
In my solitude You haunt me With dreadful ease In my solitude
( Duke Ellington)
Talvez o relógio estivesse um pouco adiantado; nos segundos, que fazem os minutos, e não em horas - estas feitas de minutos. Isso não é questão de caso. Sequer tinha conferido: nem mesmo naquilo que por certo seria um ato mecanicamente executado. O idiota do porteiro agia sempre negligentemente, tanto mais já corridas três da manhã. Diria, por acaso de uma inquirição: que isso lá é o tempo a se deixar ficar por contagens? Coisas dessa gente que se demora por mais de décadas na ocupação de uma mesma função. Ao final das contas nem sei mesmo como ainda pode haver porteiros quando aqui já chegadas essas ditas horas de querer modernidade uma coisa morta ou se caindo pra tanto. Mas confesso ser engraçado sair de uma calçada que lembra esse tempo e entrar num lugar por onde ele, esse o tempo, ainda não veio passear. Chega de insistir em descrições densas indo a temporalidades indesignáveis, acontece de certo é que o lugar é mesmo uma merda indizível: prédio muito velho, coisa do século passado e tal. Mas feito numa arquitetura de no mínimo uns três outros séculos decorridos. Sendo isso muito agravante em seu envelhecimento meio a tantas construções contemporâneas a lhe margear os lados. As cidades são amalgamas de conceitos tortos; arquitetonicamente um culto estético isolado em contraponto semântico de um urbanismo aurático em série de referentes. Acontece de certo mesmo é que o lugar é uma merda indizível. Bem, é que este é o único aluguel com cujo pagamento posso me manter em dia nestas circunstâncias de minha existência. Uma existência tosca, sem mais dizeres nauseantes a esse respeito. O caso é que subi aquelas malditas escadas de uma maneira tão estabanada que não me conformo com a tranqüilidade do filho Daputaça do porteiro. Isso sem mencionar a louca da Ava que entoava de uma maneira muito estranha Solitude da Billie Holiday – moça de quem a Ava se diz a maior fã. É bem feito pra mim: sei lá onde estava com a cabeça ao aceitar novamente a porra do desafio de bater uma corrida escada à cima àquela hora da madrugada. O diabo da coisa é que ela havia aparecido mais cedo com um pó muito bom, de um cara que vende a um preço não muito acessível, mas que às vezes faz baratinho dependendo do discurso que a Ava lança pra cima do figura. Até mesmo eu cederia em situação do tipo. Essa danada consegue tudo quando quer: comigo me fez subir correndo oito andares! Fizera por troça e não mais que isso; parou à minha frente e encenou uma perfeita embora bastante contida parada cardíaca. Sim, uma excelente atriz: e gosta de me ver esbravejar e acusá-la de imbecilidade. Não se divertiria tanto com aplausos de uma seleta platéia quanto com a minha súbita e fugaz fúria. Diz amiúde desconhecer pessoa mais facilmente de ser ludibriada pela mesma paspalhice quase que diária. Assim, Ava, são nossos dias. E eu a abandono com o mesmo ímpeto mediante o qual acorro em sua cena babaca ao fim de seus dizeres forçadamente desdenhosos. Assim, Ava, estamos somados em nossos dias. Menina maldita, por um breve momento te odeio. E já em outro, ao apertá-la libidinosamente em mim em meu contato com o erotismo decrépito de seu corpo, que repito em mim em meu tato que te repete, amo-a eternamente pelo perdurar de um instante. Depois te deixo com muito cuidado, Ava, quase que a tocar em borboletas, e ponho-me a vencer os degraus que então restaram. Mas nesta noite eu não pude entrar antes dela e fingir-me naquele o já em sonhos, deixando-a indignada por não poder como de hábito trocar umas bestiais conversinhas de cabeceira de cama antes de o sono nos abraçar. A alucinada da Ava havia me tirado de casa tão eufórica por ter conseguido um pó de qualidade que eu nem tive como pegar minhas chaves na mesinha. Restou esperar por ela, que trazia consigo as chaves. Faz uns três anos, Ava, que dividimos morada. Desde que eu a conheci numa noite de quinta-feira n’A Obra, quando tocam boas bandas e o lugar não é nojento pelas vitrines ambulantes de modismos da Cidade e os dejotas são mais ousados quanto ao set-list experimentado. Ela gritou muito alto em meus ouvidos se eu era o carinha do sebo Tinha até Ontem. Disse que sim, mas acho que ela nem pôde ouvir, pois antes uma outra mulher veio de trás de mim e te beijou intensamente os lábios e língua. Na semana seguinte estava ela lá na loja, querendo saber se havia algum Nacked Lunch. Havia sim, acredito ter considerado o preço um pouco salgado, mas você levou o livro: como quem quisesse demonstrar devoção pelo que adquiriria, a Ava pagou. Antes que saísse da loja gritei um espere aí, tenho uma coisa pra você. Dei nas mãos dela o que eu estava lendo quando entrou e fez me interromper: Confissões de Um Comedor de Ópio, do De Quencey. Moveu a cabeça fazendo pouco caso daquilo e saiu triunfante através da porta de vidro. Encontrei a Ava duas semanas depois naquele bar e mesma noite de quinta duas semanas depois. Logo que desci a escadaria avermelhada, e dei meia dúzia de passos até o balcão pra pegar minha primeira bebida no lugar, a Ava veio e me agarrou em suas esquálidas mãos por trás da nuca e um beijo: para que assim me passasse um comprimidinho colorido que acabara de botar em sua língua. Terminamos a noite nesse apartamento nojento, mas isso não me incomodou naquela ocasião. A foda havia sido muito boa, Ava, e o som de seus gemidos não obstante suave me cortava os tímpanos e eu me entregava com toda intensidade àquela memorável trepada. Dois meses depois eu me mudaria pra cá. Mas não tínhamos mais nada, quer isso dizer decididos por amigos que teriam algumas fodas esporádicas: e assim ainda estamos embora a freqüência e qualidade com que transamos tenham agora aumentado progressivamente. Às vezes ela brinca que somos que nem no filme da – moça de quem agora eu é que me digo o maior fã - Binoche, sendo diferentes no fato de ser ela quem transa com pessoas do mesmo sexo. Na verdade ela diz isso quando quer me acusar por ter fudido com a irmã dela, uma vez que a maluquinha apareceu aqui muito a fim de fuder comigo num instante de fraqueza minha. À merda com tudo isso! Quem mandou a menina ficar querendo ser o Martin da história? Não sou culpado de nada, a raputanga me seduzira facilmente naquela noite: mostrando-se bem treinada no assunto
Eu é que não tenho o sono. Passeei por quase umas duas páginas de Borges, mas não consegui ficar pelo seu mundo de realismos fantásticos. A Ava tinha riscado meu livro; fez desistir minha leitura com seus riscos. Fico pensando por que você risca meus livros, e não entendo. A Ava só risca uma palavra de cada conto, e acha que na única palavra está todo o segredo. Mas neste ela tinha riscado mais, e ela nunca anota nada. Riscava a Ava uma passagem inteira sobre T’sui Pên no El jardín de senderos que se bifurcan:
En todas las ficciones, cada vez que un hombre se enfreta con diversas alternativas, opta por una y elimina las otras; en la del casi inextricable, T’sui Pên, opta – simultaneamente – por todas. Crea así, diversos porvenires, diversos tiempos, que también proliferan y se bifurcan.
A.v era o mistério que dormia comigo; que deitava comigo e também transava e gozava comigo; eu também gozo com você. Não quero ler o Borges riscado pela Ava. Entende isso, Ava Vera, desejo dizer que estou hoje mais interessado em minha própria relação ou seja lá interação com o fantástico, pois nunca recuso leitura de tais páginas: imaginar ao meu modo o que lá está escrito. Não risque mais minha leitura Ava, te peço.
Vou sair e deixá-la aqui em sua onírica viagem. Descobrirei o que ainda ficou escada abaixo; será assim Ava vera. Deve haver algo. A A.v diz que procurando sempre haverá. Mas farei da seguinte maneira: levarei o caderno comigo. Anotarei aquilo que me for acontecendo de relevante, mas acredito que não me será muito. Depois vejo no que dá. Talvez ela se interesse e leia o que acontecia fora da dimensão de realidade a que o sono te levou enquanto eu explorava a minha, da maneira que melhor me conveio Ava Vera. Estou no arco do viaduto de Santa Teresa, em cima do arco Ava, e coloco meus olhos na direção da serraria e dos antigos trilhos do trem, e vou me fazendo também nas letras em que busco para te descrever o que passa. Até aqui pouquíssimas coisas interessantes ocorreram desde a mais ou menos meia-hora de caminhada pelas ruas. E se aqui estou é entremetes mais por força da tradição que pela atração intrínseca ao lugar. Ocorre que vários encontros marcados já se encenaram nesta ponte de inflexão belorizontina. Embora essa minha modéstia com relação ao lugar em que me encontro, digo, sou inveterado admirador das altitudes, ainda que sejam elas as medianas. O que acontece é que a perspectiva proporcionada mediante tal localização não se pode igualar ao panorama das planícies. Portanto as montanhas são sempre mágicas em função da limitação respeitante àquilo que as planícies proporcionam à noção de compreensão do real. Sem mais devaneio, A., acredito ter até aqui chegado sem muitos empecilhos: tendo apenas sido importunado pelos que dormem pelas ruas ou coisa urbanamente genéricas. Quero com isso dizer que nada de relevante me veio desde que travei a porta deixando minha mina alucinadinha seguramente cuidada pela negligência daquele que vela tão vilipendiosamente pelos moradores de nosso prédio de habitação.
Não chega a ser uma rotina, mas é fato que sempre - muito embora às vezes sozinho – venho parar aqui. Por isso é que escolhi o lugar para ser o adequado ao momento em que descrevo o que se passou desde o instante em que fiz sair em busca daquilo a que me propusera quando ainda fumaçava unzinho de indiscutível qualidade: graças às virtudes econômicas que você tem. Trouxe a A. aqui junto de mim por apenas duas vezes, no que tive de fabricar uma retórica irrefutável dado o pavor alimentado pela pequena com relação às alturas. Ava, você não gosta das alturas, né mesmo! Nunca compreendi bem isso embora sempre te respeitando em suas recusas para tanto. Acontece, Ava, é que não sei mais o que escrever. Sinto uma espécie de vertigem esclarecedora quando me ponho a explorar as alturas. Adorava subir a serra até quando o verde ainda não me causava certa repulsa diante dessa onda de preservação daquilo que a humanidade ainda não pode reproduzir em escala industrial. Por isso tenho incentivado minha predileção por arcos de viadutos. O aspecto cinzento dos centros urbanos se apresentam atualmente de um tal modo lírico que nem sei o que mais dizer respeitante a tanto. A.
Se já não chegam essas minhas discussões que se contradizem por cíclicas, partindo do nada ao lugar nenhum, Ava, é bom descrever agora a minha volta pra casa, se é que assim se pode dizê-lo devido ao insólito da coisa passada por acontecida em minhas rememorações do ocorrido. Caso fosse descrever tudo o que houve nesses haveres, Ava Vera, te diria apenas as inumeráveis vezes em que fui interrompido em minha volta por aqueles que vagam sem mais que não a mendicância de cigarros numa noite em que o frio já se basta na fabricação de sempre suspensos caminhos de fumaça que soltamos de trago em trago.
Talvez o relógio estivesse um pouco adiantado. As horas, Ava, ao final das contas, nunca condizem ao tempo daquilo que se definiria pelo fenomenológico ser das coisas. Nem sequer me dispus a averiguar se o porteiro estava atento ao que ocorria tendo por respeitante o dever de sua função não obstante as horas já fossem em as adiantadas. O estranho de tudo é que um provável casal se punha a discutir e fazer baderna pelos degraus que ainda estavam à minha frente. Chegava até mim a voz masculina de alguém que se dedicava às represálias de um outro alguém que o havia ludibriado sem mais. Segui esse casal com meus ouvidos, Ava, até o andar em que se fecharam atrás de uma porta. Era um quarto comum, tal como aquele onde te deixei dormir. Apreensivamente me detive ali por certo tempo e me dispus a ouvir, ou que era possível apreender de ouvidos colados à porta, já que na minha noite nada de interessante havia emergido. Era uma canção linda o que chegava a mim naquele instante de curiosidade para com o alheio: Billie Holiday interpretava de maneira inigualável a sua Solitude, e o casal parecia ter posto fim ou sabe-se lá desconsiderado as divergências da subida. Quiçá apenas sonhassem. Apenas sonhassem um sonho. Sonhassem esse sonho em que um se perdia do outro. Um sonho em que um se perdia do outro por tentativa de se encontrarem. Que um se perdia do outro por tentativa de se encontrarem numa nova espacialidade. Tentativa de se encontrarem numa nova espacialidade e temporaliade, disjuntivas. E quiça simplesmente sonhassem. Feito tão simples sonhassem esse sonho. Sonho que perdia um no outro. Que perdia um no outro como tentativa de encontrá-los. Tentativa de encontrá-los encontrando uma nova espacialidade e temporalidade, disjuntivas. De sorte, que encontrando tais espacialidade e temporalidade, disjuntivas, mas que juntassem, encontrá-los aqui onde as escadas acrescidas já somassem um no outro dentro de uma órbita desde logo labiríntica. E a Solitude, Ava Vera, continuava a embalar-lhes o sono de ambos eles: dormíamos?
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