sexta-feira, 12 de março de 2010

Intimidades (com a espuma da ausência).




Prostrado o meu corpo sobre o leito dos uivos de fruição, a partir dessa comovedora acomodação foi que observei através da esguelha que a porta semicerrada me permitira.

Ia me retirando do corpo durante o banho. Lavava-se inteiramente de mim sob a queda daquelas águas vindas do banho de despedida. E tanto mais distante eu me sabia quanto mais e mais eram os movimentos da esponja manipulada pela mão da mulher. Girava-a compassadamente em torno dos seios, cujos bicos ainda retinham inchação; comprimia-a contrariamente ao fio dos pelos da pele e fazia criar intensidades variadas, indo do suave ao agressivo. Com os zelos de uma faxina limpava todo e qualquer rastro deixado por minha saliva densa sobre a pele duplamente umedecida. Ao arranhar-se na esponja, recobria e disfarçava a violência trazida pela minha barba, também pelos meus dentes; boca; voraz mordida.


E as águas, ininterruptas, desciam ferozmente e nada veio a paralisar a queda. Transcorriam todos os curso por onde estivera eu, meus lábios e língua. Caíam entre as nádegas de relevos voluptuosos. E transbordavam o leito feito da união entre essas margens (por onde meu pau teso, demasiado teso, mergulhou e submergiu várias vezes com a devoção mais própria daqueles que se purificam no Sagrado Ganges).

O cabelo – todo ele encharcado – entretecia-se de milhares de fios e tomava a forma tão singular de uma tempestade bastante forte, que a tudo demovia.

Então despossuída da insistência dos meus líquidos febris e viscosos, também do meu hálito, dentes, e mordida, recompunha-se maravilhosamente de toda sorte de marcas revigorando a justa naturalidade dos cheiros, dos sabores, das suas delícias afáveis de fêmea que se doa aos prazeres e os recobra com a mais equânime das intensidades.

Repousou-se, por fim, sobre o ninho da cama e me disse com o timbre da petulância,
Não te preocupes; já não te quero mais”.

Meu pau, feito algo rijo até ali apesar da prosternação que se apossava do meu inteiro restante, se esvaia de todo sangue faltoso aos demais arejos do corpo mal esfolegado. Restava o cigarro, facultando a reflexão do gozo mediante o desamparo, e a vista da janela do quarto, assaltando o meu desespero adiado através do fluxo daquelas águas que, despejadas sobre a mulher, lavaram cada uma das minhas marcas com a espuma da ausência.


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