sexta-feira, 30 de maio de 2008

BSB.

Para André Caparelli.


Everybody knows that our cities were built to be destroyed
You get annoyed, you buy a flat, you hide behind the mat
But I know she was born to do everything wrong with all of that
She has given her soul to the devil but the devil gave his soul to God
Before the flood, after the blood, before you can see
She has given her soul to the devil and bought a flat by the sea.

(Caetano)

Não sou daqui. Talvez isso me cause o sentido. Mas por vez e vezes desacredito. E me acerto ouvido de consenso vocês que nasceram no lugar. Brasília é uma cidade estranha. A sigla que usam é igualmente estranha - BSB. Pra mim parece exatamente trair a linearidade do Lucio Costa. A letra S causa isso. Não os B’s, que de ponta a ponta despontam de modo a firmar a linearidade concreto-modernista. A coisa fica desarmada é pelo S, que entorta. Brasília não tem esquinas. Foi o que me avisaram antes de aceitar o convite de férias. Quer ir? Os coroas vão viajar e a casa é nossa. A gente pode ir ao flat dela. Ficar ali e ver o que ela anda pintando. E certamente ela vai gostar de rever você e te ver por lá. Vai gostar. Só não tem esquina. Mas isso não atrapalha as pessoas de se encontrarem. Eu não gosto mesmo de esquina. Tem coisa melhor. E quero ir.

Os coroas vão mesmo viajar? Sim, e te digo - a casa será nossa...


Falta alguma coisa. Vou dizer. É como um vazio. O Lucio Costa não devia acreditar muito que isso sairia do papel. Por isso esqueceu. Diz aí. Acho que chama plano piloto, porque plano. Não se sobe nunca a não ser por escadas, não é mesmo? Não ocupou bem os vazios. Mas hoje os vazios são completos. Vazios funcionais e que escondem a cidade, dizem por aí. Cidadescondida. Não parece morar tanta gente assim. Estamos em que quadra? Asa sul ou norte mesmo? Esse céu não pára de ficar azul? Precisa ver de noite. Aqui é o coração do pássaro. E se você quiser mesmo podemos ouvir e até ver ele batendo as asas! Vou calar a boca, fumei demais e fico dizendo muita merda. Pode dizer, pois a mim me ajuda a entender isso aqui. Cidadescondidamente, você diz. Ela diz mais – entre minhas pernas andantes mais as dele e outro alguém que pernandantemente seguia junto de nós três e agora não sei mais quem era no nome – é pra conseguir te vigiar. Punir. Tudo tem perspectiva linear de infinito. A cidade é um jogo, e em situação tipificada de sociedade de controle esperava-se poder vigília plena, panopticamente. Não é só isso, eu li em algum lugar: as cidades cristalizam um velho sonho humano com o labirinto. Entende, cidadescondidamente, os vazios do Lucio? Acho que posso. Posso mesmo. É como eu entendo. Mas é bem mais divertido que Alphaville, sem o egotismo do computador godardiano. Certeza, pois não há egotismo. Cidadania de controle, apenas. Burocracia traçada nas lussóbridas linhas do plano piloto, sem egotismo. É, o Lucio Costa sabia.

Sabia porra nehuma! Isso não atrapalha muito, desde que você tenha amigos. Que saco vocês dois. Ficam falando disso o tempo todo. Saco é você que não consegue conversar com a gente. Nossa, você é bem mais chato que eu imaginava. Minha filha, a culpa é sua por ser incapaz. Vai se fuder, cretino! Deixa minha incapacidade comigo. E tome beijo na testa. Entre eles, as coisas se resolvem assim mesmo.
Alguma coisa mais? Não. Já temos o bastante. Pega algo doce agora. Mais tarde vem outra fome, larica mesmo. Duas barras de chocolate, então. Um meio-amargo. Não era doce? Meio-amargo. Pipoca de micro-ondas e coca-cola. Vou pegar mais uma lazanha. Não precisa, pois sobrou uma caixa no congelador desde ontem. O cigarro é meu. Pega uma carteira de Marlboro pra mim; não gosto do seu cigarro. Vou passar no cartão, e vocês deixam a grana comigo. Estou sem um puto, meu Querido. Não tem problema. Sua parte eu cubro e não tem erro. Amanhã a gente vai sair na nite, né? Prefiro o festival de cinema na academia de tênis...

Pode ser, mas Gates depois, né fia!

Uhrg, estou cansada da vida aqui mas vamos sim. Só não tenho grana e, assim, terão de fazer intera pra eu poder ir junto. Sem problema. Quê que a gente vai ver primeiro? Pega o Twin Peaks! Minha filha, eu quero ver os Spiders from Mars! Cala a boca e aperta um aí antes de assar a lazanha. Antes é melhor ouvir música. Verdade. Eu escolho já que vocês não se entendem de sim a respeito do que vamos ver. Brigado, depois eu fumo, é que ainda estou bem chapado. Hum! Tomorrow never knows, do caralêo man! Melhor musica do Revolver. Nem é filho, I’m only sleeping é demais. Aquela guitarra em reverso, zumbido distorção de mosquito, é coisa muito genial. Concordo, mas passa o fumo pra mim e vai lá ver a lazanha que já deve ter ficado no ponto. Tomorrow never knows é do caralêo demais man! Onde a Normal está, ein? Deixa a gata quieta, ela não gosta mais de você. É de você que ela não gosta. Cansou da sua cara de todo dia. Por isso ela não se aproxima mais de mim. Sabe que eu vou embora e você vai ficar. Caralêo, vocês são muito chatos. Ficam brigando. Vou tirar o disco, pois eu nem posso ouvir o que está tocando. É isso aí! Esses dois parecem duas velhas. Cala a boca e vem aqui pegar os pratos que não vou ficar pajeando ninguém. Posso dar uma bola? Claro, querido! Você é tão gentil. Devia ensinar um pouco disso a seu amigo, sabia... Bem, eu vou embora. Não vai comer? Não, só passei pra ver como andavam as coisas. Amanhã venho com mais tempo. Dia de folga, sabe né. Desce com ele pra mim, pois a portaria está com problema. Claro. Te amo, sabia? Eu também. Por isso vim de longe. Você pode descer pra abir pra mim. Ela chegou. Oba! Ãn, já ia pensando que ela te deixaria sozinho aqui. É. Que bom! Quer lazanha? Sim, morrendo de fome. Vem em hora certa, não é? Coloca outra coisa que não agüento mais comer ouvindo isso. Muito chato. Tem razão. Chato mesmo. O quê? Escolhe do seu gosto. Tá bem. Ui! Mandou forte. Adoro essa música! Também. Escolhi por sua causa. Ocean é vocal do John Cale, né? Não sua besta, do Elvis...
A louça é sua. Porra nenhuma que é minha. Você não fez nada! E você? Já veio tudo pronto, só ficou olhando pelo vidro do forno. Muita folga sua. À merda, vai! Deixa que eu lavo esse lance. Não, você pagou quase tudo sozinho. Ele lava. Eu não. Ela lava. Não pagou e chegou na hora de tudo pronto e comeu feito uma morta de fome! Cretino! Mas é verdade. Eu lavo. Deixa essa merda toda aí então.

Twin Peaks ou o Bowie? Não, você não escolhe nada. Cretino! Ele escolhe. É mais sensato que nós. Ah, não quero ver o Bowie. Twin Peaks é mais clima, não? Concordo muito! Sabia da sua sensatez. Sensatez porra nenhuma. Tudo querendo te agradar. Vai se ferrar, raputango! Sério mesmo, eu também queria Twin Peaks, mas antes queria alguma confusão pra ficar mais clima. Acende a ponta aí perto de você. E deixa a Normal ficar onde ela quiser, seu chato!
Eu nunca entendo esse anão. É o braço dele, seu incapaz! Incapaz é você, minha filha! É o braço dele? E sempre cortina vermelha né... Posso pegar um cigarrinho dos seus? Pega um pra mim também. Alguém quer coca? Eu quero, traz aí pra mim também. Não, brigado! Lembra daquela parte da rosa azul? Não entendi porra nenhuma. Eu também não. Não é pra entender. Também acho. Mas vocês já estão entendendo assim. Vai começar com isso de novo? Achei que já tava de bom tamanho na rua. Falando sobre a linearidade do Lucio. Isso aí não é nada linear. Eu acho muito linear. Você sempre acha tudo pelo contrário. Acho mesmo. E você é incapaz demais. Muito limitada. Limitado é você que nem consegue me comer direito, seu puto! É verdade, meu pau não quer subir mais. Eu acho que é o ócio dessa cidade do Lucio. Não sou mais daqui de BSB. Meu pau não sobe mais daqui. Meu pau não é mais linear. Pára de falar merda! Você fala muita merda mesmo...não imaginei que fosse tanto quando havia me alertado sobre ele. Eu te disse, ele é anormalizado por essência. Sua buça é linear, meu pau não. Olha, bora pro quarto e vamos deixar eles aqui, já que a gente não consegue gozar mais junto. Eles conseguem. Eu ouvi vocês aqui no sofá noite passada. Achei lindo o som do amor de vocês! É verdade. Mas você tenta me comer com sua pica alinear? Nossa, você é tão escrota. Muito baixa. E você moralista de pica mole. Quer pegar no meu sovaco? Não, brigado! Olha, vamos logo que eles são dois lindos e a gente não tem mais o que ficar fazendo por aqui. Sempre brigam assim? Não sei, poucas foram as vezes que estive junto dos dois. Mas se amam, se amam assim. É, penso o mesmo. Eles também. Adoro sua boca. Sua língua me enlouquece, sabia? E essa música... Ai! Machucou? Não. Eu gosto. Mas é que preciso gritar. Maluquinha! Te adoro. Quando mesmo você vai embora? Ainda não sei. Fico até sobrar a grana pra poder voltar. Não volta. Fica aqui. Tudo bem, vamos sair pra gastar o que ainda resta! É verdade que ontem vocês roubaram o brechó? Anhan. E como foi? Nada de mais. Queria pagar. Mas não tinha ninguém lá. Melhor, tinha. Mas os malucos enconstaram a porta e trepavam dentro da cabine. Aí eu e ela entramos e levamos a sacola com as coisas que havíamos reservados pela manhã, quando passávamos por lá, porém, sem a grana. Queria ter estado junto. Não foi nada de mais. Na locadora foi bem mais legal. Os filmes e o vídeo com a apresentação do Dizzy mais a Ella. As atendentes estavam na cantina. A gente ficou com medo. Até pensei em devolver quando estávamos no carro. Mas não quis. Ficou pesando por um muito eu ter ferrado o cara. Ter causado demissão dele e tal. Ele trepava, feliz. Mas não mastiguei muito isso e paramos no Barzão pra tomar cerveja e jogar sinuca depois de levar ela pra montagem da exposição.

Rimos muito e depois fomos ver o jogo. Depois passamos no CONIC pra pegar ela na Dulcína e ver uns discos enquanto acertava e terminava tudo pra exposição da noite. Bebemos pra caralêo. Acho que foi por isso que ela tava chamando ele de pica mole moralista. Nem a língua devia conseguir movimentar pra fora da boca. Eles se amam assim. Nós, não.

Não sou daqui. Talvez isso me cause o sentido. Mas por vezes desacredito. E me reacerto ouvido de consenso vocês daqui. Brasília é cidadestranhamente uma Cidadestranha. A sigla que usam é igualmente estranha - BSB. Pra mim parece exatamente trair a linearidade do Lucio Costa. A letra S causa isso. Não os B’s, que, de ponta a ponta, despontam justamente firmarmando a linearidade de concreto modernista. A coisa fica desarmada pelo S, que entorta. Brasília não tem esquinas. Não sou daqui. Talvez isso me cause o sentido. Mas por vez e vezes desacredito. Que já subtraído de B e S ou B dispenso e credito. Que sem s no de_acredito me faço naquele o de acreditar. E talvez isso me cause o sentido. Bem que sou, se sim e se não daqui, cidadestranho de mim.


sexta-feira, 9 de maio de 2008

Corpalmificante – ou da escritura no olho.


para I'll be your mirror, uma canção do velvet underground


Uma dor que dói corpo e alma, inteiramente. Não sei o que me aconteceu. Sei apenas o que narro: inteiros, doem corpo e alma. Começa de trás e logo vem pra frente. Da frente parece juntar na parte de trás. E dói inteira e plenamente. Sou meu corpo na alma, inteiros em mim. Com alma no corpo, não me separo. E sigo e narro, corpalmificando. Se parar, já não sou inteirocorpalmificante. Tenho um revolver na gaveta, que pego em minhas mãos. Tiro dele todas as balas, pois não quero me matar. De mim, cada seis tiros. Dou pra mim também mais seis vidas, que somo a única que vivo. Nunca quis me matar. Que me matar seria o ato consumado. Viver, a única potência total. Tirar alma do corpo, assim, seria descorpalmificar. Prefiro contar no carrossel seis tiros tirados que não atirei, seis vezes tirando. Isso é meu jogo, esqueço a dor inteirocorporificada da frente e de trás. Ela ainda dói, pois de doer carece meu jogo. Acordo no dia seguinte, um pouco depois das dez. Pego outra pasta de dente. A antiga ainda está cheia. Pego outra na gaveta do armário porque o dia pede outro sabor. Um outro gosto. Que não me lembre mais do anterior. De certo eu pegarei outra pasta amanhã. Outro dia. Outro gosto ao saber do sabor. Mas sou sempre eu mesmo no olho do espelho - da frente pareço juntar na parte de trás a parte que sou, e, de trás, já na frente, o que exatamente atrás pareço juntar pela frente que olha o olho à parte do todo. Então erro. O espelho é que sempre é o mesmo no olho que vê o espelho. Comprar um outro espelho, então, já novo de mim. Quero ver minha outra imagem no olho em que sou repetidamente outro através do meu olho que está no espelho. Outro, e então espelho: outro, já no espelho: outro, e não mais espelho. Mas serei ainda eu mesmo.

Mesmo não sendo nesse olho do espelho... eu mesmo e não o outro no olho espelholhado. Outro, apenas espelho. Mais tarde compro o novo espelho. Meus tênis estão gastos mas me levam bem pelas ruas. São macios e por isso me confortam os pés. Ando muito pelas ruas e preciso desse conforto de tênis envelhecido. Por isso insisto nesses tão gastos. Meio a tanta gente que passa, não gostaria de sentir a dor voltando. Subindo pelos pés. E desde logo sendo aquela que junta a frente na parte de trás: eu todo. É melhor senti-la cintilar em casa. Em casa eu sei como domar a cintilação da febre que ela me causa. Às vezes, a música ajudar: escolhê-las em uma seqüência pessoal, solitariamente, ajuda esquecer. Daí descer mais uma do meu set-list no Media Player e começar a tocar uma velha canção companheira:

[ rorrim ruoy eb ll'l_I'll be your mirror

wonk u esac ni, r'u tahw tcelfeR_Reflect what u'r, in case u don't know
tesnus eht dna niar eht, dnid eht eb I'll_I'll be the wind, the rain and the sunset
emoh taht ot rood ruoy no lhgil ehT_The light on your door to show that u'r home
dnim ruoy nees sah thgin eht kniht u nehW_When u think the night has seen your mind
dniknu dna detsiwt r'u edisni tahT_That inside u'r twisted and unkind
dnilb r'u taht wohs ot dnats em teL_Let me stand to show that u'r blind
sdnah ruoy nwod utp esaelP_Please put down your hands
u ees I esuaC'_'Cause I see u

wonk t'nod u eveileb ot drah ti dnif I_I find it hard to believe u don't know
r'u taht ytuaeb ehT_The beauty that u'r
seye rouy eb em tel t'nod u fi tuB_But if u don't let me be your eyes
diarfa eb t'now u os, ssenkrad ruoy ni dnah A_A hand in your darkness, so u won't be afraid

dnim ruoy nees sah thgin eht kniht u nehW_When u think the night has seen your mind
dniknu dna detsiwt r'u edisni tahT_That inside u'r twisted and unkind
dnilb r'u taht wohs ot dnats em teL_Let me stand to show that u'r blind
sdnah ruoy nwod tup esaelP_Please put down your hands
u ees I esuaC'_'Cause I see u

rorrim ruoy eb I'll_I'll be your mirror ]

Lembro as coisas que preciso fazer na rua. Antes, o que levar do meu quarto comigo. Nunca é nada demais. E ainda assim preciso repassar tudo por minha cabeça. Narrar pra mim o roteiro do dia. Saber como preciso executar minhas ações. Onde preciso entrar. Talvez até o que não possa deixar de falar. Tenho boa memória. Mas dificuldade de realizá-la em atos cotidianos. Por isso, tenho de narrar pra mim o roteiro todo. Comprar cigarros antes de entrar no ônibus. Não vedem mais cigarros nas Universidades. O cerco vai se fechando um pouco mais a cada novo dia. Um pouco da política de saúde pública. Eu entendo. Um pouco da sujeira política de lóbis no Senado. Nem mesmo os cafés parisienses conseguiram esquivar-se. Não há nada a fazer. Hoje em dia, reivindicar é algo pouco usual. Em outros tempos, reivindicava-se por muito pouco. Revoluções, um conceito tão fora de uso, banido do léxico reivindicativo, aconteciam por excesso de liberdade e não por sobrevivência. Assim são as coisas, eu não entendo, mas narro, e Maio é apenas o próximo mês na ordem do calendário e ninguém acenderá um cigarro em comemoração. Acender esse cigarro soaria reivindicativo, diriam. “Daqui a pouco, meu amigo, você não compra mais cigarrinho em nenhum lugar”. Eu nunca esqueço. Os amigos deveriam agradecer. Agradecer pelo meu dom da narrativa prévia ao pedir cada cigarro com a desculpa de esquecimento. Não importa. Compro mais uma carteira de cigarros e nem percebo que subiram novamente os malditos preços. (Percebesse, perceberia também que o tempo já vai passando.) Recusar a gentileza de levarem minha mochila. O Campus chega logo e não gosto de ficar tirando a mochila. Dá trabalho retirar das costas e pegar meu player do bolso, de modo a passar as alças. “Brigado, não precisa”. Entregar os livros é coisa importante, pois perdi o prazo pra renovação on-line por me ocupar tanto com a dor do corpo inteiro. Apertar a mão de um amigo e beijar uma amiga. Importante demonstrar carinho por quem você gosta tão sinceramente. Narro tanta coisa que não me esqueço de comprar espelho. Deveria vender na cantina. É, seria mais fácil. Assistir às aulas, lembrar do que li e que discordar é mais poético que aprovar com um gesto da cabeça. Atualmente, porém, eu ando cansado e não procura mais esse tipo de poesia na vida. Lembrar de ir ao banheiro e de ver meu outro no espelho que olho. De pegar os textos do próximo seminário no xérox. Imprimir a notinha com a listagem dos textos e aguardar meu número de senha. De saber que eu estou vivo seis vezes mais que todos os demais e que tenho a mesma e única vida que eles. Lembrar que acho a vida cada dia melhor e não me culpar de otimismo. Só não quero estar morto, já disse. Quero outro espelho. Outra pasta de dente. Outro sabor de dia. Outros dentes escovados no espelho. Não quero os seis tiros, que tiro sem atirar seis vezes tirando. Quero outro no espelho. Meu outro, no outro em que sou espelhado. E sentir corpo e alma entrelaçados. E eu, de vez corpalmificando e corpalmificado. Lembrar de narrar pra mim toda essa história que eu invento pra não me esquecer. Da importância de ter tênis confortáveis pra dor não me atacar subindo pelos pés. E me achar dorincorpado, vindo da frente juntar na de trás. Saber da importância de aceitar o convite pra cerveja e conversa depois das aulas. Sair durante alguns dias da semana e não lembrar das horas. Debater algum processo criativo. De conhecer cada dia melhor as pessoas. Se “conhecer” soa muito pesado, ficar contente de poder sacar mais precisamente o barato que pega pra cada uma delas. Deve ser assim. E não importar por sermos diferentes. Desde que não me encham o saco e tenham paciência com minha boca de perversa ironia e, vezes por essa justa medida, boca de sincera amizade. Perversidade e ironia são temperos de grandes amigos, sempre soube. E meus dentes são grandes por conta disso. Expressam o tamanho de cada amizade mordida por eles nessa vida com a qual entrelaço a minha narrativa cotidiana, da qual não me deixo esquecer. Não importa se somos diferentes. Lembrar de pegar a próxima cerveja se eu não estou falando muito. De como me irrita o copo vazio. De acender um cigarro e fumá-lo. De saber que assim estou corpalmificado. E de que, mesmo lembrando, narrando, não comprei o novo espelho. De que vivo seis vezes mais que cada um deles que estão presentes à mesa. De que terei de abrir outra pasta de dente pela manhã do dia seguinte. Narrar uma nova compra de outro novo espelho. Meu outro, no outro que sou no espelho. De que antes a dor vem me doer, corpinteiradamente. Que disso, disse, depende meu jogo. De que é possível achar gosto novo nos dias. De tirar novamente os seis tiros que tiro pra não atirar contra a vida. Pra lembrar que vivo seis vezes mais que cada um à minha volta. Mas que vivo a mesma e única vida viva de cada um deles. Do prazer nos meus tênis surrados pelos dias e passos com que ultrapasso por esses dias. De comprar novo espelho, por querer minha outra imagem. De voltar pra casa e saber que há gosto novo no dia. De pensar nela indo embora e preocupar se vai chegar bem em casa depois de ter me deixado aqui com minha dor de corpo inteiro. E não precisar narrar que gosto tanto dela quando juntos estamos. Dou pra mim mais seis vidas, que somo a única que experimento vivintensificado no gosto da pasta de dente pela manhã. E lembrar de narrar que retirar alma do corpo seria descorpalmificar. E de que amanhã eu vou mesmo comprar o novo espelho. Mesmo sem poder ver minha outra imagem no olho que vê. Eu mesmo e não outro no olho espelholhado. Outro, apenas espelho. Estarei de sempre corpalmificado nos dias e já nos gostos que colocam aos diferentes sabores de pasta de dente. Vivo e sei viver seis vezes mais que cada um à minha volta. Mas que vivo a mesma e única vida viva de cada um deles – de sempre, do corpo alma fica. E eu, corpalmifíco seis vezes mais nessa mesma e tão única vida viva que narro pra mim. Meu outro, no outro que sou no espelho da escritura que narro corpalmificando. Começa de trás e logo vem pra frente. Da frente parece juntar na parte de trás – e narro meu outro exatamente no outro que sou e me espelho narrado já de seis vezes mais espelholhado pela escritura do olho que vem me ver, de mim, inteirocorpalmificado.

D.