
Times have changed,
And we've often rewound the clock.
Anything Goes! Cole Porter.
A certa altura da vida, Hemingway propunha algo a propósito da maneira como concebia sua narrativa. Através da imagem retida de um iceberg, o escritor norte-americano (a respeito de quem se sabe ter vivido longos anos na ilha do mais verdadeiro herói de “pena e armas”, José Martí, e na qual nasceram também as mais belas canções de Silvio Rodriguez, intercalando essa temporada insular entre viagens mediterrâneas e touradas espanholas, guerras na Itália e caçadas africanas e muitas pelejas de Box etc.) dizia que somente uma décima parte do relato deveria vir à tona, pois todo o resto encontrar-se-ia bem mais submerso nas águas profundas da escritura.
Nunca soube exatamente qual foi essa “altura da vida” na qual Hemingway disse o que disse. Talvez alguém mais curioso que eu possa descobri-lo agora mesmo sem nunca ter lido Hemingway. Basta, por exemplo, ler aquele livro do Enrique Vila-Matas em cuja tessitura dissolve-se uma mania tão pertubadora que faz sobrescrever o nome de Hemingway para mais de 131 vezes, algo que, desconfio, supera a biografia escrita por Hotchner, cujos direitos, aliás, foram comprados a pouquíssimo tempo por algum estúdio de Hollywood e já para breve teremos um filme sobre o “Papá Hemingway” e que tem tudo para ser ainda mais lamentável do que "Hemingway`s Adventures of a Young Man", salvo-conduto, nesse último caso, apenas para a participação de Paul Newman.
Dou-me conta cada vez mais de que essa coisa toda referente à “certa altura da vida” nada me importa. Importa, sim, o que diz a teoria do iceberg: tudo está sub-reptício. A magia que encontrei nessa ideia, quando lida, fez com que muito cedo eu a estendesse para fora da arte de “manejar uma pena”, como era costumeiro dizer muito tempo atrás daqueles que se ocupavam da obra de linguagem. O que fiz, então corroborado pela própria mensagem possível no iceberg, fora puxá-la para além do espelho de água literária e tomá-la como leitmotiv da minha própria vida. Durante anos a fio eu fiz de minha personalidade, ou melhor, do gostaria que ela fosse, a própria teoria do iceberg de Hemingway.
Eu me encontro agora aos vinte e sete anos. Sei de mim alguém bem novo, alguém que, aliás, vive vigorosamente os prazeres e sofrimentos cotidianos. Mas nesses tempos recentes ando assombrado por uma questão que, pesando sobre mim feito nuvem tempestuosa, me leva a pelo menos mais duas dezenas de anos à frente nos outonos que passarão por minha vida. É isso o que subverto por ora em minha própria história: tão curta que já a quero longa.
Vivemos nesses dias a melhor época de todas, sobretudo em relação àquelas das quais jamais vivi sequer uma fração de segundo, mas da qual sou capaz de falar horas e horas entre amigos e amigas e mais ainda quando há muita cerveja e cigarros à mão. A instabilidade tem de ser louvada, pois é exatamente ela o que torna plausível viver outras temporalidades, outras vidas, enfim, tudo isso que Benjamin dizia sobre a maneira de despertar o passado também no presente e reconciliar com nossos mortos.
Acontece de todos os modos que essa velhice abrupta, através da qual chego mais perto dos meus cinqüenta anos, época que agora me recuso a viver desde aqui, paira sobre mim de maneira bem fixa. Acredito ter lido erradamente muita coisa boa. De muita coisa ruim, todo o contrário, fiz leituras mais acertadas. E, assim, retirei dali os motivos mais atravessados, a minha própria sorte de inverter uma existência a contrapelo.
Não estou insatisfeito com nada disso. O tom melancólico, por acaso haja aqui algo assim, é trazido pela minha mania supracitada. Portanto, não tomem por lirismo romântico e démodé o que é bem antes ironia presente.
Uma reconciliação com os tempos vindouros que recuso desde aqui é bem mais o que procuro relatar. Gostaria muito de restabelecer a paz no interior desse conflito tolo que armo entre o final de meus vinte anos e o princípio do homem quinquagenário que logo não serei.
Devem existir muitos motivos que expliquem a aversão pelo envelhecimento. Vejo pela rua uma sorte de homens velhos. Alguns são repudiáveis em carecas devastadoras, em barrigas que em nada harmonizam com o resto do corpo, em barbas medonhamente mal cuidadas e amareladas por tabaco e narinas e orelhas peludas que levam à náusea quem quer que esteja lhes dirigindo olhares. Outros despontam mais decentes por aí e se aliam elegantemente dentro de roupas caras como querendo evocar uma dignidade voluptuosa em ter cortado bem o tempo com o qual travaram batalha de esgrima.
Toda essa merda de ser um velho decrépito, mal cuidado, ou, por outro lado, alimentar uma elegância filha da puta que não é sincera com os de menos idade, nada disso me incomoda. Eu não viverei meus cinqüenta anos, já disse. Ainda não sei como, pois estou apreendendo, mas darei uma boa cartada na partida contra o tempo e o vencerei não jovialmente, de modo que ao fim da partida calarei em mim o grito espasmódico oferecendo-lhe a mão como quem bem reconheceu a gladiatória envergadura de seu implacável adversário.
Pois bem. Eu não quero ser o homem velho que retirará das gavetas os escritos de juventude e os condenará ao fogo da maturidade. Eu não recusarei os ímpetos da procura que levou o homem de cinqüenta anos a ser o que será. Esse homem lerá com boas risadas tudo isso e se divertirá com a audácia jovial daquele rapaz que desafiou o tempo repartindo as partidas de sua vida. Esse homem ficará feliz em mim ao saber que abriu mão da seriedade futura em detrimento da pretensão passada mediada pela satisfação presente.Esse homem será meu melhor amigo e também meu atroz inimigo, uma vez que, juntos, venceremos as temporalidades múltiplas costurando-as de maneira nada paralela. Ele virá a entender toda inquietação que vivi poucos anos atrás, quando procurava por mulheres e experimentava amores frustrados. Ele entenderá. Entenderá quando numa certa manhã (talvez ao completar os cinqüenta anos que eu jamais viverei) amanhecerá ao lado de uma mulher e descobrirá nela o amor que o alimenta a cada dia. Esse homem, que nunca conhecerei, mas por quem faço guardar desde já admiração e respeito, porém de certo desaprovando diversos de seus atos e por isso mesmo não poderei conhecê-lo plenamente, porque o repudiarei, abraçará sua mulher e vai beijar o corpo matinal dessa mesma mulher e, tendo em seus lábios uma pele descansada, lembrará quando a encontrou pela primeira vez em seu olhar durante as buscas empreendidas.
Ele se lembrará de como é jovem e se sente ainda mais jovial amando essa mulher a quem conheceu envelhecendo um pouco naqueles dias quando acima de sua cabeça uma nuvem pesada trazia-lhe a imagem perigosa dessa hora em que despertamos para o desejo de uma pessoa que gostaríamos de ter ao lado e ao lado de quem ficaríamos por várias épocas, vivendo as grandes e as mais diminutas temporalidades descobrindo o amor através do contato de nossos corpos e recobrindo em nossos lençóis o carinho que nos levou a derrotar a fúria que existe na instabilidade também afetiva do dia em que eles se olharam com profundidade pela primeira vez.
Alguma música antiga, nessa manhã, começará logo a tocar no quarto onde dormiam a bem pouco. Ele se levantará da cama e esticará seu corpo num gesto que afastará o sono bem dormido, sem, contudo, espantar o sonho da noite passada. A mulher inventará um vestido bonito, de longa cauda e feito com os lençóis que pouco tempo atrás embrulhavam a ambos. E, enquanto tudo isso passa, ele escolherá a música a que então dançam nessa manhã feliz em que por mais uma vez se despertará neles o amor.
À noite, algo depois de tudo isso, ainda estarão juntos e repetirão os carinhos num gesto inesgotável.
Da ponta dessa paixão descobrirão emergindo uma vez mais a profundidade inteira de um amor vastamente submerso. E amanhã (que tanto poderá ser domingo quanto segunda, pouco importa, pois entre eles os dias hão de se confundir sempre) dançarão juntos outra vez alguma música mais antiga.
And we've often rewound the clock.
Anything Goes! Cole Porter.
A certa altura da vida, Hemingway propunha algo a propósito da maneira como concebia sua narrativa. Através da imagem retida de um iceberg, o escritor norte-americano (a respeito de quem se sabe ter vivido longos anos na ilha do mais verdadeiro herói de “pena e armas”, José Martí, e na qual nasceram também as mais belas canções de Silvio Rodriguez, intercalando essa temporada insular entre viagens mediterrâneas e touradas espanholas, guerras na Itália e caçadas africanas e muitas pelejas de Box etc.) dizia que somente uma décima parte do relato deveria vir à tona, pois todo o resto encontrar-se-ia bem mais submerso nas águas profundas da escritura.
Nunca soube exatamente qual foi essa “altura da vida” na qual Hemingway disse o que disse. Talvez alguém mais curioso que eu possa descobri-lo agora mesmo sem nunca ter lido Hemingway. Basta, por exemplo, ler aquele livro do Enrique Vila-Matas em cuja tessitura dissolve-se uma mania tão pertubadora que faz sobrescrever o nome de Hemingway para mais de 131 vezes, algo que, desconfio, supera a biografia escrita por Hotchner, cujos direitos, aliás, foram comprados a pouquíssimo tempo por algum estúdio de Hollywood e já para breve teremos um filme sobre o “Papá Hemingway” e que tem tudo para ser ainda mais lamentável do que "Hemingway`s Adventures of a Young Man", salvo-conduto, nesse último caso, apenas para a participação de Paul Newman.
Dou-me conta cada vez mais de que essa coisa toda referente à “certa altura da vida” nada me importa. Importa, sim, o que diz a teoria do iceberg: tudo está sub-reptício. A magia que encontrei nessa ideia, quando lida, fez com que muito cedo eu a estendesse para fora da arte de “manejar uma pena”, como era costumeiro dizer muito tempo atrás daqueles que se ocupavam da obra de linguagem. O que fiz, então corroborado pela própria mensagem possível no iceberg, fora puxá-la para além do espelho de água literária e tomá-la como leitmotiv da minha própria vida. Durante anos a fio eu fiz de minha personalidade, ou melhor, do gostaria que ela fosse, a própria teoria do iceberg de Hemingway.
Eu me encontro agora aos vinte e sete anos. Sei de mim alguém bem novo, alguém que, aliás, vive vigorosamente os prazeres e sofrimentos cotidianos. Mas nesses tempos recentes ando assombrado por uma questão que, pesando sobre mim feito nuvem tempestuosa, me leva a pelo menos mais duas dezenas de anos à frente nos outonos que passarão por minha vida. É isso o que subverto por ora em minha própria história: tão curta que já a quero longa.
Vivemos nesses dias a melhor época de todas, sobretudo em relação àquelas das quais jamais vivi sequer uma fração de segundo, mas da qual sou capaz de falar horas e horas entre amigos e amigas e mais ainda quando há muita cerveja e cigarros à mão. A instabilidade tem de ser louvada, pois é exatamente ela o que torna plausível viver outras temporalidades, outras vidas, enfim, tudo isso que Benjamin dizia sobre a maneira de despertar o passado também no presente e reconciliar com nossos mortos.
Acontece de todos os modos que essa velhice abrupta, através da qual chego mais perto dos meus cinqüenta anos, época que agora me recuso a viver desde aqui, paira sobre mim de maneira bem fixa. Acredito ter lido erradamente muita coisa boa. De muita coisa ruim, todo o contrário, fiz leituras mais acertadas. E, assim, retirei dali os motivos mais atravessados, a minha própria sorte de inverter uma existência a contrapelo.
Não estou insatisfeito com nada disso. O tom melancólico, por acaso haja aqui algo assim, é trazido pela minha mania supracitada. Portanto, não tomem por lirismo romântico e démodé o que é bem antes ironia presente.
Uma reconciliação com os tempos vindouros que recuso desde aqui é bem mais o que procuro relatar. Gostaria muito de restabelecer a paz no interior desse conflito tolo que armo entre o final de meus vinte anos e o princípio do homem quinquagenário que logo não serei.
Devem existir muitos motivos que expliquem a aversão pelo envelhecimento. Vejo pela rua uma sorte de homens velhos. Alguns são repudiáveis em carecas devastadoras, em barrigas que em nada harmonizam com o resto do corpo, em barbas medonhamente mal cuidadas e amareladas por tabaco e narinas e orelhas peludas que levam à náusea quem quer que esteja lhes dirigindo olhares. Outros despontam mais decentes por aí e se aliam elegantemente dentro de roupas caras como querendo evocar uma dignidade voluptuosa em ter cortado bem o tempo com o qual travaram batalha de esgrima.
Toda essa merda de ser um velho decrépito, mal cuidado, ou, por outro lado, alimentar uma elegância filha da puta que não é sincera com os de menos idade, nada disso me incomoda. Eu não viverei meus cinqüenta anos, já disse. Ainda não sei como, pois estou apreendendo, mas darei uma boa cartada na partida contra o tempo e o vencerei não jovialmente, de modo que ao fim da partida calarei em mim o grito espasmódico oferecendo-lhe a mão como quem bem reconheceu a gladiatória envergadura de seu implacável adversário.
Pois bem. Eu não quero ser o homem velho que retirará das gavetas os escritos de juventude e os condenará ao fogo da maturidade. Eu não recusarei os ímpetos da procura que levou o homem de cinqüenta anos a ser o que será. Esse homem lerá com boas risadas tudo isso e se divertirá com a audácia jovial daquele rapaz que desafiou o tempo repartindo as partidas de sua vida. Esse homem ficará feliz em mim ao saber que abriu mão da seriedade futura em detrimento da pretensão passada mediada pela satisfação presente.Esse homem será meu melhor amigo e também meu atroz inimigo, uma vez que, juntos, venceremos as temporalidades múltiplas costurando-as de maneira nada paralela. Ele virá a entender toda inquietação que vivi poucos anos atrás, quando procurava por mulheres e experimentava amores frustrados. Ele entenderá. Entenderá quando numa certa manhã (talvez ao completar os cinqüenta anos que eu jamais viverei) amanhecerá ao lado de uma mulher e descobrirá nela o amor que o alimenta a cada dia. Esse homem, que nunca conhecerei, mas por quem faço guardar desde já admiração e respeito, porém de certo desaprovando diversos de seus atos e por isso mesmo não poderei conhecê-lo plenamente, porque o repudiarei, abraçará sua mulher e vai beijar o corpo matinal dessa mesma mulher e, tendo em seus lábios uma pele descansada, lembrará quando a encontrou pela primeira vez em seu olhar durante as buscas empreendidas.
Ele se lembrará de como é jovem e se sente ainda mais jovial amando essa mulher a quem conheceu envelhecendo um pouco naqueles dias quando acima de sua cabeça uma nuvem pesada trazia-lhe a imagem perigosa dessa hora em que despertamos para o desejo de uma pessoa que gostaríamos de ter ao lado e ao lado de quem ficaríamos por várias épocas, vivendo as grandes e as mais diminutas temporalidades descobrindo o amor através do contato de nossos corpos e recobrindo em nossos lençóis o carinho que nos levou a derrotar a fúria que existe na instabilidade também afetiva do dia em que eles se olharam com profundidade pela primeira vez.
Alguma música antiga, nessa manhã, começará logo a tocar no quarto onde dormiam a bem pouco. Ele se levantará da cama e esticará seu corpo num gesto que afastará o sono bem dormido, sem, contudo, espantar o sonho da noite passada. A mulher inventará um vestido bonito, de longa cauda e feito com os lençóis que pouco tempo atrás embrulhavam a ambos. E, enquanto tudo isso passa, ele escolherá a música a que então dançam nessa manhã feliz em que por mais uma vez se despertará neles o amor.
À noite, algo depois de tudo isso, ainda estarão juntos e repetirão os carinhos num gesto inesgotável.
Da ponta dessa paixão descobrirão emergindo uma vez mais a profundidade inteira de um amor vastamente submerso. E amanhã (que tanto poderá ser domingo quanto segunda, pouco importa, pois entre eles os dias hão de se confundir sempre) dançarão juntos outra vez alguma música mais antiga.
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