Suspendendo-se à forma dos rodopios entrelaçantes, a fumaça absorvia em sua circunferência elíptica o brilho tomando-lhe desde logo da escuridão, que por tão pouco não completamente inundava o quarto, ao menos a totalidade dele. Por cada vez que tragado esse sopro em solta liberdade opaca unia-se em seqüências esfumaçantes retiradas do cigarro aspirado, quando trazido junto dos lábios. Circunferências em plenitude de formas, que deslizavam naquele ar do quarto sutilmente escurecido pela raríssima luz rebrilhada em cada elipse, a desprender-se sequenciadamente neste desenho das imagens circulantes. Ponteadas todas em pequeníssimas (porém extensas) proporções já cruzavam o céu imaginado-lhe rabiscado por meu sopro naquela constelação que eu percebia subindo de mim até desmancharem-se na plenitude escura do teto: onde a vista não mais podia vê-las e assim parecerem não mais dançar em clamor girante.
Cada movimento de chave me fazia pensar em todas as voltas de onde se abre a vida revelada. Eu pensava os dias anteriores todos neste momento cristalizado, e, nele, a minha mais impura completude esvaziada. Uma ocasião sem igual, todavia igualando um ponto no qual todos os demais se permitiram. Qualquer reflexão maior em desistência estaria desprovida de força, pois os pontos em um só se entreteciam sem conflito que fosse por destecê-lo da cristalização instantânea. O silêncio feito rasgado pelo sonido da chave girada nos círculos, medidamente de modo a permitir entrada: eu enfim estava em casa, depois de alguma volta da vida.
Quando os olhos compreenderam a leitura da escuridão, já não precisei lutar contra o que não podia mais que ver. Apenas havia que fazê-los meu mais sincero guia, pois que se entenderam com o corpo disperso pelo caminho tanto antes já percorrido. Em casa os olhos sabem ler cada página em escuro da vida habitada. Confiante que fui a meu guia, permitiu-me ao corpo despencar-se sobre o colchão: e foi aí que eu contemplei o céu de esfumato.
Como todas as voltas que se completam, o tempo se desdobra e pára em seu íntimo interior. Mais que eu quisesse, meu tempo havia parado ali numa volta dobradamente sobre si mesmo. Engolia-me nele de poucos pedaços, arrancados mediante mordidas vorazes de um puro prazer, este mastigado por dentes famintos da própria carne de si.
A luz, raríssima e por vezes rebrilhando forte em cada giro suspenso da forma despendida, renascia queimando na brasa que fazia as vezes de maestro para a sinfonia dançosa. Meus olhos ardiam pela proximidade do calor braseiro, e apertavam-se tensamente contra as pálpebras que a ambos emoldurava diante da nuvem cinzamente e etérea a circular.
Quanta insuficiência diante da minha constelação de formas opacas, que o meu tempo de mim até mesmo me engolira aos pedaços de saborosa fruição. Em giros e voltas a vida ia se abrindo por completa e dando-se a mim por inteira que era, quando eu, simples e plenamente, me vertia pelo refluxo a me despejar de mim na vida aberta.
Suspendi-me então às formas dos rodopios entrelaçantes, que absorvi em minha corpórea circunferência elíptica da vida aberta: na qual eu busquei perder toda a opacidade com que eu escurecia toda cor do rebrilhamento desta vida aberta, lançada com todo seu peso para cima de mim. Circunferências em plenitude de formas, que deslizavam naquele ar do quarto sutilmente escurecido pela raríssima luz rebrilhante em cada elipse a percorrer minha existência, sequenciadamente desprendida neste desenho entretecido figurando nas imagens circulantes de mim. Ponteadas todas em pequeníssimas (porém extensas) proporções já cruzavam o céu imaginado-lhe rabiscado por meu corpo naquela constelação dentro da qual me percebia subindo de mim até desmanchar-me na plenitude escura do teto: onde a vista não mais podia vê-las e assim não mais dançantes em clamor girante da melodiosa voz do meu verbo tão voluto, que meio à constelação da vida aberta era não mais que lampejo face ao estrondo daquela abertura da vida prostrada perante meu apagamento.
Estrondo que era o trovão da vida aberta, lampejo apenas me restei nele a compor o silêncio da cristalização opacizante de mim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário