sexta-feira, 9 de maio de 2008

Corpalmificante – ou da escritura no olho.


para I'll be your mirror, uma canção do velvet underground


Uma dor que dói corpo e alma, inteiramente. Não sei o que me aconteceu. Sei apenas o que narro: inteiros, doem corpo e alma. Começa de trás e logo vem pra frente. Da frente parece juntar na parte de trás. E dói inteira e plenamente. Sou meu corpo na alma, inteiros em mim. Com alma no corpo, não me separo. E sigo e narro, corpalmificando. Se parar, já não sou inteirocorpalmificante. Tenho um revolver na gaveta, que pego em minhas mãos. Tiro dele todas as balas, pois não quero me matar. De mim, cada seis tiros. Dou pra mim também mais seis vidas, que somo a única que vivo. Nunca quis me matar. Que me matar seria o ato consumado. Viver, a única potência total. Tirar alma do corpo, assim, seria descorpalmificar. Prefiro contar no carrossel seis tiros tirados que não atirei, seis vezes tirando. Isso é meu jogo, esqueço a dor inteirocorporificada da frente e de trás. Ela ainda dói, pois de doer carece meu jogo. Acordo no dia seguinte, um pouco depois das dez. Pego outra pasta de dente. A antiga ainda está cheia. Pego outra na gaveta do armário porque o dia pede outro sabor. Um outro gosto. Que não me lembre mais do anterior. De certo eu pegarei outra pasta amanhã. Outro dia. Outro gosto ao saber do sabor. Mas sou sempre eu mesmo no olho do espelho - da frente pareço juntar na parte de trás a parte que sou, e, de trás, já na frente, o que exatamente atrás pareço juntar pela frente que olha o olho à parte do todo. Então erro. O espelho é que sempre é o mesmo no olho que vê o espelho. Comprar um outro espelho, então, já novo de mim. Quero ver minha outra imagem no olho em que sou repetidamente outro através do meu olho que está no espelho. Outro, e então espelho: outro, já no espelho: outro, e não mais espelho. Mas serei ainda eu mesmo.

Mesmo não sendo nesse olho do espelho... eu mesmo e não o outro no olho espelholhado. Outro, apenas espelho. Mais tarde compro o novo espelho. Meus tênis estão gastos mas me levam bem pelas ruas. São macios e por isso me confortam os pés. Ando muito pelas ruas e preciso desse conforto de tênis envelhecido. Por isso insisto nesses tão gastos. Meio a tanta gente que passa, não gostaria de sentir a dor voltando. Subindo pelos pés. E desde logo sendo aquela que junta a frente na parte de trás: eu todo. É melhor senti-la cintilar em casa. Em casa eu sei como domar a cintilação da febre que ela me causa. Às vezes, a música ajudar: escolhê-las em uma seqüência pessoal, solitariamente, ajuda esquecer. Daí descer mais uma do meu set-list no Media Player e começar a tocar uma velha canção companheira:

[ rorrim ruoy eb ll'l_I'll be your mirror

wonk u esac ni, r'u tahw tcelfeR_Reflect what u'r, in case u don't know
tesnus eht dna niar eht, dnid eht eb I'll_I'll be the wind, the rain and the sunset
emoh taht ot rood ruoy no lhgil ehT_The light on your door to show that u'r home
dnim ruoy nees sah thgin eht kniht u nehW_When u think the night has seen your mind
dniknu dna detsiwt r'u edisni tahT_That inside u'r twisted and unkind
dnilb r'u taht wohs ot dnats em teL_Let me stand to show that u'r blind
sdnah ruoy nwod utp esaelP_Please put down your hands
u ees I esuaC'_'Cause I see u

wonk t'nod u eveileb ot drah ti dnif I_I find it hard to believe u don't know
r'u taht ytuaeb ehT_The beauty that u'r
seye rouy eb em tel t'nod u fi tuB_But if u don't let me be your eyes
diarfa eb t'now u os, ssenkrad ruoy ni dnah A_A hand in your darkness, so u won't be afraid

dnim ruoy nees sah thgin eht kniht u nehW_When u think the night has seen your mind
dniknu dna detsiwt r'u edisni tahT_That inside u'r twisted and unkind
dnilb r'u taht wohs ot dnats em teL_Let me stand to show that u'r blind
sdnah ruoy nwod tup esaelP_Please put down your hands
u ees I esuaC'_'Cause I see u

rorrim ruoy eb I'll_I'll be your mirror ]

Lembro as coisas que preciso fazer na rua. Antes, o que levar do meu quarto comigo. Nunca é nada demais. E ainda assim preciso repassar tudo por minha cabeça. Narrar pra mim o roteiro do dia. Saber como preciso executar minhas ações. Onde preciso entrar. Talvez até o que não possa deixar de falar. Tenho boa memória. Mas dificuldade de realizá-la em atos cotidianos. Por isso, tenho de narrar pra mim o roteiro todo. Comprar cigarros antes de entrar no ônibus. Não vedem mais cigarros nas Universidades. O cerco vai se fechando um pouco mais a cada novo dia. Um pouco da política de saúde pública. Eu entendo. Um pouco da sujeira política de lóbis no Senado. Nem mesmo os cafés parisienses conseguiram esquivar-se. Não há nada a fazer. Hoje em dia, reivindicar é algo pouco usual. Em outros tempos, reivindicava-se por muito pouco. Revoluções, um conceito tão fora de uso, banido do léxico reivindicativo, aconteciam por excesso de liberdade e não por sobrevivência. Assim são as coisas, eu não entendo, mas narro, e Maio é apenas o próximo mês na ordem do calendário e ninguém acenderá um cigarro em comemoração. Acender esse cigarro soaria reivindicativo, diriam. “Daqui a pouco, meu amigo, você não compra mais cigarrinho em nenhum lugar”. Eu nunca esqueço. Os amigos deveriam agradecer. Agradecer pelo meu dom da narrativa prévia ao pedir cada cigarro com a desculpa de esquecimento. Não importa. Compro mais uma carteira de cigarros e nem percebo que subiram novamente os malditos preços. (Percebesse, perceberia também que o tempo já vai passando.) Recusar a gentileza de levarem minha mochila. O Campus chega logo e não gosto de ficar tirando a mochila. Dá trabalho retirar das costas e pegar meu player do bolso, de modo a passar as alças. “Brigado, não precisa”. Entregar os livros é coisa importante, pois perdi o prazo pra renovação on-line por me ocupar tanto com a dor do corpo inteiro. Apertar a mão de um amigo e beijar uma amiga. Importante demonstrar carinho por quem você gosta tão sinceramente. Narro tanta coisa que não me esqueço de comprar espelho. Deveria vender na cantina. É, seria mais fácil. Assistir às aulas, lembrar do que li e que discordar é mais poético que aprovar com um gesto da cabeça. Atualmente, porém, eu ando cansado e não procura mais esse tipo de poesia na vida. Lembrar de ir ao banheiro e de ver meu outro no espelho que olho. De pegar os textos do próximo seminário no xérox. Imprimir a notinha com a listagem dos textos e aguardar meu número de senha. De saber que eu estou vivo seis vezes mais que todos os demais e que tenho a mesma e única vida que eles. Lembrar que acho a vida cada dia melhor e não me culpar de otimismo. Só não quero estar morto, já disse. Quero outro espelho. Outra pasta de dente. Outro sabor de dia. Outros dentes escovados no espelho. Não quero os seis tiros, que tiro sem atirar seis vezes tirando. Quero outro no espelho. Meu outro, no outro em que sou espelhado. E sentir corpo e alma entrelaçados. E eu, de vez corpalmificando e corpalmificado. Lembrar de narrar pra mim toda essa história que eu invento pra não me esquecer. Da importância de ter tênis confortáveis pra dor não me atacar subindo pelos pés. E me achar dorincorpado, vindo da frente juntar na de trás. Saber da importância de aceitar o convite pra cerveja e conversa depois das aulas. Sair durante alguns dias da semana e não lembrar das horas. Debater algum processo criativo. De conhecer cada dia melhor as pessoas. Se “conhecer” soa muito pesado, ficar contente de poder sacar mais precisamente o barato que pega pra cada uma delas. Deve ser assim. E não importar por sermos diferentes. Desde que não me encham o saco e tenham paciência com minha boca de perversa ironia e, vezes por essa justa medida, boca de sincera amizade. Perversidade e ironia são temperos de grandes amigos, sempre soube. E meus dentes são grandes por conta disso. Expressam o tamanho de cada amizade mordida por eles nessa vida com a qual entrelaço a minha narrativa cotidiana, da qual não me deixo esquecer. Não importa se somos diferentes. Lembrar de pegar a próxima cerveja se eu não estou falando muito. De como me irrita o copo vazio. De acender um cigarro e fumá-lo. De saber que assim estou corpalmificado. E de que, mesmo lembrando, narrando, não comprei o novo espelho. De que vivo seis vezes mais que cada um deles que estão presentes à mesa. De que terei de abrir outra pasta de dente pela manhã do dia seguinte. Narrar uma nova compra de outro novo espelho. Meu outro, no outro que sou no espelho. De que antes a dor vem me doer, corpinteiradamente. Que disso, disse, depende meu jogo. De que é possível achar gosto novo nos dias. De tirar novamente os seis tiros que tiro pra não atirar contra a vida. Pra lembrar que vivo seis vezes mais que cada um à minha volta. Mas que vivo a mesma e única vida viva de cada um deles. Do prazer nos meus tênis surrados pelos dias e passos com que ultrapasso por esses dias. De comprar novo espelho, por querer minha outra imagem. De voltar pra casa e saber que há gosto novo no dia. De pensar nela indo embora e preocupar se vai chegar bem em casa depois de ter me deixado aqui com minha dor de corpo inteiro. E não precisar narrar que gosto tanto dela quando juntos estamos. Dou pra mim mais seis vidas, que somo a única que experimento vivintensificado no gosto da pasta de dente pela manhã. E lembrar de narrar que retirar alma do corpo seria descorpalmificar. E de que amanhã eu vou mesmo comprar o novo espelho. Mesmo sem poder ver minha outra imagem no olho que vê. Eu mesmo e não outro no olho espelholhado. Outro, apenas espelho. Estarei de sempre corpalmificado nos dias e já nos gostos que colocam aos diferentes sabores de pasta de dente. Vivo e sei viver seis vezes mais que cada um à minha volta. Mas que vivo a mesma e única vida viva de cada um deles – de sempre, do corpo alma fica. E eu, corpalmifíco seis vezes mais nessa mesma e tão única vida viva que narro pra mim. Meu outro, no outro que sou no espelho da escritura que narro corpalmificando. Começa de trás e logo vem pra frente. Da frente parece juntar na parte de trás – e narro meu outro exatamente no outro que sou e me espelho narrado já de seis vezes mais espelholhado pela escritura do olho que vem me ver, de mim, inteirocorpalmificado.

D.

Um comentário:

Anônimo disse...

Simplesmente...
Fantástico. A cada nova pré leitura do meu cotidiano lembrarei que alguém resolveu escrever a sua própria. Espero que isso não me faça estabelecer uma vontade louca de fazer o mesmo (minutos após não reconheceria aquelas letras)...
Um abraço,