sexta-feira, 25 de abril de 2008

Passagens paulistanas.



Como aquilo tudo terminaria? era exatamente o que não podia saber de mim: exatamente, o que, tampouco, podia saber dela. Começamos toda a confusão e nem sequer havíamos tomado consciência daquilo tudo. Eu não podia dormir com a tv do quarto ao lado gritando um programa da madruga pra dentro do meu sono. Ela, também, não dormiria. Meu corpo, ao lado do dela, encostado no dela, não entraria em repouso, pois o som vindo do quarto ao lado era irritante e eu, no meu corpo, não pararia de buscar lugar no colchão. Fiz, convicto que só, toda a apologia. Assim, eu disse: você liga na recepção e pede pra ligarem de lá, dizendo pra abaixar o som que incomoda. Quando fumo minha audição fica apurada e ouço melhor. A bomba d’água também dá no saco com todo esse barulho... mas o que irrita é a porcaria televisa da madrugada. Vou ficar toda a noite ouvindo essa besteira e ridicularizando o apresentador. Olha, você pode trazer duas garrafas de água mineral no quarto 23, sem gás, e, por gentileza, pedir a pessoa do quarto ao lado que abaixe um pouco a tv, que incomoda.

Ele não está ouvindo. Deve estar morto! Não atende ao telefone. Eu disse que não queria pedir. Todo o hotel vai acordar, e por nossa causa. Antes ela havia ligado, e o barulho escandalizado do telefone pareceu muito alto e desligou. Que se dane, pelo menos não teremos mais essa chateação ao nosso lado. Espera, eu acendo a luz do abajur na cabeceira e você pega a água ai. Acho que nossa tv é que estava incomodando, daí ele ligo a dele... pra conseguir dormir. Não importa, é melhor assim. Já imaginou termos de ficar com isso na cabeça... noite toda?

Eles estavam juntos na viagem. Comeram juntos no dia anterior e, igualmente juntos, saíram em par. Cada qual fez seu percurso e voltara. Transaram juntos e, juntos, gozaram descobrindo uma posição mais pontualmente erótica.

Esse chefe é muito ansioso. Filho Daputaça! Nem sequer espera por nossa decisão. Depois de o recepcionista pedir, no quarto ao lado, o que, por gentileza, eu pedira, surgiram vozes em conversas. Ficamos apreensivos e bem quietos, abraçados. Como fosse um medo de que pegassem a gente fazendo algo errado, mas não estávamos fazendo nada errado.
Eu pensava em escrever um conto e ela em dormir pra acordar bem cedo. Seguir. Tinha horário marcado o ela que deveria fazer. Eu pensava em acordar bem cedo. Seguir pro meu fazer do dia seguinte, que tinha hora marcada. Ele, pensava e acendia outro cigarro. De cigarro na mão, remoia toda a avaliação conjugal feita horas antes, ou, talvez, escrever um conto anotando idéias da mente, que antes faziam experimentar o valor literário.

Quando enfim chegamos ao hotel, estávamos exaustos do trânsito e das andanças que fizemos durante todo o dia. Eu prometi um banho nele. Eu entrei no chuveiro e deixei a ducha me molhar, inteiramente, enquanto ela tirava toda a roupa antes de vir pra me esfregar. Trepamos no chuveiro e ele me batia enquanto me pegava por trás: tive em mim, tão forte, uma vontade de ter os cabelos puxados enquanto sentia ele dentro de mim e também os tapas que me dava no meu corpo sem que pudesse ver a expressão de deleite erotizado que tomava conta do meu rosto. Puxa meu cabelo. Depois do banho que ela me deu, do sexo que ela me deu e eu a ela, eu sequei seu corpo e a coloquei na cama. Esperava por mim enquanto procurava nas coisas a seda que tinha trazido. Eu apertei e logo fumamos enquanto víamos tv e dávamos risada de um programa de dublagens, tosquíssimas, a que assistíamos juntos por casualidade. A tv do quarto ao lado fazia um insuportável barulho e eu não podia dormir com aquela merda vindo do quarto ao lado. Tive sede. E descobri não haver mais água no frigo-bar, depois de termos matamos toda nossa sede na última das garrafas.

Essa porção só dá pra um, mas temos salmão, que está delicioso. O senhor pode voltar daqui a pouco, añ? É que ainda não estamos decididos pelo que comeremos. O idiota deixa o talher aqui sobre este forro imundo e fica botando banca de ser um grande chefe.
Acordamos tarde e, ao sair, o quarto ao lado estava com a porta entreaberta. Vimos um homem com idade aproximada à soma de nossos anos de vida e saímos de nariz em pé. Eu seguia pro meu compromisso do dia. Ele flanaria pela cidade com alguma idéia na cabeça, tentando achar nela um conto a ser escrito; tentando imaginar a melhor maneira pra que eu não ficasse perdida sem saber como encontrá-lo curinga no jogo de cartas que a cidade embaralha. Antes, ele me disse: quero não só a flanação, e sim um fluxo narrativo capaz de uma textualidade igualmente flanante.

Precisava encontrar velhos amigos enquanto ela fazia seu dia; colar na casa deles e trocar as letras com as quais atualizaríamos o lirismo de antigas amizades. Mas antes parei em baixo do piso suspenso do Masp e tomei notas no meu caderninho antes de encontrar velhos amigos:

Um do outro estivemos desencontrados na articulação sintática paulistana – escrita aberta da cidade que se lê, entretecida na hipertextualidade das esquinas: elipse de virada, fazendo abrir outra página novamente paginada. As luzes vão se apagando com outras mais que tanto se deixam acender: uma vaporização que ilumina a realidade-pessoa passante. Passa-se: e pela decomposição do que pode ser, fica explicado: justamente pela impropriedade é que são, o que são, o que podem ser, e, mais ainda, ainda mais, o que não. Um do outro, estivemos desencontrados. Mais que esperar, espero. O fluxo do transito me impede de seguir. E paro. Pelas ruas concretas, concretamente, as pontas pontiagudas parecem espetar o ainda mais daquilo tudo que a justa medida não pôde deixar ser. Entre as dobras que nos dobram pelas esquinas, estamos. Espero, porém, sem aguardar, pois que ando. Estou em toda parte da hipertextualidade; toda ela está em mim também. Há então uma rapidez de verdadeira velocidade na veloz cidade que lemos mais que o tato dos pés. Passantes que passam como pessoas-letra que formam a fraseologia urbana, pois as esquinas são períodos com muita forma. Onde você está? Qual frase integra com sua pessoa-letra na composição de agora? Desencontrados, nesta articulação sintática, estivemos, um do outro, na cidade escrevente. Desci ao submerso, ao que está elípticamente por baixo e é já entrelinhas. O metrô vem: passa vertiginosamente pelos meus olhos leitores do submerso. Coloco minha pessoa-letra pra dentro das portas que se abrem à minha frente e entro e sento. Construímos um período ali dentro que não consigo mais ler: imersão nas entrelinhas? Me espera com os olhos no relógio, faz frase do movimento na calçada, nas ruas, no trânsito; o avanço do sinal te parece uma rima desencontrada, mas experimental.
Estou na contramão que passa... e minha pessoa-letra, ela parece fugir de toda composição. Observo os paredões profanados de toda sacralização. Vejo cada grafite que se posta a minha frente e são muitos: neles toda a profanação é artística, pois não compõe nenhuma arte profanada e sim profanação artística - aurático, apenas o dialogal em que se fia a textualidade desse movimento das ruas. Paro e vejo de cima de uma passagem elevada: enquanto o Guru do Jazzmatazz vai rimando nos meus ouvidos, observo mais um painel dos Gêmeos; e se tiver sorte ainda encontro outro trampo estampado do Orion, que agora anda limpando resíduos de poluição e isso já é todo o desenho do traço limpante
dele. Subo toda a Brigadeiro depois de deixar as entrelinhas. Estou no topo novamente. Alguém me espera e estou indo. Aqui em cima minha pessoa-letra quer rimar sem conseguir; as demais pessoas-letra não tem tempo pra rimas: ociosidade ocupante.

Desci na direção contrária da Brigadeiro, indo pra casa de uma amiga que encontraria enquanto ela fazia seu fazer do dia. Antes subi pela 9 de julho e fiquei vendo todo aquele paredão ocre com muitas inscrições urbanas: stickers, lamb-lambs, também e merda; merda de verdade... Ele não atende, algo errado. Passeei por toda a cidade, e tomei conhecimento de tudo o que poderíamos fazer. Olhei tudo o que podia e avaliei o que seria a melhor pra noite.

Estou tão cansado. Deita um pouco comigo, sobre mim – é pra colocar meu corpo no lugar. Tomo um banho enquanto ela me espera. Já está pronta, depois de transarmos mais uma vez antes de sair. Fazemos novamente todo o percurso, que, muito pouco tempo atrás, me exauria quando eu voltava pra pegá-la e pra novamente retornar ao lugar onde estava antes de sair buscando por ela.

Eles comem algo num bar de balcão retangular da Paulista, quase altura da Gazeta não fosse um pouco antes. Há muita gente nas ruas e também no lugar, mas é muito fácil achar dois lugares desocupados na geometria do balcão retangular. Ela está admirada. Ele não sabe admirar um balcão retangular, parece familiar e assim não admira. Eles comem. Pagam. E saem na direção da Brigadeiro. Você parece ansioso, não? Penso numa má resposta, porém, logo engulo, exatamente como fiz tempos antes com todo aquele lanche seco que comia. É pra não perder a carona, pois não sei se esperarão. Depois de telefonar, ele parece mais calmo; já sabe que não perderemos a balada e não precisaremos mais voltar ao hotel nesta noite. Ela não consegue entender que a ansiedade é por não saber onde ela ficará durante a noite; que minha preocupação é mais por ela que por mim. Por isso engulo seco feito o maldito lanche da Paulista, quase altura da Gazeta, mas na verdade bem mais próximo da pirâmide da Fiesp.
Podemos subir, mas o interfone está com defeito. Escreve na mensagem assim, “estou na portaria”. Subimos e agora não há mais ansiedade alguma; tudo está certo. Ele reencontra seus amigos e eu me apresento a todos. Antes, tiramos os sapatos pra entrar. Alguém brinca com fotos no computer. A ansiedade não é mais nossa. Aquele cara quer ir logo, pois a noite começa com o brother dele mandando os videozinhos com o som por cima. Parece legal a vejotagem, se o lugar não fosse um saco e as pessoas, que estava no lugar, elas não estivessem ali. A noite mal começou e estamos na Augusta, rua na qual há vários bares de balcão. Eu pensava em comer. Dessa vez, algo menos seco. Acabei minha indecisão, porém, comprando uma cerveja. Ela se deixa assustar com a entrada do Sarajevo, por nada mais. Eu digo pra ela que o lugar vai despencar em nossa cabeça antes do fim da noite. Eu sorrio na seqüência do que ele me diz. Antes de tudo, um traveco grita pra gente, mais pra t-shirt do Lou Reed, que ele usa, que pra mim: Hey white boy, what u doin' uptown?
Acordamos juntos. Saímos, depois de calçarmos os sapatos deixados ao lado da porta. Imergimos no metrô, da Brigadeiro, e saímos na Liberdade. Ele ri de si mesmo comendo no chinês, sendo visto sem saber comer como deveria. Nada daquilo pode agradá-lo: o arroz, o frango xadrez, o orientais que comem tudo legitimamente a seu lado. Está sem fome, novamente, e engole tudo o que pode, a seco e com um gole de coca. Cruzam as passagens e as ruas até a Sé. Passam por uma nova passagem, da qual podem ver a anterior por onde antes passaram. Estão lá também, além daqui onde agora estão. Em todas as partes e parte alguma. Em alguma parte, a parte que são. Precisam ir; há mais coisas pra ver. Seguem, juntos. Formam, juntos, uma enunciação que não conseguem ler. À noite pedem água mineral sem gás. Acham ruim do chefe, por ser tão apressado em tomar-lhes o pedido da refeição. Ele não engoliria tão a seco assim; já podia saborear o prato apesar do infortúnio causado pelo garçom metido a chefe de cozinha, tentando indicar uma boa carne. .
Acordam no meio da noite. Ela conta um sonho, que ele entende sem saber. Ouve tudo o que foi sonhado com muita atenção. Pega um cigarro dos seus e diz: tudo o que queria, mais querendo, era parar tudo isso, como um suspenso, no tempo, e, no ar, o espaço, tal qual uma imagem de imobilidade em letras soltas que não se laçam: feito um trovão, que, em lampejos, segue ressoando por muito tempo e assim redesenhando, com esse eterno rebrilhar, a imagem da imobilidade envolvente da minha vigília do seu sonho e, também, o seu sonho da vigília que é minha.

Como tudo terminaria, era exatamente o que não podiam saber: começaram toda a confusão e nem sequer haviam tomado nota disso. Apenas um trovão, que, em lampejos, seguiria ressoando por muito tempo. E assim redesenhando, com esse quase eterno rebrilhar, a imagem da imobilidade escrevente em que ambos estavam envoltos no tempo das passagens.

Como tudo, terminaria.


D.

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