sábado, 21 de junho de 2008

Bazar do conto da Atemporal.

Primeira tese: um conto sempre conta duas história.
Segunda tese
: a história secreta é a chave da forma do conto e de suas variantes.
O conto é construído para revelar artificialmente algo que estava oculto.
(RP,
Teses sobre o conto
)
Un escritor argentino, muy amigo del boxeo, me decía que en ese combate que se entabla entre texto apasionante y su lector, la novela gana siempre por puntos, mientras que el cuento debe ganar por knockout.
(JC,
Algunos aspectos del cuento
)
Tampoco yo te adivinaba. Lo imposible que tú eres. Lo imposible de la Respuesta a la muerte, que yo tengo. El todo-amor que tú eres; el todo-conocer que yo traíra.
(MF,
Presentación para la Eterna
)
O bazar deve estar para o conto assim como o Museu para o romance.
(D,
Prólogo ao Bazar do conto da Atemporal)

Dedico às pernas, minhas e não, e também às mãos que escrevem comigo.


Meus hábitos são confusos e minha sorte de rotina, indisciplinável. Colocando o acento sobre o que digo é que traço o exemplo: falo bem mal a leitura do que escrevo, pois a fala eu a escrevo melhor traçando o pensamento que depois não conseguirei recuperar lendo. Jamais li dignamente algo então escrito por minhas mãos; tudo isso por ter, antes, corrido esse risco jorrado de entre-dedos. Meu raciocínio, um hábito todo confuso, já disse, recusa-se a repeti-lo. Mas eu o sigo, e depois de corrido tanto maior é a eficacia com que me perco em seu fluxo impenetrável.
Tal como o hábito confuso de não poder seguir a mim mesmo no pensamento escrito, sou hábil na fuga da minha desenvoltura corpórea.E é assim que minhas pernas, calçadas em meus tênis pretos, me levam a passear por aí, sem que eu verdadeiramente saiba por onde esteja indo ou sequer aonde irei chegar.
Esplendido mau costume, tanto melhor em lugares de muita escada. Pouco tempo atrás, algo imprescindível ocorreu. Deixo como “pouco tempo atrás”, pois seria desnecessário e estúpido enumerá-lo em horas, dias, meses ou anos. Quero tudo assim, na iminência do indeterminável. Desnecessário e estúpido, aliás, porque eu jamais alcançaria qualquer precisão nessa datação da temporalidade. Algo ocorreu, e já está.
Minhas pernas andavam por mim. E elas fazem isso tão esplendidamente, ah fazem. Acharam um lugar de muita escada e acharam bem. Subiram-me. Subiram-nos. Lá estávamos, decididos pelo andar entre os lances da escada.
Ah!, que mulher.
E que rosto.
E que olhar não tinha!
Aquele ar de quem não te vê, e sim sente uma presença.
De hábitos tão confusos, rotina indisciplinável, falo bem a leitura da mulher e logo acho bem traçadas minhas idéias. Então é que penso, depois de algum tempo: essas pernas sabem mesmo me valer; sabem encontrar aquela mulher, aquele rosto, aquele olhar, aquele que não vira “tempos atrás”, mas que agora já pode ver.
Essas pernas, contrariamente a todo mau hábito do risco que corro, são minha mais sóbria desenvoltura corporal. Encontraram pra mim a mulher que embrulha toda sua genialidade, toda inteligência, naquele rosto de papel-seda, naquele olhar, um laço de fita, que não vira, e sim apenas sentira uma presença.
Sábias pernas, e por isso eu devo calçá-las tão descentemente em meus tênis cano-longo, que as vestem à altura dos passos que dão.
Em breve, assim mesmo, iminência eminente, não correrei mais riscos, tampouco correrei assim por aí com minhas pernas, pois quero segurar entre meus dedos os dedos das mãos que orientaram minhas pernas.
Aí, eu paro. E minhas pernas me levarão apenas pra ela.


D.

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