
Esta flor também se chama Tainã Terra Bossi, que na qualidade de uma semente de arbrótea desabrochou certa vez com profundas raízes no jardim do meu peito.
Não, eu não estou ali. Apenas ela. Definitivamente, não estou de corpo presente. Tudo que faço neste instante resulta ocultar-me. Vejo-a tão-somente na fotografia. E absorvo, assim, o olhar que igualmente a observa naquele exato instante de extática concentração frente ao areal do mar sereno.
Os anos em que eu podia vê-la com proximidade quase velada já ficaram algo distante, tanto que vai mais além que a própria imagem que agora a fez rediviva em meu olhar. Não lembrarei aqui aquele primeiro dia em que falávamos de coisas que perpassam primordialmente a fenda da agulha com que se entrelaça o finíssimo tecido da vida, rasgando com nossas conversas todo o burburinho então muito retalhado e de fibra muito fraca em torno de nós, e tampouco que à distância bem segura desses pequenos farrapos de vozes tão vagas faríamos vestimenta da roupagem mais íntima da noite e a qual nomeamos madrugada e por fim teceríamos uma textura delicada porém toda ela bem trançada a recobrir-nos firmemente sob a manta mais carinhosa dos afetos possíveis.
Surpreendo-a apenas diante das águas mansas e de um céu mediterrâneo a princípio bicolor mas que se espalha gradativamente através da multiplicação de tonalidades. A parte superior de seu corpo está cuidadosamente deposta sobre a inflexão inferior do dorso lombar. Tem as pernas recurvadas de modo a sustentá-la como alguém quase em meditação. Suavemente, a mão parece vir de encontro à boca e assim convoca ao trago a erva que a acompanha. Sei que o sol deve se pôr admiravelmente, mas não posso alcançá-lo. Eis que estou vendo apenas a parte recortada de tudo isso que a fotografia me dá a ver. Do vento também nada sei, e só posso apostar que por certo ele joga ludicamente com os cabelos dela qual uma criança acompanhada de um delicado brinquedo.
À contraluz - pois que admira a descida ou possivelmente a subida do sol (nunca saberei ao certo) - a parte dorsal de seu corpo se escurece um pouco e a postura corporal faz ressaltar uma forma levemente sinuosa, todavia intensamente feminina e a dispõe pra mim com tal natureza qual um instrumento musical. Meu devaneio de momento é tão profundo que acabo submergindo em delírios até tomá-la por uma viola de orquestra na qualidade mais alta de solista ou, quiçá, espala. Predigo dessa maneira todos os sopros desse vento fazendo cirandas ao redor do seu cabelo e da percussão delicada desse mar quase inaudível tanto pra você, que verdadeiramente o ouve, quanto pra mim que somente faço recriá-lo dentro dos meus ouvidos a fim de tornar-me mais próximo de você neste instante.
Não, eu não estou ali. Apenas ela. Definitivamente, não estou de corpo presente. Tudo que faço neste instante resulta ocultar-me. Vejo-a tão-somente na fotografia. E absorvo, assim, o olhar que igualmente a observa naquele exato instante de extática concentração frente ao areal do mar sereno.
Os anos em que eu podia vê-la com proximidade quase velada já ficaram algo distante, tanto que vai mais além que a própria imagem que agora a fez rediviva em meu olhar. Não lembrarei aqui aquele primeiro dia em que falávamos de coisas que perpassam primordialmente a fenda da agulha com que se entrelaça o finíssimo tecido da vida, rasgando com nossas conversas todo o burburinho então muito retalhado e de fibra muito fraca em torno de nós, e tampouco que à distância bem segura desses pequenos farrapos de vozes tão vagas faríamos vestimenta da roupagem mais íntima da noite e a qual nomeamos madrugada e por fim teceríamos uma textura delicada porém toda ela bem trançada a recobrir-nos firmemente sob a manta mais carinhosa dos afetos possíveis.
Surpreendo-a apenas diante das águas mansas e de um céu mediterrâneo a princípio bicolor mas que se espalha gradativamente através da multiplicação de tonalidades. A parte superior de seu corpo está cuidadosamente deposta sobre a inflexão inferior do dorso lombar. Tem as pernas recurvadas de modo a sustentá-la como alguém quase em meditação. Suavemente, a mão parece vir de encontro à boca e assim convoca ao trago a erva que a acompanha. Sei que o sol deve se pôr admiravelmente, mas não posso alcançá-lo. Eis que estou vendo apenas a parte recortada de tudo isso que a fotografia me dá a ver. Do vento também nada sei, e só posso apostar que por certo ele joga ludicamente com os cabelos dela qual uma criança acompanhada de um delicado brinquedo.
À contraluz - pois que admira a descida ou possivelmente a subida do sol (nunca saberei ao certo) - a parte dorsal de seu corpo se escurece um pouco e a postura corporal faz ressaltar uma forma levemente sinuosa, todavia intensamente feminina e a dispõe pra mim com tal natureza qual um instrumento musical. Meu devaneio de momento é tão profundo que acabo submergindo em delírios até tomá-la por uma viola de orquestra na qualidade mais alta de solista ou, quiçá, espala. Predigo dessa maneira todos os sopros desse vento fazendo cirandas ao redor do seu cabelo e da percussão delicada desse mar quase inaudível tanto pra você, que verdadeiramente o ouve, quanto pra mim que somente faço recriá-lo dentro dos meus ouvidos a fim de tornar-me mais próximo de você neste instante.
Já tenho pouco a dizer a propósito disso. Bem mais do que gostaria eu invado fortemente essa cena em que te vejo rediviva no meu olhar cujo foco enviesado tantas vezes te viu indo e vindo e até mesmo parada diante de mim, como quem ensaiava ficar possuída de calmaria equivalente a essa em presença da qual te vejo nesse porto onde nunca estive.
Admiro, por fim, essa multiplicidade de pegadas sobrepostas na areia. A beleza que há nela é bastante especiosa, quase grosseira não fosse inspiradora. Tudo tão desarranjado, eminente caos e desventura por compasso. Um vai-e-vem verdadeiramente disforme e incerto. Parece até mesmo uma partitura a-tonal, cuja composição se pulveriza inteiramente pela página. Não diferente é a vida, verdade? Andamos bastante por ai, sem que nos encontrássemos ou mesmo sem sequer observar a pegas sobrepostas na areia.
E pra que tanta pressa, verdade, se nada ou muito pouco há de novo sob o sol?
Talvez porque daqui da terra preferimos bem mais as luas ao sol sempre muito pouco diverso. As luas, sim, elas mudam. Acaso não mudassem você sequer estaria ai vendo o sol se levantar, ou será mesmo que ele está se pondo? Já te disse que nunca saberei ao certo, mesmo? O que importa, de mais, consiste no fato de as luas se modificarem prontamente a cada ciclo de tempo. E com isso é certo que a maré sobe e os fluxos retornam. Tudo o que for preciso se inundará e alastrará por outros percursos.
Daí uma areia nova - qual um livro de páginas claras, porém nada inócuas, pois já sabemos ter sobretraçado passos em outras praias, em outros portos - virá de modo a ser novamente reescrita, delineada por outros rastros, outros riscos.
E então aí já não haverá mais fotografia alguma, e sim apenas uma velha e reconhecida moldura: nossos braços envolvidos na união de um amplexo capaz de guarnecer todo o carinho guardado durante muitas e muitas luas.
Sob o auspício reciprocamente oferecido de um feixe muito lilás de arbróteas, não digamos mais nada, minha querida, acatemos pois a fruição de nosso vindouro abraço-de-primavera.
É por isso - e não por nenhum outro motivo - que invadia ainda a pouco a sua imagem longínqua.
Admiro, por fim, essa multiplicidade de pegadas sobrepostas na areia. A beleza que há nela é bastante especiosa, quase grosseira não fosse inspiradora. Tudo tão desarranjado, eminente caos e desventura por compasso. Um vai-e-vem verdadeiramente disforme e incerto. Parece até mesmo uma partitura a-tonal, cuja composição se pulveriza inteiramente pela página. Não diferente é a vida, verdade? Andamos bastante por ai, sem que nos encontrássemos ou mesmo sem sequer observar a pegas sobrepostas na areia.
E pra que tanta pressa, verdade, se nada ou muito pouco há de novo sob o sol?
Talvez porque daqui da terra preferimos bem mais as luas ao sol sempre muito pouco diverso. As luas, sim, elas mudam. Acaso não mudassem você sequer estaria ai vendo o sol se levantar, ou será mesmo que ele está se pondo? Já te disse que nunca saberei ao certo, mesmo? O que importa, de mais, consiste no fato de as luas se modificarem prontamente a cada ciclo de tempo. E com isso é certo que a maré sobe e os fluxos retornam. Tudo o que for preciso se inundará e alastrará por outros percursos.
Daí uma areia nova - qual um livro de páginas claras, porém nada inócuas, pois já sabemos ter sobretraçado passos em outras praias, em outros portos - virá de modo a ser novamente reescrita, delineada por outros rastros, outros riscos.
E então aí já não haverá mais fotografia alguma, e sim apenas uma velha e reconhecida moldura: nossos braços envolvidos na união de um amplexo capaz de guarnecer todo o carinho guardado durante muitas e muitas luas.
Sob o auspício reciprocamente oferecido de um feixe muito lilás de arbróteas, não digamos mais nada, minha querida, acatemos pois a fruição de nosso vindouro abraço-de-primavera.
É por isso - e não por nenhum outro motivo - que invadia ainda a pouco a sua imagem longínqua.
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