A moça traz o expresso. O vapor enfumaçado e de aroma bem realçado (virtude de grãos certamente sadios e torrados a pouco na máquina) invade minhas narinas e conduz a direção digressiva do meu pensamento neste ínterim da parada. Tenho entre as mãos uma edição um pouco gasta de "Ser e tempo” a ser lida pausadamente entre os sorvos cuidadosamente confiados à xícara algo fumegante. Entre o sabores do cigarro e dessa bebida basilar para a modernidade (Julio Ramos - ensaísta porto-riquenho cujas ideias foram partilhadas comigo num breve diálogo durante a sua passagem pela na Faculdade de Letras, a propósito do lançamento do livro “Desencontros da modernidade na América Latina” - me disse que sem o café e o tabaco, iguarias latino-americanas, a concepção de vivência do tempo na alta modernidade estaria fatalmente fadada ao fracasso, ao pronto esmorecimento), entre os saberes dos parágrafos do livro que sigo relendo nesses dias, eu me disperso e ressinto das curvas de ainda a pouco com uma forte latência em meu peito.
Vinha pela estrada a cento e trinta por hora e sequer sabia aonde estava indo. Não falo de destinos numa cartografia rodoviária, pois destes, por maior que seja a errância, sabemos somente poder seguir até onde vai dar estrada. Refiro-me bem mais à indecidibilidade tão pungente em nossas vidas, às incertezas de todo o percurso, seja premeditado ou não. A contingência, no final de tudo, é único norte. Quando nos damos conta disso já bem pouco importam os destinos. Desafiei a sinuosidade do percurso enquanto o barulho do motor desaparecia por baixo de um ruído mais forte: a dupla combinação sinfônica entre a aderência dos pneus e o asfalto, por um lado, e, por outro, o vento digladiando contra a aerodinâmica do carro. Tanto melhor assim. Nunca alimentei uma paixão propriamente dita pelos automóveis, pelos motores. Tampouco pelo que parecem oferecer de mais cativante: a velocidade. A minha paixão, o risco que se paga por encontrá-la toda ela plena. Eis, exatamente aí, a raiz mais profunda desse pathos que se finca em meu peito. Aprendi a dirigir cedo. Aos onze anos. Ter um carro sob o comando, conduzi-lo, é coisa bem diferente. Somente mais tarde tomei as minhas lições. E corri alguns riscos, pois é um tipo de autodidatismo muito sincero, digo, não se apreende com alguém, e sim se arranca de dentro tal como um demônio enfim domado. Jamais desejei um carro, pelo menos não consigo me lembrar, a fim de me mostrar entre os amigos, entre as meninas da cidade, e sim mais propriamente pela possibilidade do pathos que disse meu. O exemplo disso, como quem tenta abonar a própria insustentabilidade da ideia, dou da seguinte maneira: prefiro mil vezes, quando ao volante, “Airbag”, do Radiohead, a “Get off the Road”, do Cramps. São duas músicas geniais. A primeira, contudo, condiz bem mais com meus propósitos. Neil Young e também Roberto Carlos, a tal propósito, para falar numa espessura ainda mais completa, é de longe a melhor pedida para uma auto-estrada. Acho que a música, aliada à questão por trás da velocidade, talvez outro pathos ou apenas um desmebramento deste que escrevo aqui, esclarece de modo argumentativo o meu desapego pelo som dos motores, pela máquina propriamente dita. Gosto, reitero, do que elas me deixam sentir, dentro de mim, e não vindo de outro lugar. A coisa está ali, sempre comigo. Mas preciso despertá-la. A velocidade, nesses termos, é como uma mãe que, cuidadosamente, acorda o filho do sono temerosa de que ele jamais retorne desse limite. Durante algum tempo eu estive procurando uma filiação nacional para o impulso doentio. Não considerei os ingleses, pois a aristocracia bretã só se importa com o luxo, a elegância da coisa. Daí ter passado a pontuar minha decisão entre italianos e alemães; exímios apaixonados da máquina automobilística. Repudiei os primeiros, pois, apesar do pathos pela máquina, sobrevalorizam o design que envolve a máquina. Disfarçam hipocritamente aquilo que, sem pudor algum, evidencia a aristocracia dos ingleses. Pelos alemães, de início, criei alguma afinidade. O princípio de velocidade ilimitada de uma Autoban parecia me realizar. Logo percebi, todavia, que não havia maior graça em ir a toda por uma estrada perfeita, em cujo trajeto a velocidade só pode levar ao tédio de um percurso sem os riscos. Acabou que, por fim, descobri em meu próprio país a mais louvável filiação automobilística que eu poderia requerer.
Quando Ayrton Senna morreu, eu tinha quartoze anos e ele trinta e quatro. A curva Tamborello, em Imola, consistiu no fim da contingência para o Senna, mas também no ápice do pathos dele. Não só o nosso país, mas o mundo inteiro chorou quando a televisão dava as imagens do choque contra o muro, do capacete verde-amarelo envolvendo a cabeça completamente prostrada no cockpit. Um estilo incomparável, entre todos os grandes. Por muitos, condenável. Senna, cujo nome batiza a curva mais traiçoeira em Interlagos, é o mais louvável de todos os pilotos. Venceu várias corridas durante sua gloriosa carreira sem se preocupar com a vida, parecendo mesmo antecipar a morte de curva em curva. Em certa ocasião, liderou até a bandeirada final dispondo de apenas duas marchas em função de quebra na caixa de câmbio. Revendo o meu passado, mais propriamente algumas manhãs de domingo, tempo em que eu ainda podia acordar cedo após um sábado, apreendi que meu pathos tinha simpatia imediata nele. Gostava de todos os riscos. Adorava quando chovia. Não respeitava a vida; parecia. Ou melhor, enfrentava-a desafiadoramente sempre que podia. E isso desagradava aos competidores, quando não os deixava completamente amedrontados. Ninguém parece conseguir disputar com alguém assim, verdade? Também ele gostava (me fiz acreditar querendo minha filiação) não propriamente dos carros, da máquina, da velocidade meramente desfrutada. Era algo mais. E por isso pilotava, também, helicópteros e aviões. Sabia como afagar o pathos independentemente da máquina. Dizem que corria muito pelas próprias ruas de São Paulo quando a temporada da F1 ainda estava por começar. E eu acredito. Busquei nele, a despeito de italianos e alemães, com todas as suas falsidades ao volante, o ethos da minha paixão. Quando aprendi, enfim, a domar meu carro, era em Senna que pensava. Senna e eu, estranho elo, dosávamo-nos o pathos do peito com o mesmo phármakon.
Eu não avanço os sinais de trânsito, ao não ser pelas madrugadas. Nada a ver com politicamente correto. Acontece que guiar dentro das cidades não proporcionada mais que raiva - como o pacato personagem do Walt Disney, Sr. Walker, que, ao entrar em seu carro e seguir o fluxo caótico do trânsito, se transforma na figura algo demoníaca do Sr. Wheeler. Prefiro a auto-estrada. Não uma Autoban. Menciono mais verdadeiramente essas pistas que encontramos por aqui, irregulares, sinuosas, desassistidas. (Elas parece acolher mais sinceramente os nossos carros). É bem mais espirituoso acelerar entrando por uma paisagem completamente diversa, cheia de notícias novas a cada curva. Isso faz a gente se sentir vivo, segurando o volante na mão e bem atento a tudo aquilo vem pela frente. A sinuosidade é o contra acalanto da minha paixão que ali se desperta. Não tomo muito reparo pela música que vem do motor, e sim pela batida do meu coração. Aliás, vou tão veloz que às vezes tudo parece estar parado, desligado, calmo, e somente percebo o movimento e o desempenho do máquina durante as alternações entre as marchas.
Eu não direi nada disso a Fernanda. Apesar de ser ela a pessoa próxima a mim mais habilitada a me ouvir a respeito de tudo isso e com uma atenção devota. Não direi que vim a cento e trinta por boa parte do percurso. Ela não confia no modo como eu guio. Quando com ela, eu nunca dirijo tentando encontrar meu pathos. Respeito o norte dela, que sempre se opõe ao meu. E acredito ser por isso que ela não confia muito – ou nada - na minha direção. Queria me apaixonar por ela. Mas ela não está apaixonada por mim. Ela diz que me ama, mas que não está apaixonada. Ao passo que eu, que gostaria de amá-la plenamente, só sei verdadeiramente desejar, querer estar apaixonado dela a cada instante em que a busco com os pensamentos, digo o nome dentro de mim, e toco o cabelo, e sinto o gosto do seu amor muito vivamente.
Tomo o destino da nossa relação na superfície do meu expresso. E leio. Heidegger diz umas coisas tão incompreensíveis com “Sein zum Tode” (“Ser para a morte) e “Vorlaufen zum Tode” (“antecipação da morte”) quanto à consistência turva do meu café. Acho que meu pathos cria o potencial de tornar a morte presente no meu norte e, se essa mancha no expresso estiver correta, isso pode contribuir para me libertar dos múltiplos medos. Consigo construir, através da velocidade, uma tentativa inconsciente de evitar a visão avassaladora da exposição da minha mente, do meu corpo (isto é, da tensão entre ambos, pois é isso o que somos conforme aquele paralelismo spinoziano que abona essa questão) à ameaça da própria destruição. Termino meu café. E essa será a minha última parada, penso retornando ao carro. Acelero até aquele ponto no velocímetro. E tento ir o mais rápido possível até a cidade em que ela está. Tenho pressa por estar lá. E não direi nada disso a Nanda. Enquanto isso piso fundo até conseguir algo em torno dos cento e trinta por hora. E tenho muita pressa. Quero vê-la o quanto antes possível. Não direi nada disso a ela. Estou perdidamente apaixonado. E ela me ama de um modo todo ele comovente. Ambos sentimos isso. E sabemos ser o mais sincero entre nós. Essa será a minha última parada, pois estou muito perto e quero vê-la quase que imediatamente. Acelero. Já estou a mais de cento e trinta. Não sei bem aonde estou indo. Mas estarei com ela daqui a pouco; muito pouco. Acelero ainda um pouco mais. Estaremos juntos; antevejo o abraço que é iminente. Acelero até o motor não poder fazer mais. Estarei com ela daqui a pouco. E não direi nada disso. Cento e sessenta. Consigo o máximo do motor, parece. Logo nos veremos; e já sinto, no meu corpo, o abraço dela.
E, então, eu corro. E corro. Quase lá.

