
Para 2string’slide Man
Like a bird on the wire Like a drunk in a midnight choir I have tried in may to be free
(Leonard Cohen)
Conheci Mark Sandman coisa de alguns anos atrás. Veio com seu copo na mão e se ofereceu à companhia da minha mesa solitária, onde, além de mim, também meu copo. Havíamos conversado pela primeira vez na semana anterior, quando ele surgira na loja pra comprar alguns discos. Eu simplesmente o recebi dizendo olá 2string’slide! Sorriu à minha recepção idiota, e disse - Ei Man! Levou muita coisa na sacola, mas não o que procurava especificamente: Bitchs Brew do Miles. Nunca tive este disco na loja, mas prometi pra ele cópia do que tinha em casa no dia seguinte. Ele concordou e ficou de passar pra pegar hora dessas, pois seu apê ficava ali por perto, quase na saída do metrô com o Mercado das Flores e esquina da rua do Rosário com Uruguaiana. Mas não apareceu antes de vir com o copo na mão e se sentar junto de mim. Seu rosto era de feição bastante dura, capaz de indicar em cada marca os lugares por onde já havia estado, e talvez cada desacerto que a vida lhe guardara. Mas facilmente os desfazia com seu sorriso em dentes horríveis de se ver. O que era facilmente suportável graças ao timbre da sua risada, profunda e bastante expressiva. Falava bem pouco, e com isso não parecia ser gringo. Talvez apenas um homem de poucas frases, mas muita substância controlada pelo silêncio. Isso parecia fazê-lo mais brasileiro que eu. Menos carioca que eu. Mais malandro porém. Cidadão legítimo da Lapa dos bares e bebidas e cigarros. Nossa conversa foi bem ritmada por pausas, talvez nossas palavras deslizassem nesta conversa ao modo da sonoridade do seu peculiar Baixo. Eu não sabia bem o que dizer, procurando não entrar muito no respeito de seu trabalho. E acabamos falando sobre música. Da música nos discos, já que ele tinha dado inicio à conversa perguntado pela cópia prometida. Disse pra mim algumas coisas sobre os discos que havia comprado na minha loja. E ainda me pediu uma informação a respeito de um bom lugar pra regular a rotação de seu toca-discos. Depois acendeu outro de seus cigarros e pediu por uma cerveja. Encheu meu copo gentilmente e disse que a rua do Lavrádio e a sujeira das esquinas da rua dos Inválidos eram a coisa de que mais gostava por ali junto da minha loja. Ria tentando parecer sóbrio como ele em meu riso consentido. Não sem perguntar porque, ele jogava aquela idéia ali na mesa. E disse pra mim que não sabia direito. Que na verdade não gostaria de saber. Confessou, apesar de indeciso, não sem antes um trago, pensar isso daquelas esquinas por elas lembrarem Bukowski. Fazê-lo sentir vontade de reler o velho Buk. Contudo se censurou e disse ser mais que isso, porque é sempre mais que isso! Quis saber de mim. Eu não sabia. Que diabos Mark sentia ao passar pelas esquinas da rua dos Inválidos, o que há de apreciável na estreita rua do Lavrádio. Eu sabia. Mas não pro Mark. E disse qualquer coisa besta, pois aquilo tudo fede sem deixar de ser belo. E ele riu, exatamente como ele ria. E disse ser isso, aquilo fede e não deixa de ser belo. Bukowski fede e não deixa de ser belo: o velho Buk cheira às flores do mal. E isso é todo perfume! Falou mais. Quando compus I Wanna Go Home, eu estava num bar em West Village há mais de uma semana e sem grana pra um uísque ou cigarros e pensava muito em coisas distantes, como no sol da Califórnia, que me parece bem mais quente e menos amarelo que o do Rio. Não entendi porque me dizia aquilo; pareceu decadente e triste. Nunca estive em West Village. Ou qualquer outra parte da ilha. Não sei qual a cor do sol da Califórnia. Talvez entendesse se falasse de Kerouac, pois a canção... Mas era a vida dele. Era um traço do rosto dele enrugando palavras pra mim. Era uma coisa que fedia muito, sem deixar de ser belo porque nunca mesmo fora belo. Pedi mais uma cerveja e ele também mais uma dose. Eu não quis uma dose. É sempre muito quente por aqui pra uma dose a essa hora do dia Man, disse eu. E ele disse ser certo. Certo. Mas que não podia sem uma dose. Pois Mark era um homem de doses, de uma em uma. Como era sua vida. Como era seu rosto e cada traço dele. Suas notas e sua voz. E a voz dele me quis saber o que fazia ali e não na loja. Hoje é segunda, e não trabalho. Deixo por conta da Ana, que cuida daquilo melhor que o dono, pois ela é dona de mim. Riu novamente, com sua risada. Segunda à tarde eu sempre fico aqui, bebendo e esperando alguma coisa acontecer. Mas nada acontece. É como estamos dizendo, fede sem deixar de ser belo. Daqui a pouco vou na direção da Cinelândia, pegar o bonde pra Santa Teresa e pegar um fumo por lá antes de ir pra casa. É que acaba hoje. E a semana começa hoje, sabe né. Antes que ele falasse. Ou bebesse. Acendesse mais um cigarro antes do meu. Disse pro Mark caminhar comigo e pegar o bonde pra Santa Teresa. Que depois passaríamos na minha casa também por ali em Santa Teresa pra pegar a cópia dele. Fumar o fumo e fazer nossa cabeça ouvindo o Miles que ele queria. E aprovou condicionando que tomássemos antes mais um trago pelos bares da rua Oriente na volta. Homem de doses. Pra mim isso não era condição. Era mais que certo, como feder sem deixar de ser belo. E fomos pegar o fumo e antes o bonde. Ele parecia contente quando de cima passamos pelos arcos. Não lembrava mais o comentário decadente de momentos atrás. Já não era decadente. E a Lapa de cima também não é decadente. Pois é como numa maquete. Tabuleiro mobiliado com vida e pessoas. Mas sem deixar de feder, porque belo. Era sim mais malando que eu. E seus óculos escuros ficariam ridículos em qualquer outro rosto. Mas não no de Mark, pois não eram os óculos que expressavam a silhueta do seu rosto. Era o roso dele. E todos aqueles traços e a vida. A vida e a rua Oriente. Os Grafites nos muros. Mais uma escadaria ficando pra trás do bondinho e de nós. As casas no caminho do trilho do bonde e os mulekes que subiam sem pagar. Gatos que podem morar em qualquer uma delas. O mistério dessas casas de jardins. As plantas bem cuidadas, e outras não. A vista. Santa Teresa na rua Oriente passando pelas lentes de Mark. Os bares e restaurantes em parte ainda fechados. Era isso. Mais que isso, porque sempre. Como disse ele pouco antes. Paguei pelo meu fumo, e Mark resolveu levar uma cinquenteira bem servida aproveitando a situação. Ele perguntou se poderíamos seguir direto pra casa. Ouvir música e deixar os bares pra depois. Era o que eu também queria. E fizemos. Não quis que ouvíssemos o Miles logo, e escolheu um disco nos meus. Achei estranho ser o Transa, que foi. Ele me disse ter tomado conhecimento de pouco e que havia gostado muito daquilo. Coisa de gringo, claro. Sem desdizer que é das melhores coisas. Mas não era o que eu imaginava ouvir fumando com ele. 2string'slide Man cantando You Don’t Know Me. Pensei em dizer a ele que pra mim aquilo também fedia muito, sem deixar de ser belo. Não quis. Soaria retardado. Tive medo de que ele me pensasse assim dizendo aquilo outra vez. Ele gostava mesmo da canção e ia transando com os versos dizendo Bet you’ll never get to know me. Jamais diria o que pensei pra alguém cantando isso. Nem mesmo pra mim. Não importava. Estava ali, com fumo pra semana e em casa. Ouvindo meus discos com ele. E depois mostrei outro disco e outra música. Imaginei que Mark fosse gostar também do Araçá Azul. Coisa de gringo, sabe. Escolhi de cara Eu quero essa Mulher assim mesmo. Ele gostou um pouco. Não conseguia sacar mesmo a do Cara. Mas já parecia bem louco pelo fumo. Nunca imaginei vê-lo assim. Não era do bagulho. Das doses. Uma em uma. Pensei depois na faixa de Épico. E fiz. Não gostou, achou estranho e pegou novamente no Transa e recolocou a agulha sobre a faixa de You Don’t Know Me. Hora mais tarde ouvimos o Miles. E Mark ainda estava em casa quando Ana chegou. Ela também o havia conhecido do dia da loja. Conversamos um pouco e queimamos mais unzinho. Ele foi bem simpático com ela. Não menos que comigo. Mas Ana é mulher. E Ana não fede. Nunca. Mark despediu-se. Prometeu voltar a nos visitar depois que fizemos demonstrar que ele era bem-vindo. Disse que traria uns discos da próxima vez. E foi embora em direção à rua Oriente.
Mark Sadman morreu pelos anos de 1.999, na acinzentada cidade da Palestrina, nos Montes Apenninus (Itália). Tinha consigo 46 anos e fazia seu mais fundo querer de vida. Ana e eu, nós, nunca mais o vimos; ouvimos.