Todo es de todos, la palabra es colectiva y es anónima. Macedonio Fernández concebia de esa manera la literatura y varios de sus mejores textos se han publicado con el nombre de Borges, de Marechal, de Julio Cortázar. La identidad de una cultura se construye en la tensión utópica entre lo que no es de nadie y es anónimo y ese uso privado del lenguaje al que hemos convenido en llamar literatura. Ricardo Piglia.
Este post nasceu de uma das mais estúpidas buscas em volta da escrita: originalidade. E se deparou com uma página - que o surpreendera com a perversa antecipação de cem, duzentos ou mil anos – sobre a qual já estavam expostas todas as poucas duas ou três ideias que o assinante cria descobrir ele primeiro. A antiguidade de ideias novas, Macedonio Fernández dizia, é regra. E assim ele me antecipa, e despossuído de incomodo mais especial ele obtêm uma localização anterior à minha, sem sequer me pressentir, quando deveria até mesmo me citar a propósito disso que procuro aqui. Necessidade de uma teoria que estabeleça como não é o segundo inventor, e sim o primeiro quem comente o plagio.
Por lo menos hay dos dias malos en la existencia de un intelectual: aquél en que descubre un sistema de la felicidad y reconoce la fatigosa necesidad de cambiar todo en su genero de vida para provechar cuanto antes los benefícios del precioso hallazgo; y aquél en que topa con un libro escrito con perversa anticipación de doscientos o mil años, en que halla expuestas todas las pocas dos o tres ideias que nuestro hombre creía haber descubierto el primero. Macedonio, 1910.
As palavras e as coisas
Este livro nasceu de um texto de Borges. Do riso que, com sua leitura, perturba todas as familiaridades do pensamento — do nosso: daquele que tem nossa idade e nossa geografia —, abalando todas as superfícies ordenadas e todos os planos que tornam sensata para nós a profusão dos seres, fazendo vacilar e inquietando, por muito tempo, nossa prática milenar do Mesmo e do Outro. O que transgride toda imaginação, todo pensamento possível, é simplesmente a série alfabética (a, b, c, d) que liga a todas as outras cada uma dessas categorias. Tampouco se trata da extravagância de encontros insólitos. Sabe-se o que há de desconcertante na proximidade dos extremos ou, muito simplesmente, na vizinhança súbita das coisas sem relação. A monstruosidade que Borges faz circular na sua enumeração consiste, ao contrário, em que o próprio espaço comum dos encontros se acha arruinado. O impossível não é a vizinhança das coisas, é o lugar mesmo onde elas poderiam avizinhar-se.
As heterotopias inquietam, sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, porque arruínam de antemão a “sintaxe”, e não somente aquela que constrói as frases — aquela, menos manifesta, que autoriza “manter juntos" (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. Michel Foucault, 1966.
A memória de Foucault
En el vocabulário crítico, la palabra precursor es indispensable, pero habría que tratar de purificarla de toda connotación de polémica o de rivalidad. El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro. En esta correlación nada importa la identidad o la pluralidad de los hombres. Borges, 1952.
Existem devotos de Nietzsche, das Vanguardas históricas e de mais um dos filmes do Bergman e um do Peter Greenaway. Michel Foucault foi meu destino. Ainda é, mas de uma maneira que ninguém poderia ter pressentido, exceto um só homem, Macedonio Fernández, quem não tem mais que dez ou onze (talvez doze, nunca vou saber) leitores no Brasil. De certo há outro, cujo rosto jamais verei.
Quem adquire uma enciclopédia não adquire cada uma de suas linhas, cada uma de seus parágrafos, cada uma de suas páginas e cada um de suas gravuras; adquire a mera possibilidade de conhecer alguma dessas coisas. Se assim acontece com um ente concreto e relativamente prosaico, dada a ordem alfabética das partes, o que não acontecerá com um ente abstrato e instável, ondoyant et divers, como a mágica memória de um vivo?
—Aceitas a memória vindoura de Foucault? Sei que é muito grave o que te ofereço. Pondere à vontade.
Uma voz incrédula replicou:
— Enfrentarei esse risco. Aceito a memória de Foucault.
P.S. 2010 — Já sou um homem entre os homens. Na vigília de meus livros sou um estudante de literatura comparada, Davis, esse nome de linhagem menardiana que maneja um fichário e que redata trivialidades eruditas, apesar de saber algumas vezes que aquilo que sonha é do outro. Quando cai a tarde pequenas e fugazes memórias me surpreendem, casualmente autênticas.
Tradição e avacalhação individual
"Quando a gente não pode fazer nada, a gente avacalha. Avacalha e se esculhamba."
Sganzerla. O bandido da luz vermelha
(a.va.ca.lhar)
1 Bras. Pop. Tornar(-se) ridículo, desmoralizar(-se), aviltar(-se)
2 Dizer mal de; arrasar com
3 Fazer algo sem capricho, sem atenção, com descaso
4 Pop. Promover desordem, confusão em; pôr a perder ou agir de modo a tornar (algo) um fiasco, um vexame etc.
5 Voltar atrás no que disse; DESDIZER-SE [int.]
(a.va.ca.lha.do) Bras. Pop.
1 Que sofreu avacalhação, que foi desacreditado, desmoralizado; RIDICULARIZADO
2 Cuja aparência foi descuidada; DESLEIXADO; DESMAZELADO
3 Que se fez ou realizou sem apuro, sem cuidado, de qualquer maneira; em que tudo deu errado; MAL-ACABADO; MALFEITO
4 Que se bagunçou, tumultuou: Foi uma reunião avacalhada, onde ninguém se entendia
(es.cu.lham.bar) Bras. Vulg. Pop.
1 Criticar severamente, sem respeito, com rudeza; DESMORALIZAR; ESCARNECER; ESCULACHAR. [ Antôn.: aprovar, elogiar, louvar.]
2 Bagunçar: O novo secretário esculhambou um arquivo.
3 Danificar, estragar: Os baderneiros esculhambaram o jardim
[F.: De or. incerta; posv. de colhão.]
"la técnica del anacronismo deliberado y de las atribuciones erróneas"
Suplemento escritas. E reponho afrontas à essencialização de uma ideia de passado cujos padrões devem julgar o presente, assim mesmo a contrapelo daquela letra de T.S.Eliot, quem sobrescrevia que “o passado deve ser modificado pelo presente tanto quanto o presente esteja orientado pelo passado”.
Quando a ficção vive na ficção
Hoje traduzo o que gostaria de dizer, e não posso. Meu teclado está gasto. E não sei exatamente a quais letras devo buscar com meus dedos. Prefiro ler coisas já escritas. (Aí sim meus dedos funcionam, pois lendo é que revolvo cada um dos símbolos ortográficos) E invento que são minhas as coisas que escolho reler nos outros todos de mim.
Devo minha primeira noção do problema do infinito a uma grande lata de biscoitos que deu mistério e vertigem à minha infância. Na parte de trás desse objeto anormal havia um quadro japones; não recordo as crianças ou guerreiros que o formavam, e sim que num ângulo dessa imagem a mesma lata de biscoitos reaparecia com a mesma figura e nela a mesma figura, já assim (ao menos em pontência) infinitamente… Quatorze ou quinze anos depois, por volta de 1921, descobria em uma das obras de Russel uma invenção analóga de Josiah Royce. Este supõe uma mapa da Inglaterra: esse mapa – que por força de pontualidade – deve conter uma mapa do mapa, que deve conter um mapa do mapa do mapa, e assim ao infinito… Antes, no Museu do Prado, vi o conhecido quadro velazquiano Las meninas: ao fundo aparece o próprio Velázquez, executando os retratos unidos de Felipe VI e de sua mulher, que apesar de estarem fora da tela aparecem reproduzidos por um espelho. Ilustra o peito do pintor a cruz de Santiago; é sabido que o rei a pntou para fazê-lo cavaleiro dessa ordem… Recordo que as autoridades do Prado havia instalado um espelho em frente, para contiar essas magias.
Ao procedimento pictórico de inserir um quadro em outro quadro, corresponde nas letras o de interpolar uma ficção na ficção. Cervantes incluiu no Quixote uma novela. Lúcio Apuleio intercalou famosamente em O asno de ouro a fábula de Amor e de Pisiquê: tais parenteses, em justa razão de sua natureza inequívoca, são tão banais como a circunstância de que uma pessoal, na realidade, leia em voz alta ou cante. Os dois planos – o verdadeiro e o ideal – não se misturam. Por outro lado, o Livro das mil e uma noites duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central en contos incidentais, mas não trata de graduar essas realidades, e o efeito (que deveria ser profundo) é superficial, como um tapete persa. É conhecida a historia limiar da série: o desolado juramento do rei que a cada noite se desposa com uma virgem a quem faz decapitar na alvorada, e a resolução de Shahrazad que o distrai com maralilhosas histórias até que em torno de ambos se passaram mil e uma noites e ela lhe mostra seu filho. A necessidade de completrar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a interpolações de todas as classes. Nenhuma é tão perturbadora quanto à da noite DCII, mágica entre as noites. Nessa noite extranha, ele ouve da boca da rainha sua própria história. Ouve o princípio da história que abarca todas as demais e também – de modo monstruoso – ela mesma. Intue claramente o leitor a vasta possibilidade dessa interpolação, o curioso perigo? Que a rainha persevera, e o imóvel rei ouvirá para sempre a truncada história das mil e uma noites, agora infinita e circular… Em As mil e uma noites Shahrazad refere-se a muitas histórias; uma dessas histórias quase é a história de As mil e uma noites.
Shakespeare, no terceiro ato de Hamlet, erige uma encenação na encenação; o feito de que a peça representanda – o envenenamento de um rei – espelha de algum modo a principal é suficiente para sugerir a possibilidade de infinitas involuções. ( Em um artigo, de 1840, De Quincey observa que o firme estilo avultado dessa peça menor faz com que o drama geral ali incluído apareça, por contraste, mais verdadeiro. Eu acrescentaria que seu propósito essencial é o oposto: fazer com que a realidade nos pareça irreal.)
Hamlet data de 1602. A fins de 1635 o jovem escritor Pierro Corneille compõe a comedia de magia L’illusion comique. Pridamant, pai de Clindor, percorre as nações da Europa em busca de seu filho. Com mais curiosidade do que fé, visita a gruta do “mágico prodigioso”Alcandre. Este, de maneira fantasmagórica, mostra-lhe a azarada vida do filho. Vemos este apunhalando um rival, fugir da justice, morrer assassinado em um jardim e logo a conversar com uns amigos. Alandre nos aclara o mistério. Clindor, após ter matado o rival, se fez comediante e a cena do ensangrentado jardim não pretence à realidade (à “realidade” da ficção de Corneille), e sim à tragedia. Estávamos, sem saber, num teatro. Um elogio um tanto imprevisto dessa instituição dá fim à obra:
Même notre Roi, ce founder de la guerre,
Dont le nom se fait craindre auz deux bouts de la terre,
Le front ceint de lauriers, daigne bien quelquefois
Prêter l’oeil el l’oreille au Théâtre-Français
É triste comprovar que Corneille põe na boca do mago esses versos não muito mágicos.
O romance Der Golem, de Gustav Meyrinc (1915), é a história de um sonho: nesse sonho há sonhos; nesses sonhos (creio) outros sonhos.
Enumeirei muitos labirintos verbais; nenhum tão complexo quanto à novíssima obra de Flann O’brien: At Swin-Two-Birds. Um estudante de Dublin escreve um romance sobre uma taberneiro de Dublin que escreve um romance sobre os paroquianos de sua taberna (entre os quais está o estudante), que por sua vez escrevem romances em que figuram o taberneiro e o estudante, e outros escritores de romances sobre romancistas. O livro é formado pelos diversos manuscritos dessas pessoas reais ou imaginárias, copiosamente anotados pelo estudante. At Swin-Two-Birds não é somente um labirinto: é uma discussão sobre as muitas maneiras de conceber o romance irlandês e um repertório de exercícios em vero e prosa, que ilustram ou padoriam todos os estilos da Irlanda. A influência magistral de Joyce (arquiteto de labiritnos, também; Proteu literário, também) é inegável, mas não opressiva nesse livro multiplo.
Arthur Schopenhauer escreveu que os sonhos e a vigília eram folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem era viver, e folheá-las, sonhar. Quadros dentro de quadros, livros que se desdobram em outros livros, ajudam a intuir essa identidade.
J.L.Borges. 2 de junho de 1932.
Tudo é de todos, a palavra é coletiva e anômina. Por isso devemos saber que a antiguidade das ideias novas é uma regra. A exeção: uma futuridade para as ideias velhas.
"O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco. Admitem que os inventores da escritura imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, apesar de sustentarem que essa aplicação é casual, e que os livros em si nada significam. Tal ditame, já vemos, não é completamente falaz".
Minha memória é uma atualidade do já tardio, isso a que muitos chamam pacientemente de contemporaneidade. E é isso que sobrescrevo aqui: a memória dos outros tantos de mim.
