
Aí dentro do porta-luvas, você encontra em alguma parte pelos cantos: acho que tirei de dentro da bolsa antes de sairmos de casa; já não consigo me lembrar bem. Pior lugar onde guardar, disse isso mais de mil vezes. Primeiro lugar onde olham, parando pra batida. Ninguém vai parar a gente; aperta. Ninguém mesmo parará, a não ser os velhos putos da farda démodé. Deixa sua alucinação pra depois do fumo; aperta logo: gosto de dirigir chapada e a cidade, além do mais, está muito calma à essa hora. Você sempre diz essa besteira de “alucinar depois do fumo”; coisa muito sua mesmo. Não, coisa muito sua: não minha. Esse papel é uma merda, não tenho outro. Vai assim mesmo, depois encontramos algum melhor: já que não tem outro por agora. Vê essa publicidade - dela te falava ontem sobre as cores que eu via quando ia pro trabalho: é ridícula na mistura das cores e letras, apaga tudo: mas funciona exatamente como precisa – não sei se pensaram nisso, mas deu certo à beça.
Antes de ir pra minha casa, a gente passa naquela casa de bebidas. O lugar não fecha nunca e poderemos comprar uma garrafa de vinho. Também não quero ficar mais; hoje não quero como das outras vezes. Vou me despedir deles então, e vamos logo. Meu cabelo está tão desgrenhado. Não está. O meu olho está caído. Parece sono, mas é pelo frio que fica assim. Não é sono nem frio, já disse, é sua maquiagem, o contorno que você faz com o lápis, faz parecer caído – gosto assim, pois te embriaga antes da primeira dose. É frio, você não entende de maquiagem. Esse elevador não tem câmera, não tem. Com um puta espelho desses aí, não precisa câmera: a gente mesmo se faz vigiar. Bate logo a porta antes que a sirene escandale o alarme. Podia ter um jornal de qualidade nesta portaria, levaria pra mim na alta, mas só assinam essa merda de notícias baratas pra não incomodar o café da manhã – por isso acumulam os jornais aqui em baixo, sequer lembram de pegar na portaria e subir: serve mesmo pra juntar a merda dos gatos e cachorros e não ter problema com o síndico, que deve fiscalizar o lixo sentindo todo o cheiro da merda bem envolvida em jornal barato e muito bem embalado em sacolas plásticas de supermercado da vizinhança.
Esse carro precisa ser lavado, e você bem podia fazer isso pra mim amanhã. Não precisa, por dentro está tão limpo que não faz diferença alguma toda a imundice de fora dele. Disse mais de mil vezes, mas não adianta: ela não entende o risco de deixar o fumo no porta-luvas do carro; não sei por que precisa tirar da bolsa e enfiar aqui... Aperta unzinho pra gente aí, antes que todo o percurso até a casa de bebidas seja vencido e você ainda esteja se ocupando de me convencer que o carro não precisa de uma água pra parecer mais belo e digno de minha pertença. Mas numa coisa você permanece senhor de toda razão – o Cohen é o melhor som da madrugada numa cidade de luzes amarelecidas e chão cinza fatiado de branco, dentro de um carro imundo por fora, o qual quer, por dentro, bem abriga de todo o frio que gela a noite. Vou ouvindo Closing Time enquanto ela fala, enquanto ela me desautoriza em assertivas que por digressões de revés me autorizam em outras. Vejo bem a droga de outdoor, a despeito de toda a falação que me acordava de um sono vespertino do último domingo. Ela tem razão no que fala sobre as cores nas letras, as letras nas cores e o comum já comunicado na publicidade: evito especular se realmente funciona exatamente como precisa, e deixo isso pra ela. Não precisa temer, ninguém vai nos parar. Ninguém mesmo, precisamente. Ele vai apertando o fumo, talvez pesando em mim: pensando no que digo e enrolando: mais uma dobra no papel: entre os lábios prende a última dobra do papel de má qualidade: prende bem preso entre os lábios que passam a saliva pra não soltar: sabe que o papel é de má qualidade e precisa estar bem preso, um pouco de saliva que umedece e ajuda grudar, pra não soltar enquanto já estivermos fumando.
Preciso ir ao banheiro primeiro. Tudo bem, eu agüento. Droga de saca-rolha, uma merda muito barata e que me machuca a mão. Que você tá dizendo aí? – eu não consigo escutá-lo... Não é pra escutar, estou reclamando do saca-rolha. Aperto com cuidado, o papel que encontro é horrível - vai rasgar na última dobra, preciso enrolar com muito cuidado e o carro faz muitas curvas até a casa de bebidas; passo a língua presa entre os lábios e os lábios entre a língua muito atentamente, pra não errar a quantidade certa de saliva que apenas ajuda grudar e não mela muito essa merda de papel, lambrecando e fazendo partir logo na última dobra já a ponto de fogo; seco o excesso com a chama do isqueiro antes de queimar; boto fogo e trago; passo logo pra ela em seguida e a mão está um pouco trêmula, que quase deixamos cair tudo ou então descuidamos da direção pelo ápice da vertigem que ainda se mistura a outros sentimentos ainda no carro; ela parece não se importar com nada, parece que estamos a salvo de tudo em pleno trânsito apenas por ser madrugada e a cidade, aparentemente mais tranqüila.
Ela sai, deixando a luz do banheiro ainda iluminando. Acho que ele vai gostar das velas, mas pode deixar meu olho ainda mais caído. O olho não está mais caído, o desenho do lápis foi minimizado, acho que deve ter ficado desenhado na toalha, o que agora em casa seria excesso, o viés do seu olhar: fica mais lânguido assim, perde o peso do que o social da pintura de noite pede e ganha num charme mais oculto, que a chama da vela te realça. Sei que ele não gosta desse vinho, prefere seco mas aceita bem suavemente por conhecer meu gosto: ainda senhor da razão, pois é suave a verdade de que o seco cai melhor com o gosto do fumo. O papel de casa agrada a ambos, pois esquecia-lhes levar junto do fumo de qualidade papel à altura: em casa tinham um bom papel.Cuidado, não pega assim tão abruptamente – você faz a brasa pular em meu casaco, primeira vez que uso e foi muito caro pra já ter um rombo tão flagrante em seu debut. Fica de olho, os cops de farda-brega aparecem de esquina em esquina hora dessas – não descuida da direção. Não vai aparecer puto nenhum a essa hora da madrugada, alucina com o fumo e deixa as ruas comigo, sei por onde ando e aonde estou nos levando.Eu não estou mais afim de ficar aqui – traz seu ouvido perto dos meus lábios que quero te dizer uma coisa, coisa bem minha: eu não estou mais afim de ficar aqui, quero logo ir, transar e exceder meu tesão em nosso gozo, misturar nossos corpos e fumar em casa ouvindo música só nos dois; coisa bem nossa. Eu também não estou mais pra isso aqui não. Despedimos e deixamos com nossa ausência uma desculpa qualquer, a qual quer diz uma das suas coisas aí e ficamos mais tempo da próxima ocasião. Vamos. Eu gosto muito dessa casa de bebidas, não reclamo nem dos preços, pois tudo se paga bem pela boa carta de vinhos que têm aqui, pela disposição e pelo estacionamento também. Só pecam por ainda não vender seda. Você prefere suave, né? Sim, mas pode escolher. Suave agrada, mas seco seria o ideal: não penso muito no ideal, penso apenas na contingência que nessas horas faz perder todo o necessário do meu querer no dela que mais quer, os quais querem. Ele sabe o que prefiro, mas ainda assim pergunta: tentativa de argumentar superioridade de conhecimento, e explicitá-lo tão logo o assunto falte, quando a alucinação aumenta e parece nos colocar em vultos de pensamentos, mas ele desata a falar – sua tentativa de me constranger aparentando não estar tão chapado quanto eu.
Seu corpo é quente. O corpo dela é quente e úmido, e sempre me dizendo ter tesão mais e mais quanto mais chapada. Não me desaprova, mas ele diz coisas que não aprovam tanto quanto deveriam. Canso mais rápido, pois minha posição de ataque elimina maior fôlego em mim que nela: ritmos diferentes, porém, entrecruzam-se, se entretecem e se precisam nisso de encontrá-los compassados: a dispersão apenas faz juntar o que visto de um ângulo obtuso, demasiado fechado, não revelaria a comunhão dos ritmos entrecruzados, entretecidos e harmonizados: acorde aberto em contraponto de outro fechado, os quais melodicamente querem, os quais, se querem, e eis o que entretece, enquanto se já entrecruzados harmoniza toda a convulsionabilidade nos ritmos de ambos, os quais querem, atados.
Aquela mulher, vê, aquele cara; eles não sabem o que escolher; como escolher. Há muita coisa na cesta deles, parecem que vão fazer um almoço de domingo, chamar a família inteira pra um banquete. Pará de ficar olhando o que fazem os outros e decide logo o que vamos levar. Não, espera, olha. Eles são tão indecisos, coisa de quem está constrangido de chegar logo em casa – aposto como agora os dois estão pensando como será quando estiverem sozinhos na casa ou seja lá aonde diabos irão daqui; devem, por certo, pesar como ficarão a sós, por isso escolhem tanta coisa, passam o tempo e fazem um compra na casa de bebidas como estivessem num grande supermercado fazendo a compra do mês; tudo isso por não saber como devem fazer pra trepar numa noite, precisam criar um romance comprado, comprando coisas caras e de país distante, tudo pra elevar o prosaico da toda igual madruga que os reúne e não ser constrangedor o dia que os acordará; precisam de um ar monumental; precisam de um quê de cinema europeu mau-caráter, quando tudo o que precisavam é de um cinema transcendental, qualquer, trilhos urbanos e cigarro traduzindo um no outro pelo gozo experimentado, horas depois de todo o vinho e queijo caros, comprados pra romantizar o mau-caratismo europeizado em filmes de quita sem leveza de corpo gozado pelos amantes. Pará de ficar olhando o que fazem os outros, daqui a pouco terminam por pensar o mesmo da gente justamente como sua língua condena-lhes, e decide logo o que vamos levar por já decidido.Ouço um resmungo quando já estou dentro do banheiro: mas não escuto claramente o que o resmugador acusa em infortúnio passado. Ela pega as velas, e assim sabe fazer me agradar pelo paladar cedido na escolha do suave pelo seco que melhor cabia ao fumo que acendemos. Quente é meu corpo e um pouco úmido na maneira como me sente. Corpo quente e seco o meu acolhendo o que há de úmido no calor dela quando entrelaçada em mim a pele eriçante, no seu corpo, no seu íntimo, no seu calor suave e delicado com meu calor seco e um pouco áspero que acolhe. O fôlego acaba mais rapidamente nele, que me abraça sem reprimir o fim que brevemente desfinda de si reiniciando asperamente em toda suavidade: a dispersão apenas faz juntar o que de ângulo obtuso, visto demasiado fechado, perderia a comunhão entrelaçando os ritmos entrecruzados, já entretecidos e harmonizados na substancialidade melódica dos paladares distintos e convulsionados – acorde fechado em contraponto fincado por outro aberto, eis o que entrecruza, o qual quer, enquanto entretecidos, harmoniza os ritmos em ambos e de pronto convulsiona um só e bem ritmado.
D.
Antes de ir pra minha casa, a gente passa naquela casa de bebidas. O lugar não fecha nunca e poderemos comprar uma garrafa de vinho. Também não quero ficar mais; hoje não quero como das outras vezes. Vou me despedir deles então, e vamos logo. Meu cabelo está tão desgrenhado. Não está. O meu olho está caído. Parece sono, mas é pelo frio que fica assim. Não é sono nem frio, já disse, é sua maquiagem, o contorno que você faz com o lápis, faz parecer caído – gosto assim, pois te embriaga antes da primeira dose. É frio, você não entende de maquiagem. Esse elevador não tem câmera, não tem. Com um puta espelho desses aí, não precisa câmera: a gente mesmo se faz vigiar. Bate logo a porta antes que a sirene escandale o alarme. Podia ter um jornal de qualidade nesta portaria, levaria pra mim na alta, mas só assinam essa merda de notícias baratas pra não incomodar o café da manhã – por isso acumulam os jornais aqui em baixo, sequer lembram de pegar na portaria e subir: serve mesmo pra juntar a merda dos gatos e cachorros e não ter problema com o síndico, que deve fiscalizar o lixo sentindo todo o cheiro da merda bem envolvida em jornal barato e muito bem embalado em sacolas plásticas de supermercado da vizinhança.
Esse carro precisa ser lavado, e você bem podia fazer isso pra mim amanhã. Não precisa, por dentro está tão limpo que não faz diferença alguma toda a imundice de fora dele. Disse mais de mil vezes, mas não adianta: ela não entende o risco de deixar o fumo no porta-luvas do carro; não sei por que precisa tirar da bolsa e enfiar aqui... Aperta unzinho pra gente aí, antes que todo o percurso até a casa de bebidas seja vencido e você ainda esteja se ocupando de me convencer que o carro não precisa de uma água pra parecer mais belo e digno de minha pertença. Mas numa coisa você permanece senhor de toda razão – o Cohen é o melhor som da madrugada numa cidade de luzes amarelecidas e chão cinza fatiado de branco, dentro de um carro imundo por fora, o qual quer, por dentro, bem abriga de todo o frio que gela a noite. Vou ouvindo Closing Time enquanto ela fala, enquanto ela me desautoriza em assertivas que por digressões de revés me autorizam em outras. Vejo bem a droga de outdoor, a despeito de toda a falação que me acordava de um sono vespertino do último domingo. Ela tem razão no que fala sobre as cores nas letras, as letras nas cores e o comum já comunicado na publicidade: evito especular se realmente funciona exatamente como precisa, e deixo isso pra ela. Não precisa temer, ninguém vai nos parar. Ninguém mesmo, precisamente. Ele vai apertando o fumo, talvez pesando em mim: pensando no que digo e enrolando: mais uma dobra no papel: entre os lábios prende a última dobra do papel de má qualidade: prende bem preso entre os lábios que passam a saliva pra não soltar: sabe que o papel é de má qualidade e precisa estar bem preso, um pouco de saliva que umedece e ajuda grudar, pra não soltar enquanto já estivermos fumando.
Preciso ir ao banheiro primeiro. Tudo bem, eu agüento. Droga de saca-rolha, uma merda muito barata e que me machuca a mão. Que você tá dizendo aí? – eu não consigo escutá-lo... Não é pra escutar, estou reclamando do saca-rolha. Aperto com cuidado, o papel que encontro é horrível - vai rasgar na última dobra, preciso enrolar com muito cuidado e o carro faz muitas curvas até a casa de bebidas; passo a língua presa entre os lábios e os lábios entre a língua muito atentamente, pra não errar a quantidade certa de saliva que apenas ajuda grudar e não mela muito essa merda de papel, lambrecando e fazendo partir logo na última dobra já a ponto de fogo; seco o excesso com a chama do isqueiro antes de queimar; boto fogo e trago; passo logo pra ela em seguida e a mão está um pouco trêmula, que quase deixamos cair tudo ou então descuidamos da direção pelo ápice da vertigem que ainda se mistura a outros sentimentos ainda no carro; ela parece não se importar com nada, parece que estamos a salvo de tudo em pleno trânsito apenas por ser madrugada e a cidade, aparentemente mais tranqüila.
Ela sai, deixando a luz do banheiro ainda iluminando. Acho que ele vai gostar das velas, mas pode deixar meu olho ainda mais caído. O olho não está mais caído, o desenho do lápis foi minimizado, acho que deve ter ficado desenhado na toalha, o que agora em casa seria excesso, o viés do seu olhar: fica mais lânguido assim, perde o peso do que o social da pintura de noite pede e ganha num charme mais oculto, que a chama da vela te realça. Sei que ele não gosta desse vinho, prefere seco mas aceita bem suavemente por conhecer meu gosto: ainda senhor da razão, pois é suave a verdade de que o seco cai melhor com o gosto do fumo. O papel de casa agrada a ambos, pois esquecia-lhes levar junto do fumo de qualidade papel à altura: em casa tinham um bom papel.Cuidado, não pega assim tão abruptamente – você faz a brasa pular em meu casaco, primeira vez que uso e foi muito caro pra já ter um rombo tão flagrante em seu debut. Fica de olho, os cops de farda-brega aparecem de esquina em esquina hora dessas – não descuida da direção. Não vai aparecer puto nenhum a essa hora da madrugada, alucina com o fumo e deixa as ruas comigo, sei por onde ando e aonde estou nos levando.Eu não estou mais afim de ficar aqui – traz seu ouvido perto dos meus lábios que quero te dizer uma coisa, coisa bem minha: eu não estou mais afim de ficar aqui, quero logo ir, transar e exceder meu tesão em nosso gozo, misturar nossos corpos e fumar em casa ouvindo música só nos dois; coisa bem nossa. Eu também não estou mais pra isso aqui não. Despedimos e deixamos com nossa ausência uma desculpa qualquer, a qual quer diz uma das suas coisas aí e ficamos mais tempo da próxima ocasião. Vamos. Eu gosto muito dessa casa de bebidas, não reclamo nem dos preços, pois tudo se paga bem pela boa carta de vinhos que têm aqui, pela disposição e pelo estacionamento também. Só pecam por ainda não vender seda. Você prefere suave, né? Sim, mas pode escolher. Suave agrada, mas seco seria o ideal: não penso muito no ideal, penso apenas na contingência que nessas horas faz perder todo o necessário do meu querer no dela que mais quer, os quais querem. Ele sabe o que prefiro, mas ainda assim pergunta: tentativa de argumentar superioridade de conhecimento, e explicitá-lo tão logo o assunto falte, quando a alucinação aumenta e parece nos colocar em vultos de pensamentos, mas ele desata a falar – sua tentativa de me constranger aparentando não estar tão chapado quanto eu.
Seu corpo é quente. O corpo dela é quente e úmido, e sempre me dizendo ter tesão mais e mais quanto mais chapada. Não me desaprova, mas ele diz coisas que não aprovam tanto quanto deveriam. Canso mais rápido, pois minha posição de ataque elimina maior fôlego em mim que nela: ritmos diferentes, porém, entrecruzam-se, se entretecem e se precisam nisso de encontrá-los compassados: a dispersão apenas faz juntar o que visto de um ângulo obtuso, demasiado fechado, não revelaria a comunhão dos ritmos entrecruzados, entretecidos e harmonizados: acorde aberto em contraponto de outro fechado, os quais melodicamente querem, os quais, se querem, e eis o que entretece, enquanto se já entrecruzados harmoniza toda a convulsionabilidade nos ritmos de ambos, os quais querem, atados.
Aquela mulher, vê, aquele cara; eles não sabem o que escolher; como escolher. Há muita coisa na cesta deles, parecem que vão fazer um almoço de domingo, chamar a família inteira pra um banquete. Pará de ficar olhando o que fazem os outros e decide logo o que vamos levar. Não, espera, olha. Eles são tão indecisos, coisa de quem está constrangido de chegar logo em casa – aposto como agora os dois estão pensando como será quando estiverem sozinhos na casa ou seja lá aonde diabos irão daqui; devem, por certo, pesar como ficarão a sós, por isso escolhem tanta coisa, passam o tempo e fazem um compra na casa de bebidas como estivessem num grande supermercado fazendo a compra do mês; tudo isso por não saber como devem fazer pra trepar numa noite, precisam criar um romance comprado, comprando coisas caras e de país distante, tudo pra elevar o prosaico da toda igual madruga que os reúne e não ser constrangedor o dia que os acordará; precisam de um ar monumental; precisam de um quê de cinema europeu mau-caráter, quando tudo o que precisavam é de um cinema transcendental, qualquer, trilhos urbanos e cigarro traduzindo um no outro pelo gozo experimentado, horas depois de todo o vinho e queijo caros, comprados pra romantizar o mau-caratismo europeizado em filmes de quita sem leveza de corpo gozado pelos amantes. Pará de ficar olhando o que fazem os outros, daqui a pouco terminam por pensar o mesmo da gente justamente como sua língua condena-lhes, e decide logo o que vamos levar por já decidido.Ouço um resmungo quando já estou dentro do banheiro: mas não escuto claramente o que o resmugador acusa em infortúnio passado. Ela pega as velas, e assim sabe fazer me agradar pelo paladar cedido na escolha do suave pelo seco que melhor cabia ao fumo que acendemos. Quente é meu corpo e um pouco úmido na maneira como me sente. Corpo quente e seco o meu acolhendo o que há de úmido no calor dela quando entrelaçada em mim a pele eriçante, no seu corpo, no seu íntimo, no seu calor suave e delicado com meu calor seco e um pouco áspero que acolhe. O fôlego acaba mais rapidamente nele, que me abraça sem reprimir o fim que brevemente desfinda de si reiniciando asperamente em toda suavidade: a dispersão apenas faz juntar o que de ângulo obtuso, visto demasiado fechado, perderia a comunhão entrelaçando os ritmos entrecruzados, já entretecidos e harmonizados na substancialidade melódica dos paladares distintos e convulsionados – acorde fechado em contraponto fincado por outro aberto, eis o que entrecruza, o qual quer, enquanto entretecidos, harmoniza os ritmos em ambos e de pronto convulsiona um só e bem ritmado.
D.
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