e catálogos que enchiam as sacolas em nossas mãos. Ela me dizia não ser muito simpática aos modelos arquitetônicos do Niemeyer, coisa muito modernista segundo seu gosto. Eu gostava e gostava de ter feito chegar ali cruzando a ponte suspensa, e passando pela sombra do semi-arco e feliz. Depois tentava dizer que era assim mesmo, muito modernista e que era mais uma concepção arquitetônica de obra de arte que projeto de arquitetura; coisa que cansava e não rendia reflexão.Foi quando, depois, saltamos do metrô pertinho da parte mais baixa em Pinheiros, com as sacolas e ela admirando os alpendres e os azulejos muito coloridos e que formavam imagens que somente pelo olhar dela eram focalizadas. Andaríamos um pouco Pinheiros à cima, mas não importava, pois, juntos, íamos fazendo nosso traçado a caminho de nós dois. Toda a sujeira do início, que se misturava à confusão das ruas que, passo a passo, iam perdendo a tranqüilidade do princípio; quando as árvores ainda dançarinas e belas. Todo o caminho. Subida e calmamente. Paramos numa lanchonete, quando tudo começava a ficar mais limpo apetitoso do estômago. Quase Alto Pinheiros, então. Ela comeu com mais vontade que eu, que senti maior vontade em lavar o rosto na pia do banheiro e retirar de mim o suor cansado.Ela gostava muito, mesmo antes de chegarmos. Admirava as vitrines, que, de lado a lado, emolduravam a nós dois durante a subida pela rua com belas lojas de móveis; para todos os gostos e lembrava da mãe, que também gostaria de admirá-los ali estivesse. Eu um pouco apressado, pensando que mais à frente já teríamos o que admirar com mais gosto; manuseando. Antes de enfim na Benedito Calixto, paramos. Ela pegava das coisas à mostra na calçada umas caixinhas, porta-jóias. Eu, perguntava pelo valor de um toca-discos portátil; bastante desejável e, a meu gosto, porém, muito caro. Eu pensava comigo, nada de aura contemplativa; tudo ao alcance e poder da mão. Você pode manusear e sentir por um instante seu. Eu disse que devíamos subir, e vir descendo, pois é o melhor sentido de trânsito na feira. Não por uma orientação melhor em se desviar das pessoas, mas sim por um interesse admirativo das coisas expostas. E desviei nossa rota nos fazendo então subir. Ela pareceu aprovar. Divertiu-se com os móveis antigos e impregnados pelo tempo. E pediu que eu tivesse calma, pois sua contemplação pedira o mesmo dela. Eu sabia disso; a pressa toda era por estar ali. Ela se encantou com a banca das câmeras e filmadoras. Perguntou o valor de uma Super-8 enquanto eu calculava o brilho no olhar dela. Simpaticamente pediu ao senhor presente que pudesse levar a mão naquela pequena jóia. Sabendo do mesmo brilho naquele olhar que eu já sabia, o senhor consentiu. Trocou as lentes e apontava na direção de alguns cantos; e trocava as lentes como quem procurasse por um foco bastante especial, filmando uma cena melhor. Depois passou a mim. Fiz o mesmo. E era admirável. Aquelas lentes envelhecidas, trocadas uma a uma. Trazia a imagem de um outro tempo, já de muito passado, aprisionado ali na Super-8 e no jogo de lentes de caduca nitidez. Vimos juntos um tempo desprendido de nós, que o apreendíamos à parte de todos ali. E depois deixamos a câmara sob os velhos cuidados do senhor da banca, pois não havia de ser nossa, como o tempo que as lentes nos proporcionava.
Um outro senhor da banca ao lado nos conquistou. Sacou uma Polaroid assim que deixamos a banquinha anterior. Nas mãos ele a entregou a nós para em seguida tomá-la dizendo que estava funcionando e ainda com filmes. Tirou uma fotografia instantânea naquela cartela de papel meio amarelado que tinha junto da câmera e nos deu de imediato. O papelzinho amarelecido desenhando a nos dois. Primeiro, espantosas silhuetas fantasmáticas, como borrões. Depois uma par de perna é desenhado e coloca-nos de pé ali bem diante dos próprios olhos. A seguir, um rosto, uma boca e dentes sorrindo. Os cabelos arredios e nossa cara de felicidade compartilhada. Por fim, o abraço que unia e assim desenhava por completo a fotografia instantânea, cuja composição dada pelo instantâneo faz colocar a uma altura a mais nublada tamanha poesia daqueles tempos em o instantâneo nada tinha que ver com imediato; imediatamente e desprovido de qualquer revelação de mágica maravilhosa que deve haver. Depois seguimos. E paro na seção dos discos enquanto ela via coisas mais interessantes. Fiquei feliz por achar um vinil com a trilha do Blow-up, composta pelo Herbie Hancock e todo seu vigor tão conhecido. Dentre muitos outros acabo encontrando um vinil da Elza Soares, que estava divinamente bela na capa. Lembrei de quando ela me dera a boa orientação de modo a acertar em minha opção de escolha por um presente futuro. Que se fosse disco, dissera-me, fosse um da Elza e não outro.Ela ia vendo uma banca de brinquedos. Admirada por encontrar uma boneca Moranguinho - coisa que toda mulher à idade dela tivera em sua tenra infância de menina - levou imediatamente ao nariz procurando pelo cheiro já despedido da empoeirada boneca. Não era nada ridículo, pois o cheiro está na memória que tinha da infância que teve no tempo da boneca Moranguinho aromatizada.
Descemos de pouco a pouco, e, assim, dedicamos ali toda nossa tarde de sábado entre as coisas da feira; também aos diversos tempos da feira. Por que em feiras desse tipo da Benedito as coisas podem coexistir, coexistindo diversos tempos, diversas revelações instantâneas. Eis a sorte das férias... lugar bem diferenciado e em meio a cidades, onde, via de regra, cada esquina virada leva a algo diferente; onde tudo pode acontecer à cada esquina escolhida; raspagem hipertextual de possibilidades escolhidas na contingência traçada pelos passos que caminham por cima da transparência pisada. Como um foco perdido, à maneira como escolhíamos a lente na Super-8, as coisas se perdem; esfumaçam. E depois de certo tempo, tão pouco te importa que as coisas acontecem; tampouco que aconteceram. Importa, por outro lado, lembrar que aconteceram; que aconteciam. Ela brincou de ir embora. Eu, ser livre. E nós de sofrer. Disse que queria um amor escrito, uma escrita de amor. Eu escrevia com ela entretecida em mim; em várias e variadas vezes com ela entretecida nas vozes escreventes. Buscava nesta qualidade a perda da carta não enviada. Escrevia para o futuro reescrever o passado; mas ela não conseguira ler a escrita que escrevia no amor entretecido as vozes reescrevendo-se uma na outra; misturando esses tempos. Por mais puro egoísmo, sei que essa escrita ela não acha em mais ninguém.
Ela foi embora, e eu fiquei com a Polaroid amarelecida, que hoje perde a cor que nos desenhava em outra época e numa época já passada; agora ainda mais passada. Ao contrário daquela revelação, estamos nos desrevelando. Primeiro o abraço que unia ela e eu em nós. Daí o sorriso que compartilhado em felicidade entrelaçante. Mais um pouco e a boca se desmancha. Instantaneamente, aqueles traços, que na fotografia desenhavam nossas pernas, em cima das quais nos sustentávamos de pé, desaparecem, e, então, despencamos. Sobra uma silhueta fastasmática, irreconhecível no papel que vai perdendo cada traço de nosso desenho.
Dizem que fotografias param o tempo; esquecem de dizer, todavia, a que preço o tempo se deixa parar nessas fotografias ingênuas no trato com sua implacável insaciabilidade.

domingo, 3 de agosto de 2008

Às voltas com as ( velhas) escolhas.

Para Holden Caufield, o jovem narrador e meu mais sincero canalha na literatura .
...que nunca me preocupei com as correções, pois seria ,eu mesmo, um ato incorrigível; preferia, então, muito mais, o próprio erro de ser quem eu fui errando em mim mesmo.
Paulo Leminski, Ou a mentira que acabo de citar sem num. de página e ou nome de livro.

Durante muito tempo eu realmente imaginei encontrar algum significado nas coisas que escolhi. Durante muito tempo, mas não o tempo todo. Assim passei a perceber a inevitabilidade nas escolhas e considerá-la muito respeitosamente. Num primeiro tempo, isso me fez agir sempre partindo da estúpida tarefa de organizar cada gesto da minha vida, de tomá-la por uma ordem sensata de maneira a justificar o que escolhia. À sorte de qualquer casualidade, eu sempre acreditava ser capaz de avaliar, um a um, os eventos sucessivos que me ocorriam e colocá-los todos numa seqüência tão diacrônica que cada um deles tinha seu próprio início, e também fim, encerrados num tal sincronismo que, de pleno que era, eliminava-se de todo acaso para receber seu sucessor na estável seqüência da cadeia com que eu os articulava para mim. Tudo estava sob minha ordem e nada escapava a essa tarefa elegida em minha vida. Era tão jovem nessas coisas todas que eu mal podia compreender o que fazia, e agia como um velho por não entender toda a jovialidade que então permite brincar nesse jogo que é o rito da vida.
Depois fui deixando de lado essa estúpida tarefa e me interessando por outras coisas mais dignas de alguém na minha idade. Entre um e o outro desses momentos, o tempo era tão breve e pouco espaçado que sequer poderia dividi-los em fases. Como se um dia, pela manhã já muito avançada, eu acordasse e deixasse longe, talvez junto com meu implacável sono da noite anterior, toda a medida para armar aquelas coisas a despeito da sensatez com que eu costumava perceber o que me ocorria mediante a tarefa antes eleita.
A primeira das várias outras tarefas (muito mais apropriado seria tomá-las por tarefinhas, menores que eram) em que fiz explodir a unívoca tarefa fazendo procurar outro problema para minha vida. Sei que isso é algo tanto enigmático. Mas logo faço cristalino o que digo com isto.
Mudar todo uma gosto estético, filmes preferidos, bandas favoritas, o melhor trompetista de jazz do qual tinha numa das paredes de casa um expressivo quadro, ou escolher uma nova aparência e assim novo estilo para me vestir, tudo isso seria tão desnecessário que sequer foi cogitado por um lampejo que se possa considerar. Sempre fui fiel à minha educação estética para as coisas, e de longe meus filmes preferidos eram insubstituíveis quando postos em lista. Foram anos a fio comprando discos importados até ver lojas da qualidade da Urban Cave fechar as portas e entrar definitivamente para a nova religião que começou no site Napster, até os tempos não tão distantes, porém não tão recentes, dedicados a selecionar a melhor cepa de vinis por sebos de todo o país, cidades por onde passava sazonalmente, quando os daqui não foram mais que suficientes nas ofertas; mudar a lista de bandas tão diletas, impossível. E afinal minhas roupas, desde que posso lembrar de quando já tinha uns quatorze anos, sempre foram legais e custaram nada mais que tirasse de minha carteira alta cifra por conta de grifes totale in, pois essas cifras altas, que vários amigos de colégio usavam para exibir um atualíssimo guarda-roupa muito na moda, eu as economizava para entregá-las no caixa da Urban Cave e lojas com esses encantos de época, que órfão desta loja fui depois encontrá-los nas pequeníssimas prateleiras da Motor music e na ótima bancada do CD Club da galeria.
Sobre as roupas, o que tive de fazer foi apenas repassar na cabeça o tempo em que eu exagerara, pois sempre se exagera em alguma situação, por mais manero que você se considere e tenha sido vida toda. O segredo está no aprendizado de não parecer ridículo, e também precisar se olhar no espelho por conta de qualquer dúvida a que o bem-estar de sentir-se dentro do que você veste não possa resolvê-la. Com isso, eu mantive todos os anos com que fui elaborando inconscientemente algo que vestisse meu corpo corroborando a minha personalidade estética.
Daí eu pensei nas amizades. Era a questão mais difícil. Jamais tive muitos amigos, e não me lembro de ter chegado a algum lugar onde conhecesse mais que três pessoas numa mesma noite. Era quase impossível. E meus bons amigos estavam todos espalhados por aí; lembro que um par deles ainda vivia na mesma cidade que eu, mas nos encontrávamos uma vez por semestre ou, quando muito, mais que uma vez.
Bem, era uma das conseqüências de ter vivido em outros lugares. Quando você se lembra dos amigos, eles sempre estão nesses outros lugares onde você viveu. A coisa chata é que, por conta dos amigos, você acaba sentido saudade de lugares nos quais odiou estar e renegou a vida. Talvez por que foram o cenário de algumas amizades. Talvez por que o lugar era legal, mas na época você não se interessava. E quando é isso o que acontece tudo é mais chato, pois o sentimento não se decide nunca. E você se perde.

Mais eu não tinha domínio algum sob essa parte relativa a amizades. Não me era permitido selecionar tanto assim neste quesito. Essa coisa de fazer amigos é o maior mistério da vida. Alguns dos meus melhores amigos, eu os considerei tão imbecis que jamais imaginaria saindo com eles, que depois pudéssemos nos tornar verdadeiros comparsas. No caso das amigas, algo ainda mais incompreensível. Que me chamem de filho da puta, caso queiram. Eu sempre fiz amizades com mulheres pelas quais eu definitivamente pudesse me apaixonar, mesmo que por um delírio. Às vezes a paixão poderia simplesmente vir à tona por que de imediato eu tomava conhecimento de que tínhamos em comum um diretor preferido. E assim foi quando descobri minha amiga que comigo dividia a devoção pelo super cool sr. Hal Hartley. Em outra situação foram as canções do Bowie, e a amizade logo teria um princípio de paixão possível. Mas também não desconsiderei uma beleza desprovida de qualquer apuração estética afim com a minha. Logo que descobria uma provável amiga capaz de me despertar apenas a libido, eu tratava de remediar sua insuficiência e a encaminhava pelos melhores caminhos pelos quais eu já havia passado. E assim tinha uma nova amiga que aos poucos ia instruindo até se tornar tão experimentada nas coisas que me interessavam quanto bela em seus encantamentos de fêmea fatal que de inicio era.
Prolongando um pouco, confesso que consegui me apaixonar por todas minhas amigas e ser correspondido no mais das vezes em todas as tentativas de consumar a paixão libidinal, tenha sido ela despertada à sorte das situações já consideradas. E minha pouca falta de sucesso relativo aos raríssimos casos que somam alguma exceção foi por ter sido desfavorecido pelo tempo que vivi nos lugares pelos quais o trabalho dos meus pais foram me levando, e depois minha formação escolar e meus estudos superiores atuais. Mas com os amigos, era sempre o contrário. Nunca despertaram qualquer desejo libidinal, e o diabo é que eu sempre estive aberto a isso, e até experimentei muitas vezes uma busca que deveria haver em mim. Porém jamais consegui sucesso nesses casos. Amigos servem mesmo é para conversar e falar alguma merda sem coerência alguma. Acho que por isso nunca poderia ter me apaixonado, pois no caso das amigas eu sempre fui plenamente coerente com minhas afinidades eletivas. E por isso eu as educava, quando percebi necessidade. Aos amigos, por outro lado, eu nunca me prestei muito com coerência. E por isso os fiz nas circunstâncias de imaginá-los inicialmente seres os mais imbecis ao lado dos quais a vida me colocara. E logo tomava na cara quando uma linha de conversa ia se partindo e repartindo em diversas afinidades eletivas: filmes sabidos de cor, bandas que fizeram trilhas de fases da vida, atrizes deliciosas pelas quais vertemos jorros de porra por toda a casa, escritores preferidos e o trompetista de jazz que nunca ouvimos tocar mas do qual tínhamos lidos quase todas as páginas e o belíssimo conto sobre um saxofonista chamado Johnny Carter. Tudo isso e também algo mais.
Refiz a lista dos amigos, e cortei mentalmente todos os que precisei educar. Amigo de verdade – seja homem ou mulher - não se educa, pois que vem pronto. Feito amizades à primeira vista, e não se procura nada que melhorar; aceitam-se as falhas como virtudes e elegem-se nelas as verdadeiras afinidades, pois as melhores amizades servem a isso que tira você do caminho certo e erra junto com você e juntos topam qualquer nova possibilidade de erro que aparentemente permita reabilitar.
O problema era ter restado desta lista, nos amigos que restavam não cortados, uma seqüência de pessoas distantes, que ficaram naqueles lugares da minha vida. Eu não podia chamá-los para sair, para vermos um filme em minha casa, nem mesmo tomar um trago na esquina e falar sobre qualquer coisa que fosse. Meu mundo de amizades estava perdido de vez. De vez, talvez meu mundo inteiro, e não só o de amizades, estava se perdendo.
Avaliação precipitada e incoerente, mas muito necessária ao instante. Como o bêbado ao copo, eu não levei nada a serio essa má fortuna das amizades deslocadas e logo estava rodeado por alguns novos amigos e amigas pelos quais ia tomando muito gosto; e feito a garrafa cheia varias vezes vertida ao copo vazio, enchemo-nos de pouco a pouco de maneira a completar o volume até aquela risca a partir da qual você pode considerar um bom trago de afinidades eletivas e sentir-se leal a escolha.
Para minha felicidade eu tinha feito bem a escolha e conhecia outras coisas conhecendo as amizades e provando muito do que me ofereciam. Minha prateleira ganhava novos volumes literários com muita velocidade por conta da influência que dos céus cai sobre mim e eu procurava me dedicar com muito prazer naquilo em que convertia minhas economias ou, certas vezes, transformava em minha extravagância. Minha mesa de leitura nunca foi antes tão ocupada; podia ler dois, três ou quem sabe até mesmo quatro livros de uma mesma vez e não me atordoar, embora em algumas situações as histórias pudessem se misturar e eu inventar algo dessa proximidade com que as lia invariavelmente. Tal probabilidade, longe de me atormentar e causar certa temerosidade, seduzia-me com o risco que parecia correr.
Já por esses tempos eu sabia que também tomava gosto por uma outra concepção de tempo, pois minhas escolhas eram nada impregnadas pelo sentido que anteriormente eu procurei atribuir à leitura que fazia de mim mesmo. Se tomássemos a coisa numa acepção literária, digamos que eu passei de um texto linear, cuja leitura implicasse a descrição de um narrador onipresente que apresenta a psicologia da personagem de tal forma esmiuçada a ponto de a leitura perder já qualquer reflexão narrativa, à uma verdadeira collage surrealista e talvez culminasse numa amalgama tão dadaísta capaz de suprimir qualquer orientação de sentidos. Aceitava tudo que me parecia de mal, pois era assim que eu considerava as coisas de bem, e cada vez mais meu cacoete de narrativa caduca das minhas escolhas ia esmorecendo em mim.
Lembro, apesar de ser algo tão de agora, mas lembro por assim considerar ser necessário para cair para dentro do texto que escreve o texto que vou arrumando para colocar o texto que agora escrevo, que continuei minhas paixões descobertas nas afinidades eletivas, que agora aumentavam muito nos últimos tempos e cada vez mais me despertavam os delírios para os quais eu não crio impedimento algum.
Tenho passado, já que passeio, passeante, e passei, passante por passará, muito tempo à-toa e tido também muito tempo de celebrar as amizades. Claro, faltam amigos tão putos como eu ainda tenho por aí em alguma cidade onde já vivi e viverei mais à frente, viajando de férias ou fugindo de alguma dívida de vida, tão putos como fomos eu e esses canalhas que tão putos foram para outros lugares, como eu canalhamente fui para longe deles; putos que bebem e não importam se você tem grana que pague a conta, ou que te chamam para um trago sem sequer ter dinheiro na carteira, pois sabem que você vai pagar por eles o trago que os reúne. Gente desse tipo que esquece livro com você, que depois grava umas músicas que você ainda não teve tempo de conhecer e acerta em cheio no que fez. Mas tenho que deixar esses tempos e fazer outro acontecer. Espero que todos esses canalhas estejam bem. Espero que tenham tido a mesma sorte que eu e que tenham conseguido comer algumas amigas lindas que conheceram nos últimos tempos. Eu tenho conhecido muitas mulheres, e feito muitas amigas. Algumas saem comigo e tomamos bons porres. Algumas me olham e eu as olho de volta a partir da forma como me olham. Faz uns seis meses que fez um ano que eu voltei e me despedi do último puto que estava perto de mim, antes que todos nós ganhássemos novos endereços residenciais por aí. E nesses últimos seis meses eu não namorei mais ninguém. Não amo nesses últimos seis meses ninguém fixamente, por mais que quisesse. Antes eu amava fixamente mas não pôde ir tanto à frente. Ando por aí; disse, tenho passado muito tempo à toa. Descubro belas mulheres nas minhas grandes amigas e grandes amigas em algumas belas mulheres que vejo nas ruas. Penso no enigma da tatuagem que vejo na pele da mulher para a qual paixão e delírio acabaram de me tomar de mim antes mesmo de nos tornarmos amigos. Ela apenas passa pela rua. Decifro tudo para mim e sei que já faço parte do que o enigma ajuda esconder no mistério a que os indignos não podem roçar. Eu apenas observo o olhar que ela lança até mim e o recebo feito convite. Espero sempre o delírio, pois sem ele não entro em nenhuma paixão, em nenhuma amizade nenhuma. E no olhar dela eu vi tanto delírio vindo dela até mim, e me encontrei rapidamente dentro daqueles olhos que me tomavam de todo, num só instante feito aquele momento em que ambos nos trocávamos nas íris, e de todo se dava a mim, pois eu me dava a ela, e com muita força procurávamos desviar instantaneamente o demorado através do qual nos possuíamos ali no brilho que nos enchia os olhos nos quais podíamos nos ver e também ver que nos víamos.

Bem, minha educação estética eu a consegui manter a salvo de um longo desvio; recebi o complemento dos novos tempos mais mantive a boa linhagem com que os anos ajudam a forjar um caráter convincentemente sedutor mesmo por poucas palavras, pois você não precisa sair por aí falando de tudo o que gosta na primeira oportunidade, de comentar tudo tão esmiuçadamente que, ao invés de uma boa impressão, causa aquela espécie de repugnância irremediável nos chatos de lapidação lustrosa; assim são os bons romances e os melhores contos, que te invadem cautelosamente de muito pouco até jamais deixarem você por estarem de todo. À duvida que fosse, em nada pus meu gosto musical e sigo retomando sempre minhas bandas preferidas e sempre me surpreendo por começar uma amizade pautada nestes termos apesar de ter sido sempre assim. Ainda me apaixono pelas amigas que gostam dos mesmos diretores que eu, que leram com todo delírio os meus escritores preferidos e que ocupam grande parte da casa onde moram com livros cujo título de capa oferece o prazer táctil assemelhado pela canção do Caetano àquele que colocamos aos maços de cigarro. E em todo esse tempo, jamais fui infiel a minha marca de cigarros tão eleita entre tantas outras, colocando-me na diversidade apenas em ocasiões nas quais a impossibilidade de cumprir com minha fidelidade colocasse em risco outra fidelidade: não pela marca, mas pelo cigarro enquanto substantivo da minha prosa que vai.
Deixei de fazer escolhas, deixei de respeitá-las, e, mais que isso, deixei de fazer escolhas respeitosas. Detive todo ímpeto de encadear minha vida pela dignidade das escolhas e tomei para mim a escolha de vida de ser escolhido pela vida. Assim reneguei todo sentido organizador que tive como tarefa. Desconsiderei conceitos, como diacronia e sincronia ou evento e estrutura, a fim de entender o tempo, a temporalidade. Isso influenciou na minha escrita, também na maneira com que expresso meu pensamento e, em grau menor, até em minha dicção das palavras que saem da minha boca e corporificam nelas algo de mim. Perdi o uso de algumas gírias que mais me identificavam com lugares em que ia vivendo e reabsorvi na minha fala coisas daqui onde estou agora, pois essa coisa de mudar de lugar modifica pra cacete o jeito como você fala das coisas de que fala. Tenho conhecido outras gentes, tenho dito. Às vezes ainda me pego lembrando de alguns amigos putos, malditos de sempre, mas nada é mais freqüente como noutros tempos. Essas coisas de passado, já que passeio, passeante, e passei, passante por passará, ficam um tanto frouxa no tempo; se desorganizam e ficam soltas por aí, sem limite algum de obsessão e pronto. E no final de tudo a escolha de vida é ser escolhido pela vida e poder romper com toda organização, tomar as coisas mais frouxas da memória e rir alguns bocados desse confuso curta-metragem que é projetado pela lembrança da sua vida nos seus pensamentos, e, depois de tudo isso, esperar por mais uma daquela troca de olhar em que você descobre paixão porque há delírio, e imagina que você já é parte do enigma de outro corpo onde vai se entregar e recebê-la também entregue feito a tatuagem, com várias maneiras de pensar tudo isso a seu próprio gosto e desfazer quando tudo parecer chato e aborrecido, ou manter para sempre se for o caso, ou remodelar, feito nos melhores romances do Julio ou filmes do Lynch, qual fosse a primeira vez, pois sempre deve haver alguma tarefa, que é a paixão, que é também fazer haver todo o delírio, e escolher nessa escolha de vida ser escolhido pela vida, mas sempre com delírio, pois precisa ter.




D.