terça-feira, 30 de março de 2010

Pathos e direção.


Então eu corro demais, Sofro demais, Corro demais, Só pra te ver, Meu bem!...
(Roberto Carlos)


A moça traz o expresso. O vapor enfumaçado e de aroma bem realçado (virtude de grãos certamente sadios e torrados a pouco na máquina) invade minhas narinas e conduz a direção digressiva do meu pensamento neste ínterim da parada. Tenho entre as mãos uma edição um pouco gasta de "Ser e tempo” a ser lida pausadamente entre os sorvos cuidadosamente confiados à xícara algo fumegante. Entre o sabores do cigarro e dessa bebida basilar para a modernidade (Julio Ramos - ensaísta porto-riquenho cujas ideias foram partilhadas comigo num breve diálogo durante a sua passagem pela na Faculdade de Letras, a propósito do lançamento do livro “Desencontros da modernidade na América Latina” - me disse que sem o café e o tabaco, iguarias latino-americanas, a concepção de vivência do tempo na alta modernidade estaria fatalmente fadada ao fracasso, ao pronto esmorecimento), entre os saberes dos parágrafos do livro que sigo relendo nesses dias, eu me disperso e ressinto das curvas de ainda a pouco com uma forte latência em meu peito.

Vinha pela estrada a cento e trinta por hora e sequer sabia aonde estava indo. Não falo de destinos numa cartografia rodoviária, pois destes, por maior que seja a errância, sabemos somente poder seguir até onde vai dar estrada. Refiro-me bem mais à indecidibilidade tão pungente em nossas vidas, às incertezas de todo o percurso, seja premeditado ou não. A contingência, no final de tudo, é único norte. Quando nos damos conta disso já bem pouco importam os destinos. Desafiei a sinuosidade do percurso enquanto o barulho do motor desaparecia por baixo de um ruído mais forte: a dupla combinação sinfônica entre a aderência dos pneus e o asfalto, por um lado, e, por outro, o vento digladiando contra a aerodinâmica do carro. Tanto melhor assim. Nunca alimentei uma paixão propriamente dita pelos automóveis, pelos motores. Tampouco pelo que parecem oferecer de mais cativante: a velocidade. A minha paixão, o risco que se paga por encontrá-la toda ela plena. Eis, exatamente aí, a raiz mais profunda desse pathos que se finca em meu peito. Aprendi a dirigir cedo. Aos onze anos. Ter um carro sob o comando, conduzi-lo, é coisa bem diferente. Somente mais tarde tomei as minhas lições. E corri alguns riscos, pois é um tipo de autodidatismo muito sincero, digo, não se apreende com alguém, e sim se arranca de dentro tal como um demônio enfim domado. Jamais desejei um carro, pelo menos não consigo me lembrar, a fim de me mostrar entre os amigos, entre as meninas da cidade, e sim mais propriamente pela possibilidade do pathos que disse meu. O exemplo disso, como quem tenta abonar a própria insustentabilidade da ideia, dou da seguinte maneira: prefiro mil vezes, quando ao volante, “Airbag”, do Radiohead, a “Get off the Road”, do Cramps. São duas músicas geniais. A primeira, contudo, condiz bem mais com meus propósitos. Neil Young e também Roberto Carlos, a tal propósito, para falar numa espessura ainda mais completa, é de longe a melhor pedida para uma auto-estrada. Acho que a música, aliada à questão por trás da velocidade, talvez outro pathos ou apenas um desmebramento deste que escrevo aqui, esclarece de modo argumentativo o meu desapego pelo som dos motores, pela máquina propriamente dita. Gosto, reitero, do que elas me deixam sentir, dentro de mim, e não vindo de outro lugar. A coisa está ali, sempre comigo. Mas preciso despertá-la. A velocidade, nesses termos, é como uma mãe que, cuidadosamente, acorda o filho do sono temerosa de que ele jamais retorne desse limite. Durante algum tempo eu estive procurando uma filiação nacional para o impulso doentio. Não considerei os ingleses, pois a aristocracia bretã só se importa com o luxo, a elegância da coisa. Daí ter passado a pontuar minha decisão entre italianos e alemães; exímios apaixonados da máquina automobilística. Repudiei os primeiros, pois, apesar do pathos pela máquina, sobrevalorizam o design que envolve a máquina. Disfarçam hipocritamente aquilo que, sem pudor algum, evidencia a aristocracia dos ingleses. Pelos alemães, de início, criei alguma afinidade. O princípio de velocidade ilimitada de uma Autoban parecia me realizar. Logo percebi, todavia, que não havia maior graça em ir a toda por uma estrada perfeita, em cujo trajeto a velocidade só pode levar ao tédio de um percurso sem os riscos. Acabou que, por fim, descobri em meu próprio país a mais louvável filiação automobilística que eu poderia requerer.

Quando Ayrton Senna morreu, eu tinha quartoze anos e ele trinta e quatro. A curva Tamborello, em Imola, consistiu no fim da contingência para o Senna, mas também no ápice do pathos dele. Não só o nosso país, mas o mundo inteiro chorou quando a televisão dava as imagens do choque contra o muro, do capacete verde-amarelo envolvendo a cabeça completamente prostrada no cockpit. Um estilo incomparável, entre todos os grandes. Por muitos, condenável. Senna, cujo nome batiza a curva mais traiçoeira em Interlagos, é o mais louvável de todos os pilotos. Venceu várias corridas durante sua gloriosa carreira sem se preocupar com a vida, parecendo mesmo antecipar a morte de curva em curva. Em certa ocasião, liderou até a bandeirada final dispondo de apenas duas marchas em função de quebra na caixa de câmbio. Revendo o meu passado, mais propriamente algumas manhãs de domingo, tempo em que eu ainda podia acordar cedo após um sábado, apreendi que meu pathos tinha simpatia imediata nele. Gostava de todos os riscos. Adorava quando chovia. Não respeitava a vida; parecia. Ou melhor, enfrentava-a desafiadoramente sempre que podia. E isso desagradava aos competidores, quando não os deixava completamente amedrontados. Ninguém parece conseguir disputar com alguém assim, verdade? Também ele gostava (me fiz acreditar querendo minha filiação) não propriamente dos carros, da máquina, da velocidade meramente desfrutada. Era algo mais. E por isso pilotava, também, helicópteros e aviões. Sabia como afagar o pathos independentemente da máquina. Dizem que corria muito pelas próprias ruas de São Paulo quando a temporada da F1 ainda estava por começar. E eu acredito. Busquei nele, a despeito de italianos e alemães, com todas as suas falsidades ao volante, o ethos da minha paixão. Quando aprendi, enfim, a domar meu carro, era em Senna que pensava. Senna e eu, estranho elo, dosávamo-nos o pathos do peito com o mesmo phármakon.

Eu não avanço os sinais de trânsito, ao não ser pelas madrugadas. Nada a ver com politicamente correto. Acontece que guiar dentro das cidades não proporcionada mais que raiva - como o pacato personagem do Walt Disney, Sr. Walker, que, ao entrar em seu carro e seguir o fluxo caótico do trânsito, se transforma na figura algo demoníaca do Sr. Wheeler. Prefiro a auto-estrada. Não uma Autoban. Menciono mais verdadeiramente essas pistas que encontramos por aqui, irregulares, sinuosas, desassistidas. (Elas parece acolher mais sinceramente os nossos carros). É bem mais espirituoso acelerar entrando por uma paisagem completamente diversa, cheia de notícias novas a cada curva. Isso faz a gente se sentir vivo, segurando o volante na mão e bem atento a tudo aquilo vem pela frente. A sinuosidade é o contra acalanto da minha paixão que ali se desperta. Não tomo muito reparo pela música que vem do motor, e sim pela batida do meu coração. Aliás, vou tão veloz que às vezes tudo parece estar parado, desligado, calmo, e somente percebo o movimento e o desempenho do máquina durante as alternações entre as marchas.
Sigo o meu único norte. Guio a uma velocidade exagerada e não sei bem a que lugar estou indo. Paro num desses lugares à beira de estrada. E peço um café expresso. Imagino como será chegar ao lugar para o qual me dirijo. Não penso muito no lugar. Penso mais propriamente numa mulher: Fernanda, a quem eu encontrarei lá. Penso na minha volta. Apesar de ela retornar comigo desse final de senama, não ficará. Ao menos não mais que uma tarde, antes de retornar para a própria vida. E penso também em me apaixonar por ela nesses dias. Mas não será possível. O desenho na superfície do café deixa antever que não. Mesmo não acreditando em nenhuma dessas porcarias surpersticiosas, ou, como digo, de modo a chatear a Fernanda, “sem nehuma gramaticalidade normativa”, eu confio no café. E no tabaco também. Acho que isso foi influência do Julio Ramos. Oras, não se pode desacreditar dessas coisas que representam a pedra fundante de algo tão grave quanto a modernidade. Seja lá como for eu preciso acreditar no café que bebo e nos cigarros que fumo, verdade? Assim somos os homens e as mulheres; sabemos agora e já faz muito tempo. Precisamos de algum fundamento. Lutamos a toda hora contra a nossa subjetividade meio a mundo da vida, essa forma cotidiana de existência. Precisamos de algo que nos traga autolegibilidade dentro disso que nasceu bem antes da gente. E esse "algo" nós o arrancamos dentro da gente mesmo. Exatamente nisso consiste a nossa falta de salvação: somos, lá do alto da torre de nossos sentidos, a sentinela de uma época reativa e mais conservadora a propósito da autoconsciência histórica.

Eu não direi nada disso a Fernanda. Apesar de ser ela a pessoa próxima a mim mais habilitada a me ouvir a respeito de tudo isso e com uma atenção devota. Não direi que vim a cento e trinta por boa parte do percurso. Ela não confia no modo como eu guio. Quando com ela, eu nunca dirijo tentando encontrar meu pathos. Respeito o norte dela, que sempre se opõe ao meu. E acredito ser por isso que ela não confia muito – ou nada - na minha direção. Queria me apaixonar por ela. Mas ela não está apaixonada por mim. Ela diz que me ama, mas que não está apaixonada. Ao passo que eu, que gostaria de amá-la plenamente, só sei verdadeiramente desejar, querer estar apaixonado dela a cada instante em que a busco com os pensamentos, digo o nome dentro de mim, e toco o cabelo, e sinto o gosto do seu amor muito vivamente.

Tomo o destino da nossa relação na superfície do meu expresso. E leio. Heidegger diz umas coisas tão incompreensíveis com “Sein zum Tode” (“Ser para a morte) e “Vorlaufen zum Tode” (“antecipação da morte”) quanto à consistência turva do meu café. Acho que meu pathos cria o potencial de tornar a morte presente no meu norte e, se essa mancha no expresso estiver correta, isso pode contribuir para me libertar dos múltiplos medos. Consigo construir, através da velocidade, uma tentativa inconsciente de evitar a visão avassaladora da exposição da minha mente, do meu corpo (isto é, da tensão entre ambos, pois é isso o que somos conforme aquele paralelismo spinoziano que abona essa questão) à ameaça da própria destruição. Termino meu café. E essa será a minha última parada, penso retornando ao carro. Acelero até aquele ponto no velocímetro. E tento ir o mais rápido possível até a cidade em que ela está. Tenho pressa por estar lá. E não direi nada disso a Nanda. Enquanto isso piso fundo até conseguir algo em torno dos cento e trinta por hora. E tenho muita pressa. Quero vê-la o quanto antes possível. Não direi nada disso a ela. Estou perdidamente apaixonado. E ela me ama de um modo todo ele comovente. Ambos sentimos isso. E sabemos ser o mais sincero entre nós. Essa será a minha última parada, pois estou muito perto e quero vê-la quase que imediatamente. Acelero. Já estou a mais de cento e trinta. Não sei bem aonde estou indo. Mas estarei com ela daqui a pouco; muito pouco. Acelero ainda um pouco mais. Estaremos juntos; antevejo o abraço que é iminente. Acelero até o motor não poder fazer mais. Estarei com ela daqui a pouco. E não direi nada disso. Cento e sessenta. Consigo o máximo do motor, parece. Logo nos veremos; e já sinto, no meu corpo, o abraço dela.

E, então, eu corro. E corro. Quase lá.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Intimidades (com a espuma da ausência).




Prostrado o meu corpo sobre o leito dos uivos de fruição, a partir dessa comovedora acomodação foi que observei através da esguelha que a porta semicerrada me permitira.

Ia me retirando do corpo durante o banho. Lavava-se inteiramente de mim sob a queda daquelas águas vindas do banho de despedida. E tanto mais distante eu me sabia quanto mais e mais eram os movimentos da esponja manipulada pela mão da mulher. Girava-a compassadamente em torno dos seios, cujos bicos ainda retinham inchação; comprimia-a contrariamente ao fio dos pelos da pele e fazia criar intensidades variadas, indo do suave ao agressivo. Com os zelos de uma faxina limpava todo e qualquer rastro deixado por minha saliva densa sobre a pele duplamente umedecida. Ao arranhar-se na esponja, recobria e disfarçava a violência trazida pela minha barba, também pelos meus dentes; boca; voraz mordida.


E as águas, ininterruptas, desciam ferozmente e nada veio a paralisar a queda. Transcorriam todos os curso por onde estivera eu, meus lábios e língua. Caíam entre as nádegas de relevos voluptuosos. E transbordavam o leito feito da união entre essas margens (por onde meu pau teso, demasiado teso, mergulhou e submergiu várias vezes com a devoção mais própria daqueles que se purificam no Sagrado Ganges).

O cabelo – todo ele encharcado – entretecia-se de milhares de fios e tomava a forma tão singular de uma tempestade bastante forte, que a tudo demovia.

Então despossuída da insistência dos meus líquidos febris e viscosos, também do meu hálito, dentes, e mordida, recompunha-se maravilhosamente de toda sorte de marcas revigorando a justa naturalidade dos cheiros, dos sabores, das suas delícias afáveis de fêmea que se doa aos prazeres e os recobra com a mais equânime das intensidades.

Repousou-se, por fim, sobre o ninho da cama e me disse com o timbre da petulância,
Não te preocupes; já não te quero mais”.

Meu pau, feito algo rijo até ali apesar da prosternação que se apossava do meu inteiro restante, se esvaia de todo sangue faltoso aos demais arejos do corpo mal esfolegado. Restava o cigarro, facultando a reflexão do gozo mediante o desamparo, e a vista da janela do quarto, assaltando o meu desespero adiado através do fluxo daquelas águas que, despejadas sobre a mulher, lavaram cada uma das minhas marcas com a espuma da ausência.


segunda-feira, 1 de março de 2010

Alma errática. (Tradução)



Não posso dormir; minha alma abandona meu corpo e vai à rua semi-escura e úmida onde as luminárias parecem gaiolas tediosas, que aprisionam canários moribundos incandescentes.


Minha alma vai se debatendo contra as paredes de trecho em trecho ou caindo em seu vôo incerto sobre as veredas, como a sombra de um pássaro cego.


Minha alma avança, avança apesar de suas quedas e um pacote de intenções ocultas debaixo do braço, ou como se fosse uma criada algo mercenária levando um recém-nascido a fim de deixá-lo clandestinamente em uma porta.


Minha alma avança, avança apesar de suas quedas e tremulejos, como uma mancha que está dentro dos olhos seguindo a uma direção resultante, sua rota através das penumbras fantásticas que obstruem a via pública.


Minha alma viaja a favor da noite e do silêncio, cúmplice de ambos, como se tivesse uma venda em torno dos olhos e, pois, se agarrando qual sombra aos objetos, alargando sua forma entre as brechas e saltando tangencialmente nas bordas.


Procura por um bairro, por uma casa, fareja as aberturas das portas, se levanta, investiga através do buraco da fechadura, foge como se a soprasse o vento, sobe pelas barras das janelas, desaparece e a sua forma se espalha sobre o tapete de uma sala onde ela caiu atravessando o vidro entre duas varetas da persiana.


Um movimento mais e está como a projeção de um corpo, a uma imensa distância, sem que se veja o caminho percorrido. E então tremendo como um tule carbonizado posto ao extremo de um fio fino, volta a debater-se contra as paredes da casa assediada, descrevendo ângulos, subindo acima das bordas e elevando-se sobre os muros para justapor o seu luto no horizonte através do vazio e revir esgotada do salto, procurando pacientemente por entrada.


Como um núcleo flutuante de fumaça negra, minha alma espreita de cima das sacadas, desce aos pátios, gira em torno das plantas e, de repente, se lança aos quartos mediante persianas entreabertas.


Um ruído muito leve a estremece; é um suspiro que ultrapassa as cortinas do leito onde dorme uma mulher. Minha alma se irradia através daquele corpo adorado, visita as formas, se arrasta sobre esta pintura concebida ao abrigo de finos tecidos, segue as curvas dos seios, contorna o óvalo do rosto, vislumbra os lábios...a respiração a repele...um perfume a penetra...se aproxima novamente...uma aspiração a absorve e a instala dentro do ser mais desejado.


Dali não se moverá nunca; ali estará envolvida pelo sangue da mulher amada, recorrendo os nervos e viajando do coração até a cabeça.


Ali viverá para sempre, alimentando sua própria paixão, já eu, sem alma, levantarei amanhã e passarei meus olhos mortos sobre as indiferenças da vida, vivendo de concessão e ministrando meu bocadinho de pão a meu corpo vazio, sem outra aspiração na terra que não seja amá-la e que me ame.

o0o

Alma callejera.


No puedo dormir; mi alma se sale de mi cuerpo y se va a la calle semioscura y húmeda donde los faroles de gas parecen jaulas aburridas, que encierran canarios moribundos ardiendo.


Mi alma va topando las paredes de trecho en trecho o cayendo en su vuelo incierto, sobre las veredas, como la sombra de un pájaro ciego.

Mi alma avanza, avanza, a pesar de sus caídas y un paquete de intenciones ocultas debajo del brazo, o como si fuese una criada mercenaria que llevara un niño recién nacido a dejarlo clandestinamente en una puerta.


Mi alma avanza, avanza, a pesar de sus caídas y revoloteos, como una mancha que está dentro de los ojos siguiendo en una dirección resultante, su ruta a través de las penumbras fantásticas que obstruyen la vía pública.


Mi alma viaja a favor de la noche y del silencio, su cómplice, como un capullo oscuro que va delante de los ojos y se pega cual sombra a los objetos, alargando su forma entre los huecos y saltando tangente en las aristas.


Busca un barrio, una casa, husmea las hendiduras de las puertas, se levanta, se asoma al ojo de la llave, huye como soplada por el viento, trepa por los barrotes de las ventanas, desaparece y su forma se esparce sobre la alfombra de una sala donde ha caído atravesando los vidrios entre dos varillas de persiana.


Un movimiento más y está como la proyección de un cuerpo, a inmensa distancia, sin que se vea el camino recorrido. Y luego temblando como un tul carbonizado puesto al extremo de un alambre fino, vuelve a golpearse en las paredes de la casa asediada, enfilando los ángulos, subiendo a las cornisas y elevándose sobre los muros para estampar su luto en el horizonte a través del vacío y volver fatigada del salto, a buscar pacientemente su entrada.


Como un núcleo flotante de humo negro, mi alma merodea sobre las azoteas, desciende a los patios, gira alrededor de las plantas y de repente se lanza a las habitaciones por los postigos entreabiertos.


Un ruido leve la estremece; es un suspiro que se escapa de entre las cortinas del lecho donde duerme una mujer. Mi alma se difunde sobre aquel cuerpo adorado, visita sus formas, se arrastra sobre ellas diseñadas bajo las finas telas, sigue las curvas de su busto, rodea el óvalo de su cara, enfila sus labios… la respiración la rechaza… un perfume la penetra… se aproxima de nuevo… una aspiración la absorbe y la instala dentro del ser más querido.


De allí no se moverá nunca; allí estará mezclada con la sangre de la mujer amada, recorriendo sus nervios y viajando de su corazón a su cabeza.


Allí vivirá siempre, alimentando su propia pasión, y yo, sin alma, me levantaré mañana para pasear mis ojos muertos sobre las indiferencias de la vida, viviendo de prestado y gestionando mi bocado de pan con mi cuerpo vacío, sin otra aspiración en la tierra que amarla y que me ame.


Eduardo Wilde. "Alma callejerra". In: ___.Prometeo & Cia. Buenos Aires: Jacobo Peuser, 1899.