sexta-feira, 25 de abril de 2008
Passagens paulistanas.

Como aquilo tudo terminaria? era exatamente o que não podia saber de mim: exatamente, o que, tampouco, podia saber dela. Começamos toda a confusão e nem sequer havíamos tomado consciência daquilo tudo. Eu não podia dormir com a tv do quarto ao lado gritando um programa da madruga pra dentro do meu sono. Ela, também, não dormiria. Meu corpo, ao lado do dela, encostado no dela, não entraria em repouso, pois o som vindo do quarto ao lado era irritante e eu, no meu corpo, não pararia de buscar lugar no colchão. Fiz, convicto que só, toda a apologia. Assim, eu disse: você liga na recepção e pede pra ligarem de lá, dizendo pra abaixar o som que incomoda. Quando fumo minha audição fica apurada e ouço melhor. A bomba d’água também dá no saco com todo esse barulho... mas o que irrita é a porcaria televisa da madrugada. Vou ficar toda a noite ouvindo essa besteira e ridicularizando o apresentador. Olha, você pode trazer duas garrafas de água mineral no quarto 23, sem gás, e, por gentileza, pedir a pessoa do quarto ao lado que abaixe um pouco a tv, que incomoda.
Ele não está ouvindo. Deve estar morto! Não atende ao telefone. Eu disse que não queria pedir. Todo o hotel vai acordar, e por nossa causa. Antes ela havia ligado, e o barulho escandalizado do telefone pareceu muito alto e desligou. Que se dane, pelo menos não teremos mais essa chateação ao nosso lado. Espera, eu acendo a luz do abajur na cabeceira e você pega a água ai. Acho que nossa tv é que estava incomodando, daí ele ligo a dele... pra conseguir dormir. Não importa, é melhor assim. Já imaginou termos de ficar com isso na cabeça... noite toda?
Eles estavam juntos na viagem. Comeram juntos no dia anterior e, igualmente juntos, saíram
Esse chefe é muito ansioso. Filho Daputaça! Nem sequer espera por nossa decisão. Depois de o recepcionista pedir, no quarto ao lado, o que, por gentileza, eu pedira, surgiram vozes
Eu pensava em escrever um conto e ela em dormir pra acordar bem cedo. Seguir. Tinha horário marcado o ela que deveria fazer. Eu pensava em acordar bem cedo. Seguir pro meu fazer do dia seguinte, que tinha hora marcada. Ele, pensava e acendia outro cigarro. De cigarro na mão, remoia toda a avaliação conjugal feita horas antes, ou, talvez, escrever um conto anotando idéias da mente, que antes faziam experimentar o valor literário.
Quando enfim chegamos ao hotel, estávamos exaustos do trânsito e das andanças que fizemos durante todo o dia. Eu prometi um banho nele. Eu entrei no chuveiro e deixei a ducha me molhar, inteiramente, enquanto ela tirava toda a roupa antes de vir pra me esfregar. Trepamos no chuveiro e ele me batia enquanto me pegava por trás: tive em mim, tão forte, uma vontade de ter os cabelos puxados enquanto sentia ele dentro de mim e também os tapas que me dava no meu corpo sem que pudesse ver a expressão de deleite erotizado que tomava conta do meu rosto. Puxa meu cabelo. Depois do banho que ela me deu, do sexo que ela me deu e eu a ela, eu sequei seu corpo e a coloquei na cama. Esperava por mim enquanto procurava nas coisas a seda que tinha trazido. Eu apertei e logo fumamos enquanto víamos tv e dávamos risada de um programa de dublagens, tosquíssimas, a que assistíamos juntos por casualidade. A tv do quarto ao lado fazia um insuportável barulho e eu não podia dormir com aquela merda vindo do quarto ao lado. Tive sede. E descobri não haver mais água no frigo-bar, depois de termos matamos toda nossa sede na última das garrafas.
Essa porção só dá pra um, mas temos salmão, que está delicioso. O senhor pode voltar daqui a pouco, añ? É que ainda não estamos decididos pelo que comeremos. O idiota deixa o talher aqui sobre este forro imundo e fica botando banca de ser um grande chefe.
Acordamos tarde e, ao sair, o quarto ao lado estava com a porta entreaberta. Vimos um homem com idade aproximada à soma de nossos anos de vida e saímos de nariz
Precisava encontrar velhos amigos enquanto ela fazia seu dia; colar na casa deles e trocar as letras com as quais atualizaríamos o lirismo de antigas amizades. Mas antes parei em baixo do piso suspenso do Masp e tomei notas no meu caderninho antes de encontrar velhos amigos:
Um do outro estivemos desencontrados na articulação sintática paulistana – escrita aberta da cidade que se lê, entretecida na hipertextualidade das esquinas: elipse de virada, fazendo abrir outra página novamente paginada. As luzes vão se apagando com outras mais que tanto se deixam acender: uma vaporização que ilumina a realidade-pessoa passante. Passa-se: e pela decomposição do que pode ser, fica explicado: justamente pela impropriedade é que são, o que são, o que podem ser, e, mais ainda, ainda mais, o que não. Um do outro, estivemos desencontrados. Mais que esperar, espero. O fluxo do transito me impede de seguir. E paro. Pelas ruas concretas, concretamente, as pontas pontiagudas parecem espetar o ainda mais daquilo tudo que a justa medida não pôde deixar ser. Entre as dobras que nos dobram pelas esquinas, estamos. Espero, porém, sem aguardar, pois que ando. Estou em toda parte da hipertextualidade; toda ela está em mim também. Há então uma rapidez de verdadeira velocidade na veloz cidade que lemos mais que o tato dos pés. Passantes que passam como pessoas-letra que formam a fraseologia urbana, pois as esquinas são períodos com muita forma. Onde você está? Qual frase integra com sua pessoa-letra na composição de agora? Desencontrados, nesta articulação sintática, estivemos, um do outro, na cidade escrevente. Desci ao submerso, ao que está elípticamente por baixo e é já entrelinhas. O metrô vem: passa vertiginosamente pelos meus olhos leitores do submerso. Coloco minha pessoa-letra pra dentro das portas que se abrem à minha frente e entro e sento. Construímos um período ali dentro que não consigo mais ler: imersão nas entrelinhas? Me espera com os olhos no relógio, faz frase do movimento na calçada, nas ruas, no trânsito; o avanço do sinal te parece uma rima desencontrada, mas experimental.
Estou na contramão que passa... e minha pessoa-letra, ela parece fugir de toda composição. Observo os paredões profanados de toda sacralização. Vejo cada grafite que se posta a minha frente e são muitos: neles toda a profanação é artística, pois não compõe nenhuma arte profanada e sim profanação artística - aurático, apenas o dialogal em que se fia a textualidade desse movimento das ruas. Paro e vejo de cima de uma passagem elevada: enquanto o Guru do Jazzmatazz vai rimando nos meus ouvidos, observo mais um painel dos Gêmeos; e se tiver sorte ainda encontro outro trampo estampado do Orion, que agora anda limpando resíduos de poluição e isso já é todo o desenho do traço limpante dele. Subo toda a Brigadeiro depois de deixar as entrelinhas. Estou no topo novamente. Alguém me espera e estou indo. Aqui em cima minha pessoa-letra quer rimar sem conseguir; as demais pessoas-letra não tem tempo pra rimas: ociosidade ocupante.
Desci na direção contrária da Brigadeiro, indo pra casa de uma amiga que encontraria enquanto ela fazia seu fazer do dia. Antes subi pela 9 de julho e fiquei vendo todo aquele paredão ocre com muitas inscrições urbanas: stickers, lamb-lambs, também e merda; merda de verdade... Ele não atende, algo errado. Passeei por toda a cidade, e tomei conhecimento de tudo o que poderíamos fazer. Olhei tudo o que podia e avaliei o que seria a melhor pra noite.
Estou tão cansado. Deita um pouco comigo, sobre mim – é pra colocar meu corpo no lugar. Tomo um banho enquanto ela me espera. Já está pronta, depois de transarmos mais uma vez antes de sair. Fazemos novamente todo o percurso, que, muito pouco tempo atrás, me exauria quando eu voltava pra pegá-la e pra novamente retornar ao lugar onde estava antes de sair buscando por ela.
Eles comem algo num bar de balcão retangular da Paulista, quase altura da Gazeta não fosse um pouco antes. Há muita gente nas ruas e também no lugar, mas é muito fácil achar dois lugares desocupados na geometria do balcão retangular. Ela está admirada. Ele não sabe admirar um balcão retangular, parece familiar e assim não admira. Eles comem. Pagam. E saem na direção da Brigadeiro. Você parece ansioso, não? Penso numa má resposta, porém, logo engulo, exatamente como fiz tempos antes com todo aquele lanche seco que comia. É pra não perder a carona, pois não sei se esperarão. Depois de telefonar, ele parece mais calmo; já sabe que não perderemos a balada e não precisaremos mais voltar ao hotel nesta noite. Ela não consegue entender que a ansiedade é por não saber onde ela ficará durante a noite; que minha preocupação é mais por ela que por mim. Por isso engulo seco feito o maldito lanche da Paulista, quase altura da Gazeta, mas na verdade bem mais próximo da pirâmide da Fiesp.
Podemos subir, mas o interfone está com defeito. Escreve na mensagem assim, “estou na portaria”. Subimos e agora não há mais ansiedade alguma; tudo está certo. Ele reencontra seus amigos e eu me apresento a todos. Antes, tiramos os sapatos pra entrar. Alguém brinca com fotos no computer. A ansiedade não é mais nossa. Aquele cara quer ir logo, pois a noite começa com o brother dele mandando os videozinhos com o som por cima. Parece legal a vejotagem, se o lugar não fosse um saco e as pessoas, que estava no lugar, elas não estivessem ali. A noite mal começou e estamos na Augusta, rua na qual há vários bares de balcão. Eu pensava
Acordamos juntos. Saímos, depois de calçarmos os sapatos deixados ao lado da porta. Imergimos no metrô, da Brigadeiro, e saímos na Liberdade. Ele ri de si mesmo comendo no chinês, sendo visto sem saber comer como deveria. Nada daquilo pode agradá-lo: o arroz, o frango xadrez, o orientais que comem tudo legitimamente a seu lado. Está sem fome, novamente, e engole tudo o que pode, a seco e com um gole de coca. Cruzam as passagens e as ruas até a Sé. Passam por uma nova passagem, da qual podem ver a anterior por onde antes passaram. Estão lá também, além daqui onde agora estão. Em todas as partes e parte alguma. Em alguma parte, a parte que são. Precisam ir; há mais coisas pra ver. Seguem, juntos. Formam, juntos, uma enunciação que não conseguem ler. À noite pedem água mineral sem gás. Acham ruim do chefe, por ser tão apressado em tomar-lhes o pedido da refeição. Ele não engoliria tão a seco assim; já podia saborear o prato apesar do infortúnio causado pelo garçom metido a chefe de cozinha, tentando indicar uma boa carne. .
Acordam no meio da noite. Ela conta um sonho, que ele entende sem saber. Ouve tudo o que foi sonhado com muita atenção. Pega um cigarro dos seus e diz: tudo o que queria, mais querendo, era parar tudo isso, como um suspenso, no tempo, e, no ar, o espaço, tal qual uma imagem de imobilidade em letras soltas que não se laçam: feito um trovão, que, em lampejos, segue ressoando por muito tempo e assim redesenhando, com esse eterno rebrilhar, a imagem da imobilidade envolvente da minha vigília do seu sonho e, também, o seu sonho da vigília que é minha.
Como tudo terminaria, era exatamente o que não podiam saber: começaram toda a confusão e nem sequer haviam tomado nota disso. Apenas um trovão, que, em lampejos, seguiria ressoando por muito tempo. E assim redesenhando, com esse quase eterno rebrilhar, a imagem da imobilidade escrevente em que ambos estavam envoltos no tempo das passagens.
Como tudo, terminaria.
D.
sábado, 12 de abril de 2008
Nosso sono, Ava, o deles.

In my solitude You haunt me With dreadful ease In my solitude
( Duke Ellington)
Talvez o relógio estivesse um pouco adiantado; nos segundos, que fazem os minutos, e não em horas - estas feitas de minutos. Isso não é questão de caso. Sequer tinha conferido: nem mesmo naquilo que por certo seria um ato mecanicamente executado. O idiota do porteiro agia sempre negligentemente, tanto mais já corridas três da manhã. Diria, por acaso de uma inquirição: que isso lá é o tempo a se deixar ficar por contagens? Coisas dessa gente que se demora por mais de décadas na ocupação de uma mesma função. Ao final das contas nem sei mesmo como ainda pode haver porteiros quando aqui já chegadas essas ditas horas de querer modernidade uma coisa morta ou se caindo pra tanto. Mas confesso ser engraçado sair de uma calçada que lembra esse tempo e entrar num lugar por onde ele, esse o tempo, ainda não veio passear. Chega de insistir em descrições densas indo a temporalidades indesignáveis, acontece de certo é que o lugar é mesmo uma merda indizível: prédio muito velho, coisa do século passado e tal. Mas feito numa arquitetura de no mínimo uns três outros séculos decorridos. Sendo isso muito agravante em seu envelhecimento meio a tantas construções contemporâneas a lhe margear os lados. As cidades são amalgamas de conceitos tortos; arquitetonicamente um culto estético isolado em contraponto semântico de um urbanismo aurático em série de referentes. Acontece de certo mesmo é que o lugar é uma merda indizível. Bem, é que este é o único aluguel com cujo pagamento posso me manter em dia nestas circunstâncias de minha existência. Uma existência tosca, sem mais dizeres nauseantes a esse respeito. O caso é que subi aquelas malditas escadas de uma maneira tão estabanada que não me conformo com a tranqüilidade do filho Daputaça do porteiro. Isso sem mencionar a louca da Ava que entoava de uma maneira muito estranha Solitude da Billie Holiday – moça de quem a Ava se diz a maior fã. É bem feito pra mim: sei lá onde estava com a cabeça ao aceitar novamente a porra do desafio de bater uma corrida escada à cima àquela hora da madrugada. O diabo da coisa é que ela havia aparecido mais cedo com um pó muito bom, de um cara que vende a um preço não muito acessível, mas que às vezes faz baratinho dependendo do discurso que a Ava lança pra cima do figura. Até mesmo eu cederia em situação do tipo. Essa danada consegue tudo quando quer: comigo me fez subir correndo oito andares! Fizera por troça e não mais que isso; parou à minha frente e encenou uma perfeita embora bastante contida parada cardíaca. Sim, uma excelente atriz: e gosta de me ver esbravejar e acusá-la de imbecilidade. Não se divertiria tanto com aplausos de uma seleta platéia quanto com a minha súbita e fugaz fúria. Diz amiúde desconhecer pessoa mais facilmente de ser ludibriada pela mesma paspalhice quase que diária. Assim, Ava, são nossos dias. E eu a abandono com o mesmo ímpeto mediante o qual acorro em sua cena babaca ao fim de seus dizeres forçadamente desdenhosos. Assim, Ava, estamos somados em nossos dias. Menina maldita, por um breve momento te odeio. E já em outro, ao apertá-la libidinosamente em mim em meu contato com o erotismo decrépito de seu corpo, que repito em mim em meu tato que te repete, amo-a eternamente pelo perdurar de um instante. Depois te deixo com muito cuidado, Ava, quase que a tocar em borboletas, e ponho-me a vencer os degraus que então restaram. Mas nesta noite eu não pude entrar antes dela e fingir-me naquele o já em sonhos, deixando-a indignada por não poder como de hábito trocar umas bestiais conversinhas de cabeceira de cama antes de o sono nos abraçar. A alucinada da Ava havia me tirado de casa tão eufórica por ter conseguido um pó de qualidade que eu nem tive como pegar minhas chaves na mesinha. Restou esperar por ela, que trazia consigo as chaves. Faz uns três anos, Ava, que dividimos morada. Desde que eu a conheci numa noite de quinta-feira n’A Obra, quando tocam boas bandas e o lugar não é nojento pelas vitrines ambulantes de modismos da Cidade e os dejotas são mais ousados quanto ao set-list experimentado. Ela gritou muito alto em meus ouvidos se eu era o carinha do sebo Tinha até Ontem. Disse que sim, mas acho que ela nem pôde ouvir, pois antes uma outra mulher veio de trás de mim e te beijou intensamente os lábios e língua. Na semana seguinte estava ela lá na loja, querendo saber se havia algum Nacked Lunch. Havia sim, acredito ter considerado o preço um pouco salgado, mas você levou o livro: como quem quisesse demonstrar devoção pelo que adquiriria, a Ava pagou. Antes que saísse da loja gritei um espere aí, tenho uma coisa pra você. Dei nas mãos dela o que eu estava lendo quando entrou e fez me interromper: Confissões de Um Comedor de Ópio, do De Quencey. Moveu a cabeça fazendo pouco caso daquilo e saiu triunfante através da porta de vidro. Encontrei a Ava duas semanas depois naquele bar e mesma noite de quinta duas semanas depois. Logo que desci a escadaria avermelhada, e dei meia dúzia de passos até o balcão pra pegar minha primeira bebida no lugar, a Ava veio e me agarrou em suas esquálidas mãos por trás da nuca e um beijo: para que assim me passasse um comprimidinho colorido que acabara de botar em sua língua. Terminamos a noite nesse apartamento nojento, mas isso não me incomodou naquela ocasião. A foda havia sido muito boa, Ava, e o som de seus gemidos não obstante suave me cortava os tímpanos e eu me entregava com toda intensidade àquela memorável trepada. Dois meses depois eu me mudaria pra cá. Mas não tínhamos mais nada, quer isso dizer decididos por amigos que teriam algumas fodas esporádicas: e assim ainda estamos embora a freqüência e qualidade com que transamos tenham agora aumentado progressivamente. Às vezes ela brinca que somos que nem no filme da – moça de quem agora eu é que me digo o maior fã - Binoche, sendo diferentes no fato de ser ela quem transa com pessoas do mesmo sexo. Na verdade ela diz isso quando quer me acusar por ter fudido com a irmã dela, uma vez que a maluquinha apareceu aqui muito a fim de fuder comigo num instante de fraqueza minha. À merda com tudo isso! Quem mandou a menina ficar querendo ser o Martin da história? Não sou culpado de nada, a raputanga me seduzira facilmente naquela noite: mostrando-se bem treinada no assunto
Eu é que não tenho o sono. Passeei por quase umas duas páginas de Borges, mas não consegui ficar pelo seu mundo de realismos fantásticos. A Ava tinha riscado meu livro; fez desistir minha leitura com seus riscos. Fico pensando por que você risca meus livros, e não entendo. A Ava só risca uma palavra de cada conto, e acha que na única palavra está todo o segredo. Mas neste ela tinha riscado mais, e ela nunca anota nada. Riscava a Ava uma passagem inteira sobre T’sui Pên no El jardín de senderos que se bifurcan:
En todas las ficciones, cada vez que un hombre se enfreta con diversas alternativas, opta por una y elimina las otras; en la del casi inextricable, T’sui Pên, opta – simultaneamente – por todas. Crea así, diversos porvenires, diversos tiempos, que también proliferan y se bifurcan.
A.v era o mistério que dormia comigo; que deitava comigo e também transava e gozava comigo; eu também gozo com você. Não quero ler o Borges riscado pela Ava. Entende isso, Ava Vera, desejo dizer que estou hoje mais interessado em minha própria relação ou seja lá interação com o fantástico, pois nunca recuso leitura de tais páginas: imaginar ao meu modo o que lá está escrito. Não risque mais minha leitura Ava, te peço.
Vou sair e deixá-la aqui em sua onírica viagem. Descobrirei o que ainda ficou escada abaixo; será assim Ava vera. Deve haver algo. A A.v diz que procurando sempre haverá. Mas farei da seguinte maneira: levarei o caderno comigo. Anotarei aquilo que me for acontecendo de relevante, mas acredito que não me será muito. Depois vejo no que dá. Talvez ela se interesse e leia o que acontecia fora da dimensão de realidade a que o sono te levou enquanto eu explorava a minha, da maneira que melhor me conveio Ava Vera. Estou no arco do viaduto de Santa Teresa, em cima do arco Ava, e coloco meus olhos na direção da serraria e dos antigos trilhos do trem, e vou me fazendo também nas letras em que busco para te descrever o que passa. Até aqui pouquíssimas coisas interessantes ocorreram desde a mais ou menos meia-hora de caminhada pelas ruas. E se aqui estou é entremetes mais por força da tradição que pela atração intrínseca ao lugar. Ocorre que vários encontros marcados já se encenaram nesta ponte de inflexão belorizontina. Embora essa minha modéstia com relação ao lugar em que me encontro, digo, sou inveterado admirador das altitudes, ainda que sejam elas as medianas. O que acontece é que a perspectiva proporcionada mediante tal localização não se pode igualar ao panorama das planícies. Portanto as montanhas são sempre mágicas em função da limitação respeitante àquilo que as planícies proporcionam à noção de compreensão do real. Sem mais devaneio, A., acredito ter até aqui chegado sem muitos empecilhos: tendo apenas sido importunado pelos que dormem pelas ruas ou coisa urbanamente genéricas. Quero com isso dizer que nada de relevante me veio desde que travei a porta deixando minha mina alucinadinha seguramente cuidada pela negligência daquele que vela tão vilipendiosamente pelos moradores de nosso prédio de habitação.
Não chega a ser uma rotina, mas é fato que sempre - muito embora às vezes sozinho – venho parar aqui. Por isso é que escolhi o lugar para ser o adequado ao momento em que descrevo o que se passou desde o instante em que fiz sair em busca daquilo a que me propusera quando ainda fumaçava unzinho de indiscutível qualidade: graças às virtudes econômicas que você tem. Trouxe a A. aqui junto de mim por apenas duas vezes, no que tive de fabricar uma retórica irrefutável dado o pavor alimentado pela pequena com relação às alturas. Ava, você não gosta das alturas, né mesmo! Nunca compreendi bem isso embora sempre te respeitando em suas recusas para tanto. Acontece, Ava, é que não sei mais o que escrever. Sinto uma espécie de vertigem esclarecedora quando me ponho a explorar as alturas. Adorava subir a serra até quando o verde ainda não me causava certa repulsa diante dessa onda de preservação daquilo que a humanidade ainda não pode reproduzir em escala industrial. Por isso tenho incentivado minha predileção por arcos de viadutos. O aspecto cinzento dos centros urbanos se apresentam atualmente de um tal modo lírico que nem sei o que mais dizer respeitante a tanto. A.
Se já não chegam essas minhas discussões que se contradizem por cíclicas, partindo do nada ao lugar nenhum, Ava, é bom descrever agora a minha volta pra casa, se é que assim se pode dizê-lo devido ao insólito da coisa passada por acontecida em minhas rememorações do ocorrido. Caso fosse descrever tudo o que houve nesses haveres, Ava Vera, te diria apenas as inumeráveis vezes em que fui interrompido em minha volta por aqueles que vagam sem mais que não a mendicância de cigarros numa noite em que o frio já se basta na fabricação de sempre suspensos caminhos de fumaça que soltamos de trago em trago.
Talvez o relógio estivesse um pouco adiantado. As horas, Ava, ao final das contas, nunca condizem ao tempo daquilo que se definiria pelo fenomenológico ser das coisas. Nem sequer me dispus a averiguar se o porteiro estava atento ao que ocorria tendo por respeitante o dever de sua função não obstante as horas já fossem em as adiantadas. O estranho de tudo é que um provável casal se punha a discutir e fazer baderna pelos degraus que ainda estavam à minha frente. Chegava até mim a voz masculina de alguém que se dedicava às represálias de um outro alguém que o havia ludibriado sem mais. Segui esse casal com meus ouvidos, Ava, até o andar em que se fecharam atrás de uma porta. Era um quarto comum, tal como aquele onde te deixei dormir. Apreensivamente me detive ali por certo tempo e me dispus a ouvir, ou que era possível apreender de ouvidos colados à porta, já que na minha noite nada de interessante havia emergido. Era uma canção linda o que chegava a mim naquele instante de curiosidade para com o alheio: Billie Holiday interpretava de maneira inigualável a sua Solitude, e o casal parecia ter posto fim ou sabe-se lá desconsiderado as divergências da subida. Quiçá apenas sonhassem. Apenas sonhassem um sonho. Sonhassem esse sonho em que um se perdia do outro. Um sonho em que um se perdia do outro por tentativa de se encontrarem. Que um se perdia do outro por tentativa de se encontrarem numa nova espacialidade. Tentativa de se encontrarem numa nova espacialidade e temporaliade, disjuntivas. E quiça simplesmente sonhassem. Feito tão simples sonhassem esse sonho. Sonho que perdia um no outro. Que perdia um no outro como tentativa de encontrá-los. Tentativa de encontrá-los encontrando uma nova espacialidade e temporalidade, disjuntivas. De sorte, que encontrando tais espacialidade e temporalidade, disjuntivas, mas que juntassem, encontrá-los aqui onde as escadas acrescidas já somassem um no outro dentro de uma órbita desde logo labiríntica. E a Solitude, Ava Vera, continuava a embalar-lhes o sono de ambos eles: dormíamos?
quarta-feira, 9 de abril de 2008
D.esaparecídio
Nunca mais voltou a se ver. Antes escondeu da forma rosto e resto do conteúdo. Improvisasse o fim, pois de muito gritavam-lhe: desfaça a tez! E fez abrir falência da própria imagem. Não havia na loja superfície de espelho capaz de expressar tal desfalecimento. Enorme era sua desfaçatez. Diriam horas depois: um raro caso de desaparecídio.
D.