domingo, 26 de outubro de 2008

How come I barely meet you?

(Or, She's Hit)
Quando você saia a pouco pela porta mal poderá me ouvir. O que eu não te fizera no meu pedido articular-se-á qual uma voz na minha fala? Pedia bem mais era com meu olhar. E a luz que nele brilhará desejou tão timidamente que você não partisse. Os olhares têm falas próprias. Por isso não precisam emitir voz alguma. Sei disso, pois contigo aprenderei o que (já te digo) aprendi. Gostaria tanto que ficasse, ainda que fosse por apenas um pouquinho a mais que toda essa incerteza. Agora que você não mais estará (e já sabia bem disso porque então) eu sei.
E nada disso ainda aconteceu, pois você ainda não saiu pela porta. Ela está apenas aberta, esperando você vir e entrar. Sei disso porque o poema que escolhi traduzir (e nele me dar) eu ainda o tenho aqui sem palavras mais nossas. Gostaria de traduzi-lo. Mas não posso, ainda. É muito cedo. Mais tarde você o traduzirá para mim. Contigo apreenderei o que está dito naqueles versos, que guardei e agora vou te oferecer roubando-os para mim. Trairei suavemente esses versos, até que te digam mais de perto o que eu gostaria de dizer ao pezinho do seu ouvido.
E você sequer entrou pela porta. Eu mal te convidei. Acontece assim, de outro modo. Você (que não sou eu, saiba, e, quando você ler, será só você) ainda mal foi convidada. Sequer você entrou pela porta. Você me dirá – “há portas cujo convite não se faz; apenas se revela” – ou talvez serei eu a dizer isso para você.

Juntos, tememos o convite. Procuramos assim a hora certa de abrir a porta. É que ficamos preocupados em deixá-la fechar antes que a abríssemos. São esses riscos que a vida nos ensinou burlar? Quando é melhor estar sozinho, bem à beira do encontro? Ou, de outros modos, quando é melhor estar à beira do encontro, mas ainda sozinho? Eis a fechadura dessa porta cujo outro nome é também encontro, é também desejo. É como um código que precisamos decifrar. Mais que decifrá-lo, é preciso rompê-lo. Você sabe disso, pois vai aprender comigo o que na sua fuga eu procuro.

Cortaremos os dois juntos num desenho desigual pela Cidade. Tudo isso bem antes de passarmos pela porta. Seguiremos por este trajeto; faremos nele um risco a partir do qual nossas pernas vão desenhando nas ruas escuras a recordação de uma noite no meio de semana. Escolheremos assim um bar e ali sentaremos para beber um no outro. Eu saberei o sabor desses lábios onde bebo da saliva tão amável. E você beijará na minha boca a boca que te beija. Guardarei em minhas mãos esses carinhos que roubo do seu rosto para mim. Guardarei. E você, de algum modo, virá a se lembrar do meu rosto áspero deslizando pela nuca, que beijo e mordisco delicadamente. Tomarei mais vezes em minhas mãos essa parte do seu corpo onde te seguro de modo a nos deixar mais próximos, mais juntos um do outro.

Nada disso acontece, pois já acontecia. A simultaneidade de tudo isso é exatamente romper com o código que não precisamos decifrar.

Estou atento a tudo isso. E você me interrompe pedindo algo de maneira a não me deixar enganar. E até aceito bem. Apenas me permito desviar um pouco disso. Do contrário, não haveria porta a ser pensada. Talvez por isso eu te chame meio atrapalhadamente ao telefone no dia seguinte. Tanto que quero não é propriamente ouvir sua voz. Desejo bem mais escavá-la subterraneamente. Algo mais a contrapelo. E de tal maneira poder sentir sua respiração para então me recordar do arrepio derramando-se em linhas desiguais por toda sua pele fina. Para isso todavia preciso ouvi-la, mas nessas horas – que você saiba - minha busca é por sua enunciação sub-reptícia.

E depois de tudo você vai embora. Antes mesmo de entrarmos em algum lugar, eu deixo no bolso do seu casaco o poema escolhido e de cuja tradução eu sou incapaz. Deixo-o no lugar de rosas, que desfloreceriam em poucos dias.
Você realmente o traduzirá.

No me dejes solo frente a ti,
no me libres a la desnuda noche,
a la luna filosa de las encrucijadas,
a no ser más que estos lábios que te beben.
Quiero ir a ti desde ti misma
con ese movimiento que fustiga tu cuerpo, lo tiende bajo el viento como un velamen negro.
Quiero llegar a ti desde ti misma,
mirándote desde tus ojos,
besándote con esa boca que me besa.
no puede ser que seamos dos, no puede ser
que seamos
dos.

Que disso você saiba.

Não me devolve com teu olhar a minha própria imagem quando eu visitar a luz que brilha em teus olhos
nem me liberta para a despida noite,
à lua rasgante das encruzilhadas
não mais que estes lábios
Quero atingir-te indo a ti mesma
com essa desenvoltura que acossa teu corpo, afagada pelo sopro cálido qual um vestido náutico agitadando-se pelos movimentos da brisa dançarina deste palco de águas profundas.
Quero alcançar-te indo a ti mesma,
admirando-te na visita que faço a teus olhos,
beijando-te com essa boca que me beija.
que sejamos dois é tanto, e parece não poder ser
que sejamos
dois.


Vai embora; quer ir embora. Quero que vá embora, pois você o quer. E desejo que volte. Mas não sei se assim desejo à razão de você querer voltar. É o modo que eu encontro a fim de romper o código. Nada vai decifrá-lo. Esperemos, antes, revelação?

E uma canção muito nova e desconhecida, feita por um amigo que você já conheceu sem mesmo entrar pela porta, começa a tocar - Can I Need a Little Use?
E enquanto eu leio a tradução do poema que você por sua vez deixou no bolso do meu casaco, antes de sair pela porta, essa canção, emprestada de amigo meu, já deveria te dizer:

How come I barely meet you?
My eyes go blind, breath in a glimpse or two
So far my mind... such a heavy load
Be low, outgo... hangover sways

I would believe in, I could believe it; but would you believe me?



E nada disso ainda aconteceu, pois você ainda não saiu pela porta. Ela está apenas aberta, esperando você vir e entrar. Enquanto isso eu pego um dos meus cigarros e alcanço o isqueiro à mesa. Antes da chama acender e dar um tom mais quente às paredes, eu descubro algo e é quese um presente. Que o perfume do seu corpo ainda dorme nestes lençóis. Eu percebo que por vezes esse perfume ensaia um despertar, e, ainda que fugidio, consigo tomá-lo para mim. Assim rememoro uma sequência fotogrâmica dessas cenas em que estamos em nosso próprio filme e nos vejo: eu estou tocando o arrepio que desenha traços apaixonados em seu corpo e faz da sua pele fina um papel em que se esboçam vários desenhos exprimindo a forte afetividade que nos liga. Se já há de ter em tudo isso um “quas'amar”, é o que eu mal posso saber de frente para esses dias que chegam assim como vão.
Agora que você está de saída (e nessas dobras feitas no tempo sequer encontramos, encontrávamos, ou encontraremos entendimentos que encontraríamos - e como se vai mesmo saber ? ) não há mais o que ouvir nessa minha voz que cala o que deveria dizer.


Notas:
. O poema, sem nome, é de Julio Cortázar.
. A canção de Andre Mello, amigo de cujas letras eu gosto muito.
. O resto do texto é a tentativa da “rosa-impossível” com que se deveria presentear.

Um comentário:

Anônimo disse...

Porra Davis... I'm fucking suspicious to quote, mas aquilo né hombre. Mesmo já tendo lido the earlier version, essa segunda leitura foi realmente catártica.

Gave me the chills man, good and rare ones!

abraço!

nosotros en la película