domingo, 5 de setembro de 2010

Literaturas apropriadas: escrituras a furto




pro Vilmar Henrique


Autops(eudo)icografia

O autor é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é sua a biblioteca que deveras sente.

Álvaro de Campos:

Sou vil, sou reles, como toda a gente. Não tenho ideais, mas não os tem ninguém. Quem diz que os tem é como eu, mas mente. Quem diz que busca é porque não os tem. É com a imaginação que eu amo o bem. Meu baixo ser porém não mo consente. Passo, fantasma do meu ser presente, Ébrio, por intervalos, de um Além.
Como todos não creio no que creio.Talvez possa morrer por esse ideal.Mas, enquanto não morro, falo e leio.
Justificar-me? Sou quem todos são... Modificar-me? Para meu igual?...
— Acaba já com isso, ó coração!



Bibliotecas e livrarias roubadas

No dia 11 de novembro (é precisamente 1975) Juan García Madero, membro recém ingresso ao realismo visceral, descreve sua ida a um dos prédios da calle Anáhuac, próximo a Insurgentes. É sua primeira visita ao quarto onde mora Ulises Lima, poeta e mebro do referido grupo. O habitáculo é claustrofóbico, e livros se acumulam por todo o lugar. García Madero, jovem então aos dezessete anos, se deixa envolver pelas conversas sobre poesia que vão boca pra fora dos real visceralistas.

Les pregunté dónde podía comprar los libros que ellos llevaban la otra noche. La respuesta no me sorprendió: los roban en la Librería Francesa de la Zona Rosa y en la Librería Baudelaire, de la calle General Martínez, cerca de la calle Horacio, en la Polanco. También quise saber algo acerca de los autores y entre todos (lo que lee un real visceralista es leído acto seguido por los demás) me instruyeron sobre la vida y la obra de los eléctricos, de Raymond Queneau, de Sophie Podolski, de Alain Jouffroy.

Alguns trinta anos depois (não quero precisar o ano, apenas lembro algo já ocorrido e escrevo agora neste ano que já é 2010) vim a fazer aquela que foi a minha primeira visita a um dos quartos do alojamento estudantil do campus em que me graduei a inícios dos anos zerozero. No que já dirá respeito à clausura dos ambientes, pouco ou nada muito distinto é possível ressaltar uma vez cotejando tais lugares. Também vejo muitos livros e pessoas eloquentes. Pondero, entretanto, sobre ponto e outro. Com as próximas visitas descubro que aqueles livros são roubados. A mim isso também não me surpreende. Dadas certas variantes no que diz respeito à assiduidade, volto a esse dito quarto durante quase todo o meu quaternário de graduação, de modo que a coisa tem prosseguimento até o penúltimo semestre antes da formatura. Ali moram dois estudante e que são também meus veteranos de curso e dos quais sou verdadeiramente amigo de um, sendo que do outro tudo (já que não quero banalizar o que se digo com a palavra amizade) o que sei fazer é aproveitar muito prontamente as ofertas, pois ele é meu fornecedor de erva e, em eventuais ocasiões, cocaína. Diz que sua família é carente (de modo geral assim são todos os estudantes que necessitam viver na moradia univesitária) e que precisa de fazer o tal dinheiro a fim de se manter ali. Há ainda um terceiro estudante, este de engenharia ambiental, que não trafica e nem lê e nem tampouco aparenta inclinação literária alguma. Boca pra fora deles nada pode sair sobre poetas elétricos. E me contento em ouvi-los sem fazer muita questão pelo que dizem, estando parcialmente aliviado pelo fumo bom que tem. Fico próximo do que trafica, pois, como disse, ele me serve sempre que procuro. Sigo displicentemente ouvindo os delírios (nada perturbantes) daquele que não tem afetuosidade pelas letras. E me amigo (com o passar do período de vida estudantil) bastante daquele que rouba os livros e diz possuí-los. Questão de afinidades eletivas, pra falar obviamente com Goethe nos dentes. Não raras vezes o rapaz de quem fui me amigando me diz as coisas as mais vagas ao longo do tempo em que deixei a cidade para viver dois pares de ano no interior de uma cidade universitária. Duas entre a vasta sorte de coisas vagas, no entanto, se sobressaem na minha memória. Diz primeiramente algo inebriado a respeito das teses de Walter Benjamin sobre a história; autor a quem eu então não tinha lido e passaria a ter por meu após o primeiro e arrebatador contato mediante leitura. A isso ele emenda abruptamente algo sobre o conceito benjaminiano de aura, e confessa estar pensando algo a propósito da expansão do colecionismo de vinil e o mercado de discos no Brasil àquele momento. Segundo, faz que pra mim esteja esclarecida a razão dos roubos citando um excerto da canção do Science: “Banditismo por uma questão de classe, man!”



Comecei por Bolaño ("Los detectives selvajes") não à toa. “Pensar”, dizia Paul de Man, “é encontrar a citação certa”. Ulises Lima e, sobretudo, Arturo Belano são exímios roubadores de livros. Não sendo, em última instância, uma ontologia literária de Lima e Belano, o roubo de livros é, mais verdadeiramente, a condição histórica da literatura que está corpo pra dentro deles. Sabem o que roubar e roubam porque o sabem necessário. Não se enaltecem tanto a propósito do que lêem, e sim mais propriamente exaltam aquilo que justamente roubam pra ler.

Eis ali o ponto crucial que não se deve perder de vista ao jogar com o anagrama possível entre as letras que, mutatis mutandis, funde os nomes de Roberto Bolaño (personagem) e Arturo Belano (autor). A crítica tem supervalorizado essa grande besteira dos alteregos, do doppelgänger na criação bolaniana. Por isso pondero, e às vezes me envergonho ao falar a respeito disso. Tudo bem, por ora. O roubo de livros não só é uma modalidade de delito frequente na literatura do Bolaño, assim como, também, é presente na vida do escritor que é. Temáticas sobre roubos a livrarias (pra não falar da já famosa série assassinatos que alegorizam os femicídios de Ciudad Juárez) são recorrentes e altamente disseminadas em quase todas as entrevistas do chileno (ou será mexicano? ou será catalão? – pra mim, que sou latino americano e também brasileiro, pouco importa, pois vejo esse gênero de literaturas nacionais a partir da interpolação dada entre os bons escritores, que estão começando a ficar ruins, e os maus, que, não resistirei ao oxímoro, começam a ficar excelentes). Como são muitas, pontuo a que entre todas me pareceu a mais inventiva. A coisa acontecer a partir de uma aposta feita entre Bolaño e um amigo, cujo nome é educadamente omitido. Consiste no peculiar roubo (a que chamarei polifásico) de todos os volumes do “Em busca do tempo perdido”. A condição é que ambos percorram (num só dia e ao mesmo tempo) distintas livrarias da Cidade do México, roubando de cada uma delas um exemplar e que para tanto estivesse respeitada a ordem crescente referente aos tomos do romance de Proust. Ao ser inquerido pelo entrevistador se conseguem executar tal feito, Bolaño responde que seu amigo consegue quatro dos livros, e ele, por sua vez, completa toda a série que vai de “No caminho de Swann” a “O tempo redescoberto”.

Neste ano, aliás, veio de Portugal a notícia de que lá o próprio “2666”, massivamente divulgado com a chamada de “o livro do ano” a propósito da tradução portuguesa publicada em 2009, com direito a um site que marcava a contagem decrescente dos dias até o lançamento, é, também, "o livro mais roubado do ano". Isso sugere uma nova categoria para a classificação de livros, tal como pontuou Marcos Natalli, crítico que de longe tem dito as coisas mais interessantes sobre a obra bolaniana e sua recepção no Brasil. Acresceria um ponto mais. Não sendo apenas uma nova categoria classificatória, tal fato consiste na desnormatização de uma norma. É o delito como estimulo das forças produtivas, que falarei com Marx mais adiante. O roubo, aparentemente contraproducente dentro da lógica de mercado consumidor, torna-se, com efeito, uma estratégia apropriada para a potencialização de uma nova tendência de consumo.

Dizia que não à toa começava por Bolaño. Pois bem. Ler é encontrar o roubo certo. Belano bem poderia ter dito algo assim. Não disse. Silvio Austier, sim. Não sei se bem componho a minha própria arqueologia de criminosos literários. Ou se, sim, a minha família literária conforme a feliz designação já formulada por Piglia. A bem da verdade, deponho, aqui, que eu gostaria, preferencialmente, de poder apostar algo com Bolaño. E assim roubararíamos alguma livraria em Tel Aviv, junto de Ulises Lima e Arturo Belano. Tenho comigo já o título da literatura que de pronto assaltaríamos: “El juguete rabioso”, de Roberto Arlt. Uma tradução hebraica? Talvez. Preferiria que fossemos eu, Lima e Belano à Berlim. Tenho cá pra mim que muito bem se amoldaria o iídiche com o alemão, assim como os lunfardismos se fundiram no castiço idioma riopratense de Austier, frente a quem nos faríamos precursores. Ler é encontrar o roubo certo. Ponho tal frase, portanto, na boca daquele de quem eu me faço agora, roubando junto de Lima e Belano, um respeitoso precursor. Para além de toda a traição, sempre me intrigou mais profundamente a invasão e o roubo à biblioteca, cena que fecha o primeiro capitulo, “Los ladrones”, do “Juguete”.

Sacando los volúmenes los hojeábamos, y Enrique que era algo sabedor de precios decía: "No vale nada", o "vale".

—Las montañas del oro.
—Es un libro agotado. Diez pesos te lo dan en cualquier parte.
—Evolución de la materia, de Lebón. Tiene fotografías.
—Me la reservo para mí —dijo Enrique.
—Rouquete, Química orgánica e inorgánica.
—Ponelo acá con los otros.
—Cálculo infinitesimal.
—Eso es matemáticá superior. Debe ser caro.
— ¿Y esto?
— ¿Cómo se llama?
—Charles Baudelaire. Su vida.
—A ver, alcanzá.
—Parece una bibliografía. No vale nada.
Al azar entreabría el volumen.
—Son versos.
— ¿Qué dicen?
Leí en voz alta:
Yo te adoro al igual de la bóveda nocturna
¡oh!, vaso de tristezas, ¡oh!, blanca taciturna.

"Eleonora —pensé—. Eleonora."

Y vamos a los asaltos, vamos, como frente a un cadáver, un coro de gitanos:
—Ché, ¿sabés que esto es hermosísimo? Me lo llevo para casa.
—Bueno, mirá, en tanto que yo empaqueto libros, vos arreglate las bombas.
— ¿Y la luz?
—Traétela aquí.

Seguí la indicación de Enrique. Trajinábamos silenciosos, y nuestras sombras agigantadas movíanse en el cielo raso y sobre el piso de la habitación, desmesuradas por la penumbra que ensombrecía los ángulos. Familiarizado con la situación de peligro, ninguna inquietud entorpecía mi destreza.

Dizia - e reitero, ler é encontrar o roubo certo. Já amar deve ser encontrar a Elena (de Obieta, preferencialmente) certa. No caso de Austier, Eleonora. Mas (infelizmente, Maga) não estou falando sobre livros e Eros...

Fangora (personagem da Milla Jovovich em “Dummy”, filme apenas singelo) rouba um livro e o lê parcialmente enquanto espera por Steven (um desses vinte personagens genais que o Adrien Brody faz). Quando Steven vem, Fangora presenteia o amigo com o livro roubado. Não lembro mais o que Fangora roubara. A cena incial de “The ninth gate” mostra Dean Corso (personagem de Johnny Depp) roubando de modo pouco criminoso (Corso é um livreiro e detetive que faz renda a partir de engodos do tipo) um “Quijote” de 1780, a famosa edição da casa madrilenha de Don Joaquín Ibarra; encadernação de Antonio Carnicero; as gravuras de Fernando Selma e memoráveis ilustações e retrato assinados por José del Castillo Sáez de Tejada, pintor espanhol e membro do grupo de pintores do Absolutismo Ilustrado. Fangora e Corso, pois bem. Celebro a primeira; guardo-a comigo de modo todo ele carinhoso. Rouba, pois quer ler e, mais que isso, que o amigo leia aquilo de que precisa e não tem. Isso é muito apropriado. Por assim ser é que ela pode se dar ao descaso e ao abandono (abandona pois já possui) da leitura e já presentear Steven com o livro que lia sem muito interesse. Reprovo, em contrapartida, a atitude de Dean Corso. Rouba, apenas. E não se apropria. Enquanto Fangora é o horizonte de expectativa, a recepção, Corso é a essencialização do valor artístico, a retirada da série literária que determinada obra integra. A apropriação, como a quero aqui mediante uma sintaxe que joga uma partida anagramática com as palavras, faz com que sejam devidamente distintos entre si os atos criminosos.


Posses furtivas

A posse é um embate, que nunca forma síntese, embate dado continuamente entre desapego versus apego. Ou ainda, como bem formulou Bioy Casares - "El recuerdo que deja un libro a veces es más importante que el libro en sí".



Ano e meio atrás entrevistava Alberto Laiseca, escritor rosarino e autor, entre outras coisas, de “Los Soria”, romance de escritura das mais vigorosas já vistas. Passagens e hospedagem custeadas pelo CNPq, através do vigente projeto de pesquisa da minha então (ainda que eterna) orientadora de mestrado, Graciela Ravetti; também ela uma argentina e rosarina. Laiseca vive hoje num desses típicos bairros portenhos, nos quais é muito comum a existência de parques com muita área verde onde pululam jovens tomando mate e gente pelas ruas com livro nas mãos e ótimos lugares onde comer e beber fartamente. A casa do homem, como várias outras de Buenos Aires, está divida em plantas alta e baixa. Vive com alguns cães no piso baixo. E a parte superior ele divide com dois gatos e inúmeros livros e garrafas de cerveja e muitos cigarros. Poderia desdobrar essas páginas discutindo não só a visita e, também, o tema da entrevista. Vou focalizar mais detidamente, haja vista meu motivo aqui, na biblioteca sui generis do Conde Laisek. Durante toda a hora e meia que estivemos ali algo não cessou de me assombrar. Todos os livros do Conde estão devidamente forrados por folhas de cartolina branca, matizadas de amarelo, assim como o bigode de Laiseca. A coisa me resultou incrível, apesar de estar devidamente avisado sobre tal extravagância. A propósito disso fiz minha última pergunta, que já nada teria a ver com o que conversamos desde mais cedo. E o homem diz: “Es para evitar identificaciones y afanos, chico”. E prossegue. “Tengo una guía, de lo contrario yo sería uno de esos viejos chinos que cuando se morían era una tragedia. No tengo una biblioteca inconsultable. Sino tendría todo en grandes piletones, como en las bibliotecas imperiales. Ahí tenían viejos chinos que sabían todo porque, claro, ¿qué índice ibas a hacer, si son ideogramas? Es imposible. Entonces cuando se morían los viejitos era un desastre, porque se acordaban todo de memoria y encontraban cualquier cosa.”



Compartilhamos o mesmo riso. A risada dele, porém, recobre a minha feito o uivo de um lobo sobrepoosto ao ladrar todo espantando de um pequeno cão a que de pronto o lobo vai devorar caso haja ataque. Ainda há tempo pra que mostre algo antes da partida, conforme nos prometera apresentar. É uma série de fichas que retira de uma pasta-fichário guardada no fundo de uma das gavetas da mesa detrás da qual fala comigo. Compõem uma espécie de linha histórico-genética de todos os largos anos dedicados à escrita de “Los Soria”. (Aquela mesa é uma desses móveis mágicos da literatura, penso eu, e deve ter coisas fabulosas como o bau do Fernado Pessoa, a gaveta “sem fundo” do Cortázar de onde volta e meia Aurora Bernárdez retira algo como a recente publicação das “Cartas a los Jonquieres”, e o armário de Bolaño a que Carolina López vai publicando desde a indesejável - embora esperada - visita de Thánatos em 2003) E Laiseca permite que eu fotografe, a pedido da Graciela. E enquanto isso ocupa-se da abertura de outra long neck de cerveja Heineken. Pela primeira vez o surpreendo disperso, dando carinho aos gatos. É tempo suficiente pra que eu tire fotos do material apresentando e, também, coloque dentro da minha bolsa um dos muitos livros forrados que estão numa das prateleiras mais próximas de mim. Faço minha deferência ao Conde e me preparo pra deixar casa. Laisek nos ciceroneia até o piso baixo; deseja sorte durante as despedidas.




Não sei por que exatamente roubei o livro. Ou melhor, sei: encontrava o roubo certo. Mais que o livro, eu pensava roubar Laiseca. A grande penúria desta entrevista foi não ter podido ver a biblioteca do homem, pensei. Aliás, voltei refletindo sobre a frase dita por ele - “No tengo una biblioteca inconsultable”. A entrevisão de toda biblioteca, de todo o enciclopedismo, resulta verdadeiramente inconsultável. Temi que ele descobrisse meu gesto afanador, pois o livro roubado me pareceu ser muito visitado pelo homem. Aliás, tive medo de que o Conde Laisek descobrisse minha afronta à sua biblioteca e viesse a me procurar com sangue nos olhos antes mesmo que eu pudesse deixar a cidade. A figura do homem impõe por si só um forte medo. E o objeto do meu furto, para mais, veio a contribuir profundamente para que repensasse o meu crime, mensurando o meu castigo. "Los libros”, é Bolaño quem diz, “son como fantasmas". E quando desforrei a cartolina, descobri que o exemplar afanado por mim era “On Murder considered as one of the Fine Arts”, do Thomas de Quincey. Isso me arrepiou ainda mais o corpo, dado o pavor ao descobrir qual era o título. E como também já tinha lido, resolvi devolvê-lo ao Homem. Preferi fazer tal reparo, e assim salvando minha própria vida da desgraça, usando o serviço de correios. E de tal maneira foi que postei a devolução numa agência localizada ainda em Palermo, perto do castelo assombrado do Conde. Sobre a cartolina que forrava o volume referido, devidamente preservada, acresci um pequeno bilhete com meu ironico pedido de desculpas e a seguinte citação, que certamente nos recociliaria. “Vocês já ouviram falar de pessoas que adoeceram com a perda de seus livros, de outras que neste ofício”, diz Benjamin a propósito dos colecionadores, “se tornaram criminosas”. Até hoje não voltei a falar com o Conde, sequer por emails. Acredito, entretanto, que o episódio fez com que eu me tornasse alguém mais próximo do homem. Mesmo ao fim e ao cabo sem conseguir roubar-lhe!

Todo contrário a essa prática da forragem está Leminski. O homem não tinha nenhum apego pela posse dos livros. Alice Ruiz disse incansavelmente que o Polako logo terminava um livro e já o deixava jogado pela casa, à espera de alguém que o acolhesse. E também vivia dando seus livros a quem quer que fosse. “De todas as formas de obter livros, escrevê-los é considerada a mais louvável”. Benjamin também diz isso falando sobre o colecinismo enquanto desembala a sua biblioteca. Borges, se bem me lembro, inverteu um pouco tal sentença sem conhecê-la, suponho, e dizia que a mais louvável das formas de obter livros é fazer possuí-los mediante a leitura. Isso é quase performático em ambos. Um buscando à todo custo a escritura de sua obra maior sobre as passagens parisienses, cujos manuscritos foram salvaguardados da invasão nazi uma vez escondidos por Bataille na Biblioteca Nacional de Paris assim devidamente ocultados como uma folha num bosque. O outro redefinindo o que é tradição literária e enfatizando seu orgulho maior pelas obras lidas em detrimento daquilo que escrevera; pobre Borges a quem a noite dos olhos surrupiou toda leitura dos últimos anos. Nem um e nem tampouco o outro, todavia, precisaram roubar livros. E, apesar disso, pese o que pesar, são dois dos maiores criminosos do ensaísmo crítico e da ficção.

A única forma de obter livros, nem melhor, nem mais louvável, apenas única, é roubá-los. Ouço isso boca pra fora de Bolaño, de Silvio Austier, de Fangora, da ideia de baditismo por uma questão de classe, conforme o supracitado excerto evocado pelo amigo vil e relés que eu tive certa vez.


Escrituras a furto

Apontei a minha família literária sobrescrevendo os nomes de Ulisses Lima, de Belano, de Austier e Fangora. Também eles exímios praticantes da dita tarefa do baditismo literário. Acho que deveríamos ser legião. E é por isso que prossigo. Quero aqui mais nomes. Mesmo aqueles os que nunca roubaram livros, e sim literaturas inteiras. O lampião de nosso bando tem lampejo e nome obscuros, Macedonio Fernández. A chama já queima há exatamente um século com a “Necesidad de una teoria que establezca cómo no es el segundo inventor sino el primero quien comete el plagio”. O velho sabia melhor do que qualquer um de nós que “la antiguidad de las ideas nuevas es regla”. E isso iluminou mais tarde a ideia borgiana dos precursores, tenho isso certo pra mim. “El hecho es que cada escritor crea a sus precursores. Su labor modifica nuestra concepción del pasado, como ha de modificar el futuro. En esta correlación nada importa la identidad o la pluralidad de los hombres”. E não é outro o fogo que queima posteriormente com os contos de “La otra orilla” de Cortázar, quando este sobrescreve ali o epíteto de “Plágios y traducciones”.

Se ler é encontrar o roubo certo, não estará demais dizer um silogismo. Escrever é encontrar as literaturas de que queremos ou não nos apropriar. Uma das definições de “plagio”, cf. Houaiss, refere-se àquilo que é oblíquo, algo que não esta em linha reta, ou de lado, um desvio. Literaturas apropriadas são obliquidades. Elas estão na dimensão do que está a furto. Tudo isso torna muito apropriado o que diz Macedonio e repetimos outros muitos.

Quando surge a noção de autoria meio a alba da época moderna, ela surge como um valor de menos. É a partir do século 16, como bem viu Foucault, que desponta a função de autor como uma sorte canhestra respondendo ao chamado da censura. As primeiras listas de autores, no sentido moderno (ou “clássico”, segundo a periodização foucaultiana) que a palavra passa a ter cada vez mais após o Renascimento, aparece a propósito das perseguições e punições em torno de um texto considerado transgressor. É essa “apropriação penal dos discursos”, de que fala o francês, que determinará a primeira função do autor a partir da prática do Índex. Nossa literatura deve ser, também, uma apropriação penal dos discursos, porém no sentido do banditismo de que falo aqui. Apropriação penal como habilidade de postular formações discursivas sobre qualquer coisa, a partir de qualquer lugar. Não jogamos mais com as noções de fonte, de influência. Escrevemos descobrindo as literaturas de que queremos nos apropriar. Saqueamos a tradição até que ela se esvazie por inteiro e perca toda a rigidez holística de uma concepção de tradição tal qual a elliotiana procurou cristalizar na crítica literária.

A furto e já somos precursores de toda e qualquer literatura. Suplementamos o cânone com plágios e mais plágios e assim o apropriamos infinitamente, por certo. Nosso banditismo é muito honesto diante da desonestidade com que tantos vezes vieram a nos negar o centro. Agora, somos nós o nosso próprio descentramamento. Não nos encontramos em nenhuma parte, e por isso entramos em todas as literaturas e retiramos dali o que é genuinamente nosso. Roubamos bibliotecas, livrarias, e amigos. E fugimos; uma fuga constante. Eis o nosso jogo. Nunca mais encontrarão um periféria de modo a estabelecer o centro. É isso que nossas literaturas, apropriadas, querem. Tudo está mesmo mudando de lugar e de nomes. O centro recebeu diversos nomes ao longo da historia do ocidente. A noção do orientalismo em Said diz isso com toda a propriadade possível. É preciso estar muito atento a essas mudanças, aos nomes que elas recriam. A perversidade da palavra, entendo aquele facismo da letra de que diz Barthes. Quanto mais expostas estão as pervesões já feitas, mais elas estão dissimuladas.


Torres García, Universalismo Constructivo, 1941.

Estou me aparentando aqui desses escritores a furto. Sobrescrevo minha apropriação penal. O banditismo das escrituras a furto configura a cepa de escritores e escritoras que se faz com a sorte dos delit(erári)os. Literaturas apropriadas, escrituras a furto.

Deliterários

Escrever é cometer o delito certo: o crime literário. Nenhuma apropriação penal cerceará mais os discursos literários seja aqui na América Latina ou onde for. Roubamos livrarias, bibliotecas, colecionadores, enfim, literaturas e até teorias. A originalidade não importa. O suplemento, sim. Preenchemos ausências desde a origem. Nossa letra inscreve indecidíveis e variabilidades temporais e, com isso, desconstruímos a ideia de continuum por trás da história literária e de nossa condição cultural.

Por fim, roubo ainda algumas das ideias bem formuladas por Josefina Ludmer, que por sua vez rouba de Marx, mais pontualmente daquele instante em que este dizia o que se segue:

Um filósofo produz ideias, um poeta poemas, um clérigo sermões, um professor tratados, e assim por diante. Um criminoso produz crimes. Se observarmos mais de perto a conexão entre este último ramo da produção e a sociedade como um todo, nos livraremos de muitos preconceitos. O criminoso não só produz crimes, mas também leis penais, e com isso o professor que dá aulas e conferências sobre essas leis, e também produz o inevitável manual onde esse mesmo professor lança suas conferências no mercado como “mercadorias”. Isso traz consigo um aumento da riqueza nacional, fora o gozo que o manuscrito do manual causa em seu próprio autor.
O criminoso produz, além disso, o conjunto da polícia e a justiça criminal, fiscais, juízes, jurados, carcereiros etc.; e essas diferentes linhas de negócios, que formam igualmente muitas categorias da divisão social do trabalho, desenvolvem diferentes capacidades do espírito humano, criam novas necessidades e novos modos de satisfazê-las. (...) O criminoso produz também uma impressão em parte moral e em parte trágica, segundo o caso, e desse modo presta “serviços”, ao suscitar os sentimentos morais e estéticos do público. Não só produz Manuais de Direito Penal, não só Códigos Penais e com eles legisladores neste campo, mas também arte, literatura, romances e até tragédias, como mostram não só Os ladrões, de Shiller, mas também Édipo Rei e Ricardo Terceiro. O criminoso rompe a monotonia e a segurança cotidiana da vida burguesa. Desse modo, ele a salva da estagnação e lhe empresta essa tensão incômoda e essa agilidade sem as quais o aguilhão da competência se embotaria. Assim, estimula as forças produtivas. Enquanto o crime subtrai uma parte da população supérflua do mercado de trabalho e assim reduz a concorrência entre os trabalhadores – impedindo até certo ponto que os salários caiam abaixo do mínimo -, a luta contra o crime absorve outra parte dessa população. Portanto, o criminoso aparece como uma desses “contrapesos” naturais que produzem um balanço correto e abrem uma perspectiva total de ocupações “úteis”.



O crime é producente, diz Marx nesse longo trecho retirado da “História crítica da teoria da mais-valia”. E Ludmer o toma como instrumento crítico. O crime separa a cultura da não-cultura. Funda culturas distintas ao distinguir linhas no interior de uma cultura maior, isto é, normatizante. Estipula limites, diferencia e impõe exclusões. E assim se constrõem com o delito conciências culpadas (é a pervessa lógica de fonte e influências por trás da noção de história literária) e fábulas de fundação e de identidade cultural.

Os deliterários lançam pedras exatamente contra tal telhado de vidro. É uma luta contra a prática da definição pela exclusão. Não existe exclusão na descentralidade, já disse.

Escrever é cometer o delito certo. E os delitos certos se cometem com as apropriações literárias indevidas. É preciso roubar de tudo, como Austier e Enrique na biblioteca da escola no "Juguete". As apropriações literárias são devidamente efetivadas com a experiência dos deliterários. E essa experiência, uma experiência deliterária, só vem das más escolhas, dos crimes. Literaturas apropriadas teorizam sobre o delito e também fazem dele uma teorização capaz de ficicionalizar sobre o uso da força e do poder na relação articulada entre “crime e castigo”.

De todas as formas de obter literaturas apropriadas, escrevê-las de maneira deliterária, a furto, é considerada a mais louvável. Meu delito decorre desse filão de nomes de que me aproprio aqui. Banditismo por uma questão de classe se faz com a sorte dos deliterários. Essa é nossa vazão, o crime perante o crime da palavra, dos conceitos. A periféria (mesmo que seja o abrandamento eufêmico da subalternidade) é o que até aqui capacitou a produção do escopo discursivo do centro (mesmo que seja a hegemonia), a postura de tutela com que estiveram nos persuadindo.


Plano de fuga

Leopoldo Alas Clarín, escritor espanhol que escrevia século 19, justificava-se dos seus plágios literários assim:

Recuerdo haber escrito en alguna parte algo por el estilo: en materia de plagios literários cabrá sostener si son legítimos o no; pero el escritor de conciencia hará en este punto lo que ciertos comunistas, que además son personas decentes: Predican tal vez la abolición de la propiedad, pero no roban. Soy muy escrupuloso en este particular, y seguro de no haber tomado en la vida um renglón ni una idea a nadie, me molesta que haya quien diga, siquiera sea un Aramis, que he plagiado a tal o cual autor, aunque éste sea Cervantes.

Já não estamos mais para tal engodo os deliterários de então. Não só predicamos a abolição da propriedade, como também queremos roubar, afanar todas as literaturas conforme os desejos de cada um. Não somos nada escrupulosos, decentes por aqui, señor Clarín. Escrevemos a furto, e nossas literaturas seguem muito bem apropriadas.

Nenhum comentário: