sábado, 24 de janeiro de 2009

Flor da arbrótea.


Esta flor também se chama Tainã Terra Bossi, que na qualidade de uma semente de arbrótea desabrochou certa vez com profundas raízes no jardim do meu peito.

Não, eu não estou ali. Apenas ela. Definitivamente, não estou de corpo presente. Tudo que faço neste instante resulta ocultar-me. Vejo-a tão-somente na fotografia. E absorvo, assim, o olhar que igualmente a observa naquele exato instante de extática concentração frente ao areal do mar sereno.

Os anos em que eu podia vê-la com proximidade quase velada já ficaram algo distante, tanto que vai mais além que a própria imagem que agora a fez rediviva em meu olhar. Não lembrarei aqui aquele primeiro dia em que falávamos de coisas que perpassam primordialmente a fenda da agulha com que se entrelaça o finíssimo tecido da vida, rasgando com nossas conversas todo o burburinho então muito retalhado e de fibra muito fraca em torno de nós, e tampouco que à distância bem segura desses pequenos farrapos de vozes tão vagas faríamos vestimenta da roupagem mais íntima da noite e a qual nomeamos madrugada e por fim teceríamos uma textura delicada porém toda ela bem trançada a recobrir-nos firmemente sob a manta mais carinhosa dos afetos possíveis.

Surpreendo-a apenas diante das águas mansas e de um céu mediterrâneo a princípio bicolor mas que se espalha gradativamente através da multiplicação de tonalidades. A parte superior de seu corpo está cuidadosamente deposta sobre a inflexão inferior do dorso lombar. Tem as pernas recurvadas de modo a sustentá-la como alguém quase em meditação. Suavemente, a mão parece vir de encontro à boca e assim convoca ao trago a erva que a acompanha. Sei que o sol deve se pôr admiravelmente, mas não posso alcançá-lo. Eis que estou vendo apenas a parte recortada de tudo isso que a fotografia me dá a ver. Do vento também nada sei, e só posso apostar que por certo ele joga ludicamente com os cabelos dela qual uma criança acompanhada de um delicado brinquedo.

À contraluz - pois que admira a descida ou possivelmente a subida do sol (nunca saberei ao certo) - a parte dorsal de seu corpo se escurece um pouco e a postura corporal faz ressaltar uma forma levemente sinuosa, todavia intensamente feminina e a dispõe pra mim com tal natureza qual um instrumento musical. Meu devaneio de momento é tão profundo que acabo submergindo em delírios até tomá-la por uma viola de orquestra na qualidade mais alta de solista ou, quiçá, espala. Predigo dessa maneira todos os sopros desse vento fazendo cirandas ao redor do seu cabelo e da percussão delicada desse mar quase inaudível tanto pra você, que verdadeiramente o ouve, quanto pra mim que somente faço recriá-lo dentro dos meus ouvidos a fim de tornar-me mais próximo de você neste instante.





Já tenho pouco a dizer a propósito disso. Bem mais do que gostaria eu invado fortemente essa cena em que te vejo rediviva no meu olhar cujo foco enviesado tantas vezes te viu indo e vindo e até mesmo parada diante de mim, como quem ensaiava ficar possuída de calmaria equivalente a essa em presença da qual te vejo nesse porto onde nunca estive.

Admiro, por fim, essa multiplicidade de pegadas sobrepostas na areia. A beleza que há nela é bastante especiosa, quase grosseira não fosse inspiradora. Tudo tão desarranjado, eminente caos e desventura por compasso. Um vai-e-vem verdadeiramente disforme e incerto. Parece até mesmo uma partitura a-tonal, cuja composição se pulveriza inteiramente pela página. Não diferente é a vida, verdade? Andamos bastante por ai, sem que nos encontrássemos ou mesmo sem sequer observar a pegas sobrepostas na areia.

E pra que tanta pressa, verdade, se nada ou muito pouco há de novo sob o sol?

Talvez porque daqui da terra preferimos bem mais as luas ao sol sempre muito pouco diverso. As luas, sim, elas mudam. Acaso não mudassem você sequer estaria ai vendo o sol se levantar, ou será mesmo que ele está se pondo? Já te disse que nunca saberei ao certo, mesmo? O que importa, de mais, consiste no fato de as luas se modificarem prontamente a cada ciclo de tempo. E com isso é certo que a maré sobe e os fluxos retornam. Tudo o que for preciso se inundará e alastrará por outros percursos.

Daí uma areia nova - qual um livro de páginas claras, porém nada inócuas, pois já sabemos ter sobretraçado passos em outras praias, em outros portos - virá de modo a ser novamente reescrita, delineada por outros rastros, outros riscos.

E então aí já não haverá mais fotografia alguma, e sim apenas uma velha e reconhecida moldura: nossos braços envolvidos na união de um amplexo capaz de guarnecer todo o carinho guardado durante muitas e muitas luas.

Sob o auspício reciprocamente oferecido de um feixe muito lilás de arbróteas, não digamos mais nada, minha querida, acatemos pois a fruição de nosso vindouro abraço-de-primavera.

É por isso - e não por nenhum outro motivo - que invadia ainda a pouco a sua imagem longínqua.



segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Apenas o que esses dias ainda irão chorar.

Não, eu não queria te dizer que neste instante as coisas não estão nem um pouco como uma vez estiveram. Há algo de muito modificado, de outro e também pois de um para o outro. Mas sequer é tempo de mudança, já te digo. Sei bem como você gosta dos meus dizeres obscuros, subscônditos numa névoa da qual meu pensamento precisa se entorpecer. E então é que venho a te dizer: estamos distantes daquele tempo no interior do qual saberíamos precisamente o que mudar. Existe apenas algo trazido pela chuva carinhosa desses dias falsamente tristes e que insistem em chorar sobre nós.
Na carne de nosso corpo ambos vestimos agora outra pele. Estranhamos. Não foi descuido; não necessariamente. Por bem, ensaiamos o estranhamento uma vez que nos entranhamos mais e mais até percebermos na carne do corpo a outra pele.
Acaso pudesse te falar exatamente o que ocorreu não diria, e sim melhoraria em mim o pensamento enevoado de modo a não ser quem já tanto sou aqui. Acontece que você é quem mais sabe que eu nunca deixo de ser o que vivo e abraço bem todas as conseqüências disso. Afinal, lembro de você me alertar primevamente dessa minha escravidão tão teimosa de mim. Todavia você está como tanto quis. Ao menos isso é o que sua boca sopra para mim. E assim você é agora tão de si mesma que eu mal sei a quem escrevo.
Se te escrevo é, aliás, para te perder definitivamente. Não nos culpemos mais. Deixemos que essa perda seja um ato de reatar. Nunca vimos juntos Casa Blanca, mas ali está uma perda cinematográfica que diz esse ato que não consigo designar.
Apreenderemos na inocência desapegada de quem realmente quer ao outro. Eis, portanto, nosso entreato cênico entranhado e todo ele denso.
Não há mais promessa alguma. Assim despedimos os dois da falsa calmaria e no lugar dela anfitriaremos uma calmaria mais sã de si e com a visita dela aprenderemos a desfrutar o verdadeiro sabor que tanto admiramos provando a carne corpórea que nos dávamos molhados por chuvas passadas.
Lavemos agora nosso corpo e limpemos toda nossa pele.
Deixemos de lado a carne, pois essa é bastante profunda para que a água desse instante venha a limpar tantas máculas ainda mais subterrâneas sob a espessura muscular da carne.
Sei que a palavra mácula te assusta. Talvez você pedisse algo mais leve, possível de apagar qual hematomas que depois de dois ou três dias não deixam mais sinal algum. Acontece que a infâmia da palavra algo suja vem oportunamente a manchar tudo o que gostaria de dizer na sua carne. E por isso não busco por outra, capaz de atenuar o que quero necessariamente indelével sobrescrito tanto em mim quanto em você.
Sua dança começa a ensaiar outros ritmos. Minha musicalidade, outras vibrações e então absorve outros grooves e beats. Não vou mentir dizendo que antes éramos pares indistintos nisso tudo que nos embala. Nunca fomos; e dizê-lo seria bestializarmo-nos desenhando qualquer romantismo careta na sonoridade a que nos enlaçávamos em movimento. A dançarina, de todos os modos, já escolhe seu próprio tema, ao passo que o disc jockey toca sem procurar alguém em especial na pista e apenas acende mais um cigarro.
Resta, sim, todo o afeto. Como não?
Mas dizer que neste instante as coisas estão como estiveram seria escolher mal a música desses tempos. E a dança seria vexativa, atabalhoada.
Nunca dançaremos assim, promete? Jamais escolherei mal o tema, te prometo.
Melhor, nada de promessas... já ia me esquecendo. Antes, surgirá uma música nova ao embalo da qual dançaremos de um modo bem diferente e que não deixe mais marcas na carne.
E, assim, as peles novas não se ferirão na carne e apenas acalentaram os corpos em movimento.
Acho que chuva parou um instante, parece. Desconfio e irei até a janela conferir, pois temo que não tenha mesmo parado. Sempre tive tanto medo de não poder ouvi-la caindo através de seu choro mais mansinho que preciso tirar a prova com os olhos ou estendendo a mão um pouco para fora da janela e sentir finamente as últimas gotas acharem leito entre meus dedos desconfiados.
Quando eu enfim retornar dessa tão breve viagem que faço da minha mesinha-de-quarto até janela já não saberei mais quem é você que já não é mais o que foi para mim e uma vez eu achei poder saber. E então me desligarei de tudo isso que escrevo, pois não é mais para você.
Nessa chuva carinhosa que tenta me enganar ainda parece haver algo trazido pelos dias falsamente tristes e que tanto insistem em chorar durante os princípios do ano que mal começou a vir.
E tudo isso é apenas o que esses dias ainda irão chorar.





D.