Ele não conhece sua própria sentença?
Não - repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais detalhada da sua pergunta; depois disse:
Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne.
Os dedos e cada uma de suas nervuras estão deferidos à úlcera da mão. Não está nada mais para a escritura; ela não quer mais qualquer ferida. Qual quereria já se difere. Ferida das feridas, a pústula cursiva de todo o ferimento. Profunda, superficial e agonicamente gravada a pus aquela letra que inflama o tecido subcutâneo do texto que sou. Padeço por agora (e até não sei quais dias mais) de um processo inflamatório que se torna meu e tanto também da monotipia tatilmaquínica deste objeto a que meu doou em pedaços pleiteando a possibilidade de distanciamento (quando não precisamente ausência) do corpo humano que não se quer assinar.
assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração
Arde por agora toda essa textualidade enferma entre os dedos, dos quais gostaria de retirar (e não posso) a lepra letrosa, restando, por fim, apenas a letra leprosa meio à essa doença que me consome o paleio quando, antes, deveria contrair unicidade junto destes caracteres de encontro aos quais vou tateando esse escuro cursivo (a cada toque mais escuro e nada cursivo, porque é todo ele convulsivo o tremor da mão) até me perder irrecuperalvemnte de mim. Ao produzir a inscrição humana na retirância dos corpos a máquina inspira ao mesmo tempo a doença dos fantasmas inomináveis, porque inamovíveis e sem rostos e então apenas um vulto, e a cura que se põe com esperança de eternidade à tessitura desse gesto que guardamos sob a pele.
a mão: a cabeça entre as mãos:
a voz entre fôlego e escrita
Durante muito tempo fiz crer em mim que escrever era mais propriamente padecer de uma enfermidade como esta que me aflige os dedos, as mãos e até mesmo todo esse resto, a que chamo corpo. Hoje pondero, e vejo que não é necessariamente essa semelhança entre a lepra e a letra, e sim a similitude entre a dormência da mão leprosa e o despertar sensível da grafia nascente de um texto não em porvir, mas provido de tudo aquilo que nos concedeu as tensões gráficas da página prismática vinda de “Un coup de dês”, reordenando muito prontamente as figurações escriturais acumuladas desde Gutenberg e, até então, carente de ter sido devida e tecnologicamente introjetadas na feitura letra.
Está mão é muitas mãos
E se chama minha mão
Deferida a úlcera da mão. Assisto sem muita assistência e muito menos insignificante resistência às possibilidades de tal reordenação figurativa na escritura icônica. E deferida já está a úlcera das mãos.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
a úlcera das mãos.
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Um comentário:
A priori, alegrei-me por lembrar de Augusto dos Anjos. Eu, como estudante do corpo e as causas do seu próprio padecimento, fiquei maravilhado! Abraço!
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